Silêncio criminoso - Artigo do jornal «Avante!»

11 de Janeiro de 2001

 

Embora informado dos perigos, os responsáveis militares norte-americanos não consideraram necessário tomar medidas para proteger nem os seus próprios soldados. Um inquérito levado a cabo em 1992 pelo U.S. General Accounting Office revela que "os responsáveis do exército consideram que os sistemas de protecção contra o urânio empobrecido podem ser deixados de lado durante os combates e outras situações extremamente perigosas porque os riscos que o urânio empobrecido acarreta para a saúde são largamente inferiores aos riscos inerentes aos combates".

Esta decisão preocupou o Instituto de política ambiental do exército americano, não pelas vidas em jogo, mas pelos eventuais custos daí resultantes: "Quando o urânio empobrecido for acusado de ser a causa do síndrome da Guerra do Golfo, o exército deverá dispor de dados suficientes para separar a ficção da realidade. Se houver uma falta de previsão e de dados, as implicações financeiras das indemnizações destinadas aos incapacitados de longa duração e aos cuidados de saúde serão excessivas".

Em Janeiro de 1998, o Ministério da Defesa norte-americano admitiu pela primeira e única vez as suas responsabilidades nesta matéria, ao reconhecer que "a significativa falta de informações das nossas tropas sobre os efeitos, sobre a saúde, do urânio empobrecido ... pode ter levado inutilmente a milhares de casos de exposição". Em Novembro do mesmo ano, no entanto, o Ministério reafirma publicamente que é impossível que um só soldado norte-americano tenha ficado doente devido à exposição ao urânio empobrecido.

Porque insistem os EUA e a NATO em negar o que se tornou já uma evidência? A resposta pode ser encontrada num relatório do próprio exército americano, datado de Julho de 1990: "Depois dos combates, as condições dos campos de batalha e os riscos a longo prazo para a saúde dos habitantes e dos antigos combatentes poderão pôr em causa a aceitação da continuação do emprego de perfuradores com energia cinética de urânio empobrecido para aplicações militares".

Em Março de 1991, outro relatório foi ainda mais explícito: "O impacto do urânio empobrecido sobre o ambiente levantou e continua a levantar inquietações. Por isso, mesmo que ninguém ponha em causa a eficácia do urânio empobrecido nos campos de batalha, as armas com urânio empobrecido podem tornar-se politicamente inaceitáveis e vir a ser eliminadas dos arsenais... Creio que será preciso pensar nesta questão delicada na altura de redigir os relatórios após as operações".

Na actual fase dos acontecimentos, preocupações deste tipo já se generalizaram certamente a todos os países da NATO. O Procurador da Justiça de Roma iniciou investigações e vai interrogar os oficiais responsáveis pela intervenção da Itália na Jugoslávia, admitindo instaurar um processo contra o Estado Maior das Forças Armadas por morte por negligência. Por seu lado, a associação para a Protecção das Forças Armadas italianas, que representa os interesses dos soldados e do pessoal civil do exército, exige uma indemnização de quinhentos mil contos para os familiares dos soldados já falecidos.

Medidas importantes, mas insuficientes. Em causa está, agora ainda com mais acuidade, a existência da NATO.

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