Karl Marx - II Centenário do Nascimento - «Legado, Intervenção, luta. Transformar o Mundo»

«Com a elaboração dos fundamentos do materialismo dialéctico e do materialismo histórico, com as suas descobertas no domínio da filosofia e da economia, Marx, em estreita colaboração com Engels, deu à classe operária, aos povos, a todas as forças do progresso, um poderoso instrumento de análise e uma arma de luta e combate.»

Álvaro Cunhal na Conferência Internacional «Karl Marx e o nosso tempo», 1983

«O proletariado da Europa pode dizer que a sua ciência foi criada por dois sábios, dois lutadores, cuja amizade ultrapassa tudo o que de mais comovente oferecem as lendas dos antigos.»

V. I. Lénine, «Friedrich Engels», 1895

  • Nascimento de Karl Marx em Trier, na província renana da Prússia, filho do advogado Heinrich Marx e de Henriette Pressburg.

  • Nascimento de Friedrich Engels, em Barmen, na província renana da Prússia, filho do industrial têxtil Friedrich Engels e de Elisabeth van Haar.

  • Marx faz os estudos secundários no Liceu Friedrich-Wilhelm, em Trier.

  • Inscreve-se na Faculdade de Direito da Universidade de Berlim, tornando-se em breve membro do Clube dos Doutores, que agrupava os Jovens-Hegelianos.

  • Marx empreende o estudo aprofundado da filosofia hegeliana.

  • Marx estuda a história da filosofia, sobretudo a da Antiguidade.

  • A Universidade de Iena confere-lhe o título de doutor em filosofia. Título da sua tese de doutoramento: Diferença da Filosofia da Natureza de Demócrito e Epicuro.

  • Faz a sua primeira intervenção como publicista com o artigo «Observações sobre o mais recente decreto prussiano sobre a censura» em que critica o regime feudal e monárquico da Prússia.

  • Colabora na Rheinische Zeitung [Gazeta Renana], onde defende os interesses «da massa pobre, política e socialmente sem posses».

  • Marx torna-se chefe de redacção da Gazeta Renana. Nos seus artigos esboça-se a passagem do idealismo para o materialismo, da democracia revolucionária para o comunismo.

  • Primeiro encontro de Marx e Engels que, dirigindo-se para Inglaterra, visita a redacção da Gazeta Renana em Colónia.

  • Em virtude das perseguições policiais que tornam impossível a publicação da Gazeta Renana, Marx é obrigado a retirar-se da revista.

  • Estada em Kreuznach. Redige o artigo «Para a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel», cujo manuscrito inacabado será publicado pela primeira vez em 1927 na União Soviética. Dada a impossibilidade de conduzir uma acção revolucionária na Alemanha, Marx decide instalar-se em França.

  • Casa com Jenny von Westphalen.

  • Marx e a mulher chegam a Paris. Ao mesmo tempo que estuda a história da Revolução Francesa do final do século XVIII, as obras dos socialistas utópicos e dos economistas ingleses e franceses, Marx frequenta reuniões de operários e entra em contacto com a Liga dos Justos.

  • Publica-se o número duplo da revista Deutsch-Französischen Jahrbüchern [Anais Franco-Alemães]. Os artigos de Marx — «Para a Questão Judaica» e «Para a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Introdução» — traduzem a passagem definitiva para o materialismo e o comunismo.

  • Marx trabalha nos Manuscritos Económico-Filosóficos.

  • Encontro em Paris de Marx e Engels, início da sua grande amizade e colaboração. Empreendem a escrita da sua primeira obra comum: A Sagrada Família, ou Crítica da Crítica Crítica. Contra Bruno Bauer e Consortes.

  • Expulso de França por pressão do governo prussiano, Marx vai para Bruxelas, aonde se lhe vai juntar em breve a sua família.

  • É publicada em Frankfurt am Main A Sagrada Família, na qual Marx e Engels expõem os fundamentos de uma concepção do mundo materialista e revolucionária.

  • Marx redige as Teses sobre Feuerbach que Engels considerará «o primeiro documento onde está consignado o germe genial da nova visão do mundo».

  • Deixando Barmen, Engels junta-se a Marx em Bruxelas.

  • Marx e Engels fazem uma viagem a Inglaterra e estabelecem contactos, em Londres, com os dirigentes do cartismo e com os dirigentes londrinos da Liga dos Justos.

  • Marx e Engels começam a redigir a A Ideologia Alemã, na qual se encontram elaborados os princípios do materialismo histórico e criticadas as concepções filosóficas de Feuerbach, Bauer, Stirner e dos «socialistas verdadeiros». Terminada no verão de 1846, esta obra, por causa da censura, não será publicada na Alemanha, só virá a ser editada pela primeira vez em 1932 na União Soviética.

  • As constantes perseguições policiais levam Marx a abandonar a cidadania prussiana.

  • Marx e Engels fundam o Comité de Correspondência Comunista de Bruxelas, preparando o terreno para a criação de uma organização proletária internacional.

  • É aprovada pelo Comité de Correspondência Comunista de Bruxelas a «Circular contra Kriege» na qual Marx e Engels criticam as prédicas sentimentais dos «socialistas verdadeiros».

  • Marx e Engels aceitam o convite do Comité londrino da Liga dos Justos, por intermédio de J. Moll, para aderirem à Liga e colaborarem na sua reorganização e elaboração de um programa.

  • Marx escreve a Miséria da Filosofia. Resposta à «Filosofia da Miséria» do Sr. Proudhon, considerada por Lénine uma das «primeiras obras do marxismo maduro».

  • Realizou-se em Londres o Congresso da Liga dos Justos em que participou Engels (Marx não pôde estar presente por razões económicas). A Liga foi reestruturada e passou a designar-se por Liga dos Comunistas e adoptou a nova divisa formulada por Marx e Engels: «Proletários de todos os países, uni-vos!».

  • Por iniciativa de Marx é fundada em Bruxelas uma secção da Liga dos Comunistas.

  • Marx e Engels tomam a iniciativa de criar em Bruxelas uma Associação Operária Alemã, reunindo sobretudo os proletários emigrados.

  • Marx e Engels colaboram na Deutsche Brüsseler Zeitung [Gazeta Alemã de Bruxelas], que foi de facto o órgão da Liga dos Comunistas.

  • Marx é eleito vice-presidente da Associação Democrática de Bruxelas que reúne revolucionários operários e democratas burgueses e pequeno-burgueses.

  • Segundo Congresso da Liga dos Comunistas em Londres. Marx e Engels tomam parte activa nos trabalhos. O Congresso encarrega-os da elaboração do programa da Liga e aprova os Estatutos.

  • Marx faz conferências na Associação dos Operários Alemães de Bruxelas sobre economia política, intituladas mais tarde Trabalho Assalariado e Capital.

  • É publicado em Londres o Manifesto do Partido Comunista, obra comum de Marx e Engels, primeiro documento programático do marxismo.

