Intervenção de Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral, Sessão Pública Comemorativa do Centenário de Mário Castrim

«Mário Castrim não será esquecido, pela sua obra intelectual e pelo cidadão lutador que foi»

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Se me permitem começo por lembrar um episódio vivido com Mário Castrim no ano de 1996, ano em que o PCP me atribuiu a responsabilidade de representar a nossa candidatura às eleições presidenciais.

Ia ter uma entrevista na televisão dirigida por dois jornalistas de nomeada. No quadro da sua preparação solicitou-se o contributo de Mário Castrim e aprazada uma conversa na Soeiro Pereira Gomes.

Assim foi, e lá estava de pé à entrada já que dispensou qualquer sala para realizar o encontro.

Muito sério questionou-me: «Disseram-me que precisas da minha ajuda para te confrontares com dois jornalistas profissionais que estão ali para ganhar o seu salário. E tu, que vens donde vens, que confrontas os teus adversários na Assembleia da República, transportando o saber da fábrica, precisas da minha ajuda? Passa bem!». E foi-se embora!

Passada a surpresa, percebi a lição e o ensinamento. Correu bem a entrevista e outras tantas que se seguiram alicerçadas no que era e no que sabia, com aquela confiança partilhada pelo Mário Castrim, com o ideal e o projecto do seu Partido de sempre – o Partido Comunista Português.

Membro do Partido desde a década de quarenta do século passado, foi o último camarada a encontrar-se, num encontro clandestino, com José Dias Coelho, posteriormente ao qual o escultor, pintor e dirigente do Partido viria a ser assassinado a tiro pela PIDE, polícia política do fascismo.

Foi o primeiro crítico de televisão, permanentemente em risco e sujeito ao implacável «lápis azul» da censura, para além de todas as ameaças da repressão existentes no período do regime fascista.

Conhecido pelo seu humor cáustico não se relevaram as suas obras dirigidas às crianças e jovens carregadas de ternura.

Pedagogo, poeta, crítico, jornalista, nunca abdicou das suas fortes convicções sendo certo que a vida melhor que teve foi a partir da Revolução de Abril, das suas transformações, realizações e conquistas. Mas lá esteve presente na fase de resistência à ofensiva contra Abril, nas suas conquistas e valores.

Deu um valioso contributo para a formação democrática e humanista de várias gerações.
Como afirmou o Sindicato dos Jornalistas «ficará na nossa memória como homem culto e lúcido cidadão comprometido com o seu tempo e fiel às suas convicções.

Frágil de saúde tinha a têmpera do lutador, do intelectual revolucionário. Tendo sido ao longo de décadas o mais antigo colaborador do Avante!, enviando os seus poemas semanalmente e até ao fim da sua vida.

Permitam-me que neste acto comemorativo do centenário do nascimento de Mário Castrim formule uma saudação particular à sua companheira de vida, a escritora Alice Vieira que quis estar presente nesta iniciativa.

A usura do tempo por vezes leva ao esquecimento. Mas Mário Castrim não será esquecido. Naturalmente pela sua obra intelectual, mas acima de tudo pelo cidadão lutador que foi numa vida toda, exemplo de coragem e determinação, que nos marcou, e nos dá força nestes tempos tão exigentes e complexos.

Recorro e termino com um poema seu que titulou de «Urgente»:

Camarada
na frente de combate
ensina-me a
escrever versos

Camarada
com os salários em atraso
ensina-me a
escrever versos

Camarada
que passas as férias trabalhando
na Festa do Avante!
Ensina-me a escrever versos

Camarada
que estendes o punho
e não a mão em concha
ensina-me a escrever versos

Ensinai-me
os segredos
pois sinto que os meu versos
me escapam entre os dedos

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