Intervenção de Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral, Sessão «Álvaro Cunhal e o PCP»

A luta é sempre necessária, porque será ela e a força que dela emana que determina a evolução dos acontecimentos

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Antes de mais, queria agradecer a vossa presença nesta Sessão Pública evocativa do centésimo sétimo aniversário do nascimento de Álvaro Cunhal que, neste período de comemoração do centenário do Partido Comunista Português, nos propusemos realizar sob o lema “ Álvaro Cunhal e o PCP” e com ela homenagear essa figura central e referência maior da nossa história contemporânea.

Evocamos Álvaro Cunhal, essa personalidade marcante do século XX português e dos princípios do presente século, e é luta dos trabalhadores e do nosso povo e do seu Partido de sempre pela liberdade, a democracia, por um projecto de desenvolvimento soberano, por uma sociedade mais justa e liberta da exploração que convocamos, e que por aqui necessariamente passa, porque a sua vida é indissociável dessa luta da qual foi um destacado protagonista, à qual dedicou toda a sua vida, sempre com o PCP. Luta que honrou com uma generosidade sem limites.

Numa larguíssima parte da vida do PCP, que em 6 de Março de 2021 cumprirá 100 anos, Álvaro Cunhal estará e participará, assumindo as mais altas responsabilidades num Partido que conheceu os horrores e a tragédia da guerra e do fascismo. Que dinamizou as grandes lutas dos trabalhadores e tomou como suas as lutas dos povos submetidos de todo o mundo. Que assumiu todas as grandes causas e todos os combates contra a exploração, a opressão e as desigualdades. Que assumiu sempre a vanguarda no combate pela conquista dos direitos políticos, laborais, sociais e culturais do nosso povo. Que esteve no fazer emergir e na realização da Revolução de Abril e na linha da frente das suas conquistas e em sua defesa. Que agiu determinado a fazer avançar a roda da História no sentido do progresso, da liberdade, da democracia e do socialismo. Que esteve sempre presente, como nenhum outro, nestes últimos 100 anos, nos momentos de resistência, transformação e avanço na sociedade portuguesa.

Álvaro Cunhal viveu com o seu Partido um tempo de grandes combates, grandes desafios e empolgantes empreendimentos, mas também de grandes perigos e ameaças.

Viveu estreitamente ligado a um Partido que, no seu trajecto centenário, mil vezes declararam morto e mil vezes surgiu renovado, determinado e convicto na frente da luta do seu povo.

Nestes cem anos carregados de história e no momento em que evocamos um dos nossos melhores, permitam-me que assinale e exalte o papel das sucessivas gerações de comunistas, o sacrifício e abnegação de muitos caídos na luta, a sua dedicada e intensa militância. Esse imprescindível colectivo, suporte de uma excepcional intervenção que nos trouxe até aqui e mostra um Partido de mulheres e homens que nunca não se deixaram, nem deixam intimidar. A todos eles a nossa homenagem.

Com um percurso de setenta anos de ininterrupto combate, percorridos com uma indomável determinação e resistindo às mais terríveis e duras provas em dezenas de anos de vida clandestina e prisão, a história pessoal de Álvaro Cunhal é a história de um homem extraordinário, de um comunista convicto, de um multifacetado e experimentado dirigente político, estadista e ideólogo, com grande repercussão e impacto na vida portuguesa e no plano internacional.

É a história de uma vida que se entrosa na vida e na luta dos comunistas portugueses que se orgulham de o ter tido como seu Secretário-Geral com uma intervenção que marcou o Partido, esse Partido que reciprocamente havia também de marcar o homem que foi com a sua personalidade ímpar e o revolucionário de corpo inteiro que reconhecemos e que nos inspira, interpela e impulsiona no prosseguimento do combate que foi o dele e é hoje nosso em demanda da concretização do ideal e projecto comunista, de um mundo justo, livre e fraterno.