  • Marx e a sua mulher são presos pela polícia de Bruxelas e libertados 18 horas depois. Marx e a família deixam a Bélgica e vêm para França onde, coincidindo com a publicação do Manifesto, eclodira a revolução democrática burguesa. A luta nas barricadas em Paris conduziu à proclamação da República.

  • Chegado a Paris, Marx, ao mesmo tempo que procura formar uma nova Autoridade Central da Liga dos Comunistas, combate os projectos aventureiristas de «exportar a revolução» dos dirigentes pequeno-burgueses da emigração alemã em Paris.

  • Marx e Engels redigem as Reivindicações do Partido Comunista na Alemanha, plataforma política da Liga dos Comunistas face ao desencadear da revolução na Alemanha.

  • Marx e Engels vão para a Alemanha para participarem directamente nos acontecimentos revolucionários.

  • Publicação em Colónia do primeiro número da Neue Rheinische Zeitung [Nova Gazeta Renana. Órgão da democracia], de que Marx é o chefe de redacção e Engels um dos redactores.

  • Marx publica na Nova Gazeta Renana o artigo «A Revolução de Junho» relativo à insurreição do proletariado parisiense.

  • A Nova Gazeta Renana convoca, para organizar a resistência à contra-revolução, uma assembleia popular em Colónia que elege um Comité de Segurança de que fazem parte Marx e Engels.

  • Marx publica uma série de artigos: «Burguesia e contra-revolução», nos quais analisa os traços específicos e as principais etapas da revolução na Alemanha.

  • A Nova Gazeta Renana e sobretudo Marx são alvo de processos judiciais por ultraje às autoridades. Marx e Engels defendem o jornal assim como a liberdade de imprensa na Alemanha. Foram pronunciadas sentenças de absolvição.

  • A Nova Gazeta Renana publica Trabalho Assalariado e Capital, de Marx.

  • As autoridades prussianas expulsam Marx e a justiça persegue Engels pela sua participação no levantamento de Erberfeld.

  • Publicação do último número da Nova Gazeta Renana impresso a vermelho. Marx e Engels dirigem-se para a Alemanha do Sudoeste onde a revolução não se tinha extinguido e tomam parte na insurreição do Baden-Palatinado.

  • De novo em Paris, Marx luta contra a incapacidade da democracia pequeno-burguesa de encabeçar o combate das massas populares que mata no ovo a tentativa de levantamento.

  • As autoridades francesas ordenam a Marx abandonar Paris em 24 horas.

  • Marx chega a Londres, onde a família se juntará a ele em 17 de Setembro. Aí, reconstitui o órgão dirigente da Liga dos Comunistas e organiza o Comité de ajuda aos emigrados alemães.

  • Engels chega a Londres.

  • Marx e Engels redigem a Mensagem da Direcção Central à Liga dos Comunistas. Março 1850, na qual tiram as lições da luta do proletariado na revolução passada e traçam o programa da sua acção no futuro.

  • A Neue Rheinisch Zeiung. Politisch-ökonomische Revue [Nova Gazeta Renana. Revista Político-Económica] começa a publicação de uma série de artigos de Marx sob o título «De 1848 a 1849», mais tarde publicados por Engels com o título As Lutas de Classes em França de 1848 a 1850.

  • Marx entrega-se aos seus trabalhos de economia política.

  • Chegada de Engels a Manchester como empregado da casa «Ermen e Engels», o que lhe permite prestar uma ajuda regular à família de Marx.

  • Marx e Engels iniciam a sua colaboração nos jornais cartistas Notes to the People [Notas para o Povo] e The People’s Paper [O Jornal do Povo].

  • Marx e Engels começam a escrever no jornal progressista americano New-York Daily Tribune [Tribuna Diária de Nova Iorque].

  • Marx redige O 18 Brumário de Louis Bonaparte.

  • Marx redige o folheto Revelações sobre o Processo dos Comunistas de Colónia, no qual põe a nu as manobras e falsificações da polícia e dos poderes judiciários da Prússia.

  • Marx publica em The People’s Paper uma série de artigos sob o título «Lord Palmerston», em que satiriza o famoso político inglês.

  • Marx publica uma série de artigos sobre «A Espanha revolucionária» no New-York Daily Tribune.

  • Marx publica artigos sobre a guerra na Crimeia e sobre a situação económica e política em França e na Inglaterra no jornal democrático Neue Oder-Zeitung [Nova Gazeta do Oder].

  • Marx dedica-se a fazer a síntese dos seus trabalhos de economia, procurando sobretudo acabar a sua obra de economia política para armar o proletariado com o conhecimento das leis económicas do desenvolvimento social.

  • Colabora em The New American Cyclopaedia [ ANova Enciclopédia Americana].

  • Marx publica em Berlim a sua obra Para a Crítica da Economia Política (primeiro fascículo).

  • Marx e Engels procuram elucidar a teoria revolucionária e a táctica do proletariado no jornal O Povo.

  • Face aos ataques caluniosos contra o partido proletário Marx empreende a redacção de «O Senhor Vogt».

  • É publicado em Londres o panfleto «O Senhor Vogt» em que Marx o denuncia como lacaio da burguesia.

  • Marx trabalha no manuscrito comportando todas as partes do futuro O Capital, incluindo a da crítica histórica: Teorias acerca da Mais-Valia.

  • Marx redige uma nova versão de O Capital, insistindo nos problemas que constituirão os volumes II e III.

  • Fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (I Internacional) na reunião pública de Saint-Martin’s Hall, em Londres. Marx é eleito para o Comité Provisório, futuro Conselho Geral.

  • Marx redige a Mensagem Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores e os Estatutos Provisórios da Associação, documentos programáticos da Internacional.

  • Marx profere conferências nas reuniões do Conselho Geral da I Internacional, que serão publicadas mais tarde com o título Salário, Preço e Lucro.

  • Primeira conferência da I Internacional em Londres, em que Marx participa activamente.

  • Marx trabalha na versão definitiva do livro I de O Capital.

  • Marx redige as Instruções para os Delegados do Conselho Geral Provisório. As Diferentes Questões, destinadas aos participantes no Congresso da I Internacional a realizar em Genebra em 3-8 de Setembro

  • Publicação do Livro I de O Capital, obra económica fundamental de Marx.

  • Engels escreve várias resenhas de O Capital para a sua melhor difusão.

  • Marx retoma os manuscritos económicos anteriores a 1865.

  • O Congresso da I Internacional reunido em Bruxelas aprova uma resolução aconselhando os operários de todos os países a estudarem O Capital de Marx.

  • Fundação em Eisenach do Partido Social-Democrata da Alemanha.

  • É publicado em Leipzig o primeiro número de Der Volksstaat [O Estado Popular], órgão central do Partido Operário Social-Democrata da Alemanha em que colaboram Marx e Engels.

  • Por iniciativa de Marx, o Conselho Geral da I Internacional debate o movimento de libertação nacional da Irlanda.

  • A propósito das questões ligadas à propriedade fundiária Marx decide estudar profundamente as obras económicas russas e põe-se a aprender russo.

