Intervenção de Jorge Messias, Jornalista, Seminário: «África – desafios do desenvolvimento, do progresso social e da soberania»

A luta ideológica e África

As ideologias religiosas nunca são neutras nas questões políticas, económicas e sociais. Nem a fé é estranha às lutas pelo Poder. Tal como nos sistemas ideológicos laicos, as componentes das “ideologias do espírito” sistematizam-se da mesma forma e percorrem iguais caminhos.

O que distingue as ideologias religiosas das suas parceiras laicas é, sobretudo, a fonte divina que invocam ser a sua e as colocam, logo à partida, ao abrigo da crítica e da dúvida sistemática. Depois, uma vez conquistado a validação do sigilo, expandem-se à vontade, conquistam fortunas e serão elas a decidir sobre as posições das pedras do xadrez da política e da economia. As ideologias religiosas, quaisquer que elas sejam (cristãs, islâmicas, interconfessionais ou outras) são rígidas na imposição dos mitos das suas origens mas flexíveis nas questões estratégicas e nas tácticas que desenvolvem e transferem depois para esferas de acção que nada têm de religioso ou de espiritual. A Ética e a banca, a Catequese e o ensino, a Doutrina e as questões centrais da guerra e da paz, da pobreza e da riqueza, do Bem e do Mal, são exemplos de como a teologia se instala imperceptivelmente nas próprias bases dos grandes dilemas sociais.

A infiltração religiosa ou a pseudo-laicidade são instrumentos dúplices mas poderosos, que induzem em erro, desnorteiam e corrompem o sentido das palavras.

Esta táctica das ideologias ocultas é, evidentemente, universal. Serve para África como para qualquer outro continente. Vê-mo-la ser utilizada em todo o mundo, escondida na capa da globalização. Divide e opõe para melhor reinar. Engana e pressiona até esmagar. E, como é lógico, tem uma natural tendência para actuar em regiões ricas em recursos mas politicamente frágeis nas suas instituições. Portugal é disto um doloroso exemplo. Mas Portugal é um país pequeno. Pouco vale em termos económicos. Pelo contrário, para o capitalismo África é um bolo a que a ganância do lucro não resiste.

Na actual fase pós-colonial, África divide os seus 30 milhões de quilómetros quadrados por 53 jovens Estados soberanos. 900 milhões de africanos expressam-se em mais de 2000 línguas e dialectos. 60% desses 900 milhões de cidadãos libertos vive abaixo da linha de pobreza. Porém, a riqueza de África em matérias-primas e recursos naturais é espantosa: produz 60% dos diamantes lançados no mercado, fornece 10% da produção mundial de petróleo, dispõe das maiores reservas de madeiras e de pescado, de uma imensa diversidade de fauna e de flora, de uma indústria mineira riquíssima e de um ilimitado potencial turístico. Paradoxalmente, África confessa uma dívida externa de 218 mil milhões de dólares, um fluxo gigantesco de deslocados que abandonam os campos pela miragem das cidades (só o Cairo tem 16 milhões de habitantes) ou para a fabulosa Europa, e regista níveis nunca vistos na prática da corrupção, no tráfico de divisas e contrabando de armas e de seres humanos. África é um gigante que acordou mas continua sonolento.

Esta situação tem um nítido fundo ideológico. A heróica luta armada pela independência nacional cessou com a independência teórica, antes das grandes conquistas populares estarem consolidadas. A euforia da vitória em breve se dissipou.

As dívidas aos países ricos agigantou-se e abriu as portas ao mais descontrolado neo-colonialismo financeiro. Ideologicamente, muitos políticos africanos venderam-se aos inimigos dos povos de África. Quando se descreve a situação actual africana em semelhantes termos o pensamento reparte-se em doses iguais por África e por Portugal. Nesta fase, as nossas experiências são comuns.

Conhecem-se as causas objectivas destes recuos históricos: a ruptura dos equilíbrios políticos e económicos, a concentração da riqueza capitalista e a conquista do poder, externo e interno, pelos novos colonizadores. Mas nem sempre tem sido dada – em África como em Portugal – a devida atenção à força corrosiva que se oculta nas éticas religiosas, políticas e humanitárias. E o que importa compreender não diz apenas respeito às forças organizadas, facilmente reconhecíveis. Também abrange a linguagem abstracta que povoa o discurso comum: liberdade sem conteúdos concretos, reconciliação, nova caridade, perdão das ofensas, etc. As palavras destroem tanto como as armas.

Escreveu Karl Marx acerca desta oculta estratégia de acesso ao Poder: “Os filósofos apenas interpretam o mundo de maneiras diferentes, mas o que é preciso é transformá-lo“. Neste breve pensamento está contida uma denúncia. Numa perspectiva capitalista, os filósofos podem funcionar como arma de ataque e desmobilização. O culto do abstracto imobiliza extensas massas humanas. Anestesia-as. Afasta-as da consciência social de classe. Só depois se põem em marcha as grandes unidades das Ongs, das IPSS, das Fundações, das Igrejas e da Sociedade Civil. Os filósofos interpretam o mundo à sua maneira. A nova Sociedade Civil destrói e substitui-se ao Estado Social. É assim que se desenvolvem as revoluções de veludo, as diplomacias paralelas ou o perdão das dívidas, mentiras e engodos que findam sempre na contra-revolução.

Nem por um só instante se duvide de que o Socialismo vencerá. Apesar de quantas dificuldades lhe possam ser levantadas. Na passagem do tempo, os recuos temporários não podem ser evitados. O homem não tem capacidade para predefinir os tempos da História. Nem tem o controlo do grau de sofrimento que a construção de uma sociedade mais justa sempre exige. A luta ideológica requer dos povos africanos, tal como do povo português, confiança e firmeza de ideais. Vamos atravessando dias perigosos, eriçados de riscos. Mas na Dialéctica da História - o nosso principal motor de pesquisa e de acção – os tempos sucedem-se em sistemas de contradições que se vão resolvendo entre si: afirmam-se, negam-se, negam as suas negações e voltam, por fim, à sua afirmação inicial, não mecanicamente mas numa dimensão amplificada, mais geral e mais profunda. Se atravessamos o deserto, há já sinais de que em breve dele iremos sair. Retomaremos, então, os Caminhos de Abril e as nações africanas serão, finalmente, independentes, justas, socialistas e soberanas.

Coragem e confiança. Venceremos!...

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