Intervenção de Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral, Encontro Nacional do PCP sobre Educação

Por uma Escola Pública de qualidade e gratuita ao serviço do país e dos portugueses

Já na recta final do nosso Encontro Nacional e retendo o quadro de grande riqueza das contribuições e análises importa salientar dois aspectos de extraordinária importância para o futuro do nosso sistema educativo e para o futuro do país.

O primeiro é que tal como ficou demonstrado no conjunto das intervenções, não é possível ao Estado realizar as suas obrigações constitucionais que não seja através de uma Escola Pública de qualidade, gratuita, uma escola para todos. A segunda é que, no actual contexto em que o poder político se submete cada vez mais aos ditames do grande capital nacional e transnacional, só com a luta empenhada da comunidade educativa, no quadro mais geral da luta por uma política alternativa no quadro de uma verdadeira alternativa política, é possível atingir tal desígnio.

Como foi salientado durante o Encontro, o Governo do PS, refém (por opção política e ideológica) dos interesses do grande capital, definiu e está a concretizar uma estratégia que passa por uma profunda reconfiguração do próprio Estado, que passa pela desresponsabilização das suas obrigações constitucionais em matéria de educação e ensino, abrindo de seguida as portas à iniciativa privada, com os consequentes aumentos dos custos para os estudantes e para as famílias, de elitização do ensino, mas também do pendor ideológico da escola.

O interesse nacional exige que o estado assegure uma Escola pública Gratuita e de Qualidade para todos e deve ter perante o ensino privado um mero papel de regulador da qualidade, no cumprimento da Constituição da República Portuguesa. Ou seja, a crescente mercantilização da educação que não se desliga de uma ofensiva mais global pela mercantilização das funções sociais do Estado, com expressão concreta no desrespeito pelo preceito constitucional que obriga o Estado a democratizar a educação e a garantir a progressiva gratuitidade do ensino público, é uma realidade que não podemos dissociar das políticas neoliberais que têm vindo a ser implementadas no país, num quadro mais geral de subordinação do poder político ao poder económico.

As consequências estão à vista e deviam envergonhar qualquer governante. O problema é que esta questão não é de ter mais ou menos vergonha! É de opção. Portugal continua a ter, apesar da manipulação estatística, dos piores indicadores da União Europeia e da OCDE. Portugal tem dos maiores índices de analfabetismo, das mais baixas qualificações académicas e profissionais, dos mais baixos níveis de literacia, das mais elevadas taxas de abandono precoce e insucesso escolar. Sabemos que foi um histórico secular mas esta é uma realidade actual que tem uma grave expressão na falta de qualidade das aprendizagens realizadas, logo na falta de qualidade do sucesso obtido, com repercussões a curto e médio prazo, nefastas para o desenvolvimento do nosso país.
Do debate aqui realizado fica muito claro que o Estado não pode limitar-se a reconhecer o direito à educação, ao ensino e à igualdade de oportunidades na formação escolar, entendida no sentido material. Deve obrigar-se não só a eliminar obstáculos à sua realização mas, mais do que isso, a criar as condições que permitam na prática o acesso de todos.

Para nós é claro que o processo de globalização capitalista, dominado pelo capital económico e sobretudo financeiro, que proclama (escondendo a sua ideologia) o fim das ideologias enquanto elementos capazes de ajudar o ser humano a encontrar o caminho da sua libertação e que eregiu, demagogica e falsamente, o mercado como principal factor de desenvolvimento das sociedades, é neste momento o grande obstáculo ao acesso de milhões de seres humanos ao conhecimento.

A questão central é o mercado e o lucro e, mesmo sem os diabolizar, o que importa é saber se estes estão acima do ser humano e se é legítimo utilizarem os instrumentos que deviam ser de todos, apenas a seu proveito e sob o seu comando. São os próprios Ministros da Educação da Europa que chamam e conduzem o aparelho escolar, a melhor servir a competição económica capitalista, formando mais adequadamente os trabalhadores a essa economia, como é evidente no processo de “Bolonha”.