  • Marx redige, a pedido do Conselho Geral, a «Primeira Mensagem do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores sobre a Guerra Franco-Prussiana».

  • O Conselho Geral aprova a «Segunda Mensagem do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores sobre a Guerra Franco-Prussiana» escrita por Marx.

  • Engels é eleito por unanimidade para o Conselho Geral da I Internacional. Assumirá em seguida as funções de secretário-correspondente para a Bélgica, Itália, Espanha, Portugal e Dinamarca.

  • Marx e Engels organizam importantes manifestações de trabalhadores a favor da Comuna de Paris, estão em contacto permanente com a Comuna, prestam ajuda aos seus membros e organizam uma vasta campanha de apoio.

  • Marx redige A Guerra Civil em França, apelo do Conselho Geral da I Internacional e por ele aprovado, no qual mostra o alcance histórico e universal da Comuna de Paris enquanto primeira tentativa de instauração da ditadura do proletariado.

  • Conferência da I Internacional em Londres na qual Marx e Engels, partindo da experiência da Comuna de Paris, demonstram a necessidade da acção política da classe operária e da criação de um partido proletário independente em cada país.

  • O Conselho Geral da I Internacional aprova a circular de Marx e Engels sobre «As pretensas cisões na Internacional», na qual denunciam as intrigas e as actividades fraccionistas dos adeptos de Bakúnine no seio da I Internacional.

  • Publicação da tradução russa do Livro I de O Capital, a primeira desta obra em língua estrangeira.

  • É publicada, em nove fascículos, a segunda edição alemã do Livro I de O Capital.

  • Marx e Engels participam nos trabalhos do Congresso da I Internacional na Haia. O Congresso decide transferir para Nova Iorque a sede do Conselho Geral de acordo com a proposta subscrita por Marx e Engels.

  • Marx envia para a Alemanha as suas notas críticas ao projecto de programa do futuro partido operário alemão unificado, que Engels publicaria em 1891 com o título Crítica do Programa de Gotha.

  • Marx trabalha no X capítulo da segunda parte do livro de Engels Anti-Dühring.

  • Marx prossegue as investigações sobre a análise matemática iniciadas nos anos 1860.

  • Marx estuda agroquímica e geologia.

  • Marx prossegue as suas investigações de economia política, estudando obras russas e americanas.

  • Marx e Engels dirigem uma «Circular» a Bebel, Liebknecht, Bracke e outros dirigentes da social-democracia alemã para criticar o oportunismo e a atitude conciliatória em relação a ele.

  • Aparece em Zurique o primeiro número de Der Sozial-Demokrat [O Social-Democrata], órgão dos sociais-democratas alemães que prosseguem o seu combate na clandestinidade. Marx e Engels colaboram nele.

  • Marx estuda a renda da terra e as relações agrárias em geral.

  • Marx trabalha nos livros II e III de O Capital.

  • Marx redige um «Questionário para os operários» destinado à Revue socialiste [Revista Socialista].

  • Marx escreve uma nota biográfica de Engels — que considera «um dos mais eminentes representantes do socialismo contemporâneo» — como introdução a uma edição em separado de três capítulos do Anti-Dühring, em francês, com o título Socialisme utopique et socialisme scientifique.

  • Marx estuda o desenvolvimento económico e social da Rússia depois da abolição da servidão.

  • Marx e Engels redigem um prefácio à edição russa do Manifesto do Partido Comunista no qual afirmam que a «Rússia forma a vanguarda da acção revolucionária na Europa».

  • Marx estuda Química Orgânica e Mineral.

  • Morte de Marx em Londres.

Karl Marx, uma vida ímpar

Filósofo, economista, historiador, sociólogo, jornalista, político: qualquer biografia de Karl Marx apresenta uma ou várias destas dimensões. Mas porque são todas verdadeiras, é justo afirmar que se trata de uma vida ímpar. Não por ser um homem predestinado, antes porque soube estar à altura das circunstâncias do seu tempo.

Karl Marx, uma vida ímpar

Karl Marx nasceu a 5 de Maio de 1818, em Trier. Aos 17 anos terminou o liceu com uma dissertação intitulada Reflexões de um jovem perante a escolha de uma profissão, cuja conclusão acabará por nortear toda a sua vida: «Se escolhermos uma profissão em que possamos trabalhar ao máximo pela humanidade, não nos poderemos dobrar sob o seu peso porque ele apenas será um sacrifício por todos; não fruiremos, então, uma alegria pobre, limitada, egoísta, mas a nossa felicidade pertencerá a milhões».

Alcançou o título de doutor em Filosofia, mas depressa descobriu que as suas ideias progressistas não tinham lugar nas universidades prussianas. Encontrou espaço na imprensa, assumindo nos seus textos a defesa dos interesses das massas trabalhadoras, mas a repressão por parte do governo prussiano reaccionário obrigou Marx a partir para Paris (na primeira de várias expulsões de que foi alvo), depois de se casar com Jenny von Westphalen, companheira de toda uma vida.

Na capital francesa esteve ligado aos mais destacados dirigentes do movimento operário e começou a trabalhar com Friedrich Engels, com quem desenvolveu uma fecunda colaboração e profunda amizade. A proximidade dos seus pontos de vista na análise da sociedade capitalista, e o estudo intenso dos mais avançados pensadores na filosofia, na história, na economia política, fez com que nos legassem uma gigantesca obra científica e revolucionária.

Conscientes do papel decisivo das massas e da classe operária no decurso da história, Marx e Engels participaram em várias reuniões tendo em vista a organização dos trabalhadores. Foi nesse contexto que nomeadamente escreveram o Manifesto do Partido Comunista, que lançou as bases do socialismo científico, e que participaram na fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores — a I Internacional.

A 14 de Março de 1883, vencido pela doença que o atormentava havia anos, Marx, esse homem cujo grande objectivo de vida foi a luta pela emancipação da classe operária, morreu na sua residência, em Londres.

«O proletariado da Europa pode dizer que a sua ciência foi criada por dois sábios, dois lutadores, cuja amizade ultrapassa tudo o que de mais comovente oferecem as lendas dos antigos.»

V. I. Lénine, «Friedrich Engels», 1895

Interpretar o mundo

Partindo do melhor que se vinha produzindo no pensamento mais avançado da época — particularmente na filosofia alemã, na economia política inglesa e no socialismo francês —, Marx elaborou uma doutrina que mantém hoje toda a sua validade. Com ele, emerge uma nova forma de ver o mundo, o homem e a Natureza.

Interpretar o mundo

Marx cresceu num meio de intensos debates filosóficos e trilhou o seu caminho, tirando conclusões de uns e de outros e desenvolvendo o seu próprio pensamento.

Antes de Marx, a história era entendida como uma sucessão de acontecimentos políticos, de grandes batalhas e de homens prodigiosos — hoje continua a existir quem olhe para o passado dessa forma.

