O PCP alerta para a abertura, no próximo dia 23 de Outubro, do denominado «Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência», instalado na “Escola-Cantina Salazar” em Santa Comba Dão, que constituirá mais um elemento no processo de branqueamento do regime fascista português e é uma afronta a todos os que se identificam com o 25 de Abril.
Na sequência das tentativas – sempre derrotadas – de abrir um “museu Salazar”, promovidas pela Câmara Municipal de Santa Comba Dão em anteriores maiorias PS e, agora, com maioria PSD, a abertura deste equipamento não pode deixar de merecer o repúdio de todos os democratas. Não se trata de analisar os conteúdos da exposição a inaugurar ou de avaliar a equipa científica à frente do projecto (embora se deva ter presente que foram vários os historiadores e outros investigadores académicos que se recusaram a dar o seu patrocínio científico a este projecto). O que está aqui em causa é, 52 anos depois da Revolução de Abril, validar a abertura deste centro sob a figura tutelar de Salazar, expoente máximo do regime fascista que durante 48 anos oprimiu o povo português, liquidou as mais elementares liberdades, foi responsável pela guerra colonial, condenou Portugal ao atraso e à miséria, reprimiu, torturou e assassinou.
Não se pode ignorar que os sectores mais reaccionários da sociedade procurarão fazer deste equipamento um local de culto de nostálgicos do fascismo e de apoiantes de grupos fascistas, neo-nazis ou de extrema-direita que se vêm assumindo como uma ameaça à democracia.
É significativo que esta inauguração aconteça (e não podem os promotores desta iniciativa, portadores de vasto currículo, ignorar) justamente por estes dias, quando se assinalam os 90 anos da abertura de um dos mais perversos centros de repressão e tortura: o campo de concentração do Tarrafal, conhecido como “campo da morte lenta”, onde muitos antifascistas foram assassinados.
O povo português lutou pela liberdade e derrotou o fascismo. Foram necessárias décadas para que lugares de memória ligados à resistência acolhessem equipamentos públicos que mostram o que foi o fascismo e a resistência, como o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, em Lisboa ou o Museu Nacional Resistência e Liberdade, na Fortaleza de Peniche. Mais equipamentos destes são necessários – como a instalação de um Museu da Resistência Antifascista, na antiga cadeia da PIDE, no Porto. E também nos currículos escolares para dar a conhecer às novas gerações quem foi Salazar e o regime fascista e o que ele representou enquanto rosto mais visível de uma ditadura terrorista ao serviço dos monopólios e latifundiários, responsável pelo atraso, exploração e liquidação das liberdades, direitos e garantias.
É uma ilusão pensar que se pode ter um discurso histórico isento e objectivo sobre a ditadura fascista e sobre a resistência antifascista num espaço com exposição de objectos e escritos do espólio do ditador e com o seu nome, dando-lhe ainda uma maior centralidade.
Os promotores desta iniciativa não podem ter a ilusão que a mesma não constitui uma afronta à democracia e à Constituição da República Portuguesa e uma ofensa à memória das vítimas do fascismo.
Mais conhecimento sobre o que foi a ditadura, a luta antifascista e maior valorização da Revolução de Abril: é neste caminho que deve assentar a construção de um Portugal mais justo e mais desenvolvido.