Friedrich Engels

Friedrich Engels
Friedrich Engels e a luta na actualidade pelo socialismo
Friedrich Engels e a luta na actualidade pelo socialismo

Um dos méritos de Friedrich Engels foi ter sido co-fundador do socialismo científico, a teoria que não só se tornou a arma teórica dos oprimidos e explorados de todo o mundo, mas que também é o guia directo para uma prática revolucionária transformadora da realidade.

«A seguir ao seu amigo Karl Marx (que morreu em 1883), Engels foi o mais notável sábio e mestre do proletariado contemporâneo em todo o mundo civilizado.» 1 Friedrich Engels, que morreu a 5 de Agosto de 1895, em Londres, tal como o seu amigo e companheiro de luta Karl Marx, pôs toda a sua vida, toda a sua força física e espiritual ao serviço da luta de libertação do proletariado internacional.

As características dos intelectuais burgueses — radicalismo verbalista, por um lado, e oportunismo na prática, por outro — sempre lhe foram estranhas. A vida e a obra de Friedrich Engels constituem uma unidade que se reflecte na unidade de teoria e prática do marxismo.

  • Nascimento em Barmen de Friedrich Engels, filho do fabricante de têxteis Friedrich Engels e da sua mulher Elisabeth (nome de solteira: van Haar).
  • Revolução em França, queda de Carlos X.
  • Engels entra no liceu de Elberfeld.
  • Artesãos alemães fundam em Paris a Liga dos Justos, primeira organização política dos operários alemães.
  • A pedido do pai, Engels desiste dos estudos e começa a trabalhar como escriturário.
  • Engels parte para Bremen, onde vai estudar a vida comercial.
  • Engels publica sem assinatura no Telegraph fur Deutschland de Hamburgo as Cartas de Wuppertal, primeira série para este jornal, com o qual colaborará até ao final de 1841. Os artigos seguintes são publicados sob o pseudónimo de Friedrich Oswald.
  • Subida ao trono de Frederico Guilherme IV da Prússia.
  • Regresso de Engels a Barmen.
  • Partida de Engels com destino a Berlim, onde fará o serviço militar. Aí seguiu cursos uni­versitários e estabeleceu contacto com os jovens hegelianos. Engels publica um artigo e duas brochuras sobre a filosofia de Schelling.
  • Colaboração com a Gazeta Renana. Engels regressa a Barmen.
  • Partida de Engels para Inglaterra, onde deve continuar a formação comercial na firma Ermen & Engels. De passagem por Colónia, visita a redacção da Gazeta Renana, onde se encontra com Marx pela primeira vez.
  • Engels estuda a situação social e política da Inglaterra e as obras dos grandes economis­tas burgueses, dos economistas vulgares e socialistas utópicos.
  • Engels decide viver com a operária irlan­desa Mary Burns.
  • Engels entra em contacto com a secção londrina da Liga dos Justos, onde conhece Heinrich Bauer, Joseph Moll e Karl Schapper.
  • Início da colaboração de Engels no jornal cartista The Northern Star e no semanário socialista utópico The New Moral World. Engels conhece George Julian Harney e o poeta alemão Georg Weerth.
  • Início da publicação em Paris dos Anais Franco-Alemães, em que Engels publica Esboços para uma Crítica da Economia Nacional.
  • Revolta dos tecelões da Silésia.
  • De regresso à Alemanha, Engels passa por Paris, onde permanece dez dias. Início da colaboração com Marx.
  • Engels parte de Paris para Barmen.
  • Meados de Setembro- -Março de 1845

    Engels redige em Barmen A Situação da Classe Laboriosa em Inglaterra. Entra em contacto com socialistas e democratas da Renânia.

  • Expulso de Paris, Marx parte para Bruxelas.
  • Engels pronuncia duas alocuções em reu­niões em Elberfeld.
  • Publicação em Frankfurt da primeira obra escrita em colaboração por Marx e Engels, A Sagrada Família, ou Crítica da Crítica Crítica.
  • Engels parte para Bruxelas.
  • Publicação em Leipzig de A Situação da Classe Laboriosa em Inglaterra.
  • Marx e Engels efectuam uma viagem de estudo de seis semanas a Londres e Manchester.
  • Marx e Engels fundam em Bruxelas o Comité Comunista de Correspondência.
  • Marx e Engels conhecem Wilhelm Wolff.
  • Marx e Engels completam A Ideologia Alemã. A obra não pode ser publicada na Alemanha porque nenhum editor aceita o manuscrito.
  • Mandatado pelo Comité Comunista de Cor­respondência de Bruxelas, Engels parte para Paris.
  • Engels intervém em reuniões de operários alemães e da Liga dos Justos em Paris para dar a conhecer as ideias do comunismo científico.
  • Engels redige o texto Os Socialistas Ver­dadeiros.
  • Marx e Engels aderem à Liga dos Justos.
  • Reunião do Landtag da Prússia em Berlim.
  • Fome, motins e revoltas em várias regiões alemãs, na sequência das más colheitas do ano anterior.
  • Engels participa em Londres no primeiro congresso da Liga dos Comunistas.
  • Publicação em Bruxelas, em francês, da obra de Marx A Miséria da Filosofia, resposta à Filosofia da Miséria de Proudhon.
  • Marx e Engels fundam em Bruxelas a Asso­ciação Operária Alemã.
  • Engels colabora na Gazeta Alemã de Bru­xelas.
  • Engels participa no banquete internacional dos democratas em Bruxelas em que é fun­dada a Sociedade Democrática.
  • Engels parte para Paris.
  • Mandatado pelos membros parisienses da Liga dos Comunistas, Engels redige os Princípios Básicos do Comunismo.
  • Marx e Engels participam em Londres no segundo congresso da Liga dos Comunistas. São encarregados de redigir o programa da Liga.