É neste contexto que enquadramos e avaliamos a política educativa que tem vindo a ser desenvolvida nestes últimos três anos pelo governo PS, sendo que o resultado dessa avaliação aponta para a responsabilização do Governo do PS, não apenas por ter prolongado a agravado a crise que se vem vivendo há muito no sistema educativo, mas também pelo facto de ser ele o protagonista da maior e mais agressiva ofensiva contra a escola pública nos últimos 30 anos. Uma ofensiva que se caracteriza pelo objectivo de transformar a educação numa área de negócio, em que os saberes e os diplomas se compram e vendem num “mercado da educação”; por pôr em causa a autonomia e a gestão democrática com o objectivo de introduzir na escola dinâmicas de empresarialização; por desvalorizar a profissão docente e os professores; por encerrar escolas e por elitizar o acesso ao conhecimento, num quadro em que a maioria tem acesso às competências e uma minoria ao conhecimento.

Tal como tivemos oportunidade de referir no Encontro Nacional do PCP sobre Cultura, a situação actual traduz «a rendição total da social-democracia às políticas de direita também nesta área». Agravando, até limites insustentáveis, a asfixia financeira, a instrumentalização clientelar, a desresponsabilização do Estado, a elitização, a integração internacional subalterna e estéril, a entrega ao mercado das políticas culturais que a direita o faça é natural, que o PS o concretize é grave.

E não se trata aqui apenas da actuação do Ministério da Cultura. Assumem igualmente pesadas responsabilidades pelos impactos culturais das suas medidas o Ministério da Educação, o Ministério da Ciência e do Ensino Superior, toda a repercussão futura de uma polítca social e culturalmente indiferente que friamente destrói e inviabiliza condições, instituições e recursos humanos, artísticos, científicos e técnicos sem os quais o país fica incomparavelmente mais pobre, mais subalterno e mais dependente.

Ao contrário do modelo de desenvolvimento que está a ser consolidado em Portugal, o PCP defende que um projecto de desenvolvimento credível e sustentado para o país deve assentar, numa época de expansão das novas tecnologias, sobretudo no desenvolvimento e enriquecimento do ser humano, com um investimento significativo na educação, na formação e na cultura.
Um investimento na educação que passa, de acordo com o projecto educativo do Partido, por um sistema educativo que valorize o ensino público, democraticamente gerido e dotado de objectivos, estruturas e programas, e de meios financeiros e humanos que permitam a concretização do direito ao ensino e à igualdade de oportunidades de acesso e sucesso educativo a todos os portugueses e a todos os níveis de ensino; que erradique o analfabetismo; que assegure o ensino básico, universal, obrigatório, gratuito e a cobertura do País por uma rede pública de educação pré-escolar e que estabeleça a interligação entre objectivos do ensino e das actividades socais, culturais e económicas; que contribua para o aumento da qualificação do trabalho dos portugueses.

Neste inicio do século XXI é da maior importância que o país opte por uma política educativa que pela sua amplitude, eficácia e inovação, seja motivadora para professores e estudantes, e não como tem vindo a acontecer com o actual governo que opta por decidir, fechado no casulo da sua pseudo superioridade intelectual, sem ouvir ninguém e reagindo muito mal perante as críticas e sugestões. Tal como a vida já demonstrou em muitas ocasiões, mesmo a prepotência e a arrogância podem ser derrotadas pela luta.

Como foi dito na intervenção inicial este nosso Encontro insere-se na luta que travamos pela defesa da Escola Pública de qualidade e gratuita, uma escola para todos. A situação que vivemos no nosso sistema educativo não é nem uma inevitabilidade, nem uma fatalidade.

A marcha dos educadores e professores do passado dia 8 de Março, momento alto de uma luta que nos últimos anos teve como objectivo central a defesa da dignificação da carreira e a Escola Pública, as dezenas de lutas que têm vindo a ser travadas pelos estudantes dos ensinos secundário e superior, por melhores condições de aprendizagem e contra as propinas, a luta dos outros trabalhadores da educação contra a precarização do vínculo e pela valorização da sua função, a luta das populações contra o encerramento de escolas que em alguns concelhos assumiu níveis de determinação elevados, lutas a que não podemos deixar de associar a intervenção dos nossos autarcas no sentido de combater transferências de responsabilidades que mais não são do que delegação de competências numa área de fortes carências em que o poder central está sujeito a muitas críticas por não assumir as suas responsabilidades, mostram que existem forças capazes de derrotar a política de direita e construir uma verdadeira alternativa, a alternativa de esquerda.