A concepção marxista da história, o materialismo histórico, considera que são os homens que fazem a história, mas fazem-na tendo como primeira condição a produção e reprodução da sua vida material. Essa é a base da sua vida espiritual. Nas palavras de Marx, «não é a consciência dos homens que determina o seu ser mas o seu ser social que determina a sua consciência».

Para satisfazer essa primeira condição, os homens precisam de dividir o trabalho entre si, pois cada um sozinho não consegue satisfazer todas as suas necessidades. Essa divisão do trabalho leva a relações de produção entre si, relações essas que têm uma natureza histórica, pois foram, ao longo dos séculos, sendo transformadas.

A sociedade que se dividia entre escravos e donos de escravos deixou de existir para dar lugar a uma sociedade que se dividia entre servos e senhores das terras, que também ela deixou de existir para dar lugar a uma sociedade fundamentalmente constituída por operários e capitalistas.

O lado em que cada um se encontra não é fruto de uma escolha individual, antes resulta do lugar que ocupa em relação aos meios de produção. E isso determina a classe a que pertence.

Em cada momento, cada classe tem interesses particulares que se opõem aos das outras. A esse confronto dá-se o nome de luta de classes, e ela está na base de todas as transformações da história.

«Com a elaboração dos fundamentos do materialismo dialéctico e do materialismo histórico, com as suas descobertas no domínio da filosofia e da economia, Marx, em estreita colaboração com Engels, deu à classe operária, aos povos, a todas as forças do progresso, um poderoso instrumento de análise e uma arma de luta e combate.»

Álvaro Cunhal na Conferência Internacional «Karl Marx e o nosso tempo», 1983

Transformar o mundo

Nos séculos XVIII e XIX, ao depararem-se com as alterações cada vez mais aceleradas da sociedade, foram aparecendo, particularmente nos países mais avançados da Europa — a Inglaterra, a França e a Alemanha — novas ideias que ambicionavam instituir uma vida mais justa e igualitária.

Transformar o mundo

Com as modificações operadas pela revolução industrial, no plano económico, e com a revolução francesa de 1789, no plano político, as lutas de classes trouxeram-nos até à sociedade capitalista. Suprimiram--se velhas formas de exploração, retirou-se o poder à nobreza e consolidou-se o poder da burguesia, a classe que se caracteriza por ser proprietária dos meios de produção — as matérias-primas, as máquinas, as fábricas, as redes de transporte.

Os trabalhadores foram actores destacados na construção da nova sociedade, mas depressa verificaram que a consigna Liberdade, Igualdade, Fraternidade não era para seu proveito. Pelo contrário, a nova sociedade trazia novas formas de exploração e opressão.

O sonho colectivo de libertação, a que, nas diversas tonalidades, se chamou socialismo e comunismo, foi ganhando adeptos, pois apresentava uma alternativa à polarização social e à miséria que crescia por toda a parte.

Para os primeiros pensadores socialistas foi possível identificar que existia uma classe parasitária e uma classe produtiva; que a pobreza nascia da abundância e que era o capitalismo que as criava, dando origem a crises; que as injustiças, a corrupção moral e a guerra ocorriam na procura do lucro.

Propunham, em contraponto, uma sociedade onde não houvesse propriedade privada, considerada a origem dos males; onde a riqueza fosse partilhada em resultado do trabalho de cada um; onde todos os cidadãos participassem na comunidade; onde a cultura e a educação estivessem disponíveis para todos.

Mas, entre a interpretação do mundo e a nova sociedade faltava algo fundamental. É o que a célebre tese de Marx indica: «Os filósofos têm interpretado o mundo apenas de diversos modos; trata-se, porém, de o transformar.» As ideias de socialismo pré-marxistas, que ficaram conhecidas como socialismo utópico, apresentavam apenas uma crítica moral do capitalismo. Marx vai mostrar o caminho para a sua superação prática.

«O socialismo até aqui criticava, é certo, o modo de produção capitalista existente e as suas consequências, mas não sabia explicá-lo, nem era, portanto, capaz de acabar com ele; podia apenas rejeitá-lo como mau. [...] a concepção materialista da história e a revelação do segredo da produção capitalista por meio da mais-valia, devemo-las a Marx. Com elas o socialismo tornou-se uma ciência, e trata-se agora antes do mais de continuar a elaborá-la em todos os seus pormenores e conexões.»

Friedrich Engels, Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, 1880

A missão histórica da classe operária

Marx não descobriu as classes nem a luta de classes. Mas foi Marx quem percebeu aquilo que os socialistas utópicos não conseguiram perceber: como se poderia construir a nova sociedade. Para isso, foi preciso compreender as características fundamentais e o papel de quem a vai construir: a classe operária.

Transformar o mundo

Com o capitalismo emergiu uma nova classe, a classe operária, que se tornou cada vez mais numerosa.

Os artesãos não conseguem vender aos preços da grande produção industrial, as pequenas empresas vão encerrando, incapazes de competir com as maiores, que continuam a crescer, empurrando cada vez mais pessoas para uma situação em que não têm alternativa a não ser vender a sua força de trabalho.

É o facto de não ter mais nada que lhe permita sobreviver além da venda da força de trabalho que primeiramente identifica a classe operária.

A oposição entre as classes é cada vez mais clara, porque cada vez mais pessoas dependem da venda da sua força de trabalho, ao mesmo tempo que o capital se vai concentrando e acumulando em menos mãos.

Por isso, como essa oposição é cada vez mais extrema e clara, e como o objectivo dos capitalistas é garantir o lucro, só a classe operária, ou o proletariado, está em condições de construir uma sociedade socialista.

Cada nova sociedade resulta da emergência de novas classes minoritárias que procuram satisfazer os seus interesses — como no capitalismo, em que a burguesia arrancou o poder à aristocracia reinante — explorando as classes que passam a dominar. Para realizar as suas aspirações e pôr fim à exploração de que é objecto a classe operária não tem que explorar outras classes, mas, em aliança com outras classes exploradas pelo capital, abolir a propriedade privada dos meios de produção nas mãos da burguesia. A sua libertação implica a eliminação de toda a exploração.

Uma das grandes descobertas de Marx, que permitiu conduzir as ideias socialistas a uma nova fase — que ficou conhecida como socialismo científico, porque se baseia em premissas objectivas e não apenas em desejos ou vontades — foi a de que só a classe operária, derrubando a burguesia, pode permitir que os homens sejam senhores de si mesmos. É essa a sua missão histórica.

«O principal na doutrina de Marx é ter posto em evidência o papel histórico mundial do proletariado como criador da sociedade socialista […] Foi em 1844 que Marx a formulou pela primeira vez.»

V. I. Lénine, «Os destinos históricos da doutrina de Karl Marx», 1913

Enquanto houver capitalismo haverá exploração

O capitalismo continuamente demonstra como a sociedade está dividida em classes antagónicas. Na sua busca do lucro — o seu objectivo e condição de existência — concentra a riqueza em cada vez menos mãos. E enquanto isso acontece, as massas de trabalhadores vão crescendo, mas recebendo uma fatia sempre menor da riqueza produzida.

