Sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez - Pergunta da deputada Luísa Mesquita

Senhor Presidente,
Senhores Deputados,
Senhora Deputada:

Afirma a Senhora Deputada que o projecto de lei que subscreve é inovador e deixará
estupefactos os seus netos e bisnetos.

Quanto ao estupefacto terá a Senhora Deputada toda a razão.

Ainda hoje netos e bisnetos de Galileu, assim continuam estupefactos, perante
a hipocrisia e a humilhação que convicções e morais de alguns impuseram à realidade
do mundo.

Quanto ao carácter inovador a Senhora Deputada sabe que é falso.

Mas também aqui há que distinguir entre quem sabe a verdade e a quer escondida
e quem involuntariamente percorre os caminhos da ignorância.

Como a Senhora Deputada não pode ter subscrito o seu projecto, nem ter vindo
para este debate de olhos fechados e ouvidos moucos, só pode integrar o primeiro
pelotão.

A Senhora Deputada sabe que a Assembleia da República está a debater a despenalização
do abordo num conjunto limitado de situações; no entanto, anuncia que se discute
a liberalização do aborto e compara-o com a pena de morte.

A Senhora Deputada sabe que aprovados os projectos de lei do PCP e da Juventude
Socialista nenhuma mulher é obrigada a abortar, pondo em causa convicções de
qualquer índole; no entanto, a Senhora Deputada quer transformar as suas convicções
em leis do Estado e com elas obrigar todas as mulheres a pensar pela sua cabeça.

A Senhora Deputada sabe que a Assembleia da República está a realizar um debate
sério sobre um problema gravíssimo de saúde pública que atinge milhares de mulheres
- o aborto clandestino - e que, cumulativamente, se têm vindo a aprovar medidas
para combater as causas; no entanto, a Senhora Deputada quer silenciar as consequências,
como se não houvesse mulheres mortas, amputadas, condenadas fisicamente e psiquicamente.

Foi assim que reagiu a sociedade medieval à peste negra.

A Senhora Deputada sabe que só o direito a uma maternidade consciente e feliz
é capaz de defender e proteger o embrião, o feto e naturalmente a criança; no
entanto, a Senhora Deputada propõe exactamente o contrário às mulheres portuguesas
- uma maternidade obrigada e penalizada, sabendo que está a condenar o embrião,
o feto e naturalmente a criança.

A Senhora Deputada sabe que o projecto do PP tem um único objectivo - a penalização
das mulheres em toda e qualquer circunstância.

Às que optarem pela interrupção voluntária da gravidez a Senhora Deputada acusa-as
de utilizarem uma "licença para matar".

Às que optarem pelo aborto clandestino, das duas, uma, ou fecha os olhos ou
coloca-as na prisão.

Às que optarem pela continuidade da gravidez a Senhora Deputada oferece-se para
votar contra as iniciativas legislativas que discriminam positivamente as mulheres
na área laboral, ou aquelas outras que protegem a maternidade e defendem o planeamento
familiar.

Senhora Deputada:

Ter um filho é exclusivamente para o PP e para a Senhora Deputada um dever?

E o direito, a liberdade de escolha da mulher não lhe merece respeito?

Considera-se a Senhora Deputada legitimada para perseguir e dar ordem de prisão
a todas as mulheres portuguesas que não perfilhem as suas convicções?

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