No quadro da luta assumem particular importância os comunistas e as suas organizações. Neste Encontro Nacional ficou claro que temos e podemos ir mais longe na organização e na mobilização dos membros do Partido e desta forma respondermos às exigências de um confronto político e ideológico, travado em condições muito desiguais. Confronto que exige a articulação da luta sectorial, por melhores condições de trabalho e salariais, com a luta mais geral por uma política alternativa no quadro da alternativa política só possível no desenvolvimento do quadro de alianças sociais e da articulação da luta da classe operária com os outros trabalhadores, onde se incluem os trabalhadores intelectuais.

Luta que é preciso desenvolver e ampliar, nomeadamente com a participação e mobilização para a grande manifestação nacional, convocada pela CGTP-IN para a próxima quinta-feira, dia 5 de Junho, em Lisboa e que se quer seja uma resposta global dos trabalhadores e de outros sectores e camadas sociais à política do governo do PS e contra as suas propostas sobre legislação laboral.

Não é apenas no sector do ensino que se sentem as consequências da ofensiva anti-social do governo do PS de José Sócrates. É toda a situação económica e social do país que se tem vindo a degradar com consequências devastadoras na vida da generalidade dos portugueses.

Consequências que hoje se vêm com o aumento brutal do custo de vida, o desemprego, a precariedade, a desvalorização das remunerações dos trabalhadores, das reformas e pensões na liquidação de direitos essenciais, nos domínios do trabalho, da saúde, da segurança social, no crescimento das desigualdades.

Uma situação que põe em evidência o resultado desastroso de uma política que, tal como os governos do PSD e do CDS-PP fez da obsessão do défice orçamental a questão central e orientação básica da acção governativa, em detrimento do crescimento económico e do emprego.

A mesma política assente na financeirização da economia e na concentração da riqueza, na liquidação das actividades produtivas nacionais e na entrega ao estrangeiro das principais alavancas da economia do país, nos dogmas da concorrência, do menos Estado, da mão invisível do mercado e do equilíbrio automático!

Essa mão que o governo protege para meter no bolso do grande capital milhões e milhões de euros de lucros abusivos e indevidos. Essa mão que favorece e incentiva a especulação, à custa das condições de vida dos trabalhadores, das populações, da economia nacional, como está a acontecer com a crise financeira, alimentar e dos combustíveis. Essa mão invisível que tem nas ditas Entidades Reguladoras o anteparo das suas actividades monopolistas e especulativas e à sombra das quais o governo se demite e lava as mãos das suas funções constitucionais no plano económico e social e em defesa e salvaguarda do interesses nacional e do povo.

O que se passa com a vergonhosa subida dos combustíveis revela bem o papel deste governo de José Sócrates no combate à especulação. Em relação aos combustíveis, os aumentos sistemáticos são um escândalo a exigir há muito uma intervenção firme e decidida do governo. Está provado que os aumentos dos preços dos combustíveis em Portugal são muito superiores aos aumentos do barril do petróleo.

Há uma pergunta que há muito tempo formulámos ao governo: porque é que os preços em Portugal têm que subir mais do que o do barril de petróleo? Levantámos 9 vezes este problema ao senhor Ministro da Economia. Em Abril colocámos a mesma questão a José Sócrates, mas a resposta demora. E demora porque a coragem do governo só se manifesta contra os que menos podem, contra os que não têm poder, contra os que vivem do trabalho e dos seus pequenos rendimentos.

Contra os senhores do dinheiro, contra os poderosos a coragem do governo não é nenhuma. Falam, por vezes, grosso em público, mas no concreto, no momento da intervenção sai-lhes falsete. Foi assim com os impostos da banca do IRC. Muita ameaça pública, muito espectáculo, mas no concreto a banca pagou metade dos impostos devidos.

Andam há semanas à espera de um relatório de quem tinha a obrigação de acompanhar diariamente e ter na ponta da língua a situação do sector dos combustíveis, mas está a ser difícil, muito difícil. Mas enquanto “a raposa continua a devorar o galinheiro”, o governo desvia as atenções com cartas para a Europa a solicitar debates, que serão certamente importantes, mas que cheiram a manobra de diversão. Manobras de diversão que não faltam por aí para esconder o que está à vista de todos os que querem ver.

Porque será que a GALP, por exemplo, mas o mesmo acontece com as outras petrolíferas, passou em 2004 de 333 milhões de euros de lucro, para 425 milhões em 2005 para 777 milhões de euros em 2007? Porque é que os lucros cresceram entre 2004 e 2007 mais 133%, enquanto os salários dos portugueses tiveram uma quebra nos seus salários reais.

