Com o início do novo ano, novas subidas de preços para muitos produtos e serviços foram anunciadas.
Do pão ao leite, do café aos ovos, à carne, às portagens, às rendas, aos correios e telecomunicações, à electricidade, aos transportes, os anúncios de subidas de preços sucedem-se.
Falamos de aumentos significativos, como 7% na carne e no peixe, 2,3% nas rendas de casa, 2,26% nos bilhetes ferroviários, 2,21% nas portagens, 6,2% nos correios, ou de 6 a 10% nos seguros automóvel e de saúde. Na maioria dos casos com a mesma justificação de sempre – o aumento dos custos de produção - ou como resultado da subida do Imposto sobre Produtos Petrolíferos.
Sendo graves, estes aumentos não podem ser vistos isoladamente. Os preços dos bens e serviços que compõem o cabaz de compras das famílias portuguesas sofreram um grande aumento desde o surto inflacionista iniciado no segundo semestre de 2021.
O nível médio da subida dos preços dos bens e serviços consumidos pelas famílias medido pelo Índice de Preços no Consumidor (IPC) está hoje 17,7% mais alto do que em 2021. Mas as despesas das famílias com produtos alimentares subiram 30,5%, e com a habitação, electricidade, gás, água e outros combustíveis, que representam mais de 50% das despesas médias mensais, subiram 22,1%.
O orçamento mensal das famílias esgota-se quase na sua totalidade com as despesas com alimentação, habitação e transportes, sendo o seu aumento bem superior ao valor reflectido na inflação.
Os exemplos do preço do pão e dos cereais, que aumentaram nos últimos quatro anos 31,5%, da carne, que subiu 36%, do leite, queijo e ovos - 33,8%, dos produtos hortícolas - 33,2%, dos óleos e gorduras - 28%, do peixe - 26,2%, da fruta - 24,4%, das rendas dos novos contratos de habitação - 33% e da prestação média do empréstimo à habitação, que subiu neste período 55%, dos combustíveis sólidos - 26,9%, são bem elucidativos do impacto que neste período as subidas dos preços de muitos bens e serviços essenciais tiveram sobre os orçamentos familiares.
Com as actualizações salariais e de pensões nos últimos anos a ficarem sistematicamente aquém das subidas dos preços dos bens e serviços essenciais, os trabalhadores, pensionistas e reformados têm visto o seu poder de compra estagnar ou degradar-se e as suas condições de vida piorar.
Mais de dois milhões e meio de trabalhadores têm hoje uma remuneração base mensal inferior a mil euros, ao mesmo tempo que o limiar de pobreza se situa nos 723 euros mensais e o Salário Mínimo Nacional acaba de ser fixado pelo Governo em 920 euros. Um valor muito aquém das necessidades dos trabalhadores que, depois de efectuado o desconto de 11%, se situa pouco acima do limiar da pobreza.
Com tão baixos níveis salariais percebe-se que a propagandeada descida do IRS aprovada por este Governo pouco signifique para muitas centenas de milhar de trabalhadores, que pouco ou nada beneficiam dessa descida.
Com tão baixos níveis salariais, não constitui surpresa que 460 mil trabalhadores, meio milhão de reformados, 140 mil desempregados e 295 mil crianças façam parte dos dois milhões de pobres do nosso País (18,6% da nossa população).
A contrastar com a situação por que passa quem trabalha ou trabalhou no nosso País, está a dos detentores dos grandes grupos económicos nacionais.
Depois de fecharem o ano de 2024 com lucros líquidos diários de 25 milhões de euros, nos primeiros seis meses de 2025 subiram esse montante para 29,7 milhões de euros. Nos últimos cinco anos, enquanto o poder de compra dos trabalhadores estagnou ou se degradou, estes grandes grupos económicos viram os seus lucros multiplicarem 2,7 vezes (quase triplicaram!).
O que o País precisa neste novo ano é de uma nova política. Em vez dos milhares de milhões de euros que vão ser distribuídos em dividendos aos accionistas das grandes empresas, na sua grande maioria estrangeiros, é preciso um verdadeiro choque salarial, com o Salário Mínimo Nacional a subir para os 1050 euros e os outros salários a terem um aumento de 15% e de pelo menos 150 euros.
É necessária a melhoria efectiva das reformas e pensões em pelo menos 5%, com um aumento mínimo de 75 euros por pensionista.
Exige-se uma efectiva aposta nos serviços públicos, de qualidade, universais, nomeadamente no Serviço Nacional de Saúde e na educação, incluindo nas creches.
É ainda necessário controlar os preços dos principais bens e serviços integrantes do cabaz de compras das famílias trabalhadoras, valorizar as carreiras e profissões e dignificar o trabalho, regulando e reduzindo horários, erradicando a precariedade e promovendo o pleno emprego.
É necessário garantir o acesso à habitação, com a regulação dos preços e a descida de spreads e de juros. Estes são factores essenciais para melhorar as condições de vida do nosso povo e desenvolver o País.
Esse deveria ser o sentido das medidas anunciadas com o início do novo ano, mas como repetidamente vimos denunciando, esse não é o caminho que o Governo PSD/CDS tem vindo a trilhar, com o apoio do Chega, da Iniciativa Liberal e do PS.