Transformar o mundo

A exploração não é uma invenção capitalista. Ela existe desde que a sociedade se dividiu em classes, desde que existe propriedade privada. No entanto, o capitalismo tornou a exploração mais abrangente, sujeitando a si os trabalhadores de todo o mundo.

Para o conseguir, os capitalistas tiveram de se organizar também enquanto classe para poderem estabelecer o seu domínio, para construirem o mundo à sua imagem, e por toda a parte limitaram e limitam as liberdades usando a força e a repressão. Para resistir e combater esse domínio, também a classe operária necessita de elevar o seu nível de organização.

Hoje, quando se fala da intensificação da exploração, das injustiças e das desigualdades sociais, do desemprego e da precariedade, da pobreza, da fome, da subnutrição, da negação do acesso a cuidados de saúde, do trabalho infantil, do trabalho escravo, do tráfico de seres humanos, fala-se das consequências sociais do processo de concentração e centralização de capital, fala-se das características essenciais do capitalismo e da sua natureza exploradora, opressora, agressiva e predadora.

Aquilo que era já realidade no tempo de Marx agravou-se extraordinariamente nos nossos dias. Contudo, não é por nenhum espírito malévolo dos capitalistas, decorre da natureza do próprio sistema, do seu carácter insanavelmente explorador.

«A lei da acumulação capitalista, mistificada em lei da Natureza, exprime portanto, de facto, apenas que a sua natureza exclui toda aquela diminuição no grau de exploração do trabalho ou toda aquela subida do preço do trabalho que pudessem fazer perigar seriamente a constante reprodução da relação de capital e a sua reprodução em escala sempre mais alargada. Não pode ser de outra maneira num modo de produção em que o operário existe para as necessidades de valorização de valores existentes em vez de, inversamente, a riqueza objectiva existir para as necessidades de desenvolvimento do operário.»

Karl Marx, O Capital, 1867

82% da riqueza criada durante 2017 terá sido concentrada nas mãos dos 1% mais ricos

42 pessoas acumularão a mesma riqueza que as cerca de 3,7 mil milhões de pessoas mais pobres

815 milhões de pessoas no mundo sobrevivem subnutridas

Mais de 3 milhões de crianças com menos de 5 anos morrem subnutridas todos os anos

Mais de 192 milhões de trabalhadores desempregados

42% dos trabalhadores em todo o mundo têm formas de emprego precárias

Mais de 114 milhões de trabalhadores em pobreza extrema nos países desenvolvidos

152 milhões de crianças, com idade entre 5 e 17 anos, sujeitas a formas de trabalho infantil

65,6 milhões de pessoas deslocadas em todo o mundo

22,5 milhões de refugiados, mais de metade com menos de 18 anos

244 milhões de imigrantes ao nível mundial

Mais de 40 milhões de pessoas em todo o mundo terão sido vítimas de escravidão, sendo que 71% destas serão mulheres e raparigas

A mais-valia, a pedra angular da teoria económica de Marx

Partindo dos economistas clássicos ingleses — o país onde o capitalismo estava mais desenvolvido —, Marx lançou-se à descoberta dos aspectos estruturais do funcionamento da economia capitalista, amplamente desenvolvidos na sua obra O Capital. Entre eles, a essência do modo de produção capitalista: a exploração.

Transformar o mundo

Destaca-se, da sua interpretação, a compreensão de que a economia é uma ciência histórica.

Ao contrário do que outros economistas pensavam — e muitos ainda pensam —, as coisas não são o que sempre foram nem serão o que são agora. Em vez de dizer «Pobres e ricos sempre houve e haverá», Marx procurou explicar a razão dessa distinção.

Percebeu que o fundamental do modo de produção capitalista não consiste numa relação entre objectos — a troca de mercadorias — mas é a expressão duma relação entre pessoas. Essa relação social, mediada pela troca de mercadorias, toma por isso a aparência de uma relação entre coisas. A classe operária só tem uma mercadoria para vender, a sua força de trabalho, e precisa de a vender para satisfazer as suas necessidades.

Como o capitalista precisa dessa força de trabalho vai comprá-la mediante um salário, tentando pagar o mínimo possível por ela: o indispensável para que quem a vende possa cobrir o custo do seu sustento (e da sua família).

O que parece ser uma troca livre e equitativa esconde na verdade uma relação de exploração. Quem se vê forçado a vender a sua força de trabalho em troca de um salário, fá-lo por um período de tempo determinado: durante uma parte dele trabalha e recebe o que acordou, durante a outra parte trabalha gratuitamente, criando para o capitalista a mais-valia, fonte dos lucros, fonte da riqueza da classe capitalista. É na apropriação da mais-valia produzida pelo trabalho da classe operária que reside a exploração.

Os capitalistas tudo fazem para aumentar a mais-valia, alargando a duração da jornada de trabalho, reduzindo os salários e aumentando a produtividade, nomeadamente pela intensificação do ritmo de trabalho ou pela introdução de novas tecnologias.

Todos os avanços tecnológicos alcançados pela humanidade, incluindo a nova revolução científica e técnica, permitem que a grande maioria da população possa trabalhar menos horas para satisfazer as suas necessidades.

Aquilo que se tem observado, no entanto, é que o capitalismo não quer e não pode abdicar da mais-valia que arrecada. Sabendo, como sabemos, que o capitalismo é uma realidade histórica contraditória, o que está em causa é saber até quando conseguirá sobreviver.

«Para nós não pode tratar-se da transformação da propriedade privada, mas apenas do seu aniquilamento, não pode tratar-se de encobrir as posições de classe, mas de suprimir as classes, nem de aperfeiçoar a sociedade existente, mas de fundar uma nova.»

K. Marx / F. Engels, «Mensagem da Direcção Central à Liga dos Comunistas», 1850

A jornada de trabalho divide-se em duas partes: trabalho necessário e sobretrabalho.

Na parte chamada trabalho necessário o trabalhador produz para si próprio, isto é, produz uma quantidade de valor correspondente ao valor dos seus meios de subsistência.

No sobretrabalho o trabalhador produz a mais-valia, ou seja, um valor a mais, que antes não existia e que, através da sua apropriação privada pelo capitalista, forma o lucro.

Se numa jornada de trabalho de 8 horas 2 são de trabalho necessário e 6 sobretrabalho, nesse caso a mais-valia equivale a 6 horas.

As crises do capitalismo

A contradição entre o carácter social da produção e a forma privada da apropriação torna a história do capitalismo uma história de crises. Na procura do lucro máximo os capitalistas, em concorrência anárquica entre si, investem cada vez mais em meios de produção sem que a capacidade de consumo, nomeadamente das massas, acompanhe o crescimento dos bens produzidos. Esta contradição fundamental leva a que, com o desenvolvimento do capitalismo, a sua crise estrutural se aprofunde.

Transformar o mundo

O capitalismo tem constantes dificuldades para escoar as mercadorias e realizar a mais-valia. Aumentam as falências, a produção diminui, aumenta o desemprego, diminui ainda mais o poder de compra, os salários baixam, intensifica-se a exploração. Depois atinge-se um novo equilíbrio, para de seguida tudo voltar a acontecer.

