Artigo de Albano Nunes, membro do Secretariado do CC, publicado no Jornal «Avante!», em 19 de Junho de 1997

Europa: A ambição Alemã

É cada vez mais evidente que aquilo que é bom para a Alemanha de Kohl e do grande capital não o é nem para a Europa nem para o povo alemão.

É certo que uma Europa de progresso social, paz e cooperação não pode construir-se sem a Alemanha, e muito menos contra esse poderoso país. Mas não é menos verdade que uma "construção europeia" e uma "nova arquitectura europeia" comandada pelo Bundesbank (e pela Bundeswher) tem de ser firmemente rejeitada e combatida. A Europa social do pleno emprego com direitos, pela qual se mobilizam por todo o continente milhões de trabalhadores é incompatível com a ditadura da moeda única construída à imagem e semelhança de um marco forte e dominador e tutelada por um Banco Central sem qualquer controlo democrático e instrumento directo do poder económico do grande capital alemão. A Europa de paz, amizade e cooperação entre povos livres e iguais em direitos, é incompatível com instituições de tipo federalista e dinâmicas de funcionamento antidemocrático que subvertem a própria democracia representativa, golpeiam a soberania dos Estados, tecem novas relações de dominação imperialista que na Europa significam necessariamente, sobretudo após a derrocada do socialismo a Leste, a hegemonia do imperialismo alemão.

Por força das circunstâncias, este artigo é escrito antes de serem conhecidos os resultados da Cimeira de Amsterdão. E no momento em que não são ainda claras as consequências das perturbações criadas pelos resultados das eleições em França quer no eixo franco-alemão, quer nos ritmos e modalidades da "construção europeia" de Maastricht. Perturbações que não devem ser menorizadas, já que têm como pano de fundo a evidência do desastre social provocado pela marcha forçada para a moeda única e sobretudo, a extraordinária envergadura das lutas populares que comportam em si mesmas a exigência de "uma outra Europa". Tudo isto não poderá deixar de repercutir-se na cimeira de Amsterdão, ainda que sob a conhecida fórmula de "mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma". De qualquer modo uma coisa deve ser sublinhada: é de Kohl e da Alemanha que partem as maiores resistências e a maior oposição a toda e qualquer medida que ponha minimamente em causa a sua ambição dominadora.

É para este ambição dominadora, imperialista, que nunca é demais alertar. Ambição que se manifesta na brutal anexação da RDA; na cavalgada do grande capital alemão em direcção ao Leste, na expansão em direcção aos Balcãs; no apoio à Turquia e à sua política de genocídio do povo curdo; na limitação do direito de asilo e no empenho na construção de uma "Europa fortaleza"; no desenvolvimento do militarismo (a RFA é hoje o 3º exportador mundial de armas); no levantamento dos obstáculos constitucionais à intervenção de tropas alemãs fora das fronteiras; na sensível questão dos Sudetas checos; no papel liderante, de concerto com os EUA, no reforço e alargamento da NATO para Leste e Sul; na aspiração à posse da arma nuclear; na reivindicação a membro permanente do Conselho de Segurança... O "gigante económico" quer decididamente transformar-se num "gigante político e militar". As "cooperações reforçadas" que estão em cima da mesa em Amsterdão assim como o inquietante acordo militar com a França (Nuremberg, Dezembro de 1996), vão nessa perigosa direcção.

Isto significa que quaisquer que sejam os resultados de Amsterdão a luta tem de continuar, e com redobrada energia. As vitórias parciais já alcançadas e as dificuldades e contradições que se manifestam no processo de Maastricht abrem grandes oportunidades. As próprias dificuldades internas da Alemanha e o crescente desprestígio de Kohl e da coligação liderada pela CDU/CSU alemã, a ala mais reaccionária do capitalismo europeu, mostram que é possível impôr, pela força da luta em cada país e pelo reforço de cooperação e acção comum dos comunistas e outras forças progressistas, uma viragem na Europa no sentido da democracia, do progresso social e da paz. A reunião e o comício de Madrid, em 5 e 6 de Julho próximo, nas vésperas da Cimeira da NATO, representará certamente um novo marco nesta direcção.

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