Socialismo é o futuro

Entrevista a luleki Dleçanga, líder da organização da Juventude do Partido Comunista Sul Africano, ao Avante! Edição Nº2233  -  15-9-2016

A revolução democrática nacional na África do Sul avançará e o país continuará a seguir uma orientação progressista. Mluleki Dlelanga, secretário nacional da Young Communist League (YCL), a organização da juventude do Partido Comunista da África do Sul (SACP), defende o reforço da unidade dos comunistas e de outras forças progressistas empenhadas no processo revolucionário.

Como tem evoluído a situação na África do Sul, no que diz respeito às transformações sociais depois do fim do apartheid, em 1994, em benefício dos trabalhadores e do povo?

A questão é interessante e nós colocámo-la em duas reuniões do comité central do SACP, em que procedemos a análises «dez/dez», fazendo um balanço dos últimos 10 anos e perspectivando os próximos 10.
Juntamente com o ANC (Congresso Nacional Africano) e a COSATO (Congresso das Uniões de Sindicatos Sul-africanos), o SACP desempenhou um papel fundamental no derrube do regime do apartheid, brutal e opressivo.
Durante o período do apartheid tivemos líderes excepcionais como Walter Sisulu, Oliver Tambo, o próprio Mandela foi comunista, Moses Kotane, Moses Mabhida, Joe Slovo, Chris Hani. E esses líderes construíram os alicerces de uma revolução na África do Sul e isso numa época em que não era fácil ser comunista…Temperado na luta anti-apartheid, que implicou enormes sacrifícios do povo, o SACP cresceu e é um partido do poder e partido de influência. Tanto na governação como nas comunidades é cada vez mais forte.
Entre 1950 e 1992, o SACP foi ilegalizado e perseguido pelo regime do apartheid. Hoje, tem sólidas estruturas, nós chamamos-lhes ramificações no terreno – nos locais de trabalho, nas comunidades, no Estado, nos meios políticos e económicos, na frente ideológica, no plano internacional.
Além de outras conquistas, o SACP participa da aliança tripartida liderada pelo ANC que governa o país. E, no 11.º Congresso, em 2002, foi restabelecida a YCL, que tinha sido banida com o partido, em 1950. Hoje, a Liga é a segunda maior formação política da juventude e o principal fórum de reflexão sobre questões juvenis da África do Sul. Contribuímos com novas ideias para a vida política e, assim, o SACP torna-se cada vez mais forte.
O partido está focado em programas de desenvolvimento dos trabalhadores, em particular da classe operária. Com a COSATO, o SACP procura concretizar as necessidades e as aspirações dos trabalhadores, consagrando os seus direitos.
As massas trabalhadoras vêem o Partido Comunista como a única esperança para enfrentar e vencer os enormes desafios que lhes são colocados – os desafios do desemprego, em especial dos jovens, da pobreza, da desigualdade.
 
Como avalia o SACP os resultados das eleições locais de 3 de Agosto e que medidas propõe para o reforço do partido e da aliança ANC-SACP-COSATO que governa a África do Sul?

Fizemos uma análise concreta das condições concretas em que se realizaram as recentes eleições locais.
Antes das eleições, dissemos que há problemas no ANC. Problemas de corrupção, de facciosismo, de bloqueio das decisões. Há um crescente anticomunismo no seio do ANC. E vimos que há um problema de distanciamento entre o governo e o povo. Depois das eleições, levantámos de novo essas questões, que o ANC deve analisar.
Durante o período eleitoral, tornou-se claro que a estratégia da nossa campanha era desadequada. Alguns membros do ANC e da COSATO não estão satisfeitos com a liderança do presidente Jacob Zuma e, influenciados pela propaganda liberal, foram atrás do que dizem os opositores em vez de adoptarem uma linha própria e clara. Os partidos da oposição tinham muito pouco a dizer sobre os problemas locais e, em vez disso, centraram a campanha nas deficiências – reais ou forjadas – da nossa liderança nacional.
Apesar de termos ganho as eleições, com 54 por cento, houve um recuo na votação do ANC a nível nacional e perdemos quatro municípios metropolitanos. A mensagem dos eleitores foi clara. Muitos dos nossos votantes não estão satisfeitos com o ANC.
O meu partido entende que, antes do congresso electivo do ANC, em Dezembro de 2017, devemos reunir uma conferência consultiva da aliança ANC-SACP-COSATO para discutirmos os problemas que enfrentamos e reforçarmos a unidade.
 
Como vê as alianças pós-eleitorais contra o ANC feitas pela Aliança Democrática (DA), de direita, com o partido Economic Freedom Fighters (EFF), «esquerdista», para governar municípios metropolitanos como Joanesburgo e Tshwane?

Importa dizer que o EEF não é um partido de esquerda. É um partido de mentirosos. Eles mentem quando usam a nossa cor, o vermelho, quando falam à esquerda e agem à direita. Eles são um bando de mercenários económicos que jogam com as emoções das pessoas pobres mas de noite fazem o oposto do que dizem de dia.
Não estamos surpreendidos com essas alianças, dissemos muitas vezes que eles não são de esquerda, são um partido de direita que usa as nossas cores. Não nos desiludem ao preferirem deitar-se na mesma cama da oposição de direita em vez de formarem uma coligação com o ANC.
Para nós, a DA e o EFF são duas faces da mesma moeda, ambos são de direita, apoiados pelo capitalismo e pelo imperialismo da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos.
 
Quais as grandes propostas políticas do SACP aos trabalhadores e ao povo sul-africano?

O nosso povo sofre ainda o problema do desemprego. Precisamos de uma efectiva estratégia nacional centrada no desenvolvimento e fortalecimento da juventude.
O povo exige terra e por isso deve haver uma rápida distribuição de terras pelo povo. O povo necessita de saúde de qualidade e isso deve ser resolvido com celeridade. O nosso povo tem de formar as suas próprias cooperativas. O nosso povo, uma parte dele, ainda não tem água corrente, electricidade, habitação condigna e isso deve ser resolvido. O nosso povo deve ter educação gratuita.
Essas são as nossas principais propostas. Tudo isso implica o aprofundamento da revolução democrática nacional. O objectivo é o socialismo, lutamos por uma África do Sul socialista.
Vamos continuar a trabalhar pela unidade nas comunidades e nos locais de trabalho, pela unidade na COSATO, porque só com uma forte organização dos trabalhadores e com o SACP construiremos uma África do Sul socialista.

Como perspectiva o SACP a África do Sul nos próximos tempos?

Uma revolução sofre alguns reveses. Os revolucionários compreendem que a revolução não se faz em linha recta, ela tem avanços e recuos. Na África do Sul, o recuo da revolução conduzida pela nossa tripla aliança é momentâneo. Com os trabalhadores e o povo, derrotaremos a direita e avançaremos mais.
O socialismo é o futuro. Estou certo de que a nossa revolução avançará. A África do Sul continuará a ser um país progressista, a caminho do socialismo. E, como dizem os camaradas da Frelimo, em Moçambique, a luta continua!

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