Não se trata de má gestão ou de incompetência. É o modo próprio de funcionamento do capitalismo.

Expressão do aprofundamento da crise estrutural do sistema, as crises manifestam-se de forma cada vez mais frequente, com maior profundidade e com consequências cada vez mais perigosas. Com o crescente domínio do grande capital financeiro e especulativo, as medidas tomadas para debelar a crise — não atacando as suas verdadeiras causas — apenas a prolongam e elevam o risco de novas explosões ou de uma arrastada estagnação.

As dificuldades provocadas pela crise na realização da mais-valia agudizam as contradições e os choques entre os grandes grupos monopolistas apoiados pelos respectivos Estados, elevando perigosamente o risco de violentas intervenções e conflitos militares. Acresce que a considerada necessária destruição das forças produtivas existentes em «excesso» — processo que está em curso, nomeadamente com as elevadas taxas de desemprego e o cortejo de morte e destruição provocado pelas guerras — leva os sectores mais reaccionários e agressivos do imperialismo a jogarem cada vez mais na guerra como «saída» para a crise e restabelecimento de mais elevadas taxas de lucro.

Essa é a receita para os capitalistas se tentarem salvar. Para a maioria da população, a receita tem de ser outra.

«Na medida, finalmente, em que os capitalistas são obrigados [...] a explorar em maior escala meios de produção gigantescos já existentes e a pôr em movimento, para este fim, todas as molas do crédito, nessa mesma medida aumentam os terramotos industriais, nos quais o mundo do comércio só se mantém sacrificando uma parte da riqueza, dos produtos e mesmo das forças de produção aos deuses das profundezas — aumentam, numa palavra, as crises.»

Karl Marx, Trabalho Assalariado e Capital, 1849

A alternativa é o socialismo e o comunismo

O capitalismo não é o «fim da História». Como todos os sistemas precedentes, o capitalismo é um modo de produção transitório. A superação revolucionária das suas insanáveis contradições é uma exigência do desenvolvimento social. Cabe à classe operária o papel dirigente na luta por uma nova sociedade livre da exploração do homem pelo homem, a sociedade socialista e comunista.

Transformar o mundo

O desenvolvimento das forças produtivas acentua o carácter cada vez mais social da produção, mas a apropriação dos meios de produção e dos produtos permanece privada. Esta é uma contradição fundamental do capitalismo. A sua superação revolucionária torna-se uma exigência do desenvolvimento social, uma necessidade para libertar as forças produtivas e colocá-las ao serviço de todo o povo. Tal objectivo implica pôr termo a todas as formas de exploração e opressão, liquidar as causas da guerra e afastar para sempre a ameaça de destruição da própria Humanidade.

Para isso, é necessário construir uma sociedade em que o trabalho é actividade criadora e factor de enriquecimento humano, os meios de produção são propriedade do povo, a economia é planificada e colocada ao serviço do progresso social e cultural de toda a sociedade.

A revolução socialista não é um acto precisamente datado, mas um processo em que o que é novo abre caminho em luta contra a inércia e a resistência de um passado históricamente condenado. Como Marx mostrou e ulteriormente a vida confirmou, a intervenção organizada, entusiástica e criadora da classe operária e das massas populares é o factor decisivo para a sua vitória.

Na sua obra Crítica do Programa de Gotha (1875), Marx formulou teses fundamentais relativas à superação revolucionária do capitalismo e aos contornos da futura sociedade comunista.

Depois da conquista do poder pela classe operária e de uma etapa de transição em que vigora o princípio «a cada um segundo o seu trabalho» — o socialismo — chegar-se-á finalmente à mais livre e solidária sociedade possível, em que se tornará realidade a aspiração comunista «de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades».

«Entre a sociedade capitalista e a comunista fica o período da transformação revolucionária de uma na outra. Ao qual corresponde também um período político de transição cujo Estado não pode ser senão a ditadura revolucionária do proletariado.»

Karl Marx, Glosas Marginais ao Programa do Partido Operário Alemão, 1875

«O Partido Comunista Português, partido político da classe operária e de todos os trabalhadores, inteiramente ao serviço do povo português e de Portugal, tem como objectivos supremos a construção do socialismo e do comunismo — de uma sociedade nova liberta da exploração do homem pelo homem, da opressão, desigualdades, injustiças e flagelos sociais, sociedade em que o desenvolvimento das forças produtivas, o progresso científico e tecnológico e o aprofundamento da democracia económica, social, política e cultural assegurarão aos trabalhadores e ao povo liberdade, igualdade, elevadas condições de vida, cultura, um ambiente ecologicamente equilibrado e respeito pelo ser humano.»

Da Introdução do Programa do PCP

O assalto aos céus

A Comuna de Paris constitui a primeira experiência de conquista do poder pelos trabalhadores. À traição da burguesia na guerra franco-prussiana, o proletariado parisiense respondeu expulsando o governo de Thiers para Versalhes e formando um governo que empreendeu inéditas medidas de carácter económico, social e cultural no interesse das massas populares.

Transformar o mundo

Na vida e na obra de Marx, teoria e prática estão dialéticamente ligadas. As grandes e perenes contribuições de Marx para a elaboração da estratégia e da táctica do proletariado na sua luta pela nova sociedade sem classes é fruto do estudo da experiência histórica da luta de classes e em particular das convulsões revolucionárias do seu tempo nas quais participou apaixonadamente.

As revoluções de 1848/1849 em França e noutros países da Europa, que passaram à História como a «Primavera dos Povos», puseram pela primeira vez em evidência o papel revolucionário da classe operária. Foram revoluções burguesas mas em que a classe operária interveio já com as suas próprias reivindicações e mostrou ser a classe mais consequentemente revolucionária.

As revoluções de 1848/1849 vieram confirmar as análises e perspectivas contidas no Manifesto do Partido Comunista, redigido ainda antes mas já no calor do afluxo revolucionário em desenvolvimento na Europa. Foi porém com a Comuna de Paris de 1871, quando, lançando-se no «assalto aos céus», o proletariado conquistou o poder pela primeira vez na História, que a doutrina de Marx e Engels teve expressão prática e conheceu importantes desenvolvimentos, nomeadamente quanto à necessidade de destruição do Estado burguês e da sua substituição pelo poder dos trabalhadores.

A Comuna durou apenas setenta e dois dias, de 18 de Março a 28 de Maio de 1871, quando, derrotada, conheceu uma das mais cruéis vinganças de classe que a História regista. Mas a epopeia dos comunnards não foi em vão. Ela constituiu uma experiência de alcance histórico que propiciou o desenvolvimento da teoria marxista nomeadamente em relação à conquista do poder pelos trabalhadores e ao seu exercício, à política de alianças da classe operária, ao partido do proletariado.

«Os princípios da Comuna eram eternos e não podiam ser esmagados; eles afirmar-se-iam uma e outra vez até que as classes operárias estivessem emancipadas.»

