Intervenção de Diogo Silva, XXI Congresso do PCP

Arquitectura e a intervenção juntos dos trabalhadores em Arquitectura

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Boa tarde Camaradas,

Venho deixar algumas notas sobre o trabalho em unidade dos arquitectos comunistas do Porto

O subsector dos arquitectos foi reactivado faz agora 2 anos. Depois de um período difícil por todas as dificuldades impostas pela crise.

Uma crise que forçou quase metade dos arquitectos à emigração ou ao desemprego e que estilhaçou as várias tentativas de organização colectiva, incluindo o nosso subsector.

Ponderámos retomar as iniciativas que tínhamos promovido meia dúzia de anos antes, em torno da questão da habitação e da prática social dos arquitectos.

Mas rapidamente percebemos que essa tarefa já tinha mãos e que havia um contexto novo sem respostas de mobilização.

Esse contexto era o de um sector que passou de níveis de desemprego na ordem dos 20% para uma situação de quase pleno emprego.

Um novo contexto para o qual este nosso Partido deu um contributo determinante.

Se o aumento súbito de emprego era condição relevante à oportunidade de agitação, não seria de menor importância o processo de proletarização destes trabalhadores intelectuais.

70% dos arquitectos são já assalariados, e mais de metade são precários!

As mulheres trabalhadoras em arquitectura recebem menos 30% em média que os homens e são afastadas de tarefas como acompanhamento de obra, acentuando uma quase inexistente progressão de carreira.

Um terço dos arquitectos tem um segundo trabalho porque trabalhar em arquitectura não chega para viver.

E a nossa média salarial é de 729 euros no sector privado.

729 euros é muito abaixo da média nacional, menos de metade do que recebe em média um profissional altamente qualificado no nosso País.

É esta a realidade de quem trabalha em arquitectura. É esta a realidade a que um Partido como o nosso não pode passar ao lado.

E foi esta realidade que encheu a sala do primeiro debate organizado pelos arquitectos comunistas do Porto, e que deu origem ao MTA

O Movimento de Trabalhadores em Arquitectura que, faz agora um ano, juntou 200 trabalhadores em arquitectura na sua primeira Assembleia Geral e afirmou pela primeira vez no nosso País o objectivo de formar uma organização sindical de trabalhadores em arquitectura.

O MTA não falhou na rua quando o cerco apertou e a Central Sindical de todos os trabalhadores nos acolheu no histórico Primeiro de Maio deste ano.

Não falhou quando se abriu a denúncias de abusos laborais, e com a solidariedade das organizações locais do movimento sindical unitário da CGTP se tem prestado a dar-lhe resolução.

O MTA continua sem falhar quando este mesmo domingo irá dar início a sessões online de esclarecimento, ou quando ainda a semana passada organizou as primeiras reuniões em locais de trabalho.

E se não será indiferente a influência dos comunistas à dinâmica deste movimento unitário tampouco será indiferente à discussão e intervenção dos arquitectos comunistas a proximidade e o trabalho que levam a cabo com outros trabalhadores.

Foi essa unidade que enriqueceu a nossa discussão e intervenção política e nos permitiu perceber na prática como a dignidade no trabalho será condição imprescindível a outra prática da arquitectura e nunca o contrário.

No segundo país da Europa onde mais gente morre de frio, onde uma larga fatia do parque habitacional está abandonado e as carências habitacionais são evidentes é óbvio que não falta trabalho em arquitectura.

Mas se há algo que a história nos ensina é que sem os trabalhadores ao comando, não há boas intenções que valham.

Acreditar que nas actuais relações de produção será possível uma outra arquitectura que se esquive da financeirização da habitação, da precariedade das relações sociais e laborais que tantas vezes nos impedem sequer de ambicionar viver sozinhos ou construir uma família, parece o equivalente a “começar uma casa pelo telhado”.

Só será possível outra proximidade às populações e respostas justas e eficazes às suas necessidades com outra influência dos trabalhadores no processo produtivo.

Só com vínculos estáveis e condições dignas, os trabalhadores poderão aumentar o seu já reduzido espaço de influência no que produzem e acima de tudo no que se propõem produzir!

Por outro lado, de pouco servirá aumentar salários, se as rendas dos trabalhadores continuarem a aumentar.

De pouco servirá trabalhos mais estáveis se aquilo que produzimos não nos serve e não nos chega.

A luta por outra arquitectura e a luta por condições de trabalho dignas em arquitectura são e serão sempre os dois braços de um mesmo corpo.

E prova disso mesmo é a intervenção dos arquitectos comunistas do Porto. Cumprimos a meta de recrutamento para este congresso e duplicámos de tamanho.

Se antes éramos 4, na Festa, na nossa insuperável Festa, inscreveu-se o Chico e hoje somos 9.

Se o que nos juntou foi a reivindicação de condições dignas de trabalho, a nossa unidade com trabalhadores tem-nos levado muito além disso.

Permitiu-nos por exemplo já em estado de emergência encher o pavilhão do Centro de Trabalho para discutir a situação dos presos e das prisões como parte do processo de preparação das teses deste Congresso.

Teses para as quais contribuímos com 25 propostas de alteração e cuja discussão abriu espaço e vontade de dinamizar daqui a poucos meses 2 acções de formação ideológica, sobre a questão das mulheres e sobre políticas de aliança e arrumação de forças.

Preparamos o nosso primeiro boletim, debates sobre desindustrialização e políticas de ordenamento de território, discutimos a revisão do PDM do Porto, ou até mesmo a recuperação das fachadas do nosso Centro de Trabalho da Boavista.

E sabemos ter do nosso lado dezenas de amigos que pela acção dos comunistas no movimento unitário dos trabalhadores reconhecem neste Partido um papel único e imprescindível na transformação do Mundo em que vivemos

Camaradas,

Não poderia acabar a minha intervenção sem antes dizer que é um enorme orgulho estar aqui, convosco, meus camaradas, a demonstrar qual é o lugar dos comunistas quando apertam o cerco ao nosso Povo.

Que ao contrário de todos os outros, este é o Partido que não adia a Democracia, este é o Partido que não adia os direitos de quem trabalha!

Que, com quase 100 anos, continua a ser o Partido que demonstra pela sua prática que ser a Vanguarda dos trabalhadores é estar na rua quando os seus direitos estão em risco e o fascismo anda à solta!

Que continua a saber mostrar ao Mundo onde tem de estar um Partido Revolucionário digno desse nome!

Viva o Congresso de todos os Trabalhadores!
Viva o PCP!

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