O Ministro da Economia vem agora dizer também que a situação resulta também da especulação internacional que é muita. Pois é. É um problema dos outros. Por aqui a especulação não existe, só lá fora! O senhor ministro só vê bem ao longe! Nós estamos convictos que a luta que vai crescer, vai ajudar o governo a ver mais perto e melhor e ganhar a dimensão do protesto e do descontentamento do país real esse país que não está nos seus olhos nem na sua propaganda! Não acreditamos muito nos arrependidos políticos! A luta é que impõe a mudança.

O governo do PS de José Sócrates vai persistir na sua política. Esta semana, o governo deu mais um passo no sentido da destruição da Administração Pública consagrada na Constituição da República, contra os interesses do povo português e dos trabalhadores do Estado. O diploma sobre o Regime de Contrato de Trabalho em Função Pública não pode ser dissociado do conjunto dos diplomas que nestes três anos, a sua maioria absoluta impôs aos trabalhadores da Administração Pública.

O governo tal como noutras áreas faz batota, faz um velho truque e apresenta projectos de diplomas muito maus, para que, cedendo nalguns aspectos, possa afirmar que foram melhorados. Só que o ponto de partida não é o que o governo apresentou, mas sim os direitos que os trabalhadores tinham e deixam de ter. Faz lembrar aquele automobilista que é culpado de um atropelamento e se dirige à vítima dizendo: você tem sorte podia ter morrido e só partiu as pernas!

O Governo, na sequência da alteração da natureza dos vínculos e da nova/velha filosofia de carreiras e remunerações, vem com o novo Regime de Contrato de Trabalho em Funções Públicas, aliado ao SIADAP, ao regime de mobilidade especial e ao novo Estatuto disciplinar operar profundas transformações nas relações laborais.

Transformação para pior com a desregulação dos horários, a destruição do sistema de carreiras, o ataque à independência e à autonomia dos trabalhadores, com a precaridade dos vínculos, facilitando os despedimentos por extinção dos postos de trabalho ou o despedimento por inadaptação, na limitação à acção organizada dos trabalhadores e dos seus sindicatos.

Este conjunto de diplomas mais não são que o Código de Trabalho para os trabalhadores da Administração Pública, sendo que há matéria pior do que o conteúdo do regime laboral no sector privado. Há, aliás, uma espécie de aplicação do princípio dos vasos comunicantes entre o sector público e o sector privado na prática deste governo! Nós alertámos! Eliminar direitos dos trabalhadores da função pública não significaria puxar para cima os direitos dos trabalhadores do sector privado.

Ora avança para retirar direitos aos trabalhadores do Estado, ora apresenta na concertação social propostas de alteração ao código que agravam as condições de exploração no sector privado, inspirado pela ofensiva no sector público. O conjunto das propostas de alteração do Código de Trabalho estão aí para o provar.

É uma proposta perversa em relação ao espírito e letra da Constituição da República e com a qual vai ao encontro das exigências e das reivindicações do patronato.

Três questões que são recorrentes na lista de exigências do capital.

Poder ter mãos livres para despedir, com ou sem justa causa, tendo garantido um exército de desempregados sempre prontos às suas exigências e necessidades. Ora a Constituição da República foi e é um obstáculo. Por isso querem revê-la e rasgá-la! Rasgar a constituição laboral a partir do artigo 53.º O que o PS faz na sua proposta é, através de um conceito subjectivo que dá para tudo, esvaziar o normativo constitucional da proibição de despedimento sem justa causa ou por razões políticas e ideológicas.

Uma segunda malfeitoria tem a ver com a questão do horário de trabalho! Os patrões sempre quiseram definir o tempo, mas essencialmente a gestão e a organização do trabalho em conformidade com os seus interesses! Serem donos da vida profissional mas também da vida familiar e social do trabalhador. Qual é a proposta? Se o patrão entender trabalha-se num dia 10 horas, numa semana 60 horas, pagas a singelo, na semana ou no mês seguinte se não for preciso podem trabalhar 30 ou 20 horas. Assim se aumentam os ritmos de exploração e ainda por cima com trabalho mais barato.