As «Cartas de Wuppertal»

Friedrich Engels nasceu há 150 anos, precisamente a 28 de Novembro de 1820, na cidade de Barmen, na Província Renana que pertencia ao reino da Prússia. O pai era fabricante de têxteis. Por desejo do pai, abandonou o liceu prematuramente, em Setembro de 1837. Seguidamente trabalhou durante pouco tempo como ajudante comercial na firma do pai. Depois transferiu-se para Bremen em meados de 1838, para fazer um estágio comercial numa grande firma.

Nas horas livres, Engels interessava-se particularmente pela literatura sua contemporânea. Interessou-se, sobretudo, pelos escritores da Jovem Alemanha, um grupo de autores da oposição democrático-burguesa.

O primeiro fruto da sua própria actividade jornalística foram as «Cartas de Wuppertal», publicadas no Telégrafo para a Alemanha, onde desmascarava o obscurantismo e a hipocrisia da burguesia e do clero. Além disto, as «Cartas» contêm uma descrição da exploração e da miséria dos operários e dos artesãos. Embora estes escritos denotem ainda o ponto de vista limitado do liberal oposicionista, a verdade é que despertaram considerável atenção — sobretudo, evidentemente, em Wuppertal.

O jovem Engels reviu a sua posição filosófica — o cristianismo herdado —, depois de ter estudado intensivamente a filosofia de Hegel e diversos escritos de crítica religiosa, entre outros a obra A Vida de Jesus do jovem hegeliano David Strauss. Jovens hegelianos era o nome dado aos discípulos de Hegel de tendência política de esquerda. A alteração da posição filosófica trouxe consigo a mudança da posição política de Engels. O liberal oposicionista tornou-se o democrata revolucionário.

Do democratismo revolucionário ao comunismo

Após a conclusão do seu estágio comercial em Bremen, Engels regressou a Barmen em 1841. Poucos meses depois partia para Berlim, para aí cumprir o serviço militar, durante um ano, como voluntário. Aproveitou o tempo livre para frequentar aulas de filosofia na Universidade e fazer contactos com o círculo dos Livres, os jovens hegelianos de Berlim.

A filosofia de Hegel podia ser utilizada para tirar conclusões revolucionárias, porque partia do princípio de que nada permanece eternamente, pois que tudo se desenvolve. Portanto, a velha ordem feudal podia, ou melhor, tinha de ser substituída por uma outra, a burguesa. Assim se compreende que praticamente toda a intelectualidade progressista e revolucionária burguesa deste período fosse constituída por hegelianos de esquerda.

A partir deste momento, numa série de escritos contra Schelling, o jovem Engels provou como eram sólidos os seus conhecimentos da filosofia alemã. Nestes escritos, e partindo de um ponto de vista hegeliano de esquerda, Engels submeteu as concepções reaccionárias de Schelling a uma crítica severa.

Depois de terminar o serviço militar, e de uma curta estada na sua cidade natal, Engels partiu para Inglaterra no fim de 1842. Aí, em Manchester, ia completar a sua formação comercial com um estágio na fábrica de fiação Ermen & Engels. Já no princípio desse ano começara a colaborar na Gazeta Renana, o jornal porta-voz da burguesia oposicionista. A caminho de Inglaterra, durante uma curta paragem em Colónia, visitou a redacção da Gazeta Renana e aí conheceu Karl Marx. O encontro foi, no entanto, curto e superficial e, por isso, não resultou dele nenhum intercâmbio intensivo de ideias entre os dois.

Chegado a Inglaterra, Engels iniciou imediatamente o estudo das condições sociais e políticas. Ainda em Dezembro de 1842 apareceram alguns artigos seus na Gazeta Renana, onde, entre outras coisas, dava a conhecer o cartismo 2 ao leitor alemão. Do cartismo diria Lénine mais tarde que fora «o primeiro movimento proletário revolucionário amplo, realmente de massas, politicamente organizado» 3. Em Manchester, onde exercia a sua actividade profissional, Engels tinha a possibilidade de acompanhar permanentemente as actividades reivindicativas dos cartistas e, antes de mais, de estudar as próprias condições de trabalho e de vida das massas proletárias. A este respeito escreveu mais tarde: «Em Manchester saltou-me aos olhos que os factos económicos, que até agora não desempenham papel nenhum na historiografia, ou apenas um papel desprezível, são, pelo menos no mundo moderno, um poder histórico decisivo; que eles formam a base para a génese das hodiernas oposições de classes; que estas oposições de classes, nos países onde graças à grande indústria se desenvolveram plenamente, portanto nomeadamente a Inglaterra, voltam a ser a base da formação política de partidos, das lutas de partidos e, assim, da história política toda.» 4 Sem dúvida que estas conclusões de Engels não foram só o resultado da sua observação da prática do movimento operário inglês. Foram também, em grande parte, o resultado dos seus estudos dos economistas burgueses 5, dos socialistas e comunistas utópicos 6 e dos seus conhecimentos filosóficos anteriores.