Desde logo, como exemplo maior do combatente abnegado de um Partido que ajudou a construir, com um contributo pessoal inestimável, com a identidade que nos orgulhamos de possuir, preservar e afirmar.

Um Partido que desde muito cedo haveria de ser submetido às mais duras provas. Apenas com cinco anos de vida e em resultado do golpe militar de 28 de Maio de 1926 que abriu o caminho à instauração do fascismo em Portugal, é proibido, perseguido e forçado a actuar na mais severa clandestinidade.

Foi a esse Partido ainda jovem e débil que enfrentava enormes dificuldades e obstáculos que Álvaro Cunhal aderiu, tinha, então, 17 anos.

Estávamos em 1931. Foi, como o próprio disse, uma adesão consciente, racional e que o levou a procurar o Partido, porque olhando a realidade do País e do mundo que as leituras lhe traziam e o seu próprio olhar alcançava, decidiu e fez a opção de não ficar de fora dos grandes combates do seu tempo, fazendo a opção pelos direitos dos explorados e oprimidos, para se entregar inteiramente à causa emancipadora dos trabalhadores e dos povos.

Um tempo que não era apenas o de uma dura e perigosa conjuntura, aquela que então o mundo atravessava, em resultado do avanço do fascismo e da grande crise do capitalismo de 1929/1933, mas também, e essencialmente, o de uma época em que a possibilidade da construção de uma sociedade nova se entrevia – a época da passagem do capitalismo ao socialismo – e que a primeira Revolução Socialista de Outubro vitoriosa tinha inaugurado, para se afirmar como o combate central do nosso tempo.

Um tempo de forte agudização das contradições entre o trabalho e o capital e que irá marcar também o início de uma nova fase da luta do movimento operário, de novas formas e métodos de luta de massas, de aprendizagem, de fortalecimento orgânico, ideológico e político das organizações dos trabalhadores.

Um tempo de mudança também do conteúdo da intervenção política e que se concretizava em breve nas decisões que haviam de conduzir à concretização das soluções da Frente Única da classe operária, visando a sua unidade na acção e da formação das Frentes Populares contra o fascismo, a reacção e a guerra e que nas condições da ditadura em Portugal se irão traduzir no desenvolvimento do movimento de unidade antifascista e na tomada por dentro dos sindicatos únicos do regime fascista, uma frente de luta na qual Álvaro Cunhal se irá envolver com a sua produção teórica, e de grande originalidade, de resposta à especificidade da situação portuguesa e que irá criar as condições para o surgimento da Intersindical, em 1970.

Tempos difíceis, que o jovem Álvaro Cunhal acompanhava e olhava não só com indignada apreensão pelo que significava de destruição de vidas e de sofrimento para milhões de seres humanos, mas com a determinação dos que não se ficam apenas pela contemplação do mundo e passam à acção para o transformar, tomando partido.

Uma tomada de partido de quem cedo percebeu que essa era uma tarefa colectiva que exigia um partido de novo tipo, ideologicamente sólido, independente, com convicções de classe, combativo, ligado às massas, aos seus problemas e às suas aspirações – um partido leninista.

Um partido que a Conferência de Abril de 1929 e com Bento Gonçalves, jovem, como ele, de 27 anos e Secretário-Geral do PCP, projectava já edificar, virando-se audaciosamente para a classe operária, promovendo uma organização capaz de actuar na clandestinidade, criando uma imprensa clandestina – o Avante! e O Militante –, e iniciando verdadeiramente uma actividade de massas.

Um tomar de partido fundamentado num ideal que transparece com uma clara evidência nos seus textos de juventude deste período. A consciência dessa tomada de partido, que era uma tomada de partido pela classe e de acção contra a injustiça e violência da dominação capitalista, está expressa na sua afirmação, numa polémica sobre a posição do artista que travou com José Régio, quando afirmava “A humanidade chegou a uma encruzilhada. O momento não é favorável a longas hesitações. Cada qual tem de escolher um caminho: para um lado ou para outro. A História não pára e a humanidade segue. O grande problema é a direcção que ela seguirá. Aos homens cabe escolher e decidir. (…) O destino do mundo está em jogo….”

