É no mínimo inusitada a marcação deste debate de urgência. Um debate de urgência é um instrumento de fiscalização da atividade do Governo pela Assembleia da República, daí exigir a sua presença obrigatória, mas não foi para isso que o Chega marcou este debate, confirmando que para lá das encenações, o Chega não só apoia (como o fez na semana passada ao permitir a aprovação de uma lei que vai promover os despejos), como ainda acha que esta política desgraçada prosseguida pelo Governo, que está a empurrar os trabalhadores, os reformados e os jovens para a pobreza, devia ir mais longe e mais rápido.
Num quadro de acelerada degradação das condições de vida dos trabalhadores, dos reformados, dos jovens, das famílias, das crianças, não é isso que motiva o chega para um debate de urgência.
Quando cada vez que se vai ao supermercado ou bomba da gasolina, se paga mais e se traz menos no carrinho ou se mete menos combustível, também não foi isto que motivou o chega para marcar um debate de urgência.
Quando encontrar uma casa é mais difícil que encontrar uma agulha num palheiro, porque o custo da habitação quase triplicou numa década, ou quando se estima que haja ainda 60 mil estudantes sem professores a pelo menos uma disciplina ou quando é cada vez mais difícil o acesso aos cuidados de saúde, também não foi nada disto que levou o Chega a marcar um debate.
O Chega não marcou este debate de urgência para confrontar o Governo com as consequências das suas opções políticas. Marcou um debate de urgência, veja-se, sobre o funcionamento da Assembleia da República!
Para o Chega não são os problemas das pessoas que importam, por isso é que sistematicamente procura desviar o foco da Assembleia da República para questões laterais que não interessam nada à vida das pessoas e por isso é que reiteradamente procura condicionar a discussão na Assembleia da República, para procurar que esta não discuta o que é importante para as pessoas.
E fá-lo para esconder aquilo que verdadeiramente defende, fá-lo para dissimular o seu comprometimento com as políticas que têm vindo a ser seguidas e que são responsáveis por todos estes problemas que estão a afetar os portugueses.
E ao mesmo tempo, fá-lo para tentar descredibilizar e desprestigiar as instituições democráticas.
Sobre o alegado assalto ao Gabinete, o Chega não quer falar, um problema de facto grave, mas que nada tem a ver com a manifestação dos trabalhadores da construção civil contra o 6.º governo provisório junto à Assembleia Constituinte, acontecimento com o qual o PCP nada teve a ver.
O Chega marca este debate absolutamente bizarro alegando que se está a impedir a constituição de uma comissão. Mas não vimos a indignação do Chega com o facto de ter dado entrada de um projeto de revisão constitucional há meses e que ainda não foi admitido, isto sim é verdadeiramente incompreensível à luz do Regimento e da Constituição. Mas aqui já lhe dá jeito.
Sempre dissemos que há aspetos que envolvem o Ministro Luís Neves que devem ser cabalmente esclarecidos.
Mas tal como noutros casos, o objetivo do Chega não é o esclarecimento.
Já se percebeu que o que o Chega quer é liquidar a Polícia Judiciária. Um dia vamos saber porquê.
A Polícia Judiciária é o órgão de investigação criminal e que ao longo dos anos tem tido uma importantíssima intervenção no combate à criminalidade económica e à corrupção, no combate ao tráfico de droga, no desmantelamento de grupos nazis, fascistas e de extrema-direita.
A marcação deste debate demonstra que o Chega não conta para a resolução de nenhum problema. O que faz é um aproveitamento dos problemas das pessoas apenas para explorar o seu sofrimento e as suas dificuldades, e ocultar o seu envolvimento com os grandes interesses instalados, dos grupos económicos, os quais servem e dos quais dependem.