Engels evoluíra, assim, do idealismo para o materialismo e do democratismo revolucionário para o comunismo. Testemunho desta evolução é o seu trabalho Esboços para Uma Crítica da Economia Nacional, onde analisa a estrutura económica da sociedade burguesa e as suas categorias básicas de uma perspectiva socialista.

Durante a sua estada em Inglaterra, Engels não se limitou a adquirir uma maior clareza de princípios na sua crítica dos processos sociais; estabeleceu também contactos com o movimento operário inglês e internacional. Deste modo, durante a sua estada em Londres, contactou, entre outros, com os dirigentes da Liga dos Justos.

  • Expulso de Paris, Engels chega a Bruxelas.
  • Revolução em França.
  • Publicação em Londres do Manifesto do Partido Comunista, programa da Liga dos Comunistas.
  • Expulso da Bélgica, Marx sai de Bruxelas. Chega com a família a Paris a 5 de Março.
  • Constitui-se em Paris a Direcção Central da Liga dos Comunistas, sob a direcção de Marx. Engels é cooptado.
  • Início da revolução em Viena.
  • Combates de rua em Berlim.
  • Engels chega a Paris.
  • Marx e Engels redigem as Reivindicações do Partido Comunista na Alemanha, edita­das na forma de panfleto.
  • Marx e Engeles saem de Paris e chegam a Colónia em 11 de Abril, após uma paragem em Mainz. Aí preparam a publicação da Nova Gazeta Renana.
  • Engels desloca-se a Barmen e várias outras cidades da província da Renânia.
  • Reunião da Assembleia Nacional alemã na igreja de São Paulo de Frankfurt.
  • Engels regressa de Barmen a Colónia.
  • Reunião da Assembleia Constituinte prussiana em Berlim.
  • Publicação do primeiro número da Nova Gazeta Renana, datado de 1 de Junho. Marx ocupa as funções de redactor-chefe, sendo Engels seu adjunto.
  • Tomada do arsenal em Berlim.
  • Os operários parisienses das Oficinas Nacionais sublevam-se. A revolta é britalmente reprimida.
  • Para escapar à prisão, Engels sai de Coló­nia, dirige-se a Bruxelas por Verviers e Liège, e depois à Suíça, passando pela França.
  • Sublevação da população de Viena. Vitória da contra-revolução.
  • Golpe de Estado contra-revolucionário na Prússia.
  • Engels regressa da Suíça, onde participou na formação da Associação Operária.
  • Engels é absolvido pelo tribunal no julga­mento da Nova Gazeta Renana.
  • A Assembleia Nacional de Frankfurt adopta a Constituição do Reich alemão.
  • Início da sublevação armada em Dresden, no Palatinado, em Baden e na província da Renânia para defender a Constituição dos ataques da contra-revolução.
  • Engels desloca-se a Elberfeld passando por Solingen; aí dirige os trabalhos de fortifi­cação para resistir aos assaltos dos contra­-revolucionários.
  • Publicação do último número da Nova Gazeta Renana, datado de 19 de Maio.
  • Marx e Engels saem de Colónia e dirigem-se para o Sudoeste da Alemanha, passando por Frankfurt.
  • Mandatado pelo Comité Central Democrá­tico, Marx dirige-se para Paris.
  • Engels combate no corpo de voluntários de Willich, no qual é ajudante de campo do comandante.
  • Engels vive na Suíça.
  • Expulso de Paris, Marx chega a Londres.
  • Engels embarca em Génova com destino a Londres.
  • Engels chega a Londres.
  • É eleito para a Direcção Central da Liga dos Comunistas. Participa na reorganização da Liga e nos preparativos para a publicação de um novo jornal.

O nascimento do socialismo científico

Em fins de Fevereiro de 1844 publicaram-se os ensaios de Engels Esboços para Uma Crítica da Economia Nacional e A Situação da Inglaterra, nos Anais Franco-Alemães, publicados em Paris por Karl Marx e Arnold Ruge 7. Karl Marx e Friedrich Engels começaram a corresponder-se por causa da publicação do primeiro destes ensaios.

Ao longo de 1844 Engels continuou os seus estudos sobre as condições de trabalho e de vida da classe operária inglesa. Recolheu sobretudo material para a obra que planeara sobre a história de Inglaterra e a situação da classe operária.

Em fins de Agosto de 1844 deixou a Inglaterra para regressar a Barmen. Durante a paragem em Paris visitou Karl Marx. Em longas discussões, que se estenderam por dez dias ao todo, chegaram a acordo em todas as questões políticas, económicas e ideológicas e ficaram amigos. Sobre este assunto Engels escreveu posteriormente: «Marx não tinha só chegado à mesma opinião, tinha-a generalizado já nos Anais Franco-Alemães: não é de forma nenhuma o Estado que condiciona a sociedade burguesa, mas a sociedade burguesa que condiciona o Estado; portanto, são as condições económicas e o seu desenvolvimento que explicam a política e a sua história, e não o contrário. Quando, no Verão de 1844 visitei Marx em Paris, estabeleceu-se a nossa completa concordância em todos os domínios teóricos, e daí data o nosso trabalho comum.» 8

O começo da amizade entre Marx e Engels foi o momento de nascimento do socialismo científico. Ao contrário do comunismo igualitário de Weitling 9 e do socialismo utópico inglês e francês, que assentava principalmente em postulados morais e éticos, o socialismo científico de Karl Marx e Friedrich Engels baseava-se no reconhecimento de processos sociais reais, no reconhecimento do carácter de classe da sociedade burguesa e da tarefa histórica do proletariado dele resultante — conduzir ao derrubamento do domínio da burguesia e edificar a sociedade sem classes, a sociedade comunista.

