Tibete , a «Causa» e as causas

«Avante!» - Crónica Internacional de 29-11-2001
Carlos Aboim Inglez

Tivemos entre nós, uma semana, o sr. Kenzin Gyatso, mais conhecido pelo título do 14º Dalai Lama, numa das suas constantes itenerâncias pelo mundo, na condição de cabecilha do que resta da clique reaccionária e retrógrada tibetana, conluiada com o imperialismo para atacar a China pela via da mentira e do separatismo. Essa é a “Causa” do sr. Kenzin Gyatso, envolta no habitual blá-blá-blá de defesa dos “direitos humanos”, da religião, da “espiritualidade”, etc, etc. Ao seu papel de “estrela” do espectáculo junta-se o “coro” que vai do “amigo” Mário Soares ao desbragado João Jardim, mais o habitual casting de participantes mediáticos ignorantes ( ou não) da história e do presente do Tibete. O grande escândalo agora foi que tão alta figura como esta “Sua Santidade” não teve a recepção oficial dos órgãos supremos do Estado Português (PR, Governo, AR) – porque era uma visita particular. É bom que se saiba que nem hoje nem nunca, desde o século XIII, setecentos anos, nenhum Estado do mundo reconheceu o Tibete como Estado independente mas sim como parte integrante da China. Bem fez neste caso o Estado Português (e oxalá não ceda) não se prestando à farsa e decidindo segundo as normas habituais das relações entre estados soberanos, neste caso, Portugal e China. Os ignóbeis achincalhos produzidos recaem é sobre quem os proferiu.

Passam agora 50 anos sobre a libertação pacífica do Tibete, no seguimento da Revolução Chinesa, e em concordância com as negociações que levaram, em 23 de Maio de 1951, à assinatura do que ficou conhecido como o “Acordo dos 17 Artigos”. Com todas as eventuais duplicidades , foi este 14º Dalai Lama e o seu governo que deram assentimento, antes, durante e após, a esse Acordo, que regulava a integração pacífica do Tibete na China, e sua autonomia subordinada ao governo central da China, a manutenção do regime vigente no Tibete até à elaboração ulterior dos princípios da sua reforma democrática. Depois, o Exército Popular de Libertação da China chegou a Lhasa na presença deste Dalai Lama, em Outubro de 1951. É sabido também que este 14º Dalai Lama participou em 1954 na 1ª Assembleia Nacional Popular da China, que aprovou a 1ª Constituição da R.P. da China, e foi nesta eleito vice-presidente do seu Comité Permanente. É que em 1996 este mesmo Dalai Lama assumiu a Presidência do Comité Provisório encarregado da organização da Região Autónoma do Tibete. As relações entre o governo central e o governo local estavam, portanto, normalizadas.

Mas a facção mais reaccionária dos lamas, nobres e funcionários da clique do Dalai Lama estava alarmada com a ideia de que se tinham de definir também as normas da reforma democrática, conforme o acordado em 1951. O seu estatuto actual e futuro estava em causa, e essa facção pró - ocidental retomou a ofensiva agitando a bandeira separatista e religiosa. Apoiada pela CIA, fundou uma organização política e um “Exército de Defesa da Religião”, iniciando em 1956 ataques armados. Reagindo com prudência, o governo central propôs adiar a reforma, até que se chegasse a um acordo satisfatório sobre prazos e requisitos para a sua implantação. Mas a facção contra – revolucionária intensificou os ataques e, aproveitando-se de um festival religioso,

desencadeou uma insurreição a 10 de Março de 1959, mandou o Dalai Lama para a Índia e generalizou os conflitos. O Acordo de 1951 foi assim rompido. A guerra que se seguiu, entre 1959 e 1961, não foi entre dois países nem teve carácter religioso. Foi uma guerra civil entre duas coligações sociais. Dum lado, as forças imperialistas interessadas na divisão da China e os lamas e os nobres mais ricos empenhados na preservação do regime teocrático - feudal. Do outro lado, o governo popular central e os monges, nobres, escravos e servos comprometidos com a unidade da China e a reforma democrática do Tibete. Esta é a natureza social do conflito, as causas reais e não a “Causa” que move ainda o Sr. Kenzin Gyatso.

Seria esclarecedor dizer o que era o Tibete em 1951, o regime feudal-teocrático vigente, e o que é o Tibete hoje, após o começo da implantação da reforma democrática nos anos 60. O espaço não basta. Mas quem é que pode encher a boca com os “direitos humanos” – coisa que não existia pura e simplesmente no Tibete em 1951 – e a realidade do progresso social que, passados 50 anos, continua a desenvolver-se e a ampliar-se? A resposta verdadeira é inequívoca.

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