A propósito do urânio empobrecido - Artigo de Francisco Silva

18 de Janeiro de 2001

 

Através de mãos amigas me vão chegando à caixa do e-mail as notícias e as informações. Digo mãos amigas porque são elas que dedilham o teclado para encaminhar aquilo de que preciso, mesmo sem o solicitar. E, ultimamente, o que me tem chegado é sobre o in-famoso, ou infame, urânio empobrecido.

Infame porque os poderes deste mundo assim o quiseram. E o que recebo através da net nada tem a ver com os embrulhismos politicamente correctos nem com bocas p'ró pósmoderno. Primeiro, o colunista EPC do "Público", a 9 de Fevereiro. Recebo o que leio e, em súmula, escrevo a propósito da sua prosa sobre um debate acerca da polémica do urânio empobrecido: Tudo é complexo, mas há os de sempre a dizer que já sabiam tudo. E não nos avisaram.

Continue-se com o Primeiro Ministro (mais ou menos assim, o que ouvi): (a) Confiámos e agora desconfiamos, por isso enviámos os nossos cientistas (afinal o ITN vai servir para alguma coisa, e que tal se o levassem a sério? - e levar a sério tem a ver com recursos, não é?) para ver como é (e o testar dos objectos suspeitos de contaminação e não só os locais de onde já foram removidos?); e (b) somos um pequeno país e já somos os mais avançados em medidas, agora que passámos a ter razões para suspeitar (no Financial Times do dia seguinte, 9 de Fevereiro são mencionados diversos governos, mas não consegui lobrigar a citação do nosso, quanto mais o exemplo que estaríamos a dar ao Mundo.).

Todos. Uns "ingénuos" antes de saber, como o Primeiro Ministro, e depois muito atentos e eficazes - o País mais avançado e eficaz nas medidas tomadas de imediato (tanto a "ingenuidade" como a eficácia, coerentes com a forma capaz - potenciada pelos seus estudos no IST - como defendeu igualmente, on the spot, os nossos interesses na cimeira de Nice). Ou, então, vergados, como EPC, sob o peso da complexidade de um conhecimento que nunca permite que conheçamos nada. O que é verdade aqui, já não o é acolá. Temos de ir estudar melhor!

 

E, no entanto, o Primeiro Ministro admitiu que a NATO já tinha informado o Governo de Portugal em 1999. Mas não sabia nada, ou esqueceu-se do que se passou e passa devido ao uso de tais munições no Iraque, durante a chamada Guerra do Golfo? - os seus efeitos de toxicidade química e os de radioactividade. Quanto a esta, lembro-me das declarações prestadas, em 1982, pelo almirante Rickover, pai do programa dos submarinos nucleares dos EUA, no seu discurso de despedida na altura da sua reforma, por ocasião da homenagem que lhe foi prestada no "Legislativo" dos EUA. Disse ele ter o aparecimento da Vida na Terra sido possibilitado quando o nível de radiações diminuiu abaixo de um certo limiar e ter a Humanidade, a partir da altura em que passou a utilizar a radioactividade, desencadeado um processo de aumento do nível de radiações. Concluiu ser de acreditar que, deste modo, a espécie humana está a trabalhar para o seu próprio aniquilamento e, por isso, ser inclusivamente mais importante controlar e procurar eliminar este fenómeno horrível do que utilizar o conhecimento científico respectivo, quer para fins médicos ou de produção de energia. Vejam só como Rickover, ao ver o fim da vida aproximar-se, tendo convivido com a tecnologia nuclear, reagiu! Mas tudo isto são bagatelas para os líderes da NATO e dos seus governos! O problema poderão ser os efeitos políticos nos seus próprios países. Por isso andam todos tão preocupados. Os povos do Iraque e dos Balcãs, parece não lhes pesarem na consciência. A Ciência e as suas aplicações são um assunto de todos, vai-se repetindo, mas vamos tendo dificuldade em assumi-lo. Experimentemos agora, todos em conjunto, até para não nos deixarmos alastrar num processo cumplicidade, nós, em particular os povos dos países da NATO, lutar contra uma barbárie que transbordou para um novo milénio cheio de votos hipócritas.

Então, vejamos. Os governos, pois claro, são responsáveis. Eles, já há anos, há muitos anos, que sabem do que a casa gasta. Eles são os próprios a decretar o que a casa deve gastar, não é? Mas também os altos funcionários e comandos da NATO o são - ou preferem dizer que só fazem o que lhes mandam? Mata, e eu mato. Deita-te a um poço, e eu, zás. Apurados os responsáveis, porque sabem e mandam, porque não exigem os povos, como já tem sido proposto, que aqueles sejam julgados como responsáveis por crimes - por crimes com impacto para hoje e a prazo - contra a Humanidade? Isto, claro, para além do banimento das armas que usam munições de urânio empobrecido.

 

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