Um apelo que não pode ser desligado também da percepção do avanço do nazi-fascismo e do perigo da deflagração de uma nova e terrível guerra que se adivinhava no horizonte.

Hoje que o capitalismo está confrontado com o aprofundamento da sua crise estrutural que a pandemia acelerou e aprofundou, expondo com toda a crueza as suas nefastas consequências, com a intensificação da exploração, a condenação de milhões de pessoas ao desemprego e à pobreza extrema, ao abandono de milhões à sua sorte na doença, sem resposta à falta de habitação e alimentação saudável, à salubridade, à educação ou à cultura, diz-nos quanto actual se mantém e urge ampliar esse apelo ao tomar de partido num combate pela humanidade que o capitalismo, pela sua natureza, é incapaz de assumir e responder.

Sim, o aprofundamento da sua crise estrutural aí está a demonstrar que o capitalismo não só é incapaz de dar solução aos problemas dos trabalhadores e dos povos, como tende a agravá-los e a arrastar o mundo para uma terrível regressão social e civilizacional onde emergem imensos perigos e páginas negras com que a Humanidade já tanto sofreu.

Mas aqueles anos trinta da adesão de Álvaro Cunhal ao PCP eram, sem dúvida, um período de duros combates que apelavam a uma coragem férrea para os enfrentar.

Duros combates que então o Partido começava a tomar nas suas mãos, organizando a luta, num esforço titânico de ligação às massas e aos seus problemas, mas também a Juventude Comunista que em breve, em meados dos anos trinta, teria como Secretário-Geral da organização Álvaro Cunhal, e assumia, com os seus camaradas de direcção, a importante tarefa da reconstrução radical da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas.

Estamos no início de um longo trajecto de intervenção e de luta que percorrerá com uma indomável determinação e grande abnegação, resistindo às mais terríveis e duras provas em dezenas de anos de vida clandestina e prisão que iniciou em 1935, como quadro do Partido, e quando teve que enfrentar com inaudita coragem a tortura e a violência brutal da polícia política de uma ditadura sem escrúpulos.

Após anos de golpes repressivos que afectaram gravemente o Partido, Álvaro Cunhal, já membro do Comité Central, participa na reorganização do PCP, em 1940/41, que transforma o PCP num grande partido nacional, da classe operária, dos trabalhadores e dirigente da luta de resistência antifascista, num processo onde é inquestionável o seu contributo nesse período que vai até à sua prisão em 1949 para a concepção, construção e consolidação do PCP como um partido revolucionário, marxista-leninista.

Um contributo de elevado valor, nomeadamente para a definição da identidade e características essenciais de um partido comunista, bem como para a concepção do Partido, como um grande colectivo activo e participante, no qual o trabalho colectivo é visto como “princípio básico essencial do estilo de trabalho do Partido” e aspecto fulcral da democracia interna.

Problemas que serão sempre uma preocupação central e objecto de novos desenvolvimentos da sua produção teórica e que estão bem patentes na sua obra “O Partido com Paredes de Vidro”, escrito em 1985 e que é a mais profunda reflexão teórica de Álvaro Cunhal enquanto construtor do Partido e que teve uma ampla repercussão no movimento comunista internacional.

No plano político, amplamente reconhecida é a sua contribuição e papel na elaboração da estratégia e táctica do Partido. Desde logo nas suas intervenções nos III e IV Congressos do Partido. No notável texto do desvio de direita de 1956/59. A seguir, nesse contributo brilhante, já então Secretário-Geral do PCP, para a definição do Programa para a “Revolução Democrática e Nacional” que é o “Rumo à Vitória”, pela visão de conjunto que encerra, o rigor e acerto da análise, a justeza e realismo na perspectiva, tarefas e orientação que a vida plenamente comprovou e que inquestionavelmente criou condições para a Revolução de Abril e as profundas transformações revolucionárias operadas na sociedade portuguesa.

