Intervenção de Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral, Sessão Evocativa do Centenário de Joaquim Gomes

«Joaquim Gomes entregou-se por inteiro à luta do seu Partido pela libertação do nosso povo e pela concretização do seu projecto emancipador»

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Evocamos nesta data o centenário do nascimento de Joaquim Gomes, operário vidreiro, destacado dirigente do Partido Comunista Português, deputado, revolucionário de corpo inteiro, corajoso e firme lutador contra a ditadura fascista, pela construção de um Portugal democrático.

Evocamos hoje os cem anos do nascimento desse homem generoso que, dando o melhor de si, se entregou por inteiro à luta do seu Partido pela libertação do nosso povo e pela concretização do seu projecto emancipador da classe operária, dos trabalhadores, pelo socialismo.

Evocamos oito ininterruptas décadas de militância comunista revolucionária, tomando em mãos as mais exigentes tarefas e assumindo as mais elevadas responsabilidades.

Joaquim Gomes faz parte do núcleo de militantes que temos designado por construtores do Partido, homens e mulheres que, em condições extremamente difíceis e à custa de enormes sacrifícios pessoais e humanos – vida precária, clandestinidade, anos e anos ausentes do convívio familiar, prisões, torturas e a perda da própria vida – construíram com outros militantes valorosos o PCP e tornando-o no grande partido nacional que se afirmou na sociedade portuguesa como a força necessária e insubstituível na luta dos trabalhadores e do nosso povo, por uma vida melhor, por uma sociedade nova mais justa, mais democrática e mais igualitária, liberta da exploração e da opressão.

Joaquim Gomes conheceu o duro trabalho numa fábrica de vidro, tinha apenas seis anos. Seguiu o mesmo percurso de vida de exploração desumana que há muito estava reservado à maioria filhos das famílias operárias naqueles anos do princípio do século XX na Marinha Grande, onde nascera a 9 de Março de 1917.

Esse caminho dos «homens que nunca foram meninos» de que falava Soeiro Pereira Gomes e que tinha, na então vila da Marinha Grande, não apenas uma expressiva dimensão, mas também uma particular dureza e severidade que resultava das impiedosas condições do trabalho que vigoravam numa fábrica de vidros, fosse ela de cristalaria, com o trabalho organizado em “obragem” à volta de um forno e pago à peça, onde os aprendizes - a maioria iniciados entre os seis e oito anos de idade -, eram os elos mais fracos de sistema de exploração capitalista desumano, fosse ela uma fábrica de garrafaria de laboração contínua onde a violência do trabalho por turnos não era menor. Duas realidades que Joaquim Gomes experienciou.

Foi a dureza do trabalho, as difíceis condições de existência do operariado vidreiro, a sua própria inserção na trajectória de luta de uma classe com tradições e que, particularmente a partir dos anos vinte, crescentemente afirmava a sua identidade, independência, capacidade organizativa e reivindicativa, que forjou a personalidade corajosa e determinada do comunista de firmes convicções que era Joaquim Gomes.

Foi na “escola da luta do proletariado vidreiro”, que neste período assume uma grande dimensão, que cedo toma consciência do seu papel e lugar na luta contra a exploração e a opressão e se cimenta a sua apurada e consistente consciência de classe e política que o guiará toda a vida.

Joaquim Gomes iniciou a sua actividade revolucionária na Marinha Grande numa época, ao mesmo tempo dramática e exaltante, participando nas muitas lutas que então se travaram e que o vão levar pela primeira vez à prisão.

O final dos anos vinte e os primeiros anos da década de trinta do século passado são, para a classe operária vidreira da Marinha Grande, anos de audacioso combate em defesa das suas condições de vida e de trabalho, pela unidade sindical e o direito à livre organização sindical, e contra a exploração.

Um combate travado no quadro de uma perigosa conjuntura. Um tempo em que o fascismo tinha tomado o poder em vários países da Europa e em Portugal desencadeava uma poderosa ofensiva de perseguição e violência sobre o movimento operário e sobre organizações democráticas. Tempos dramáticos também em resultado da grande crise do sistema capitalista de 1929-32 que tem na indústria vidreira efeitos devastadores, que agravam ainda mais as já duras condições de vida do operariado da Marinha Grande.

Tempos perigosos sem dúvida, mas ao mesmo tempo exaltantes, de intensa actividade reivindicativa e revolucionária, de uma esclarecida acção sindical e política.

