Editorial «Avante!» nº897

A Guerra do Golfo, o Mundo e nós

A Humanidade tem no momento actual fundados motivos para se preocupar seriamente com o «dia seguinte».

A rejeição americana do plano soviético de paz para o Próximo Oriente, aceite por Saddam Hussein; a escalada da guerra do Golfo com o começo das operações terrestres contra o Iraque e o emprego de armas sofisticadas de destruição em massa – entre as quais uma interdita pelas convenções internacionais, o «napalm» – configura, numa região altamente explosiva do globo terráqueo, uma nova e perigosa ameaça para a Paz do Mundo que o anúncio da retirada incondicional das forças iraquianas do Koweit parece não ter dissipado em definitivo.

As previsões mais pessimistas acabaram por se concretizar. A porta aberta para uma solução política e pacífica do conflito pelas propostas soviéticas, constituindo uma base negociável para o cumprimento da Resolução 660 das Nações Unidas, foi brutalmente fechada pela iniciativa belicosa dos círculos militaristas do Pentágono, da Administração Bush e da Grã-Bretanha, dos reis, emires e «sheiks» mais reaccionários e poderosos do mundo árabe seus aliados.

A insensata invasão e anexação do Koweit pelas forças de Saddam Hussein como forma expansionista e errónea de rectificar fronteiras políticas artificiais traçadas a régua e esquadro pelos estrategos colonialistas do «Empire» de Sua Majestade Britânica na sequência das 1.ª e 2.ª Guerras Mundiais, deu o desejado pretexto e favoreceu os intentos e ímpetos imperialistas dos Estados Unidos para Impor sob a sua tutela uma nova arrumação de forças e uma «nova ordem» na geografia política e na direcção do mundo.

O anúncio da retirada incondicional do Koweit feito na noite de segunda-feira pelo governo iraquiano em cumprimento – tardio, embora, mas efectivo – das decisões do Conselho de Segurança da ONU, mostra que nos círculos dirigentes do Iraque acabou por prevalecer uma noção mais realista da correlação de forças, no momento actual decisivamente desfavorável aos seus objectivos.

De qualquer forma, com ela, uma nova possibilidade de paragem das operações militares e de restabelecimento da paz na região do Golfo Pérsico está em aberto e deve ser imediata e decididamente explorada por todos os que têm dos perigos reais que nas condições actuais ameaçam a própria sobrevivência da Humanidade uma noção exacta e responsável.

A declaração de segunda-feira à noite do governo iraquiano de retirada incondicional do Koweit acentuou uma clara clivagem entre as potências que defendiam até ao último limite uma solução pacífica e política do conflito e as que, a todo o transe, defendem e acabaram por Impor a solução das armas.

No próprio Conselho de Segurança da ONU e em primeiro lugar entre os seus cinco membros permanentes, três deles – a União Soviética, a China (e mesmo a França - embora com nuances diferentes não obstante a sua participação nas acções militares com um contingente de 12 000 homens na força multinacional empenhada nas operações terrestres) representando em conjunto uma população superior a 1 500 milhões de seres, contra 290 milhões dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha e, tendo aprovado as Resoluções do Conselho de Segurança defendiam, contudo, a busca de uma solução pacífica e diplomática para o conflito.

Só os inveterados «falcões» do Pentágono, Bush, o governo Major e os reis e emires grandes magnatas do petróleo árabe, insistem na continuação da guerra, na Invasão do Iraque, no extermínio do povo iraquiano, na ingerência abusiva nas questões internas do Estado iraquiano.

O povo do Iraque e as suas forças progressistas, submetidos a tão duras provações nos últimos dez anos, devem ser ajudados a curar as suas feridas, têm direito à solidariedade dos outros povos e à sua independência nacional, devem ser ajudados a solucionar em paz os seus complicados problemas Internos.

Na verdade, uma palavra decisiva cabe aos povos do Mundo. No momento actual é preciso ter a coragem de defender firmemente a Paz, de lutar pela solução pacífica dos diferendos, de velar na sua verdadeira dimensão pela própria sobrevivência da Humanidade.

Uma urgente reflexão sobre as causas que colocaram actualmente a Humanidade à borda do abismo e uma decidida inflexão nos caminhos da guerra, impõe-se a todos os povos, a todos os Estados e governos, a todas as forças do Progresso e da Paz no Mundo.

Conhecemos hoje melhor, estamos no momento actual mais documentados, sobre os sórdidos interesses e os móbeis inconfessados que estiveram na origem da guerra do Golfo.