No citado ensaio Para a História da Liga dos Comunistas, Engels escreve a este propósito: «E comunismo nunca mais significou: congeminação, por meio da fantasia, de um ideal de sociedade o mais perfeito possível, mas: compreensão [teórica] da Natureza, das condições e dos objectivos gerais, delas resultantes, da luta conduzida pelo proletariado.» 10

Marx e Engels começaram o seu trabalho comum em Paris, ainda em 1844, com a obra A Sagrada Família. Nela se ocuparam criticamente, e de um ponto de vista comunista, da filosofia de Hegel, mas sobretudo da dos seus sucessores jovens hegelianos. O balanço definitivo da filosofia idealista de Hegel e dos jovens hegelianos fizeram-no Marx e Engels na sua obra póstuma, mas escrita em 1845, A Ideologia Alemã 11.

Organização do proletariado

Tendo chegado às conclusões atrás referidas, Marx e Engels reconheciam agora a necessidade de analisar cientificamente e em pormenor as leis do movimento da sociedade capitalista e da Natureza. Mas antes de mais chamaram a si a tarefa de criar uma organização proletária que, por um lado, tivesse em conta o estado de desenvolvimento da consciência da classe operária e que, por outro, na sua força exprimisse também o desenvolvimento das contradições objectivas da sociedade burguesa.

Engels tinha estabelecido contacto, já em 1843, em Londres, com a Liga dos Justos, fundada em França em 1836, e cujos membros eram principalmente refugiados alemães. Nessa altura declinara um convite para entrar para a Liga, porque a organização estava marcada por influências pequeno-burguesas, nomeadamente do comunismo igualitário de Weitling. Além disso, adoptara métodos de trabalho conspirativos que não levavam a parte nenhuma. Mas isto não impedia Marx e Engels, de modo nenhum, de se corresponderem com dirigentes da Liga, de se informarem constantemente sobre o desenvolvimento geral da Liga e, tanto quanto possível, de exercerem eles próprios influência na Liga, sobretudo por meio de panfletos em que criticavam severamente as ilusões pequeno-burguesas.

Depois da estada em Paris, Engels regressou a Barmen e aí trabalhou na conclusão da sua obra A Situação da Classe Operária em Inglaterra. Mas aproveitou também este período para, simultaneamente, esclarecer os operários de Elberfeld sobre a situação em que se encontravam e lhes explicar os objectivos do comunismo.

Depois de uma estada comum em Inglaterra, Marx e Engels fundaram finalmente, no princípio de 1846, em Bruxelas, um comité comunista de correspondência. Este comité visava estimular a unidade ideológica e organizativa dos operários progressistas. A breve trecho se verificou que Weitling e outros intérpretes do comunismo utópico tinham perdido grande parte da sua influência na Liga dos Justos, e que dirigentes da organização viram a necessidade urgente de fazer assentar o comunismo numa base científica.

Nos primeiros meses de 1847 um representante da Liga esteve primeiramente em Bruxelas com Karl Marx, depois em Paris com Engels. Pretendia convencê-los a entrar para a Liga, assegurando-lhes que a maioria dos seus membros estava absolutamente convencida da correcção das concepções de ambos. Queria ainda encarregá-los da redacção de um manifesto para a Liga. «O que nós tínhamos até então criticado a esta Liga era agora abandonado pelos próprios representantes da Liga como erróneo; […] Entrámos, portanto, para a Liga.» 12

No primeiro Congresso da Liga, em Londres, no Verão de 1847, onde ficou decidida a sua reorganização, Engels representava as comunas de Paris, e o seu amigo Wilhelm Wolff 13 as secções de Bruxelas. E a Liga dos Justos tornou-se a Liga dos Comunistas. A influência do socialismo científico propagado por Marx e Engels fez-se sentir não só no novo nome, mas sobretudo nos estatutos que seriam aprovados no segundo Congresso da Liga. Assim, o artigo 1.º diz: «O objectivo da Liga é o derrubamento da burguesia, a dominação do proletariado, a superação da velha sociedade burguesa que repousa sobre oposições de classes, e a fundação de uma nova sociedade sem classes e sem propriedade privada.» 14

No segundo Congresso da Liga, realizado de 29 de Novembro a 8 de Dezembro de 1847, Karl Marx teve oportunidade de expor pormenorizadamente os novos princípios do socialismo e de esclarecer dúvidas ainda existentes. Os delegados aceitaram por unanimidade as concepções expostas por Marx e encarregaram-no a ele e a Engels da elaboração do programa da Liga sob a forma de um manifesto.

