«Façamos avançar as lutas dos povos de todo o mundo!»

Entrevista ao "Avante!" de uma responsável da Frente Sandinista de Libertação Nacional, Ruth Tapia Roq, Embaixadora da Nicarágua em França e em Portugal.

Desta sua primeira Festa do Avante! que impressões leva?

Estou encantada. Conheço um pouco a Europa, os partidos comunistas europeus, a Festa do L’Humanité. Mas a Festa do Avante! é especial. As pessoas estão aqui com convicção. Sente-se a energia colectiva dos militantes do PCP.

Qual a situação na Nicarágua, com o regresso da FSLN ao poder, em 2007, após 16 anos de governos da direita?

Encontrámos um país empobrecido. Um país onde a electricidade foi privatizada e havia pouca luz. O analfabetismo, reduzido nos anos 80 para 12%, chegou aos 22% com a direita, entre 1990 e 2006. A saúde estava praticamente privatizada. A educação também foi quase toda privatizada, as escolas públicas foram abandonadas. A Nicarágua estava muito pobre.

Quando regressámos ao poder, em 2007, tivemos de desmantelar o regime neoliberal que herdámos e isso não foi fácil. Um dos factores que nos ajudou foi termos aderido logo à ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da América), o que nos permitiu ter combustível. A Venezuela dava-nos petróleo, nós em troca dávamos alimentos.

Como se combate a pobreza, um objectivo do governo sandinista?

De várias formas. Por exemplo, nas zonas rurais, criámos programas para dar apoio a mulheres camponesas. Na Nicarágua, as mulheres são a maioria e muitas delas, mães solteiras, têm de educar sozinhas os filhos. Outro exemplo, na cidade. O Estado apoia as mulheres que queiram começar pequenos negócios de produção artesanal. Recebem um empréstimo, a juro zero, e mais tarde devolvem o capital.

Saúde e educação
são hoje gratuitas

Na saúde e na educação houve progressos?

Claro. A primeira coisa que o comandante Daniel Ortega assegurou quando regressou ao poder foi saúde e educação gratuitas. Fizemos um esforço para melhorar estas áreas. Na Nicarágua há pouca gente que desconta para a Segurança Social mas todos os cidadãos têm acesso à saúde pública. Isso já é uma realidade.

A mesma coisa se passa na educação. Temos programas de formação para professores, para melhorar a qualidade da escola pública. Há um esforço para que os alunos não abandonem precocemente o ensino. Por isso instituiu-se o pequeno-almoço e o almoço nas escolas. Assim, as crianças não têm de ir trabalhar para ajudar os pais pobres vendendo água ou guloseimas pelas ruas. Agora temos 100 por cento das crianças escolarizadas.

A saúde e a educação melhoraram muito, então…

Melhoraram, sim, mas continuamos a ser um país pobre. Não temos uma varinha mágica. Não desenvolvemos ainda o turismo porque as infra-estruturas hoteleiras não o permitem. O governo está a construir estradas, importantes para o comércio. A Nicarágua é um país de lagos e vulcões. Temos montanhas no Norte e, com as chuvas, há épocas em que os camponeses não conseguem levar os seus produtos, as viaturas não passam, a produção não pode ser transportada. Por isso, estamos a abrir novos caminhos.

Fala-se do canal que atravessará a Nicarágua e ligará o Atlântico ao Pacífico, num projecto com capitais chineses…

Temos em estudo vários megaprojectos e um deles é o Grande Canal Interoceânico da Nicarágua. Já está definido o traçado. Em Manágua estão a ser criadas condições para começar os trabalhos no final deste ano. Está previsto que o canal esteja pronto em 2020. Isso será a libertação para a Nicarágua porque trata-se de uma obra que vai desenvolver o país em todos os aspectos. É uma esperança.

«Estivemos sempre
a olhar para o Norte»

Quais são as perspectivas para a América Latina com a emergência, a par de Cuba socialista, de vários governos progressistas?

A América Latina vive hoje o seu melhor momento. As economias crescem. A Nicarágua tem um crescimento anual do PIB de 5%. Estamos economicamente estáveis e já não existem ditaduras. Com governos progressistas na Nicarágua, na Venezuela, na Bolívia, no Equador, combate-se a pobreza, embora persistam desigualdades sociais, como em toda a parte.

Foi criada a CELAC, a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos. Pela primeira vez na história de toda a nossa América criou-se uma organização que vai do México até à Patagónia. De fora só ficaram os Estados Unidos e o Canadá. Foi a primeira vez que todos os governos se puseram de acordo, independentemente da ideologia, independentemente de a Colômbia estar próxima dos Estados Unidos. Conseguimos perceber que entre nós temos tudo o que necessitamos. A América Latina tem petróleo, cobre, ferro, tem as riquezas bastantes para que sejamos países desenvolvidos. O problema é que estivemos sempre a olhar para o Norte. A CELAC coloca na agenda o que podemos fazer nós mesmos. É um esforço de integração importante. Por isso, as perspectivas são de esperança.

Acha importante a convergência de partidos comunistas e de outras forças revolucionárias e progressistas?

É essencial. Esta não é só uma luta do Partido Comunista Português em Portugal ou da Frente Sandinista na Nicarágua. É uma luta mundial. Temos de nos unir porque há um sistema que nos oprime, nos explora. Divididos somos fracos. Não podemos continuar com esse capitalismo selvagem que está a oprimir os povos. As forças progressistas de todo o mundo devem unir-se, o inimigo dos povos é o imperialismo. Não importa onde estamos, na América Latina ou na Europa, temos uma missão comum. Juntos, façamos avançar as lutas dos povos de todo o mundo!

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