Exaltantes, desde logo do ponto de vista da actividade partidária, com o PCP a levar à prática e a concretizar na Marinha Grande com sucesso, no quadro de uma intensa actividade, as decisões da sua Conferência de 1929, que sob a direcção de Bento Gonçalves levava em frente a sua reorganização visando a edificação de um Partido de novo tipo, um Partido leninista, combativo e ligado às massas e que vai ter uma intervenção decisiva na unidade da organização sindical dos vidreiros e no desenvolvimento da luta.

Nas muitas lutas pelo aumento de salários, nas greves pela unificação das tabelas salariais, pelo fim do trabalho ao Domingo ou as greves simultâneas nas empresas de garrafaria no princípio dos anos trinta, a marcante e vitoriosa greve de nove meses, em 1932, na Guilherme Pereira Roldão que teve o apoio e a solidariedade de toda classe vidreira que garantiu o salário aos trabalhadores em greve. Grandes e pequenas lutas, nas quais se inscrevem também as “marchas da fome” e as expressivas greves dos rapazes aprendizes por reivindicações salariais e contra o trabalho violento e arbitrário do patronato, dirigidas por eles próprios, alguns com doze anos de idade, como era o caso de Joaquim Gomes.

Foi neste ambiente de intensa actividade e luta que se concretizou a unificação das diversas associações sindicais de classe (garrafeiros, vidraceiros, cristaleiros e lapidários) numa única organização nacional da indústria vidreira – o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Indústria do Vidro – que haveria de ser constituído em 1931 e que, em Setembro de 1933, com a promulgação do Estatuto do Trabalho Nacional, cópia da Carta del Lavoro do fascismo italiano, a ditadura fascista de Salazar manda encerrar, dando início à fascização dos sindicatos e contra a qual se haveriam de levantar num acto de valentia os operários vidreiros em 18 de Janeiro de 1934, a primeira grande acção da classe operária portuguesa contra o fascismo.

Foi a escola da vida, do trabalho e da luta da classe operária vidreira que conduziu Joaquim Gomes à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesa, em 1931, tinha então 14 anos, iniciando a sua actividade em tarefas ligadas à difusão da imprensa e à angariação de fundos, incluindo para o Socorro Vermelho Internacional.

Uma adesão no período de maior intensidade da luta dos aprendizes. É o tempo da célebre “greve das alpargatas” e da greve dos 2% para o chamado Fundo do Desemprego, decretado por Salazar em 1933.

É preso em Novembro desse ano, com mais sete jovens e levado para os calabouços do Governo Civil de Leiria. Joaquim Gomes tinha então 16 anos.

José Gregório, outro marinhense, dirigente nacional do PCP na clandestinidade e com um papel destacado na condução da actividade desse tempo, deixou-nos sobre essas lutas uma referência no seu conhecido relatório sobre as lutas desse período e do 18 de Janeiro, escrevia então:

“Raivosos, os patrões e autoridades fascistas fizeram com que a polícia viesse prender e levasse algemados para Leiria os moços que mais se destacaram na luta. Mas apesar dos espancamentos, torturas físicas e morais de que foram alvo os moços sofreram com dignidade dando um belo exemplo de comportamento proletário e uma boa lição ao inimigo. (…) Entre os moços presos e torturados figurava em primeiro lugar o nosso camarada Joaquim Gomes que desde há muito se pôs por completo ao serviço do nosso Partido e da classe operária do nosso País”. (fim de citação)

Preso durante quatro meses e meio, Joaquim Gomes fica impedido de participar directamente no movimento insurrecional do 18 de Janeiro que os seus camaradas de profissão planeavam.

É conhecida a sua amargura e tristeza por ter ficado do lado de fora do movimento e quanto lhe custou ver chegar à mesma prisão onde se encontrava muitos dos protagonistas da revolta que a desigualdade das forças derrotou, para serem brutalmente torturados logo ali e depois deportados. No seu conjunto os revolucionários de 1934 sofreram mais de 250 anos de prisão e deportação e alguns foram condenados à morte pelo fascismo pelas condições que lhes foram impostas nos campos prisionais do Tarrafal e Angra do Heroísmo.

Vivências que o marcam profundamente. Liberto em Março de 1934 sem julgamento e com 17 anos feitos, vai encontrar na Marinha Grande um Partido debilitado e flagelado pela repressão.

Era preciso retomar o trabalho, pôr de pé a organização, refazer e reforçar a direcção, retomar a ligação às empresas, ligar os que tinham escapado à repressão, apoiar os presos e as suas famílias e continuar a luta.