Álvaro Cunhal, homem de acção e intervenção revolucionária, era portador de uma profícua produção teórica, alicerçada no domínio das teorias e método de análise do marxismo-leninismo que assimilou de forma criativa para responder aos problemas da sociedade portuguesa.

Na realidade, Álvaro Cunhal teve um papel de primacial importância no estudo e teorização do processo revolucionário em Portugal, corporizados na sua obra teórica e no património de luta da sua longa actividade revolucionária. Uma das razões desse facto deve-se a uma correcta compreensão do legado dos fundadores do marxismo que tomava como «uma ciência ligada à vida e às condições de lugar e de tempo, uma ciência que se enriquece com novas experiências e novos conhecimentos».

Foi tomando esta concepção antidogmática, aberta, do marxismo-leninismo, segundo a qual este fornece os fundamentos teóricos para o estudo e para a acção mas não dá receitas já prontas, antes requer como condição do seu desenvolvimento e eficácia a análise concreta da realidade tendo como perspectiva a sua transformação revolucionária, que permitiu a Álvaro Cunhal passar da descrição e denúncia conjuntural do fascismo para a apreensão conceptual do processo estrutural de desenvolvimento do capitalismo em Portugal e dotar o Partido de uma orientação objectivamente fundamentada para levar a cabo as tarefas revolucionárias a que se propunha.

Foi assim que mostrou que a essência de classe do regime fascista e da sua política que tinha imprimido um cunho de originalidade ao capitalismo português, como o evidenciou no relatório ao VI Congresso e na elaboração do já citado Programa para a Revolução Democrática e Nacional em que, constituindo a construção de um Estado Democrático o objectivo primeiro da revolução, a liquidação do poder dos monopólios e do imperialismo a eles associado era o seu correlato necessário e condição da sua viabilidade e sobrevivência.

Isto é, uma revolução que, pelas suas determinantes estruturais, teria que ir além de uma revolução democrática-burguesa pois incorporava profundas transformações económicas e sociais que, no processo da sua realização e dado o papel determinante nela das vastas massas populares, criariam condições para a revolução socialista.

As conquistas que viriam a ser alcançadas com o 25 de Abril, como Álvaro Cunhal mostra em A Revolução Portuguesa. O Passado e o Futuro, - pelo papel determinante que nelas teve a iniciativa das massas populares, pelo seu carácter de emergência para cortar o passo e pôr fim às manobras contra-revolucionárias, pelo seu alcance, criando um sector determinante não capitalista na economia que apontava para o socialismo – vieram demonstrar, dez anos depois de Rumo à Vitória, a correcta apreensão da dialéctica objectiva da dinâmica do desenvolvimento do capitalismo em Portugal e o acerto da teoria revolucionária nela alicerçada, orientadora do rumo a imprimir à acção revolucionária.

Tal apreensão e tal acerto revelam que Álvaro Cunhal soube — e sabê-lo-ia ao longo de toda a sua vida a par e passo com o desenrolar do acontecer histórico — aplicar de forma criativa o socialismo científico de Marx, Engels e Lénine, que em profundidade estudou, à realidade histórica do capitalismo português em conjugação com a experiência prática da luta revolucionária da classe operária e de todos os trabalhadores.

De facto, a Revolução de Abril constituiu uma extraordinária confirmação das análises e das perspectiva e orientações apontadas no Programa da Revolução Democrática e Nacional.

Em Álvaro Cunhal se uniam e fluíam com mestria o domínio da política como ciência e a arte da direcção da luta revolucionária e que transparece com toda a evidência na resposta aos complexos e originais problemas que a Revolução colocou desde o seu primeiro momento.

Desde logo na resposta a essa questão central em cada revolução – a questão do poder político com o qual a Revolução portuguesa se confrontou. As massas tiveram força para impor grandes conquistas revolucionárias, mas não conseguiram criar um poder revolucionário correspondente.

