Intervenção de Diana Ferreira na Assembleia de República

"Importa garantir as condições de participação desportiva para todos os estudantes, mas também a sua participação cultural"

Sr. Presidente,
Srs. Deputados,

As iniciativas que estão hoje em discussão abordam uma matéria que merece, naturalmente, a nossa atenção e a nossa preocupação: a necessidade sentida por muitos estudantes do ensino superior de conciliar o seu percurso académico com a prática desportiva de competição.

Existindo, atualmente, um Estatuto de Atleta de Alta Competição — o Decreto-Lei n.º 125/95, que estabelece medidas específicas de apoio ao desenvolvimento da alta competição, visando proporcionar aos praticantes os meios técnicos e materiais necessários às especiais exigências da sua preparação desportiva —, reconhecemos a necessidade de estabelecer também medidas que permitam que os estudantes do ensino superior mantenham a sua prática desportiva federada, mesmo não sendo de alta competição, sem que sejam prejudicados nos seus estudos.

E reconhecendo esta necessidade, entendemos que as alterações que possam ser feitas devem envolver não só as instituições de ensino superior e as federações, mas também as estruturas representativas dos estudantes, designadamente as associações de estudantes.

Não podemos deixar de assinalar nesta discussão — porque merece também a nossa preocupação, como mereceu na altura e como o sinalizámos — a quebra da prática desportiva aquando da entrada e na frequência do ensino superior.

Esta questão não está desligada do processo de Bolonha, do que este processo significou em termos de obstáculos aos direitos dos estudantes, como o direito ao desporto e também não está desligada da desvalorização ao longo dos anos do desporto universitário, designadamente permitindo que todos os estudantes de ensino superior tenham as necessárias condições para a prática desportiva.

Esta desvalorização é inseparável do subfinanciamento do ensino superior público e, no caso, significa também menos investimento no desporto universitário.
Entendemos, também, que as medidas a ser tomadas devem ter em conta as diferentes realidades da prática desportiva dos estudantes do ensino superior.

Os estudantes que têm uma prática de alta competição têm uma realidade desportiva, um nível de exigência e um conjunto de necessidades próprias do desporto de alto rendimento.

Os estudantes que, tendo uma prática desportiva federada, não são de alta competição têm um outro nível de exigência e um outro conjunto de necessidades e as respostas a dar, neste âmbito, devem, naturalmente, ter em conta as diferenças que existem.

Não nos oporemos a nenhuma das iniciativas em discussão, mas entendemos que é uma matéria que merece uma reflexão ampla, para a qual estamos disponíveis, sem prejuízo das necessárias políticas públicas e da responsabilidade do Estado no cumprimento constitucional do direito ao desporto, devendo ser valorizada a sua função social e cultural e garantido o acesso à sua prática nas suas várias dimensões.

Importa garantir, efetivamente, as condições de participação desportiva para todos os estudantes, mas também a sua participação cultural.

O direito ao desporto e o direito à cultura são direitos constitucionais, são direitos de todos.

A participação desportiva e cultural é instrumento fundamental para o desenvolvimento harmonioso e para a formação da cultura integral do indivíduo, um caminho de emancipação individual e coletiva que o PCP sempre defendeu e continuará a defender.

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