Uma terceira: a contratação colectiva! O capital detesta regras, prefere o vazio, não suporta a perda do domínio perdido em certas conjunturas históricas como aconteceu com o processo revolucionário do 25 de Abril que consagrou em Convenções, em Lei e na Constituição direitos conquistados. Agora que o vento sopra de feição ao capital há que fazer caducar os contratos colectivos. O governo de Sócrates transformou-se assim no feitor do capital, dos poderosos. Usa o poder político para servir o poder económico!

Fugindo a estas três questões centrais procura contrapor com duas mistificações - que vai combater a precariedade, que vai apoiar a maternidade e a paternidade! Mas olhando a proposta o que é que vemos? Patrões que abusam dos vínculos precários levam uma multa na taxa social. Ou seja fica mais caro o recibo verde mas a situação de abuso fica legitimada e regularizada!

As propostas de alteração do Código de Trabalho que estão em cima da mesa são soluções inaceitáveis e de retrocesso social. Propostas que têm a marca da injustiça e da desigualdade e que vão promover o livre arbítrio patronal e degradar ainda mais o mercado de trabalho com a imposição da lei do mais forte.

Nós temos confiança que os trabalhadores com a sua luta assumirão a defesa desse património comum fruto da luta de gerações e gerações de trabalhadores e que são os seus direitos laborais e sociais! Já no próximo dia 5 na manifestação convocada e organizada pela CGTP-IN e nos combates que seguir se impuserem!

O governo do PS perante a degradação da situação económica e social do país que tentou esconder e iludir a todo o custo, vem dizer que não vai concretizar os objectivos económicos e sociais que se propôs alcançar até 2009. A propaganda não ganha no confronto com a realidade. Com este governo do PS e com esta política o país só já conhece a mudança da marcha-atrás.

O Ministro da Presidência, ainda não passaram dois meses dos pomposos comícios de glorificação de três anos de sucesso das políticas governativas, vem agora dizer que o governo precisa de mais tempo para concretizar os seus objectivos.

O governo do PS prepara-se para encontrar bodes expiatórios para o fracasso da sua política e da sua acção governativa, responsabilizando exclusivamente a crise internacional. Ainda há dias José Sócrates afirmava com uma arrogância desmedida que o país estava agora mais robusto e melhor preparado para enfrentar a crise, ao mesmo tempo que anunciava “o fim dos sacrifícios”, mas o que vemos é a imposição de novos e maiores sacrifícios e o país a regredir em todas as frentes.

Os principais problemas estruturais conheceram um novo agravamento. A dívida pública, e o endividamento externo continuaram a aumentar. Hoje somos um dos países mais endividados da Europa. Continuaram a agravar-se o défice das contas externas, nomeadamente o défice comercial.

Ao contrário do que diz Sócrates, Portugal está hoje mais fragilizado, mais endividado e mais dependente e pior preparado, infelizmente, para para enfrentar o futuro. A crise alimentar expressa bem as fragilidades e dependência do nosso país e o que isso está a significar para a degradação das condições de vida dos portugueses, em cima das enormes dificuldades que milhares de famílias enfrentam com a alta da taxa de juros que o governo não contesta, nem propõe se debata lá na Europa.

Nesta última semana assistimos por parte do PSD e PS ao passa culpas mútuo sobre o crescimento das desigualdades em Portugal e ao sacudir da água do capote de cada um das responsabilidades de Portugal ser o país mais desigual da Europa a 25. Ouvindo uns e outros e quem não os conhecesse pensaria que estávamos perante dois partidos que nada tinham a ver com a governação dos últimos trinta anos.

Sócrates acusa Santana Lopes e Barroso do estado em que deixaram o País! Barroso criticou Guterres pelo abandono e pela situação do País, Guterres acusou Cavaco, Cavaco acusou Soares e por aí adiante. PS e PSD acolitados pelo CDS acusam-se mutuamente mudam de lideranças não mudam de políticas.

O PS quer livrar-se da sua responsabilidade colectiva, cada vez que muda de líder e o PSD faz o mesmo.

É isso que vemos agora também na campanha dos candidatos do PSD à sua presidência. Querem por a zero o conta quilómetros da sua responsabilidade nas políticas dos últimos anos que, como se vê, pelo debate pouco diferem, no essencial, das políticas que praticaram no passado e das que actualmente o PS põe em prática.

Tudo parece resumir-se, tal como no passado, à discussão de quem é candidato melhor preparado para ser primeiro-ministro, para retomarem o ciclo da falsa alternativa e da ilusão da mudança. Esse equivoco da democracia portuguesa que alimenta o ciclo vicioso da alternância à volta da mesma política de direita e das mesmas soluções que estão na origem do sistemático atraso do país e da degradação das condições de vida dos portugueses.