Uma fragilidade explorada pela contra-revolução, com o apoio da social-democracia sua aliada e por todos aqueles que haveriam de liderar posteriormente, através dos seus governos, o processo de recuperação capitalista e recuperação monopolista a partir de 1976 – o PSD, o CDS e o PS - e interromper o processo revolucionário sem que importantes objectivos definidos para a etapa da Revolução Democrática e Nacional fossem realizados.

Governos de política de direita e restauração monopolista que permitiram que novos e velhos grupos económicos e financeiros passassem a dominar de novo a economia e o País, num processo de crescente subordinação do poder político ao poder económico com graves e brutais consequências económicas, sociais e políticas.

Uma prolongada acção orientada para promover uma escandalosa centralização e concentração da riqueza a favor do capital monopolista.

Governos que condenaram com a sua política de enfeudamento aos grandes grupos económicos nacionais e estrangeiros os sectores produtivos nacionais, que fragilizaram o País, agravando os seus principais défices estruturais, que conduziram com essa sua política a uma situação de prolongado retrocesso que se expressa em prolongadas situações de estagnação e recessão económica, agravamento da dívida externa e dos problemas sociais, ampliando as injustiças e as desigualdades sociais

É num contexto de uma Revolução inacabada e de uma brutal ofensiva de anos contra as suas conquistas, uma Revolução que não conseguiu libertar Portugal em definitivo do domínio monopolista e da submissão ao estrangeiro, num agravado quadro de integração capitalista na União Europeia, que Álvaro Cunhal e o PCP, ancorados no saber solidamente fundamentado e actualizado, projectam a acção e intervenção revolucionária futura a partir da realidade transformada pela Revolução de Abril e para responder aos novos e complexos problemas colocados pela evolução da situação nacional e internacional.

Um saber e uma aplicação que estão presentes na elaboração e definição dos elementos estruturantes do Programa de Democracia Avançada proposto pelo PCP aos portugueses, hoje denominado: «Uma Democracia Avançada – Os valores de Abril no futuro de Portugal».

Um Programa cuja actualidade permanece e que o Partido reconhece como um projecto de futuro para o País, como o confirma o debate de preparação do XXI Congresso que o PCP vai no final deste mês realizar. Um Congresso que, nunca é demais sublinhar, assume uma importância ainda maior no exigente e complexo quadro em que vivemos e lutamos e, como sempre, saberemos realizar à altura das nossas responsabilidades e do papel que desempenhamos na sociedade portuguesa.

É para o nosso colectivo partidário um orgulho que o Programa do Partido que nos orienta nos combates do futuro tenha também ainda a marca do contributo e do saber de Álvaro Cunhal.

Um programa para inequivocamente retomar o caminho de Abril, proceder a realizações progressistas de carácter não capitalista, libertando o País em definitivo do domínio do capital monopolista e da submissão ao estrangeiro e inverter o rumo de uma política que conduziu o País a uma profunda dependência.

Um programa estratégico para a concretização de um verdadeiro programa de desenvolvimento do País para a actual etapa histórica, parte integrante e constitutiva da luta pelo socialismo e cuja realização é igualmente indissociável da luta que hoje travamos pela concretização da ruptura com a política de direita e da materialização de uma política patriótica e de esquerda.

Esse combate que hoje travamos, combinando uma exigente luta pela afirmação e concretização da política alternativa patriótica e de esquerda - questão central e decisiva para dar resposta aos graves e persistentes problemas nacionais que permanecem adiados, com um combate quotidiano sustentado na acção e luta das massas pela elevação das condições de vida dos trabalhadores e povo.

Álvaro Cunhal deixou-nos há 15 anos, mas muitos dos combates que travou com o seu Partido temo-los ainda em mãos e as suas análises e contribuições ecoam ainda com redobrada actualidade. Por isso, evocar a sua memória não é apenas falar do passado, é ainda falar da luta presente e do futuro.