A anexação do Koweit insensatamente ordenada por Saddam Hussein forneceu ao imperialismo estado-unidense o pretexto ambicionado para sair da crise e da recessão económica pela via tradicional da guerra; para – partindo do pressuposto do apagamento da União Soviética como grande potência mundial – afirmar e consagrar os Estados Unidos como verdadeira e única superpotência universal, num mundo capitalista em que dois novos outros candidatos em ascensão à hegemonia económica mundial (o Japão e a Alemanha) fossem obrigados a reconhecer-lhe o poderio e prestar-lhe vassalagem; para (através da afirmação de um poderoso testa-de-ferro dos interesses americanos no Próximo e Médio Oriente - o Estado de Israel - e do esmagamento das aspirações nacionais do povo palestiniano) impedir o aparecimento e o domínio na região duma grande potência árabe num momento em que a proliferação das armas químicas e nucleares de destruição em massa poderia ameaçar, numa região estratégica de alto risco, a supremacia militar americana.

Seriam estes no essencial os contornos da «nova ordem Internacional» proclamados por Bush e outros porta-vozes do imperialismo norte-americano.

As declarações do antigo responsável pela política económica dos Estados Unidos -Donald Reagan (Irmão do ex-presidente Ronald Reagan) – feitas no último fim-de-semana a um jornal português são elucidativas.

Mister Donald confessou o que já era incontestável: que a recessão da economia americana não foi principalmente resultante da guerra do Golfo mas que a guerra foi nesse contexto um factor de agravamento. Declarou que a causa fundamental da recessão tem origem no ciclo económico.

No quadro da estratégia americana de desmantelamento da OPEP, como cartel da indústria petrolífera fora do controlo dos Estados Unidos, Donald Reagan mostrou a preocupação dos monopolistas americanos pelo aumento dos preços do petróleo no mercado mundial.

Afirmou de modo significativo que o Federal Reserv Bank se empenha presentemente numa política destinada a obstar ao crescente poderio económico da Alemanha e do Japão. Não se pode ser mais claro.

As suas declarações permitem compreender melhor o objectivo de arrasar o Koweit e o Iraque com o bombardeamento maciço das suas cidades e zonas habitacionais. Num momento em que uma aguda crise se abate sobre a indústria de construção dos Estados Unidos, diz ele que são de esperar grandes negócios Imobiliários na zona agora martirizada. «O Koweit vai gastar biliões de dólares na reconstrução e o mesmo vai acontecer ao Iraque (...) Os grandes candidatos à reconstrução são empresas dos Estados Unidos, Japão e Alemanha. As empresas dos países cuja moeda é mais barata, neste caso os Estados Unidos, vão ser os mais beneficiados» – São suas as palavras!

As suas informações acerca de quem custeia a guerra são igualmente elucidativas: «não vai custar muito aos Estados Unidos» – diz ele. De facto do custo total previsto de 56 mil milhões de dólares até Março os Estados Unidos arcarão com 11 mil milhões (20 por cento apenas do total).

Os outros «pagadores» serão, sabe-se, a Arábia Saudita (cerca de 13 800 milhões de dólares), o Koweit (cerca de 13 500 milhões), os Emirados Árabes (3 500 milhões), a Alemanha (mais de 3 500 milhões) e o Japão, a Suíça, a Coreia do Sul e outros o resto.

Esclarecedor, não é?

É um momento útil para aqueles que chegaram alguma vez à conclusão de que o imperialismo -estádio supremo do capitalismo – tinha mudado o seu carácter de rapina agressivo e opressor dos povos e a sua natureza de classe fazerem a prova real dos seus juízos.

Como é óbvio, a guerra flagela os povos do Golfo Pérsico, preocupa todos os países e povos do Mundo e afecta também de maneira mais ou menos directa o nosso próprio país e o nosso povo.

É significativo que no momento em que os povos erguem a sua voz e lutam corajosamente pela Paz e em que o nosso próprio povo está demonstrando de maneira inequívoca a sua oposição à guerra e ao envolvimento de Portugal nas operações militares do Golfo, o governo PSD/Cavaco Silva venha declarar, em seguidismo com o governo espanhol do PSOE/Gonzalez, o seu total apoio à recusa dos Estados Unidos de aceitar as propostas soviéticas de solução pacífica e política do conflito e tenha manifestado o seu «acordo incondicional» com o começo das operações terrestres contra o Iraque.

Não está ainda à vista (no momento em que fechamos o nosso jornal) o fim da guerra e os seus Imprevisíveis desenvolvimentos.

Os defensores da Paz em Portugal não podem afrouxar a sua vigilância e o seu combate pela paragem imediata das operações militares no Golfo, pela solução pacífica dos agudos problemas da região (em particular os do povo palestiniano e do conflito Israelo-árabe), contra qualquer envolvimento do nosso país na guerra.

O nosso povo não pode ser penalizado pelas aventuras belicistas do imperialismo. A paz e indivisível. A luta dos povos em defesa da paz envolve e solidariza todos os habitantes da Terra. Ninguém está só neste nobre combate.

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