«Os EUA não vão deixar a Ucrânia tão cedo»

Entrevista a Anatolii Kryvolapov, do Partido Comunista da Ucrânia - Avante Edição Nº2233  -  15-9-2016

Em conversa durante a Festa do Avante!, o editor-chefe do jornal do Partido Comunista da Ucrânia – ilegalizado pelas autoridades ucranianas –, Anatolii Kryvolapov, relatou ao Avante! a situação que se vive no país após o golpe de Estado de Fevereiro de 2014 e na sequência da instalação de uma junta governativa de cariz fascista no país.

O golpe de Estado instalou na Ucrânia uma junta governativa de cariz fascista. Qual é o ponto da situação?

A história dos acontecimentos dá-nos a ideia de quem são os actores e interesses em presença, e essa iniciou-se antes de 2014. Já em 2013, em algumas regiões da Ucrânia, as forças ditas nacionalistas começaram a ocupar sedes administrativas e depósitos de armas, incluindo alguns com mísseis terra-ar. Digo isto para que se perceba de onde veio e de onde vem, em parte, o armamento que as milícias fascistas detinham aquando do golpe de Estado de Novembro-Fevereiro de 2014, e aquele que hoje ainda conservam. Estimamos que no total tenham à sua disposição cerca de nove milhões de armas de fogo de vário tipo.
Nos acontecimentos de 2014 na [Praça] Maidan, participaram não apenas os grupos fascistas, que então se tornaram visíveis, mas igualmente uma parte da população que havia sido ganha para a oposição ao Governo, particularmente os jovens entusiasmados com a adesão à União Europeia. Tratava-se de camadas da população acicatadas pela campanha de ódio anticomunista, anti-semita, anti-União Soviética e anti-Rússia.
Para compreender os fenómenos actuais na Ucrânia, temos que regressar período em que clubes de fãs de futebol começaram a ser infiltrados por fascistas, os quais, por sua vez, conquistaram a juventude para o ideário [Stepan] Bandera (colaboracionista com a ocupação nazi da Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial e considerado o fundador do «nacionalismo» ucraniano).
Ao princípio, as autoridades, incluindo a FIFA, reagiram. Com o tempo, as manifestações fascistas nos estádios de futebol e fora deles foram aumentando, enquanto que a reacção das autoridades foi diminuindo. Começou-se a falar com insistência em grupos de jovens «nacionalistas», que recebiam treino militar na Polónia, nos estados do Báltico e nas regiões ocidentais da Ucrânia.
Eu testemunhei casos em que os graduados da polícia levavam agentes para longe da Maidan. Quando questionados, responderam-me que os milicianos na Maidan tinham balas e eles tinham apenas balas de borracha, Isto poucas horas antes dos confrontos que resultariam na queda do governo [de Victor Ianukovitch, a 21/22 de Fevereiro de 2014].
Não podemos esquecer, ainda, que o governo de Ianukovitch, antes da violência na Maidan, concordou e subscreveu os termos da trégua apresentados pela Polónia, Alemanha e França. Alguém não europeu ordenou a [Arseniy] Yatsenyuk (viria ser designado primeiro-ministro a 27 de Fevereiro de 2014) para não a cumprir o acordo, e este dirigiu-se à tribuna da Maidan e instigou à continuação da revolta armada.
Depois da fuga de Ianukovitch, o comando político-militar quebrou-se definitivamente. As tropas dispersaram e os golpistas, em particular Aleksandr Turchinov [do partido da ex-primeira-ministra Iulia Timochenko] tomou conta do poder (foi nomeado presidente interino a 22 de Fevereiro pelo parlamento numa «votação» tumultuosa). Começou então a dar ordens «oficiais» a Yarosh [Dmitry], líder dos paramilitares nazi-fascistas do Sector de Direita, a quem o novo poder abriu as portas porque estes os tinham ajudado a conquistar o poder.
O Sector de Direita foi mobilizado quase de imediato para o Donbass. Foram chamados a intervir a pretexto de a população local se recusar a falar ucraniano. Usaram-se argumentos insanos baseados numa alegada ameaça russa, os quais serviram para que a Ucrânia fosse destino de muitos milhões de dólares de «ajuda externa». Não esqueçamos que a Sra Victoria Nuland afirmou que os norte-americanos já haviam investido cerca de 5 mil milhões de dólares na «democratização» da Ucrânia. Um investimento destes conduz a uma conclusão: os EUA não vão deixar a Ucrânia tão cedo.
Depois sucedeu a questão da Crimeia...