Na verdade, o património que nos legou, o seu trabalho, as suas análises, a capacidade de perscrutar o futuro neles contidos, continuam a impressionar-nos pela sua identificação com a realidade dos nossos dias, nomeadamente aquelas que contribuíram para a compreensão dos perigos que ameaçam Portugal como nação, em consequência da política de direita e da submissão das classes dominantes aos interesses estrangeiros.

Bastaria olhar para os seus últimos escritos para verificar como permanecem actuais as grandes linhas do seu pensamento e como continuam a ser um instrumento importante e base de partida para análise dos novos fenómenos e novos acontecimentos da vida nacional e internacional dos últimos anos, nomeadamente em relação à evolução do processo de integração capitalista na União Europeia, à marcha da globalização imperialista que impõe e reserva ao espaço nacional um papel crescentemente secundário, subalterno e vazio de decisão soberana e democrática dos povos, ao acentuar da natureza exploradora, opressora, parasitária e agressiva do sistema capitalista, com o aprofundamento da sua crise estrutural à qual está associada uma brutal ofensiva visando fazer retroceder e liquidar conquistas e direitos alcançados pelos trabalhadores e pelos povos ao longo do século XX.

Toda uma realidade que impunha uma rigorosa reflexão a que Álvaro Cunhal e o nosso Partido deram uma particular atenção e que levou a que se colocasse, em primeiro plano, como uma dos pontos centrais da política portuguesa, a necessidade de defender e assegurar a independência e a soberania nacional e que hoje se mantém como uma questão central da política alternativa que o PCP propõe ao País.

É ver quanto certeiras são as suas análises e previsões sobre as consequências da adesão de Portugal à CEE e do consequente processo de integração. Um processo comandado pelos grandes grupos económicos nacionais e estrangeiros e em larga medida determinados pelo objectivo da restauração do capitalismo monopolista que conduziu o País pelos caminhos da submissão nacional.

Submissão que se aprofunda e que assume uma particular agudeza nestes últimos anos com a evolução do processo de integração na União Europeia. Uma evolução marcada pelo acelerado aprofundamento do seu rumo neoliberal, federalista e militarista que nestes anos mais recentes conheceu um novo impulso com a União Económica e Monetária e o Euro, mas também com o desenvolvimento de novos instrumentos de domínio político e económico – como são a governação económica, o semestre europeu ou o chamado Tratado Orçamental – e que no seu conjunto visam criar um quadro de constrangimento absoluto a qualquer projecto de desenvolvimento próprio, autónomo e soberano de países como Portugal.

Sim, não há problema nacional, não há questão ou assunto a tratar que diga respeito aos portugueses, pequeno ou grande, que não vá a Bruxelas, da TAP aos CTT, do Novo Banco e da banca aos Programa de Estabilidade, das opções orçamentais ao Programa de Recuperação, são os critérios do grande capital transnacional e do diretório das grandes potências que determinam o que serve e não serve ao País. São os constrangimentos e condicionamentos permanentes que nos atam de pés e mãos e que se traduzem numa sistemática ingerência na vida do País e nas suas opções.

Como Álvaro Cunhal e o PCP alertaram, a União Europeia, a União Económica e Monetária e o Euro e este processo de integração concebido e concretizado como instrumento do grande capital de domínio do continente europeu, não foram, nem serão, a salvação do País, antes se confirmam como um entrave ao desenvolvimento soberano de Portugal e das condições de vida dos portugueses.

Tal como não é solução para resolver os problemas nacionais a política de direita, de recuperação e consolidação monopolista que, em Portugal, sucessivos governos executaram e o governo do PS não abandonou, submetidos aos constrangimentos impostos do exterior e aos mesmos desígnios e interesses.

É essa visão, são essas opções e desígnios que estão subjacentes na sua proposta de Orçamento do Estado para 2021, mais determinada pela redução do défice que pela solução dos graves problemas dos trabalhadores, do povo e do País.

