Saúdo todos os presentes, e permitam-me uma palavra particular ao Marco Oliveira e à Ana Sofia Paiva.
Apresentamos hoje elementos estruturantes do programa das comemorações dos 90 anos do nascimento de José Carlos Ary dos Santos, «Poeta da Revolução».
Comemorações que são um dever e, acima de tudo, motivo de orgulho para o PCP.
Queremos e iremos afirmar e projectar Ary, o intelectual destacado, o militante de convicções inabaláveis, a qualidade e a actualidade da sua obra poética de grande sensibilidade humana, a intensidade política e identificação profunda com os anseios e as aspirações dos trabalhadores e do povo.
Escritor, artista, publicista, declamador, comunista, poeta de Abril.
Ary fez da escrita, da poesia, da arte uma arma de combate ao fascismo, Ary traduziu para a escrita esse poema maior que foi a Revolução de Abril, deu-lhe ainda mais vida, mais brilho, ainda mais poesia.
É verdade, e gostava de o sublinhar, que também muitos outros o fizeram, mas os seus poemas, a sua notável criatividade e sensibilidade humanas, a entrega e a paixão, a forma como colocou o seu imenso talento ao serviço dos ideais de justiça, liberdade e progresso social fazem de Ary dos Santos um dos mais importantes poetas portugueses da segunda metade do século XX, fazem de Ary dos Santos poeta de Abril.
Nascido a 7 de Dezembro de 1936, em Lisboa, Ary dos Santos, com 16 anos de idade, sai de casa e trabalha em diversas actividades para garantir o seu sustento.
Sobre esses anos difíceis diria, mais tarde, que, e passo a citar, «comecei a ganhar consciência de classe. Conheci pessoas, descobri amigos que me emprestaram livros, que falavam comigo, que me ajudaram a entender muita coisa, a compreender o mundo».
Fez muitas coisas do ponto de vista profissional, e como publicista deixou também a sua marca de extraordinária criatividade, de emoção que punha na palavra e uma enorme perspicácia.
Em 1954 é reconhecida a qualidade da sua escrita com a escolha de alguns dos seus poemas para a Antologia do Prémio Almeida Garrett.
Ary foi escritor com uma vasta obra publicada, foi poeta, foi letrista dando uma notável contribuição para a inovação da canção da música ligeira.
Autor de mais de 600 poemas, com muitos que ganharam vida na voz de nomes incontornáveis da música portuguesa como Carlos Mendes, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho ou Tonicha, foi também assim quando, em parceria com Nuno Nazareth Fernandes, concorre pela primeira vez ao Festival RTP da Canção, com a canção Desfolhada, interpretada por Simone de Oliveira.
Escreveu para grandes nomes do fado, para Amália Rodrigues, Beatriz da Conceição, Carlos do Carmo, José Manuel Osório ou Maria Armanda.
Foi poeta, escritor, letrista, declamador, publicista, comunista.
Adere ao PCP em 1969.
Participa na campanha da Comissão Democrática Eleitoral e intervém activamente nas sessões de poesia do intitulado Canto Livre Perseguido.
De norte a sul do País difundiu os ideais de liberdade, democracia e progresso social, usando como arma a força militante que punha em cada palavra, em cada poema, em cada declamação.
Foi chamado à PIDE, depois de uma sessão eleitoral na Marinha Grande, em 1969, para dar explicações “literárias” sobre o significado do poema que declamou.
A vigorosa actividade e o rasgo criativo e a profundidade política do gesto criador em Ary são inseparáveis.
Fica para a história a criação de A Bandeira Comunista em Agosto de 1975, o poema que Ary criou em meia hora e depois ditou ao telefone.
Um poema projectado no comício do PCP no Pavilhão dos Desportos, de afirmação do ideal comunista e repúdio à vaga de assaltos, incêndios e atentados que atingiram de forma particular os Centros de Trabalho do PCP, a partir de movimentos terroristas e contra-revolucionários.
Este exemplo, um dos muitos que pontuaram a vida do poeta e militante do PCP, ilustra a unidade indissolúvel da sua criação e a luta política na sua obra.
