Campanha de Combate à Violência Doméstica

assembleia.jpgA realização e a participação deste Parlamento na campanha de combate à violência doméstica deve ser, de facto, valorizada como muito positiva, sobretudo porque deixou perceber um aumento da consciência social quanto à necessidade de combater e reprimir este fenómeno.

 

Debate sobre o encerramento da Campanha de Combate à Violência Doméstica
Intervenção de João Oliveira na AR

Sr. Presidente,
Sr.as e Srs. Deputados:

A realização e a participação deste Parlamento na campanha de combate à violência doméstica deve ser, de facto, valorizada como muito positiva, sobretudo porque deixou perceber um aumento da consciência social quanto à necessidade de combater e reprimir este fenómeno.

Nos debates em escolas, em universidades e institutos politécnicos, nas visitas e reuniões com instituições envolvidas no apoio a mulheres vítimas de violência doméstica, nos contactos com as forças de segurança, com magistrados do Ministério Público e com magistrados judiciais, resultou bem claro o aumento da consciência de que é necessário intervir decididamente no combate a este fenómeno, de forma a interromper ciclos de violência e a evitar a proliferação de fenómenos de violência sobre as mulheres.

Mas desta campanha em que a Assembleia da República participou resultou igualmente a consciência de que há ainda muito por fazer. Há ainda muito por fazer no aperfeiçoamento da resposta dos serviços de saúde e de segurança a mulheres vítimas de violência doméstica. Há ainda muito por fazer no aperfeiçoamento da resposta dada pelo sistema judicial e pelos serviços públicos de segurança social perante a necessidade de interromper ciclos de violência e de encontrar soluções que permitam não só a reinserção social das vítimas mas também a reinserção social dos agressores, de forma a evitar a repetição de fenómenos de violência sobre as mulheres.

Resultou ainda clara a necessidade da existência de uma rede pública de casas de abrigo que não deixe o Estado português dependente da vontade e disponibilidade das organizações não governamentais ou outras, que obviamente é de saudar, mas da qual não pode ficar dependente o Estado português.

É certo que a violência se abate sobre as mulheres, sobre todas as mulheres, e que não são só as mulheres pobres a sofrê-la. Mas é igualmente certo que o fenómeno da violência doméstica não resulta meramente de questões culturais e de mentalidade ou de um qualquer conluio de homens contra mulheres.

O fenómeno da violência doméstica tem inerente uma relação de desigualdade que nasce da construção social da inferioridade do sexo feminino. Uma construção social que surge da exploração do trabalho gratuito das mulheres em tarefas que devem ser cumpridas pelo Estado. Uma construção social que continua a sobreviver de políticas que mantém altas taxas de feminização da pobreza, altas taxas de precarização laboral das mulheres e desigualdades salariais que desvalorizam objectivamente o trabalho das mulheres.

E é nesta matéria que quase tudo está ainda por fazer. No plano económico e social, a igualdade entre homens e mulheres é ainda um horizonte longínquo, o que abre campos para fenómenos de violência que se exercem sobre as mulheres não só em ambiente doméstico mas também noutros planos, como o da prostituição ou do tráfico de seres humanos.

Valorizando uma vez mais a realização desta campanha e a participação empenhada deste Parlamento, também naquilo que diz respeito à contribuição que tem de dar no combate ao fenómeno da violência sobre as mulheres, reafirmamos aquela que tem sido sempre a posição do PCP: a democracia estará sempre incompleta enquanto houver cidadãos vítimas qualquer tipo de violência por serem considerados inferiores.