Em Fevereiro de 1848 apareceu a obra básica do marxismo, elaborada conjuntamente por Marx e Engels a partir de um rascunho de Engels — o Manifesto do Partido Comunista 15. Os dois grandes mestres e lutadores do proletariado esboçaram aí o desenvolvimento do capitalismo, expuseram as tarefas da classe operária para a superação das condições de exploração e de servidão e superaram também todas as formas burguesas e pequeno-burguesas de socialismo até ai dominantes. «Este pequeno livrinho vale por tomos inteiros: ele inspira e anima até hoje todo o proletariado organizado e combatente do mundo civilizado.» 16

Contudo, Marx e Engels não se deram por satisfeitos, de modo algum, com a sua actividade para a Liga dos Comunistas. Simultaneamente foram alargando a sua influência a organizações burguesas e a diversos órgãos de imprensa. Entre outras actividades, Engels foi até colaborador do jornal cartista A Estrela do Norte. Marx e Engels jamais se deixaram apoderar pela obsessão de um «culto do proletariado». Pelo contrário: trabalharam sempre com todas as forças sociais progressistas, mesmo quando se tratava de sociais-democratas de cariz pequeno-burguês que não era possível incluir no destacamento de vanguarda do proletariado revolucionário.

  • Publicação em Hamburgo da Nova Gazeta Renana. Revista Político-Económica.
  • Marx e Engels redigem a Mensagem da Direcção Central à Liga dos Comunistas. Março de 1850.
  • Início da correspondência regular com Marx.
  • Engels começa em Manchester o estudo sistemático das questões militares.
  • Engels começa a estudar russo.
  • Prisão dos dirigentes da Liga dos Comunis­tas em Colónia.
  • ngels encarrega-se de uma parte da corres­pondência de Marx para o New-York Daily Tribune e começa a série de artigos Revo­lução e Contra-Revolução na Alemanha.
  • Engels prossegue o estudo das línguas, da história e da literatura dos povos esla­vos. Colabora no jornal Notes to the People, editado pelo dirigente cartista Ernest Jones.
  • Golpe de Estado de Louis Napoléon Bonaparte.
  • Julgamento em Colónia dos dirigentes pre­sos da Liga dos Comunistas.
  • A pedido de Marx, a comuna londrina da Liga dos Comunistas dissolve a organi­zação em Inglaterra e pronuncia-se contra a perpetuação da organização no continente.
  • Engels estuda a história do Oriente e a lín­gua persa.
  • Wilhelm Wolff sai de Londres e instala-se em Manchester.
  • Guerra da Rússia contra a Turquia (Guerra da Crimeia).
  • Engels publica vários artigos sobre o assunto no New-YorkDaily Tribune e no Neue OderZeitung.

  • Engels faz uma viagem à Irlanda com Mary Burns.
  • Georg Weerth morre em Havana.
  • Início da crise económica mundial.
  • Engels coopera na redacção da Nova Enci­clopédia Americana.
  • Engels estuda as ciências naturais.
  • Publicação em Berlim, sem menção do nome do autor, da obra O Pó e o Reno.
  • Guerra franco-piemontesa contra a Áustria.
  • Marx e Engels colaboram no Das Volk, jornal alemão publicado em Londres.
  • Publicação em Berlim da obra de Marx Para a Crítica da Economia Política, livro primeiro.
  • Engels publica no Das Volk uma crítica da obra de Marx.
  • Engels regressa a Barmen para o funeral do pai.
  • Publicação em Berlim, sem menção do nome do autor, da brochura A Sabóia, Nice e o Reno.
  • Engels regressa a Barmen para ver a mãe, gravemente doente.
  • Engels escreve diversos comentários mili­tares para a Allgemeine Militar-Zeitung de Darmstadt e para o The Volunteer Journal, for Lancashire and Cheshire.
  • Guerra da Secessão nos Estados Unidos da América.
  • Engels escreve vários artigos sobre o con­flito para o New-YorkDaily Tribune e o Die Presse de Viena.

  • Bismarck é nomeado ministro-presidente da Prússia.
  • Morte de Mary Burns em Manchester.
  • Insurreição no reino da Polónia contra o poder tsarista.
  • Marx e Engels trabalham numa brochura sobre a luta de libertação nacional polaca, que ficou inacabada.

    23 de Maio

    Fundação em Leipzig da Associação Geral de Operários Alemães. Ferdinand Lassalle é eleito presidente.

    Guerra prusso-austríaca contra a Dina­marca.
  • Morte de Wilhelm Wolff em Manchester.
  • Engels torna-se sócio da firma Ermen & Engels.
  • Engels faz uma viagem ao Schleswig-Holstein.
  • Fundação em Londres, em Saint Martin’s Hall, da Associação Internacional dos Tra­balhadores, a I Internacional.
  • Publicação em Londres da Mensagem Inau­gural da Associação Internacional dos Tra­balhadores, redigida por Marx.
  • Colaboração de Marx e Engels em Der Social-Demokrat.
  • Publicação em Hamburgo da obra de Engels A Questão Militar Prussiana e o Partido Operário Alemão.
  • Guerra prusso-austríaca.
  • Correspondência de Engels para o The Manchester Guardian sobre a guerra prusso-austríaca.
  • Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores em Genebra.
  • Engels inicia uma viagem à Suécia, Dina­marca e Alemanha. Em Hannover visita Ludwig Kugelmann.
  • Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores em Lausanne.
  • Publicação em Hamburgo do primeiro livro de O Capital, principal obra económica de Marx.
  • Engels publica críticas da obra de Marx em vários jornais burgueses liberais e democráticos, bem como em publicações operárias.