Minuta de um discurso de Karl Marx sobre a Comuna de Paris numa reunião do Conselho Geral da AIT, 1871

Os partidos comunistas

Coube a Marx o mérito de ter desvendado a missão histórica da classe operária e, com Engels, ter fundado o partido revolucionário de vanguarda do proletariado e elaborado o primeiro programa comunista. Desde então o movimento comunista tornou-se uma grande força revolucionária de que são inseparáveis os grandes avanços libertadores entretanto alcançados.

Transformar o mundo

Na sequência da «Liga dos Justos», a Liga dos Comunistas, para a qual Marx e Engels redigiram o respectivo programa — que foi designado de «Comunista» para o distinguir das correntes socialistas utópicas então dominantes no movimento operário — foi a primeira organização revolucionária do proletariado orientada pela teoria do socialismo científico. O Manifesto do Partido Comunista de 1848 foi esse programa.

Passado o tempo de maior repressão e de refluxo revolucionário que se seguiu às revoluções de 1848-1849 e dando expressão à célebre palavra de ordem do Manifesto «Proletários de todos os países, uni-vos!», realizou-se em Londres, em 1864, uma grande reunião de representantes dos operários ingleses, franceses e de diversas associações de trabalhadores que fundou a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), a primeira organização internacional de massas do proletariado. A AIT, ou I Internacional, de que Marx e Engels foram os principais dirigentes, contribuiu decisivamente para difundir as concepções do socialismo científico e tornar o marxismo a corrente dominante no movimento operário internacional.

Duramente perseguida na sequência da Comuna de Paris mas tendo cumprido a missão de enraizar o marxismo entre as massas, a AIT deu lugar à criação de partidos comunistas no plano nacional (designados então de socialistas ou social-democratas) que vieram em 1889, com Engels, a criar a II Internacional e posteriormente, em 1919, com Lénine, a Internacional Comunista (a III Internacional).

Foi neste processo mundial de alargamento da difusão do marxismo e sob o impacto da Revolução de Outubro que em 1921 foi fundado o Partido Comunista Português, como criação do movimento operário português e exigência da luta em defesa dos interesses dos trabalhadores (a que nem o pequeno PS reformista nem a forte corrente anarco-sindicalista respondiam).

«A designação “internacionalismo proletário” tem a virtude de lembrar que as mais profundas raízes do internacionalismo são os interesses comuns dos trabalhadores de todos os países na luta contra a exploração capitalista, contra a opressão, pelo progresso social, a democracia, a paz e o socialismo.»

Álvaro Cunhal, intervenção de abertura do XIII Congresso (Extraordinário) do PCP, 1990

O genial contributo de Lénine

Com Lénine o marxismo conheceu um desenvolvimento tão marcante que o seu nome foi justamente associado ao de Marx no conceito de marxismo-leninismo.

Transformar o mundo

Pela sua própria natureza materialista e dialéctica a teoria marxista é antidogmática, não se cristaliza em conceitos abstractos e intemporais, é expressão do próprio movimento da sociedade, enriquece-se constantemente com os progressos da ciência e a acção e reflexão do movimento comunista e revolucionário internacional.

Com a passagem do capitalismo no findar do século XIX à sua fase monopolista colocaram-se perante o movimento operário novas questões de carácter teórico e prático para cuja compreensão e solução Lénine deu uma genial contribuição.

Foi o que aconteceu nomeadamente com a análise do imperialismo (fase superior do capitalismo), a concepção de partido proletário «de novo tipo», a táctica e estratégia da classe operária na luta para conquistar o poder político e na construção do socialismo. O resoluto rompimento do Partido Bolchevique de Lénine com o revisionismo e oportunismo dos principais dirigentes da II Internacional (particularmente grave na sua posição perante a I Guerra Mundial) e a criação da Internacional Comunista foram de decisiva importância para o desenvolvimento do movimento comunista e revolucionário internacional.

A sua maior contribuição residiu no papel que desempenhou na construção do primeiro Estado de operários e camponeses, desbravando o caminho inédito de uma sociedade sem classes.

A Revolução de Outubro e a construção da sociedade socialista constituíram uma confirmação das ideias de Marx e rasgaram novos horizontes à teoria do socialismo científico.

Obras como Que Fazer?, Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, ou O Estado e a Revolução, nas quais, com base no estudo das novas realidades, Lénine desenvolveu criativamente o pensamento de Marx, mantêm uma extraordinária actualidade.

«Marx e Engels disseram muitas vezes que a nossa doutrina não é um dogma mas um guia para a acção e eu penso que devemos, antes de tudo e acima de tudo, ter isto em vista.»

V. I. Lénine, «Discurso de encerramento do relatório sobre a atitude do proletariado em relação à democracia pequeno-burguesa», 1918

As revoluções do século XX

A Revolução de Outubro, a formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e a construção da sociedade nova, e as revoluções socialistas que se verificaram no leste da Europa, na Ásia e na América Latina foram assinaladas pelas extraordinárias realizações e conquistas progressistas de carácter económico, social, cultural e político que, transformaram no século XX a face do mundo e que erros e derrotas não apagam.

Transformar o mundo

Como sublinhou Álvaro Cunhal, «as grandes transformações progressistas realizadas no mundo ao longo do século XX estão ligadas a três elementos principais de que são inseparáveis: a luta dos trabalhadores, designadamente da classe operária, das massas populares, dos povos submetidos; a acção das forças revolucionárias orientadoras e mobilizadoras da energia popular transformadora, com papel preponderante dos partidos comunistas; uma teoria revolucionária, o marxismo-leninismo, que ganhando as massas se tornou uma força material e que permitiu não apenas explicar o mundo mas ser um guia para a acção transformadora».

Confirmando que não existem «modelos» de revolução, a Revolução de Abril, apresentando novas e ricas experiências e originalidades, comprovou, tanto no seu avanço como na fase da ofensiva contra-revolucionária, ensinamentos capitais do marxismo-leninismo, nomeadamente: a força transformadora e criadora das massas populares; o papel dirigente do Partido, vanguarda da classe mais revolucionária — a classe operária; a natureza e o papel do Estado e do poder político.

A Revolução de Abril foi obra das forças revolucionárias portuguesas. Mas o desenvolvimento dessas forças revolucionárias, a assimilação dos ideais democráticos pelo povo, a adesão dos trabalhadores portugueses aos ideais do socialismo, a conjuntura internacional favorável à vitória da Revolução e à conquista de muitos dos seus objectivos são inseparáveis da Revolução de Outubro e das suas repercussões em toda a vida internacional, do apoio e solidariedade firmes do povo soviético, da luta dos povos sujeitos ao colonialismo português e da força material da teoria marxista-leninista no seu desenvolvimento criativo.

«O século XX não foi o século do “fim do comunismo” (como para aí apregoam) mas sim o século do “princípio do comunismo” como concretização e edificação de uma nova sociedade para o bem do ser humano.»