O jovem comunista Joaquim Gomes é chamado ao Partido e passa imediatamente a fazer parte do Comité Local da Marinha Grande do PCP e a desempenhar um importante papel na reactivação da organização do Partido nas empresas. Tarefa que se cumpre logo nesse ano, com o fundamental das células das empresas a funcionar.

O levantamento tinha sido derrotado, o Partido debilitado, mas não estava rendido e disso também Joaquim Gomes dava provas!

Uma outra tarefa, também muito importante, era preciso fazer avançar. Apoiar as famílias dos presos e lançar um forte movimento de solidariedade. Joaquim Gomes participa activamente na dinamização desse movimento que teve uma amplitude que a Marinha Grande não esquece.

A recolha semanal de contribuições em dinheiro alargou-se à maioria dos trabalhadores das empresas e às colectividades para garantir às famílias dos presos os salários.

As tarefas do Partido de Joaquim Gomes como membro do Comité Local, prolongam-se até 1937. Ano em que um novo emprego na Fábrica de Lâmpadas Lumiar, o leva para Lisboa, sempre ligado e em articulação com o Partido.

Como afirmava, tratou-se de uma grande mudança na sua vida, tinha já então 20 anos. Integrado na organização do Partido da empresa, a sua principal tarefa neste período está ligada ao aparelho de distribuição da imprensa do Partido na zona industrializada de Alcântara.

O pesadelo do avanço do fascismo estava cada vez mais presente. Tempos que exigiam coragem redobrada, numa altura em que a ditadura de Salazar se tinha consolidado, o domínio nazi-fascista na Europa se manifestava de forma avassaladora e a Península Ibérica não tardaria a estar sob o total domínio do fascismo com o desfecho dramático da Guerra Civil de Espanha, em 1939, tal como não tardariam a fazer-se ouvir os tambores da II Guerra Mundial que se aproximava perigosamente.

Entre o desemprego que conheceu e uma nova actividade que lhe permite estabilizar a vida, Joaquim Gomes casa em 1940 com a camarada Maria da Piedade Gomes, marinhense também, ambos vão pisar os duros e perigosos caminhos da luta de um Partido que se vai afirmar nesses anos da década de 40 como um grande Partido nacional.

Nesses anos e a partir da reorganização de 1940/41, a organização do Partido alarga-se a todo o País. São criadas fortes células de empresa, estreita-se a ligação às massas e sob a orientação do Partido têm lugar grandiosas lutas de massas, nomeadamente as greves de 1943, 44 e 46. Vive-se uma grande dinâmica do movimento de oposição à ditadura. Uma intensa actividade que impunha novas soluções e medidas de defesa do Partido nesse combate desigual contra a ditadura fascista que tinha declarado o PCP o seu principal inimigo, designadamente a implementação de rigorosas regras conspirativas, a criação de um alargado corpo de funcionários firmes e dedicados, uma Direcção Central estável, dispondo de um aparelho de apoio ao trabalho de direcção constituído por camaradas de alta confiança e rigorosa disciplina conspirativa.

Joaquim Gomes e a sua companheira Maria da Piedade, integram agora o aparelho de apoio à Direcção Central do Partido, uma tarefa que se prolonga por toda a década e à qual se entregam com enorme dedicação e responsabilidade, designadamente na difícil tarefa de assegurar “ponto de apoio” à direcção do Partido. Pelas suas casas passaram a maioria dos dirigentes do Partido nesses anos.

No seguimento de um crescente cerco da polícia à sua casa de apoio, a direcção do Partido, indo ao encontro de uma disponibilidade antecipadamente manifestada, propõe que Joaquim Gomes e Maria da Piedade passem à clandestinidade.

Estávamos em 1952, num tempo em que a reacção se agrupava, por todo lado, contra o movimento operário e o fascismo português, apoiado pelas principais potências ocidentais, se reforça. Um tempo em que a PIDE desencadeia uma violenta e constante repressão contra o PCP.

Joaquim Gomes inicia esta nova fase da sua militância comunista integrado no Comité Local de Lisboa. Trabalha na organização do Partido, acompanhando várias empresas, entre as quais a CP e no desenvolvimento das suas actividades, já como funcionário do PCP, é preso em Janeiro de 1954.

Suportou estoicamente os interrogatórios e a violência bruta que os acompanhava. Não presta qualquer declaração, seguindo as orientações do Partido. Passou do Aljube, para Caxias, dali para a prisão da sede da PIDE no Porto, donde se evade, nove meses depois com Pedro Soares, membro do Comité Central do PCP, cerrando os ferros de acesso a uma clarabóia, com o apoio dos outros companheiros presos e ajuda do Partido no exterior.

