Artigo de António Abreu no «Expresso»

«Guerra, paz e moeda dominante no mercado internacional»

Já muito antes dos atentados do 11 de Setembro de 2001, em meios políticos restritos e entre diversos analistas, se colocava a hipótese de uma reacção brutal da administração norte-americana à substituição do dólar pelo euro nos mercados energéticos e, em geral, no comércio mundial. Já nos tempos de Reagan “para conter a ameaça soviética”, o Plano de Guerra 1002 definia o Iraque como o principal inimigo na região.

A compilação de links feita por Michel Chossudovsky a propósito do 11 de Setembro, ou um mais recente artigo de William Clark, da Universidade John Hopkins assim como textos de outros autores (1) são leituras obrigatórias para acesso a uma maior variedade de factores determinantes desta 2ª guerra contra o Iraque. Mas tambem para a compreensão do que se poderá passar a seguir e das possibilidades de se passar de um mundo dominado por uma só potência imperial, de dimensão planetária, em declínio, ou condicionado por um sistema multipolar, onde seja mais fácil defender a paz, gerir o consumo de recursos não renováveis e progredir na melhoria das condições de vida e no atenuar de assimetrias.

Quando Javier Solana discutiu com os russos, em Maio de 2001 (2), a passagem do comércio bilateral com a União Europeia para euros ou quando a OPEP, o Brasil, a Venezuela, a China ou a Coreia do Norte, mas também o Japão, consideraram, em graus diversos, acabar com o monopólio pelo dólar no comércio, particularmente no energético ou diversificar as divisas nas suas reservas, os hoje chamados neo-conservadores dos círculos dirigentes norte-americanos, posicionaram-se para uma guerra, já decidida, que mantivesse e acentuasse um status-quo favorável aos States. O Eixo Washington-Telavive pôs-se em marcha. Blair e Aznar posicionaram-se no tabuleiro.

Para a História ficará o saber quem, onde e quando, decidiu sobre os atentados em Nova Iorque e Washington, elemento essencial para a aceitação da opinião pública norte-americana das guerras contra o Afganistão e Iraque.

Mas ninguém, mìnimamente informado desconhecerá quem plantou, com a etiqueta radical islâmica, no Afeganistão e noutros países da região, e viabilizou, no seu próprio território, os germens de um novo tipo de terrorismo, que Sharom, numa estudada divisão de trabalho, estimulava no genocídio palestiniano.

Esses atentados forneceram a “justificação moral” para essas guerras.

Esta intervenção no Iraque foi a primeira, nos tempos mais recentes, que afastou os EUA da “velha Europa”, depois do esquartejar “colectivo” da Jugoslávia. E poderá não ser a última. Para os países que procuraram a flexibilização da divisa e os que estavam disponíveis para a encarar, foi também um aviso. A democratização do Iraque ou a certeza da existência de armas de destruição massiva não foram levadas a sério. Mas o espectáculo da força foi um puxão de orelhas para os que receiem que o estado da economia americana e os seus défices brutais, que todos nós pagamos, introduza uma situação caótica nos mercados internacionais. “O dólar é o que mais ordena”, Bush dixit.

Também são conhecidas as relações entre a administração Bush e a família de Ossama Bin Laden(3), o apoio, quando lhes conveio, dos EUA a Saddam Hussein ou a luz verde de meios diplomáticos americanos à intervenção Iraquiana no Kuweit , em Agosto de 1990.

A guerra, desta vez, teve mais ângulos para uma análise crítica e é escandalosa a coincidência entre os interesses das empresas dos membros desta administração norte-americana com os objectivos do petróleo e o negócio da reconstrução do Iraque, em várias vertentes, por força também da necessidade de esgotar os arsenais em ‘stock’ para passar da investigação à produção de novos meios de morte mais eficazes, a utilizar na guerra seguinte, sob o controle decidido do complexo militar-industrial norte-americano. E não só. A Inglaterra e a Espanha, não por acaso, ocupam a Segunda e terceira posição no top da despesa em I&D em áreas militares.

Tal como M. Chossudovsky refere (4), a economia dos Estados Unidos apresentava nas vésperas da guerra um deficite de 6.3 mil milhões de dólares (60% do PNB, que a Dra. Manuela Ferreira Leite também não ignorará) e o regresso a défices orçamentais de centenas de milhares de milhões de dólares tornava inevitável a desvalorização do dólar. Situação que os EUA impedem desde a 2ª Guerra, com a reconstrução de outros cenários que então destruiram e o posterior domínio comercial, com a garantia do financiamento desses défices quando asseguram que é em dólares que se realizam 4/5 das transacções internacionais, metade das exportações feitas por outros países e que é nessa moeda que são garantidos 2/3 das reservas globais de divisas. E que, para isso, contribui decisivamente o comércio petrolífero em dólares.

Assim sendo, a reconsideração do papel da NATO, pelos “parceiros” dos EUA nela adquire nova actualidade, já que ela consolida, cada vez mais a estratégia de dominação. Do FMI, do Banco Mundial e do papel de diversas integrações de mercados regionais e da OMC, se poderá dizer algo semelhante. A inevitabilidade do pensamento único e do império é não só questionável como está a ser contestada, a nível de Estados e a nível de povos, certamente com motivações diferenciadas.

Esta situação, que evolui qualitativa e quantitativamente, introduz elementos contraditórios: dá novos argumentos aos que apostam na militarização da União Europeia mas geraram convergências, novas expectativas para os que se preocupam com um novo peso na cena internacional de um humanismo progresssita.

(1) http://resistir.info
(2) Michel Chossudovsky, 31.12.02, idem
(3) La Vanguardia, 18.05.01
(4) R. P. de Feliu, La Vanguardia, Barcelona, 17.02.03

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