Intervenção de Paulo Raimundo na Assembleia de República, Debate com o Primeiro-Ministro

Governo, Chega e PS dançam o bailarico. Quem paga a conta são os trabalhadores!

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O Sr. Primeiro-Ministro fez um esforço grande para que este debate de hoje fosse marcado pelo orçamento. Então, vou-lhe fazer o favor e vamos falar de orçamentos. Comecemos com os orçamentos daqueles que estão sempre em défice, que são os orçamentos das famílias, daqueles que têm uma vida cada vez mais difícil, daqueles que têm de enfrentar o aumento dos combustíveis, o aumento dos alimentos, o aumento da habitação, todos aqueles cuja vida está cada dia mais difícil.

Mas também falamos dos orçamentos que estão sempre em excedente, os tais grupos económicos que se enchem à custa da desgraça de muita gente. E é curioso que é exatamente para esses que o Sr. Primeiro-Ministro, do seu orçamento, ainda quer atribuir mais benefícios fiscais, ainda mais regalias, ainda quer atribuir mais descidas de impostos, ainda quer garantir rendas públicas para a sua sustentação. Mas eu queria, Sr. Primeiro-Ministro, fazer-lhe a primeira pergunta, que é a seguinte.

Acha ou não que, por exemplo, os 1 300 milhões de euros de lucros da Galp devem ou não contribuir para enfrentar o aumento dos combustíveis e do gás? Acha ou não que os 500 milhões de lucros da grande distribuição, só no primeiro semestre, devem ou não contribuir para enfrentar o drama do aumento brutal do cabaz alimentar? Ou acha ou não que, por exemplo, os 14 milhões de euros de lucros por dia da banca, 10 mil euros por minuto de lucros, devem ou não, desde logo, pagar aquilo que devem ao povo português e, simultaneamente, contribuir para enfrentar este drama do acesso à habitação?

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O Sr. Primeiro-Ministro, com toda a franqueza e com toda a respeitabilidade, o Sr. Primeiro-Ministro é um verdadeiro bailarino. Já sabíamos, tinha dotes de bailarino a dançar a dois, também já sei que tem dotes de bailarino a dançar a três, nomeadamente o tango a três. Mas, Sr. Primeiro-Ministro, não ponha palavras na minha boca, Sr. Primeiro-Ministro, não ponha palavras na minha boca.

O Sr. Primeiro-Ministro vem aqui encher o peito com um orçamento que dá 1 700 milhões em benefícios fiscais. Sabe para quê é que dava esses 1 700 milhões, Sr. Primeiro-Ministro? Para a rede pública de creches, era para isso que dava. Vem com um orçamento que vai descer novamente o IRC em 1%, para os tais dos milhões e milhões de lucros.

Vem com um orçamento que entrega 1 700 milhões às parcerias público-privadas rodoviárias, que é o mesmo que dizer, Sr. Primeiro-Ministro, que dava para aumentar as pensões em 50 euros a todos os reformados e ainda sobrava dinheiro para generalizar o acesso gratuito dos reformados aos medicamentos. Sr. Primeiro-Ministro, não vale a pena vir com ilusões e, como eu disse, o Sr. Primeiro-Ministro é de facto um bailarino. Isto é um vira.

O Sr. Primeiro-Ministro vira-se para o Chega e aprova com o Chega as leis dos suspeitos. Vira-se para o Partido Socialista e aprova com o Partido Socialista este orçamento que é um frete ao capital e é uma desgraça para o país. Ora, e nós aqui, enquanto andamos neste bailarico, enquanto o Chega agradece ao PS por não ter que aprovar o orçamento com o qual está de acordo, enquanto os fundos imobiliários agradecem ao Chega por dar a mão ao Governo para poderem despejar à vontade, enquanto andamos aqui neste bailarico, quem vai sobrando com a conta são aqueles que pagam o baile.

São os trabalhadores, são as juventudes, os pequenos empresários, são os reformados. Sr. Primeiro-Ministro, juntou-se ao Chega para avançar com a lei dos despejos e com a lei do aumento das rendas. Sr. Primeiro-Ministro, Sr. André Ventura, não façam mais nada.

Cada vez que os primeiros fazem alguma coisa, aumentam os custos de habitação, aumentam as rendas, aumentam os despejos. É este o caminho que quer, Sr. Primeiro-Ministro? 

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Sr. Primeiro-Ministro, não minimize os seus dotes de bailarino, porque, de facto, tem-nos mostrado aqui nesta casa. Agora, Sr. Primeiro-Ministro, há uma coisa de que pode estar descansado: é que, quanto mais avançar a sua política, não menosprezando a força das populações, da juventude, dos trabalhadores, quanto mais avançar, maior será a resposta e maior será a luta.

Está aí em grande dimensão e será assim no dia 17 de Outubro também em várias cidades do país.

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