&quot;O &laquo;Público&raquo; e o &laquo;DN&raquo;&quot;<br />Vítor Dias no &quot;Semanário&quot;<span class="data">

7 de Novembro de 2003Por razões de calendário, já tínhamos decidido deixar passar em claro o arrebatador desvelo, a comovente preocupação e as envenenadas farpas dirigidas a terceiros com que o “Público” acompanhou a nomeação de Fernando Lima para director do “Diário de Notícias”. Acontece porém que Joaquim Fidalgo, na edição de 5/11, ou seja dez dias depois de Ana Sá Lopes já ter perpetrado uma infeliz crónica sobre o assunto, resolveu voltar ao assunto deixando no ar as seguintes perguntas : “Que políticos se levantaram a questionar a nomeação de um jornalista quase directamente das assessorias governamentais para a direcção de um jornal diário de facto (mesmo que não de direito) público? Acharam que não lhes dizia respeito? Não lhes interessou estrategicamente? Ou pesa-lhes, a todos os partidos, alguma coisa na consciência ?”. Como atrás aludimos, em 26/10, tinha sido Ana Sá Lopes a ser mais explicita no alvo, ao escrever, logo no primeiro parágrafo da sua crónica dominical que “eu percebo que o PCP não tenha reagido ao anúncio da nomeação de Fernando Lima, ex-assessor do ministro dos Negócios Estrangeiros Martins da Cruz para director do “Diário de Notícias”. É em nome da mesmíssima liberdade de imprensa que o PCP nomeou José Saramago, em 1975, para a direcção do mesmíssimo «Diário de Notícias».” Para que os leitores possam avaliar como funciona o preconceito, recorde-se então que, contactado pelo «Público» (curiosamente o único órgão de informação que pediu comentários aos partidos), de facto o PCP não comentou aquela nomeação, sendo porém indispensável acrescentar que, como a própria Ana Sá Lopes bem sabia porque o “Público” o noticiou em 25/10, também o Partido Socialista não emitiu nenhum comentário oficial sobre este assunto. Isto significa que Ana Sá Lopes, com a mesma falta de rigor, bem podia ter arrancado a sua crónica sentenciando que “eu percebo que o PS não tenha reagido ao anúncio da nomeação de Fernando Lima, ex-assessor do ministro dos Negócios Estrangeiros Martins da Cruz para director do «Diário de Notícias». É em nome da mesmíssima liberdade de imprensa que o PS nomeou, em 1974, Ribeiro dos Santos e José Carlos de Vasconcelos ou, em 1975, Victor Cunha Rego e Mário Mesquita para a direcção do mesmíssimo «Diário de Notícias»”. Mas não foi isso que fez pela simples razão de que em certos espíritos há sempre um carinho especial pelo PCP. Tirando esta observação, talvez haja mais cinco anotações que valha a pena fazer a respeito deste desvelo e inquietação do «Público» perante a mudança de direcção no “DN”. A primeira é que toda a gente percebe que o “Público” se move apenas por apego a critérios de independência dos “media” e nada por razões de concorrência, pois como todos sabemos o «Público» é um semanário dedicado aos espectáculos e o “DN” um mensário dedicado aos automóveis. A segunda é que não consta que, quando o eng. Belmiro de Azevedo decidiu substituir Vicente Jorge Silva por José Manuel Fernandes, o próprio “Público” (ou mesmo o “DN”) tenham procurado obter qualquer comentário do PCP ( ou de outros partidos) a essa nomeação. A terceira é que, tanto quanto a memória nos ajuda, não nos recordamos de o PCP, pelo menos desde há muito tempo, ter comentado a nomeação de directores de órgãos de informação que, de facto, são privados, embora o “Público” só para este efeito considere a PT uma empresa pública. A quarta é que, sendo nada apropriada e muito criticável a passagem directa de assessor governamental para director do “DN”, é querer tapar o sol com uma peneira insistir, como faz o “Público”, apenas nesse enfoque, talvez na esperança de que nos esqueçamos que o actual director do «Público» não transitou de nenhuma assessoria governamental e, no entanto, desde há cerca de ano e meio que escreve textos e editoriais que representam uma persistente doutrinação ideológica altamente coadjuvante dos eixos essenciais da política do Governo PSD-CDS/PP. E a quinta, e última, é que nestes domínios não pomos as mãos no fogo por ninguém, mas teria a sua graça se, desmentindo certos esquematismos, alguém partidariamente conotado com o PSD, até por assim ser visto e escrutinado, viesse futuramente a estar mais condicionado em atitudes de claro enfeudamento ao governo do que alguns que fazem gala da sua vistosa etiqueta de “independentes”.

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