Álvaro Cunhal, «O comunismo hoje e amanhã», 1993

O PCP, a Revolução de Abril e o marxismo-leninismo

Para o PCP, na análise científica da realidade, impõe-se ter em consideração as situações concretas e os novos fenómenos mas também as leis do desenvolvimento social e de validade universal comprovadas pelas grandes experiências históricas, como a Revolução de Outubro.

Transformar o mundo

Foi à luz desta concepção dialéctica que o PCP se transformou num partido marxista-leninista, organizando-se para o combate ao fascismo em situação de clandestinidade.

Na base desta concepção, o PCP apreendeu os traços característicos da situação portuguesa, apontando, no programa que aprovou no VI Congresso, em 1965, as linhas da Revolução democrática e nacional: o papel da classe operária em aliança com as restantes classes antimonopolistas; a associação de objectivos da conquista da liberdade política com o objectivo de transformações radicais das estruturas sócio-económicas (nacionalizações, reforma agrária); a necessidade, para assegurar a vitória definitiva da revolução, de liquidar não só o poder político como também o poder económico dos monopólios, de libertar Portugal do domínio do imperialismo e de pôr fim ao colonialismo português, reconhecendo efectivamente o direito dos povos a ele submetidos à completa e imediata independência.

Na base desta análise, para a qual Álvaro Cunhal deu um notável contributo, o PCP defendeu a constituição de uma ampla frente antimonopolista, antilatifundista e anti-imperialista e apontou a necessidade, para derrubar a ditadura, do recurso ao levantamento nacional armado.

As principais teses, linhas de orientação e previsões do PCP, elaboradas na base do marxismo-leninismo, foram comprovadas pela Revolução de Abril. As significativas originalidades e particularidades da Revolução portuguesa confirmaram, por outro lado, a tese de Lénine de que a história das revoluções «é sempre mais rica de conteúdo, mais variada, mais multiforme, mais viva e mais “astuta”» do que se pode imaginar.

Os valores de Abril estão na base da Democracia Avançada que o PCP propõe ao povo português. A realização desse projecto — dos seus elementos económicos, sociais, políticos, culturais e de soberania nacional — criará condições propícias a um desenvolvimento da sociedade portuguesa rumo ao socialismo, prosseguindo o caminho que Marx, com o seu legado, intervenção e luta, desbravou.

«O PCP tem como base teórica o marxismo-leninismo: concepção materialista e dialéctica do mundo, instrumento científico de análise da realidade e guia para a acção que constantemente se enriquece e se renova, dando resposta aos novos fenómenos, situações, processos e tendências de desenvolvimento. Em ligação com a prática e com o incessante progresso dos conhecimentos, esta concepção do mundo é necessariamente criadora e, por isso, contrária à dogmatização assim como à revisão oportunista dos seus princípios e conceitos fundamentais.»

Artigo 2.º dos Estatutos do PCP

Com Marx, trazemos nas mãos o futuro

Em toda a história da humanidade nenhuma teoria, nenhuma concepção do mundo teve sobre o desenvolvimento social tão profunda influência como o marxismo-leninismo. Fundamentando pela primeira vez, uma visão científica e coerente do mundo, a concepção materialista dialéctica da natureza e da sociedade, ela afirmou, também pela primeira vez, a unidade profunda, indissolúvel, da teoria e da prática da transformação revolucionária do mundo.

«A vida não desmente antes comprova a perspectiva apontada pelo Manifesto [do Partido] Comunista. Que, na época que vivemos, o futuro não é do capitalismo, mas do socialismo e do comunismo.»

Álvaro Cunhal, «No 150.º aniversário do Manifesto Comunista», 1998

Agenda

Debate "O Manifesto do Partido Comunista"

18h, CT Concelho do Seixal

Vida e obra de Marx

18h, Biblioteca Municipal Vicente Campinas, Vila Real Sto António

Apresentação do livro Conferência do II Centenário de Karl Marx

18h, Biblioteca Municipal, Elvas

Inauguração da Exposição

16h, Biblioteca municipal, Avis

Bibliografia

Obras de Karl Marx

A Guerra Civil em França

As Lutas de Classes em França

Manuscritos Económico-Filosóficos (1844)

Miséria da Filosofia

O 18 de Brumário de Louis Bonaparte

Para a Questão Judaica

Salário, Preço e Lucro

Trabalho Assalariado e Capital

O Capital

O Capital, Livro Primeiro, t. I

O Capital, Livro Primeiro, t. II

O Capital, Livro Primeiro, t. III

O Capital, Livro Segundo, t. IV

O Capital, Livro Segundo, t. V

O Capital, Livro Terceiro, t. VI

O Capital, Livro Terceiro, t. VII

O Capital, Livro Terceiro, t. VIII

Obras de Friedrich Engels

A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado

Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico

Para a Questão da Habitação

Revolução e Contra-Revolução na Alemanha

Obras de K. Marx / F. Engels

A Ideologia Alemã (1.º capítulo)

Manifesto do Partido Comunista

Obras Escolhidas, t. I

Obras Escolhidas, t. II

Obras Escolhidas, t. III

Sobre Marx, Engels e o marxismo

A Grande Revolução Socialista de Outubro, V. I. Lénine

A Revolução Francesa na História do Capitalismo, António Avelãs Nunes

As teses das «Teses». Para um exercício de leitura, José Barata-Moura

Compreender a Economia, Jacques Gouverneur

O Estado e a Revolução, V. I. Lénine

A Filosofia em O Capital. Uma aproximação, José Barata-Moura

Marx, Engels e a Crítica do Utopismo, José Barata-Moura

Marx, Engels e o Desenvolvimento Histórico do Marxismo, V. I. Lénine

Materialismo e Subjectividade, Estudos em torno de Marx I, José Barata-Moura

O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, V. I. Lénine

Ontologia e Política. Estudos em torno de Marx II, José Barata-Moura

Sobre Lénine e a Filosofia, José Barata-Moura

Totalidade e Contradição. Acerca da Dialéctica, José Barata-Moura

Sobre assuntos da actualidade

Crise e Transição Política. Metabolismo Social e Material, Rui Namorado Rosa

O Capitalismo, a Revolução Tecnológica e a Classe Operária

Iniciação ao marxismo

Dialéctica Marxista, José Barata-Moura

Do Ideal Comunista, José Barata-Moura

É o Marxismo Científico, José Barata-Moura

Marxismo-Leninismo em Debate, José Barata-Moura

O Legado Filosófico de Hegel, José Barata-Moura

Superstrutura e Classes Sociais, José Barata-Moura

Como o Homem se Tornou Homem

Desenvolvimento do Homem e da Sociedade

A Origem do Capitalismo

Liberdade, Igualdade, Fraternidade

A Comuna de Paris

O Outubro Vermelho de 1917

Precursores do Socialismo Moderno (O Socialismo Utópico)

Origens e Partes Constitutivas do Marxismo

A História: Acaso ou Lei?

Karl Marx: Pequena Biografia

Sobre Marx

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