A revolução burguesa

Depois de a Revolução de Fevereiro de 1848 ter rebentado em França, Marx e Engels foram para Paris. A queda da monarquia de Luís Filipe e a proclamação da República constituíram um extraordinário êxito do proletariado francês. Logo a seguir, em Março de 1848, rebentava a revolução na Alemanha. Imediatamente após a sua chegada a Paris, Engels tinha começado a trabalhar na direcção central da Liga dos Comunistas, e colaborava agora com Marx na elaboração das Reivindicações do Partido Comunista na Alemanha — o programa dos comunistas para a Revolução.

Trezentos a quatrocentos operários — a maioria dos quais membros da Liga — puseram-se a caminho da Alemanha, para aí fazerem valer as concepções dos comunistas. Sobre isto escreveu Engels: «Como era fácil de prever, face ao movimento das massas do povo então desencadeado, a Liga mostrou-se uma alavanca muito fraca.» 17

Uma vez que o nível de desenvolvimento do proletariado alemão era ainda muito baixo, devido à fragmentação da Alemanha e à escassa industrialização, a estratégia e táctica da Liga só podia ser um pacto com as forças burguesas revolucionárias. Marx e Engels tinham-se apercebido da situação com toda a clareza. Embora vissem a impossibilidade de fundar um partido proletário de massas, formaram, logo após o seu regresso, uma série de associações de operários para reforçar a influência da Liga. Aconselharam ainda os membros da Liga a entrarem para as organizações dos democratas revolucionários e aí fazerem valer os seus pontos de vista — o que eles próprios puseram exemplarmente em prática.

O projecto mais importante foi, sem dúvida, a fundação de um jornal revolucionário. A Nova Gazeta Renana, com o subtítulo «Órgão da Democracia», dirigida por Marx e Engels do primeiro ao último número, correspondeu plenamente ao seu objectivo: representar todas as forças progressistas da Alemanha.

Porque Marx estava muito sobrecarregado com a selecção dos materiais e com tarefas de coordenação e organização, Engels encarregou-se a princípio da maior parte dos editoriais da Nova Gazeta Renana. A sua intervenção a favor de todas as forças democráticas revolucionárias e progressistas não impedia Marx e Engels, de modo nenhum, de defenderem permanente e consequentemente o ponto de vista da classe operária, a força social mais progressista. Particularmente nos seus artigos sobre a insurreição de Junho 18 do proletariado parisiense, Marx e Engels defenderam de um modo notável a posição da classe operária. Na sua análise dos métodos da luta, Engels lançou os fundamentos da doutrina marxista da insurreição armada.

Em Setembro de 1848 foi instaurado um processo por alta traição contra Friedrich Engels e outros. Também contra Marx se agravavam as medidas repressivas, com o reforço crescente da contra-revolução. Quando foi declarado o estado de sítio em Colónia, e Engels se viu na iminência de ser preso, saiu da Alemanha e dirigiu-se a Bruxelas. Foi preso nesta cidade, mas pouco depois era expulso para França. De Paris seguiu a pé para a Suíça. Poucos meses mais tarde, Engels entrava de novo em Colónia, onde voltou a dar todo o seu esforço à Nova Gazeta Renana.

Quando, em Maio de 1848, rebentou a insurreição de Elberfeld, Engels dirigiu-se para lá com operários revolucionários e encarregou-se de diversas tarefas directivas. Engels só saiu de Elberfeld e voltou a Colónia quando o comportamento da burguesia comprometeu a unidade das forças revolucionárias. A Nova Gazeta Renana teve que suspender a sua publicação em 19 de Maio de 1849, devido à expulsão de Karl Marx da Prússia e ainda a um novo mandado de captura contra Engels por ter tomado parte na insurreição de Elberfeld. Outros redactores foram igualmente perseguidos. Na sua última edição, impressa a vermelho, os redactores despediram-se da seguinte maneira: «A sua última palavra será sempre e em toda a parte: Emancipação da classe trabalhadora!» 19

Em muitos dos seus artigos, Marx e Engels tinham já apontado a causa do fracasso da revolução. Desmascararam, antes de mais, a traição da burguesia liberal, que, temendo o povo e, particularmente, o crescimento do proletariado (levantamento dos tecelões da Silésia em 1844), se aliara às forças reaccionárias feudais em vez de lutar pelas liberdades burguesas ao lado dos camponeses, da pequena burguesia e do proletariado. Em Julho de 1849 Engels alistou-se no exército revolucionário de Baden-Palatinado, para tomar parte activa nas lutas em Baden. Juntamente com o comandante do corpo, Willich, Engels elaborou uma série de planos para a execução de complicadas operações militares. Depois da derrota do levantamento, a divisão em que Engels lutava foi a última a passar a fronteira da Suíça.

