Intervenção de Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral

«Retratos de Álvaro Cunhal»

Áudio

Sessão de apresentação do Livro “Retratos de Álvaro Cunhal”
Biblioteca Museu República e Resistência, em Lisboa

Fomos convidados para produzir uma intervenção a pretexto desta obra da iniciativa da «Afrontamento» e da «Modo de Ler», concretizada pelo empenhamento particular do amigo Cruz Santos titulada de “Retratos de Álvaro Cunhal”.

Tal como não há traço de pintor, ângulo de fotógrafo, poema ou depoimento com dimensão e conteúdo suficientes para acolher a singularidade política, ética, intelectual, artística e humana de Álvaro Cunhal, também esta intervenção não será bastante.

Porque a dimensão dada pelo olhar sob uma qualquer vertente, nunca está completa, antes carece de outras de que é indissociável.

Mas há um ponto de partida que podemos ter. A sua obra tanto política como artística é intrínseca à sua opção política a que dedicou a vida inteira e a vida toda, a partir do momento em que integrou as fileiras do Partido Comunista Português, como militante e dirigente. Vivendo um período histórico de grande intensidade e com transformações fantásticas desde a Revolução de Outubro à Revolução de Abril, a derrota do nazi-fascismo, a rupturas e mudanças, a avanços e recuos dos trabalhadores e dos povos, temperou a sua grande inteligência com o conhecimento que levou à produção de uma obra teórica notável, também ela inseparável da sua acção prática de organizador e dirigente comunista que encontrava nos anseios, na luta dos trabalhadores e dos povos, fonte de experiência para a abordagem da História portuguesa do século XX e uma contribuição audaciosa para o desenvolvimento criativo das ideias de Marx, Engels e Lénine. Anseios, lutas dos trabalhadores e dos povos que, tal como a luta corajosa dos seus camaradas, lhe serviram de inspiração para criar as personagens dos seus romances e desenhos. Inevitavelmente tornou-se uma ameaça para os detentores e torcionários do regime fascista.

E foi por isso que estando preso durante 12 anos, foi sujeito a oito anos de rigoroso isolamento onde mais do que a morte física se pretendeu a morte da sua inteligência e das suas capacidades intelectuais. É nestas duras circunstâncias que Álvaro Cunhal revelou não só a coragem física mas a sua inabalável superioridade moral e psicológica, assumindo-se não como prisioneiro humilhado e torturado mas como um combatente para servir a sua causa e ideal.
Durante 14 meses, atirado para um cárcere sem sol que o bafejasse, sem visitas solidárias, sem papel ou lápis que fosse, foi mentalmente construindo a sua defesa ante o tribunal plenário, defesa que acabou por se traduzir numa peça exemplar que fascinou e deu ânimo a todos os que lutaram contra o fascismo. De acusado a acusador, sem se dirigir aos juízes dependentes do poder político, partindo do enquadramento do papel do movimento comunista internacional e da análise da situação política portuguesa, rematou sabendo o que o esperava em termos de sentença: eram os então governantes e o seu chefe Salazar, quem deveria sentar-se no banco dos réus, por agirem contra os interesses do povo e do país, por quererem arrastar Portugal para uma guerra criminosa, por empregarem métodos inconstitucionais, ilegais e terroristas.

Na prisão, de uma forma intensa, dedica-se à leitura e ao estudo. É aí que faz a tese pioneira sobre «O Aborto», dá «Contribuição ao estudo da questão agrária», escreve «Até amanhã camaradas», traduz o «Rei Lear», reflecte e escreve sobre Darwin, adianta o estudo sobre «As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média», faz desenhos e pinta.

E, mesmo com esta intensíssima reflexão, criação e elaboração intelectuais, manteve uma luta tenaz pelos seus direitos de preso político escrevendo ao director da prisão, e nunca perdendo o contacto com a Direcção do Partido, contornando a vigilância policial e prisional.

Passando da Penitenciária de Lisboa para a Fortaleza de Peniche, aí dá continuidade à reflexão própria sobre questões relativas à arte e à estética, escreve as «Cinco notas sobre a forma e conteúdo» no seguimento da anterior polémica com José Régio, reflexão prosseguida posteriormente no «Prefácio» ao Romance «Quando os Lobos Uivam» de Aquilino Ribeiro.

Tema apaixonante que haveria de referenciar e retomar depois do 25 de Abril, na 1ª Assembleia do sector de artes e letras da Organização Regional de Lisboa, em que manifesta a defesa de uma arte socialmente comprometida inseparável dos fenómenos da criação artística, conducente à ideia forte da desejável intervenção do artista com a sua arte ao lado dos trabalhadores, do povo, dos mais fracos, mas sem subordinação a qualquer escola ou tendência estética.

A célebre fuga da Fortaleza de Peniche, organizada pelo Partido, que constituiu um abalo para o regime fascista, levou Álvaro Cunhal de novo à luta clandestina, ao reforço da organização do Partido e consequentemente a uma ímpar produção teórica que comporta trabalhos como, entre outros «A tendência anarco-liberal na organização do trabalho de Direcção», «O desvio de direita dos anos 1956-1959», matérias aliás desenvolvidas no notável e histórico «Rumo à Vitória» onde para além da caracterização da situação política portuguesa, da situação económica e social, da natureza de classe da ditadura fascista, define os objectivos da revolução democrática e nacional, o derrubamento do fascismo e a política de alianças sociais. Obra notável pela profundidade da análise e clareza de objectivos que, produzida 10 anos antes da revolução de Abril, afirma a dado passo: “chegará o dia em que as forças armadas deixarão de ser um eficiente apoio de Salazar e se tornarão em parte considerável uma arma da revolução democrática e nacional. Canhões, tanques, aviões, metralhadoras, espingardas deixarão de voltar-se contra o povo e, ao lado do povo voltar-se-ão, nesse dia, contra o próprio Governo”.

Depois de Abril - que ele considerou o acto mais moderno e avançado da nossa época contemporânea, o período mais realizador da História do Partido – a par da intensa intervenção política na vida do Partido, não parou a sua genial capacidade de produzir, reflectindo, elaborando, teorizando sobre a realidade que se manifesta nas suas obras sobre a revolução: «A Revolução Portuguesa – o passado e o futuro»,  «A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (a contra-revolução confessa-se)».

No plano político e partidário demonstrando o papel insubstituível do PCP na transformação da sociedade, na necessidade do seu reforço, registando experiências, assinalando erros e acertos, avanços e recuos, reflectindo, ouvindo, ouvindo muito, produz obras de grande actualidade que vão para além do Partido, como por exemplo «Acção Revolução, Capitulação e Aventura», «O radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista», «O Partido com Paredes de Vidro», obras que assumem uma actualidade imensa no quadro político, económico e social que vivemos.

Álvaro Cunhal afirmou um dia numa entrevista que não havia zonas brancas na sua vida.

E por isso a sua vida, a sua acção, a sua obra não cabem de facto num retrato.

A sua determinação, o seu carácter, a sua verticalidade, dignidade e coragem, aliados a uma inteligência e um talento fulgurantes, a sua energia que ia além dos limites da força física e anímica normais, o seu profundo humanismo em relação às pessoas e à vida, para além da admiração e do reconhecimento dão-nos o estímulo do exemplo.

Exemplo que não é contemplativo, que se ancora e perdura em cada um de nós, sem copiar, se funda na aprendizagem permanente que resulta do fazer e intervir na incansável luta por uma vida melhor e pela transformação da sociedade, tal como Álvaro Cunhal gostava que fizéssemos.

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