&quot;Memória (2)&quot;<br />Ruben de Carvalho no &quot;Diário de Notícias&quot;

Há no Livro de Eduardo Gageiro Lisboa no Cais da Memória várias fotografias já familiares aos nossos olhos, parte da memória não apenas da cidade, mas das nossas próprias recordações.Uma delas é para mim inseparável de um dos mais apaixonados períodos do ofício, os anos 60 na Vida Mundial e no Século Ilustrado, duas minúsculas redacções onde se trabalhava muito e nos divertíamos ainda mais. Gageiro fez para o SI uma extensa reportagem da construção da Ponte 25 de Abril, com imagens que passaram à história. Mas uma acabou em retrato do ambiente d’O Século de então, afixada durante meses no painel da redacção: a do solitário operário ajoalhado sobre a grelha que constitui o tabuleiro da ponte, olhando para alguma imperfeição, com o rio lá em baixo.O especial talento da Adriano Carvalho para uma paródia em que então nos especializáramos, as «fotofofocas», legendas e «balões» de banda desenhada nas fotos que o Gageiro e os irmãos Baião traziam, a ela apôs um genial «balão de pensamento»: «as minhas ricas cinco cr’oas». E alguém devia também acrescentar à fotografia de Amália neste cais da memória, hierática e deslumbrante sacerdotisa de negro frente às deslumbradas e descalças crianças, o ensaio de antropologia que só por si ela é.

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