Que marcou o envolvimento da Rússia nos acontecimentos...

Na Crimeia a Rússia tinha um efectivo militar igual ao da Ucrânia desde o desmembramento da URSS. Muitos militares ucranianos que estavam na Crimeia recusaram as ordens de mobilização de Kiev para outras regiões do país. Se recuarmos um pouco na história, percebemos que a Crimeia só passou a fazer parte da Ucrânia em 1954 por decisão de [Nikita] Khruchov.
O importante, no entanto, é que quando existia a URSS, a disputa da Crimeia [entre as repúblicas da Ucrânia e da Rússia] não fazia sentido. Foi somente depois da mudança de poder na Ucrânia e de os EUA avançarem com a possibilidade de instalarem lá bases ou um contingente militar, que a questão assumiu belicosidade.
Os dirigentes ocidentais querem ignorar que na Crimeia foi realizado um referendo, e que o seu resultado foi esmagadormente pela integração da península na Federação Russa. Sufrágio e processo que passaram por todos os trâmites legais.

Em seguida elevou-se o conflito nas regiões russófonas do Leste da Ucrânia, onde foram autoproclamadas repúblicas autónomas. Os combates foram entretanto interrompidos, mas mantém-se o impasse. Existe saída?

Se o acordo de Minsk tivesse sido cumprido por Kiev, o qual incluía o regresso das tropas da linha da frente, neste momento já estaríamos mais perto da paz. Ainda há tempo para que [os acordos de Minsk] se cumpram, embora os meios de comunicação social dominantes insistam que estão ultrapassados. Percebe-se porque o fazem.
Evidentemente que os EUA têm de estar dispostos a negociar. A julgar pelos acontecimentos dos últimos anos no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria e no Iémen, cujas consequências das guerras promovidas pelos EUA/NATO para aqueles povos e para a Europa estão à vista, é caso para nos manter-mos alerta e apreensivos.
Os EUA já têm bases de mísseis na Roménia, nos países do Báltico, na Polónia, e projectam a entrada da Ucrânia na NATO. Sejamos claros: por uma questão de segurança, a Federação Russa não pode nunca aceitar a possibilidade de os EUA/NATO instalarem mísseis nas regiões Leste da Ucrânia, por isso, para Moscovo, ceder [ao avanço dos EUA/NATO] não é uma opção.

Uma das medidas tomadas pelo governo golpista da Ucrânia foi a ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia (PCU). Em que ponto se encontra o processo?

A decisão de ilegalizar o PCU não é ainda definitiva. Claro que nos encontramos numa situação muito difícil. As milícias fascistas têm campo aberto para perseguir e agredir militantes e dirigentes do PCU. No plano judicial e da campanha de intoxicação da opinião pública, nos últimos dois anos assistimos à invocação dos mais diversos argumentos para a nossa ilegalização. Levantaram-nos mais de 400 processos. O director do nosso jornal, bem como vários dirigentes, foram presos.

Desde o derrube violento do governo ucraniano, em 2014, que o PCU alerta que a situação económica e social se tem vindo a agravar, designadamente após os acordos de «ajuda» celebrados com o FMI e a UE. Em que é que tal se traduz?

A Ucrânia deixou de poder vender os seus produtos agrícolas e algumas das terras mais produtivas da Europa estão a ficar abandonadas. Os que resistem, trabalham quase exclusivamente para se sustentarem.
O objectivo desta política é deixar essas terras livres para as multinacionais. Existem mesmo já alguns casos em que grandes empresas do agronegócio se apossaram de propriedades e constroem infra-estruturas antes mesmo de serem emitidas as licenças devidas. Existe mesmo quem promova que a exploração daquelas vastas áreas de território permitirá...acabar com a fome no mundo!
Nós, comunistas, sempre nos opusemos a processos vende-pátrias. Neste momento, essa oposição é mais difícil de concretizar e alargar.
Na indústria, estimamos que cerca de 20 por cento da capacidade instalada tenha sido já destruída, incluindo tecnologia de ponta. Para os EUA, a Ucrânia deve ser somente um país agrícola. Em várias cidades do Leste do país, grandes fábricas que empregam cerca de 50 mil operários e outros trabalhadores estão sob ameaça de encerramento. Por exemplo, a maior fábrica de automóveis da Europa.
Creio que isto permite-nos perceber não apenas o conflito no Leste da Ucrânia, mas também que o nosso país está sob ocupação dos norte-americanos e subjugado aos seus interesses.

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