Volta à luta, assumindo o seu posto de combate e continua no trabalho de organização. Acompanha as lutas que então se desenvolvem no Norte e, no ano seguinte, assume novas responsabilidades como membro do Comité Central do PCP.

De 1955 a 1958 é responsável por duas tipografias do PCP em que se edita o «Avante!» e «O Militante».

Essas tipografias eram, no dizer do comunista José Moreira, responsável pela ligação às tipografias clandestinas e também do concelho da Marinha Grande, assassinado pela PIDE em 1950, «o coração da luta popular» a que acrescentava que «um corpo sem coração não pode viver».

Na verdade assim era. Das tipografias clandestinas do PCP saíram milhões de documentos vários – manifestos, folhetos, brochuras, jornais – que denunciaram a política e os crimes fascistas, informavam sobre a vida nacional e internacional, apelavam à organização e à luta, fomentavam a solidariedade para com as vítimas do fascismo, cabendo ao «Avante!» órgão central do Partido papel particular nesta acção.

Estes anos da década de cinquenta até 1958 são marcados por uma intensa actividade antifascista, do MUD Juvenil, das Comissões da Paz e da luta de massas nos anos de 1957/58 que Joaquim Gomes acompanha. Lutas que assumem particular expressão no quadro das eleições presidenciais de 1958 e que o regime fascista mais uma vez transforma em burla eleitoral. Burla que originou um amplo protesto de massas com greves e manifestações a que se seguiu uma prolongada e brutal repressão.

Joaquim Gomes volta a ser preso em Dezembro desse ano, juntamente com Maria da Piedade, no Porto. Preso em Caxias, será conduzido para o Forte de Peniche e participará numa das mais espectaculares fugas das prisões fascistas.

O militante comunista que esteve até há pouco tempo entre nós, não era apenas aquele homem de carácter, profundamente humano e fraterno, corajoso e abnegado, era um homem perseverante que possuía ainda a serenidade dos combatentes de fortes e firmes convicções que se revelava quando era necessário enfrentar as condições mais adversas.

Revelou-o muitas vezes e, particularmente, na fuga do Forte de Peniche, em Janeiro de 1960, que protagonizou com mais nove camaradas, entre os quais Álvaro Cunhal. Fuga em que participou activamente na sua preparação, fazendo parte do organismo que a planeou e na superação das inesperadas e sérias contrariedades surgidas durante a fuga. Uma fuga que constituiu uma importante vitória do Partido e que muito vai contribuir para o reforço do seu papel na criação da situação revolucionária que se aproximava e do retomar da via do “levantamento nacional” para o derrube do fascismo.

Nos anos sessenta, esses anos do “Rumo à Vitória”, novas tarefas tomará em mãos. Este é um tempo de apontar novos caminhos, rectificar orientações, de desenvolvimento do movimento social de massas, visando um levantamento nacional contra o regime. Um tempo de crescimento e reanimação das forças democráticas. Um tempo marcado pelo ascenso da luta de massas. Um tempo em que se agudizam todas as contradições da ditadura.

Neste período, uma grande responsabilidade que toma é a tarefa que resulta da criação da Comissão Executiva do Comité Central de que Joaquim Gomes faz parte, então constituída para dar resposta aos problemas imediatos no interior do País, quando se tomou a decisão de salvaguardar a segurança do Secretariado, a partir do exterior. É Joaquim Gomes que faz a ligação do novo organismo ao Secretariado, num vaivém de passagens clandestinas na fronteira.

Retomará em diversos momento até ao 25 de Abril a responsabilidade por tipografias clandestinas, nomeadamente entre 1963 e 1965 e entre 1971 e 1974. Na actividade internacional integrará diversas delegações para conversações com partidos irmãos.

Quando o 25 de Abril chegou tinha também a seu cargo a responsabilidade da organização regional de Setúbal, acompanhando a partir dali, a organização do Alentejo.

Joaquim Gomes no seu percurso revolucionário assumiu as mais altas responsabilidades. Membro do Comité Central do PCP desde 1955, até ao XVI Congresso em 1996. Membro da Comissão Executiva, será depois membro do Secretariado e da Comissão Política até ao XIV Congresso, em 1992, altura em que foi eleito membro da Comissão Central de Controlo. Exerceu responsabilidades no âmbito das Comissões Administrativa e Financeira e do Património Central até ao fim da sua vida.