Hoje, que o País está confrontado com o agravamento dos seus velhos problemas estruturais em resultado da epidemia e sectores importantes da sociedade, afirmam que urge tirar lições da realidade amarga que esta revelou, um olhar pelo vasto património de analise e proposta destes últimos anos, quer de Álvaro Cunhal, quer do PCP, e levá-los-ia a encontrar a resposta a muitas das suas preocupações e interrogações, nomeadamente quanto à importância de ter serviços públicos modernos e eficientes ou quanto à importância da produção nacional e a necessidade do País não prescindir do objectivo de assegurar a sua soberania alimentar e ter os sectores estratégicos nas suas mãos, um aspecto que merece uma atenção central na obra de Álvaro Cunhal e que tinha subjacente a vital preocupação de afirmar a máxima independência económica para garantir a independência nacional.

Em relação a esta questão o PCP esteve durante anos praticamente sozinho, a chamar à atenção para a necessidade de assegurar prioritariamente a defesa e o desenvolvimento dos sectores produtivos nacionais, incluindo a reindustrialização do País, da sua modernizando e diversificação, tirando partido e aproveitando os seus próprios recursos, para produzirmos cá o que nos impuseram comprar lá fora e não ficarmos tão dependentes de sectores sujeitos a grande volatilidade, como é o caso do turismo.

O País estaria hoje melhor preparado para enfrentar esta e outras adversidades e para crescer e se desenvolver se tais propostas fossem consideradas.

Um ensinamento que Álvaro Cunhal nos legou com a sua palavra e o seu exemplo e de utilidade reforçada nestes tempos de instilação do medo e de limitações de direitos e liberdade é o que, sejam quais forem as circunstâncias existentes em cada momento, a luta é sempre necessária – e vale sempre a pena, porque será ela e a força que dela emana, em última instância, que determina a evolução dos acontecimentos.

Num tempo em que a construção da alternativa exige o desenvolvimento de uma ampla frente social de luta, como um dos factores determinantes da sua concretização. Neste tempo em que à sombra e a pretexto da epidemia se põem em causa direitos e liberdades essenciais, a luta não pode ficar de quarentena!

Estar onde estão as massas, trabalhar e aprender com elas, e com elas agir na defesa dos seus interesses, foi a palavra de ordem que desde muito cedo o PCP avançou e Álvaro Cunhal deu particular atenção e que hoje mantém toda a actualidade.

Por isso é importante dar atenção a todas as lutas, pequenas e grandes, estar lá a dinamizar, a apoiar, a dar força e solidariedade a quem luta, como o fazem os trabalhadores da Frente Comum dos Sindicatos da Administração Pública, com uma manifestação nacional marcada para o próximo dia 13. Para eles todo o nosso apoio!

Recordámos aqui hoje um combatente intrépido que se entregou com denodada abnegação à causa dos trabalhadores e do seu povo, à causa da liberdade, da democracia e do socialismo. Às causas que são também do seu Partido de sempre.

Figura fascinante, Álvaro Cunhal permanece como um exemplo maior do combatente abnegado de um Partido cuja história se confunde com a história da luta do povo no último século.

Uma história que nos honra e que queremos continuar a honrar, porque este é um Partido que nunca virou a cara à luta. Um Partido cujos militantes deram provas sem paralelo de abnegação.

Partido não só para resistir, mas para avançar, que é portador daquela esperança que não fica à espera e que caldeada na luta concreta torna o sonho realidade, sempre, sempre com os trabalhadores e o povo, transportando o seu projecto transformador e emancipador!

Evocar mais uma vez aqui Álvaro Cunhal é lembrar uma vida vivida de cabeça erguida, feita de verticalidade, de coerência e coragem, de busca incessante dos caminhos da vitória sobre a injustiça e as desigualdades com as armas da cultura, do conhecimento e da intervenção política e da acção colectiva quotidiana na procura da concretização desse sonho milenar da construção de uma sociedade liberta da exploração e da opressão.

Esse sonho que deu sentido à vida de Álvaro Cunhal e que continua a dar hoje sentido às nossas vidas!

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