Reorganização

Depois da derrota da revolução no Continente, Engels dirigira-se para a Suíça, onde se encontrou com Wilhelm Wolff e Wilhelm Liebknecht. A conselho de Marx, Engels deixou a Suíça em Outubro de 1849. De novo em Londres, deu o seu apoio ao plano de Marx de publicar a Nova Gazeta Renana: Revista Político-Económica e de meter ombros a uma reorganização da Liga dos Comunistas. «Mas, o para que essa organização havia de servir dependia muito essencialmente de se as perspectivas de um surto renovado da revolução se realizassem. E, no decurso do ano de 1850, isso tornou-se cada vez mais inverosímil, mesmo impossível.» 20 Marx escreveu sobre o assunto na Nova Gazeta Renana: Revista Político-Económica: «Com esta prosperidade geral, em que as forças produtivas da sociedade burguesa se desenvolvem tão exuberantemente quanto é, em geral, possível no interior das relações burguesas, não se pode falar de maneira nenhuma de uma revolução real21

A diferente apreciação da situação por Marx, Engels e os seus partidários, de um lado, e por um grupo ultra-esquerdista formado à volta de Willich 22 e Schapper 23, por outro, acabou por levar à cisão da Liga, e pouco depois, à sua completa dissolução. Marx e Engels acusavam, com razão, Schapper e Willich de comportamento pequeno-burguês, porque eles substituíam a análise materialista da situação concreta pelo verbalismo-revolucionário.

Entretanto, Friedrich Engels publicava a sua notável obra A Guerra dos Camponeses Alemães na Nova Gazeta Renana: Revista Político-Económica. Marx iniciara já em Julho de 1850 o estudo sistemático da história e da economia, a preparação para uma obra volumosa de economia política que iria relegar para plano secundário tudo o que até então fora feito neste domínio.

  • Engels termina uma análise de conjunto de O Capital.
  • Congresso em Nuremberga da União das Associações dos Operários Alemães. Por iniciativa de August Bebel e Wilhelm Liebknecht, a União declara-se solidária com os objectivos da Associação Internacional dos Trabalhadores.
  • Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores em Bruxelas.
  • Morte de Ernest Jones em Manchester.
  • Engels cessa a sua actividade na firma Ermen & Engels.
  • Congresso constitutivo do Partido Operário Social-Democrata em Eisenach.
  • Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores em Basileia.
  • Engels faz uma segunda viagem à Irlanda na companhia de Lizzie Burns e de Eleanor Marx.
  • Publicação em Leipzig do primeiro número de Der Volksstaat, órgão central do Partido Operário Social-Democrata. Marx e Engels encontram-se entre os colaboradores do jornal.
  • Nascimento de Vladímir Ilitch Uliánov (Lénine).
  • Engels inicia a redacção de uma história da Irlanda, que ficará inacabada.
  • Início da guerra franco-alemã.
  • Engels publica um total de 59 artigos na Pall Mall Gazette sobre o desenrolar das operações militares do conflito franco­-alemão.
  • Batalha de Sedan. Capitulação das tropas francesas.
  • Engels instala-se em Londres com a mulher.
  • Engels é coptado para o Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalha­dores. Posteriormente é nomeado secretá­rio correspondente para a Bélgica, Itália, Espanha, Portugal e Dinamarca, bem como membro do comité das finanças.
  • Proclamação do Reich alemão em Versa­lhes.
  • Comuna de Paris.
  • O Conselho Geral da Associação Geral dos Trabalhadores adopta a Mensagem redigida por Marx sobre A Guerra Civil em França.
  • Engels traduz de inglês para alemão a Men­sagem de Marx para ser publicada em Der Volksstaat.
  • Conferência da Associação Internacional dos Trabalhadores em Londres sob a direcção de Marx e Engels.
  • Publicação em Genebra da circular As Pre­tensas Cisões na Internacional, redigida por Marx e Engels.
  • Publicação em Der Volksstaat da série de artigos de Engels Para a Questão da Habi­tação. Realiza-se uma tiragem especial em Leipzig.
  • Marx e Engels participam no Congresso da Associação Internacional dos Trabalhado­res na Haia.
  • O Congresso da Associação Internacio­nal dos Trabalhadores, reunido na Haia, decide transferir o Conselho Geral para Nova Iorque.
  • Engels termina o plano da Dialéctica da Natureza, obra em que trabalhará, com numerosas interrupções, até 1883, sem conseguir terminá-la.
  • Engels vai a Engelskirchen para o funeral da mãe.
  • Engels publica em Der Volksstaat a série Literatura de Refugiados.
  • Numa carta a August Bebel, Engels e Marx expõem as suas ideias sobre o projecto de programa do Partido Operário Social­-Democrata alemão.
  • Marx envia a Wilhelm Bracke as suas Glo­sas Marginais ao Programa do Partido Oerário Alemão, para que as transmita a Ignaz Auer, August Bebel, August Geib e Wilhelm Liebknecht.
  • Congresso de unificação de Gotha. Fun­dação do Partido Socialista Operário da Alemanha.
  • Engels redige O Revolucionamento da Ciência do Senhor Eugen Duhring (Anti-Duhring), que se publica sob a forma de série no Vorwarts de Janeiro a Dezembro de 1877 e de Maio a Julho de 1878 e tem uma edição em livro em Leipzig em 1878.
  • Guerra russo-turca.
  • Morre em Londres a segunda mulher de Engels.
  • O Reichstag alemão adopta a «Lei contra os intentos da social-democracia perigosos para o público» (Lei contra os socialistas).
  • Engels escreve com Marx a Carta Circular a A. Bebel, W. Liebknecht, W. Bracke e Outros.
  • Publicação em Zurique do primeiro número de Der Sozialdemokrat, órgão central da social-democracia alemã clandestina. Marx e Engels colaboram no jornal.
  • Engels e Marx elaboram com Jules Guesde e Paul Lafargue, em Londres, o programa do Partido Operário Francês.
  • Publicação em Paris da brochura de Engels O Desenvolvimento do Socialismo da Uto­pia à Ciência.
  • Congresso do Partido Socialista Operário da Alemanha clandestino em Wyden (Suíça).
  • Na companhia de Eduard Bernstein, August Bebel desloca-se a Londres, onde trava conhecimento com Marx e Engels.
  • Engels publica vários editoriais no jornal sindical The Labour Standard.
  • Morte em Londres da mulher de Marx.
  • Engels começa a redigir os manuscritos Para a História Primitiva dos Alemães e Tempo Frâncico, onde regista os principais resultados das suas longas investigações históricas e linguísticas.
  • Marx morre em Londres.
  • Funeral de Marx no cemitério de Highgate, em Londres. Engels pronuncia o elogio fúnebre.
  • Engels escreve o prefácio à terceira edição alemã de O Capital, após ter terminado as correcções de provas iniciadas por Marx.