Nem é preciso ir mais atrás, a vida política desta primeira década do século XXI mostra bem o fracasso de uma política e das recorrentes soluções governativas assentes nessa cíclica troca entre PS e PSD com ou sem CDS-PP.
Anos e anos seguidos de fraco ou nulo crescimento. Uma década de maior atraso relativo do país. Atraso na modernização económica. Regressão no plano social. Uma década negra para a agricultura e pescas portuguesas e de contínua desindustrialização do país. Uma década marcada pela desigualdade, a injustiça e a insustentabilidade económica, ambiental e social com elevados níveis de pobreza, desemprego e precariedade.

É a política responsável pela actual situação do país que o PSD quer reabilitar com a mudança de líder é essa mesma política que o PS teima em prosseguir quando afirma que é necessário manter o mesmo rumo a todo o custo, mesmo quando o país se afunda em crescentes dificuldades.

O que verdadeiramente os preocupa a uns e a outros não é o progresso do país ou a melhoria da vida dos portugueses, mas sim manter inexpugnável o blindado do bloco central político que lhes garante o monopólio do poder e permite alimentar o bloco central dos interesses, dos interesses do grande capital económico e financeiro e da elite que o serve e roda na maior das promiscuidades entre o conselho de administração das suas empresas e as instituições de governação do país.

É temerosos da real possibilidade de uma fenda na muralha do seu poder que passámos também a ouvir em vários tons e a várias vozes, estridentes apelos e avisos, perante o perigo da crescente influência do PCP e do reforço do seu crescimento.

Manuela Ferreira Leite, pôs bem claro qual é sua principal preocupação, mas outros deixam-no implícito por trás do discurso das preocupações sociais. Vozes que andam também cá e lá ao sabor da amplitude e força do movimento de massa e da contestação popular à política de direita.

O que estas vozes, estes avisos e estes apelos visam, alguns de forma difusa outros de rabo de fora e gato escondido, é a sua posição de classe, porque sabem que o crescimento do PCP é o elemento decisivo e determinante para promover a ruptura com a política de direita e de desastre nacional e com o monopólio do seu poder.

Sinceramente, o que secretamente os preocupa não é tanto que o poder mude da mão do PS para o PSD, porque para os grandes interesses, para os grandes negócios, para a elite que roda no poder e nos negócios é a questão menor. O que os preocupa é que o sistema que os perpetua no poder possa ser abalado perante a contestação popular e o reforço necessário da principal força portadora de uma verdadeira alternativa de esquerda para o país.

Nós afirmamos a necessidade e urgência da construção de um caminho novo alternativo e uma solução nova com o PCP a na convergência com todos os que tenham um real e efectivo propósito de promover uma ruptura com tal política. Alternativa que se afirma também no combate às ilusórias alternativas, porque também é bom que se diga e reafirme: não há alternativa de esquerda sem uma ruptura clara com a política de direita. Eis uma proposta de esquerda séria, aberta e de convergência.

Não se constrói um caminho alternativo de esquerda, percorrendo o ambíguo trilho que deixa um pé lá no campo do bloco central, no lado lá do campo dos grandes interesses e outro do lado de cá, do lado do cá, do lado dos que aspiram à ruptura em nome dos interesses populares.

O que o país precisa e com urgência é de uma verdadeira alternativa política de esquerda, uma verdadeira alternativa que se concretizará tanto mais cedo quanto mais forte e determinado for o apoio ao PCP e ao seu projecto de construção de uma democracia avançada para Portugal.

O reforço desta força que contra ventos e marés e contra a corrente mobilizava e chamava à luta de resistência a esta política os trabalhadores e o povo e que todos os dias se prestigia e afirma no seio dos trabalhadores e da sociedade portuguesa.

Uma força que cresce, porque é a verdadeira força da oposição, não apenas em palavras, mas nos actos e que não abdica do seu compromisso inquebrantável com os trabalhadores e com o povo na construção de um Portugal de progresso para todos os portugueses.

Nós temos confiança que com este Partido Comunista Português e a luta dos trabalhadores e do povo seremos capazes de abrir os caminhos da esperança para um Portugal com futuro! Confiança e esperança que serão reafirmadas no XVIII Congresso do PCP.

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