Ary tomou Partido.
Tomou Partido pelo Povo, pelos trabalhadores, pela soberania, tomou Partido por Abril, esse também seu Abril, tomou Partido pelo PCP, o seu Partido.
Aquando da sua morte, e de acordo com a sua vontade, estendeu-se sobre a sua urna a bandeira do Partido Comunista Português, a bandeira tantas vezes por ele declamada.
O seu funeral foi uma grande manifestação e uma justa homenagem de um povo sempre na pena, sempre na boca e sempre no coração de Ary.
Esse povo, protagonista da história, esse povo que Ary sentia como poucos, e em quem se inspirou a partir da forma de estar, da cultura, da palavra, da luta.
Este povo, este Portugal por si amado, a este País e a esta Lisboa a quem Ary deu voz, a quem fez cantar e cantou, a quem fez declamar e declamou, a quem deu mais vida e tanto viveu de forma intensa e apaixonada com tantos outros, essa Lisboa sua, também tão sua.
Só quem tem uma enorme sensibilidade humana, só quem tem a capacidade de viver a realidade da vida, os sentimentos, aspirações e vivências populares, estaria em condições, como Ary o fez, para escrever canções como Desfolhada, Menina do Alto da Serra, Tourada, Os Putos, Um Homem na Cidade, entre tantas outras, testemunho dessa dimensão humanista.
Ary é reconhecido pela sua obra duradoura, é lembrado de uma forma ampla em acções em vários locais do País.
A sua obra foi e continua a ser amplamente difundida, pelas Edições Avante!, e está presente com a sua força viva, quer na Festa do Avante!, quer em iniciativas do Partido por todo o País.
As comemorações do 90.º aniversário do nascimento de Ary dos Santos são para o PCP um privilégio e uma responsabilidade que assumimos com um imenso orgulho.
Levaremos a cabo até Maio de 2027 um vasto e amplo leque de iniciativas onde destacamos: a presença na 50.ª edição da Festa do Avante!; a realização de uma exposição; o lançamento de novas edições da sua obra; um conjunto de colóquios; e onde é ainda de destacar a realização de um concerto em Lisboa.
Não me atrevo nem arrisco a tentar adivinhar que palavras utilizaria hoje Ary para descrever a situação política, social e económica que vivemos em Portugal e no Mundo.
Mas arrisco afirmar que é possível imaginar a sua força e acutilância na denúncia de um País submisso e nas mãos e ao serviço dos grupos económicos.
Arrisco imaginar a sua indignação face às injustiças crescentes de uma sociedade com 300 mil crianças na pobreza e que ao mesmo tempo produz novos milionários.
Arrisco imaginar a determinação com que daria combate a uma realidade onde cada vez é mais difícil viver com baixos salários e pensões, onde o custo de vida aumenta, desde logo nos alimentos, e onde é cada vez mais difícil aceder ao Serviço Nacional de Saúde ou ter acesso a uma casa e onde a cultura é transformada em mercadoria e vendida como outro produto qualquer.
Arrisco a imaginar a forma mordaz como desmantelaria a demagogia, a mentira e a hipocrisia dos novos velhos charlatães, e denunciaria a loucura da guerra e do militarismo.
Arrisco imaginar a sua alegria, a paixão, o fervor, nas palavras que só ele encontraria para descrever, à sua maneira muito própria, a grandiosidade, a importância e significado social, político e ideológico da vitória da luta dos trabalhadores com a derrota do pacote laboral.
José Carlos Ary dos Santos – poeta, letrista, publicista, amigo, companheiro, camarada.
A sua obra não é passado, é deste presente que hoje constrói futuro.
As comemorações do seu nascimento são também um desafio, um desafio para recordar e reencontrar a sua obra mas, acima de tudo, são um desafio a todos e, em particular, às novas gerações para que conheçam e tomem como suas cada palavra, cada poema, cada rasgo de criatividade, cada rosto de expressão de entrega e paixão, um desafio para que tomem Partido, tomem nas suas mãos a militância e um ideal cuja bandeira subirá sempre mais alto.