Participará nos mais importantes fóruns de decisão do Partido. É dele, sob o pseudónimo Ferreira, o informe ao V Congresso do PCP, sobre ”Os problemas da terra e a aliança da classe operária com os camponeses”. Participa e intervém no VI Congresso onde apresenta o Relatório sobre “os problemas de organização” e em todos os outros Congressos, enquanto foi membro da direcção do Partido.

Joaquim Gomes deu melhor de si à luta pelo derrubamento do fascismo e pela conquista da liberdade que chega com a Revolução de Abril.

Com a Revolução em marcha e no imediato assume a responsabilidade pela Direcção da Organização Regional do Oeste e Ribatejo que abrange os distritos de Leiria e Santarém e estará em todo o País, dando o seu contributo nas batalhas em defesa da Revolução nascente, das suas conquistas, da consolidação da democracia e depois na luta de resistência à ofensiva de recuperação capitalista e restauração monopolista. Numa fase posterior acompanhará também a D.O.R. de Setúbal.

Eleito deputado pelo Círculo Eleitoral de Leiria, logo em 1976 e até 1987 e ao mesmo tempo principal responsável por toda esta vasta Região, esteve sempre lá onde a vida o exigia e os problemas o convocavam, sempre solidário com as lutas dos trabalhadores, dos agricultores, das populações ou dando apoio ali onde surgia o novo pela acção dos trabalhadores ou do movimento popular, fosse nos campos do Ribatejo, onde a Reforma Agrária dava os primeiros passos com a formação de Unidades de Produção, nos portos de mar, onde a dinâmica do movimento cooperativo das pescas se afirmava com o envolvimento de centenas de pescadores, particularmente em Peniche, nas muitas empresas e nas inúmeras batalhas em defesa da produção e do emprego face ao boicote e sabotagem do patronato. Vimo-lo sempre atento, acompanhando directamente ou indirectamente as mais diversas e complexas situações, fossem as que resultavam da arrastada crise por que passou a cristalaria da Marinha Grande, procurando e incentivando à procura de soluções, fosse para responder aos atrasos e carências, com iniciativas de captação de investimento para o desenvolvimento regional.

No momento que evocamos a vida de Joaquim Gomes por ocasião do centenário do seu nascimento, não podemos deixar de lembrar a sua companheira de sempre, a mulher e revolucionária que foi Maria da Piedade Gomes, que no seu trajecto comum conhece a prisão e a violência policial fascistas que enfrenta com a dignidade e a coragem dos combatentes convictos e firmes. Funcionária do Partido clandestina durante 22 anos, com a sua saúde debilitada e a vida em perigo, é libertada em 1964 na sequência de uma campanha nacional e internacional de solidariedade. Libertada voltou à clandestinidade e ao trabalho militante que prosseguiu com grande dedicação até ao 25 de Abril de 1974 e depois continuou em tarefas de apoio ao Secretariado do Comité Central. De uma dedicação inexcedível, Maria da Piedade constitui uma referência e um exemplo da mulher comunista dedicada à causa revolucionária do seu Partido de sempre.

Joaquim Gomes deixou-nos em 20 de Novembro de 2010.

Modesto e discreto, Joaquim Gomes, era um patriota que serviu o seu povo e a sua pátria, mas orgulhoso de ser vidreiro, da sua Marinha Grande e da história heróica do seu povo, uma história que a sua vida de lutador incansável também dignificou.

Como salientou Álvaro Cunhal «as vidas dos revolucionários valem como sementes nas vidas dos povos». A melhor forma de homenagear e honrar a memória de Joaquim Gomes, e de tantos revolucionários comunistas, é continuar a luta pela qual deram o melhor de si e das suas vidas.

É continuar a luta pela afirmação e concretização de uma alternativa patriótica e de esquerda capaz de retomar os caminhos de Abril e reafirmar os seus valores e conquistas.

Homenagear e honrar a memória de Joaquim Gomes é continuar a luta por uma democracia avançada, parte integrante da luta pelo socialismo.

É levar cada vez mais longe e erguer cada vez mais alto o ideal da construção de uma terra sem amos, que Joaquim Gomes e Maria da Piedade Gomes abraçaram e dignificaram com uma vida de coerência, dignidade, de entrega desinteressada ao serviço de uma causa justa, neste Partido, com tudo o que ele comporta de aspiração, sonho e projecto por um mundo melhor.

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