Trabalho científico

Marx e Engels tinham ido para Londres como emigrantes. Para Marx, sobretudo, isto significava ter de suportar dificuldades e de enfrentar obstáculos consideráveis para o seu trabalho científico e político. A falta de dinheiro, que se fazia sentir particularmente devido às doenças cada vez mais frequentes na família Marx, impedia o seu trabalho científico contínuo. Mas nem a dor pela morte de três dos seus filhos, nem o seu próprio estado de saúde, cada vez pior, o impediram de prosseguir a sua actividade. Para poder fazer face pelo menos às necessidades materiais mais prementes da família Marx, Friedrich Engels retomou, em 1850, a sua actividade comercial na firma Ermen & Engels. Além desta ajuda económica, que enviava regularmente a Marx, Engels procurou também, tanto quanto lhe era possível, libertá-lo de encargos noutros domínios, para que Marx tivesse o tempo necessário para os seus estudos de economia política. Assim, escreveu muitos artigos para o New-York Daily Tribune que foram publicados com o nome de Marx.

Apesar das obrigações comerciais, Engels não abdicou de modo nenhum do seu próprio trabalho científico. Pouco depois de chegar a Manchester, iniciou o estudo científico de assuntos militares e dedicou-se, além disso, a aprender várias línguas eslavas. A par dos seus estudos científicos, Marx e Engels esforçaram-se por conservar coeso um núcleo da dissolvida Liga dos Comunistas, a fim de assegurarem a base de uma futura organização proletária internacional.

O facto de a actividade profissional de Engels o reter em Manchester não afectou a troca de ideias e o diálogo entre os dois amigos. Uma correspondência volumosa testemunha em que medida cada um participava na actividade e nos problemas do outro. Não houve praticamente nenhum acontecimento político e económico do tempo que não fosse referido nas cartas; nenhuma questão importante do trabalho em mãos que não fosse discutida. A correspondência entre Marx e Engels permite também fazer uma ideia impressionante da inquebrantável amizade que os unia e que está expressa na participação recíproca em problemas pessoais que encontramos a cada passo.

Ascenso das forças revolucionárias

A prosperidade económica geral que floresceu nos Estados europeus e na América depois da revolução burguesa terminou com a crise económica mundial de 1857-1858. A consequência deste facto foi um crescimento generalizado dos movimentos democráticos burgueses, mas principalmente uma crescente actividade combativa do proletariado, que se manifestou, entre outras coisas, nas lutas salariais. A isto juntaram-se a revolta polaca, a tentativa de Napoleão III de fazer guerra à Áustria na Itália, a guerra civil americana, na qual a burguesia inglesa pretendia intervir ao lado dos Estados do Sul. Tudo isto politizou amplas massas populares e provocou várias formas de protesto internacional contra as manobras da reacção. A nova situação histórica proporcionava, assim, condições favoráveis à constituição de uma organização proletária internacional. Cabe em especial a Karl Marx o mérito de ter realizado o trabalho decisivo pelo proletariado internacional nesta fase. A 28 de Setembro de 1864 fundou-se em Londres, no St. Martin's Hall, a Associação Internacional dos Trabalhadores, a primeira organização internacional da classe operária verdadeiramente representativa.

Marx e Engels viam na Internacional – que era uma organização ideologicamente muito heterogénea – um meio para familiarizar a classe operária com o socialismo científico numa escala mais vasta e efectiva do que até então acontecera, e para combater as concepções pequeno-burguesas ainda enraizadas na maioria dos operários. Precisamente em face dos acontecimentos revolucionários que se aproximavam – em França, por exemplo, o processo de decomposição do regime bonapartista era evidente –, a questão com os proudhonistas 24, no campo económico, e com os blanquistas 25, no domínio político, assumiu enorme importância.

O 14 de Setembro de 1867 foi um marco na história do socialismo e do movimento operário. Neste dia veio a público, ao cabo de longa preparação, o primeiro volume de O Capital, de Karl Marx 26, a análise da sociedade capitalista cientificamente fundamentada e realizada do ponto de vista de classe do proletariado, que constituiu uma revolução completa da economia política burguesa. Depois do aparecimento desta obra genial, era necessário, em primeiro lugar, conquistar para ela um vasto círculo de leitores, isto é, tornar o livro o mais popular possível. É que a táctica provada da burguesia fora, desde sempre, silenciar os factos desagradáveis. A actividade de Friedrich Engels foi essencial para fazer fracassar esta táctica de silêncio. Nas suas recensões anónimas para a imprensa burguesa, criticava O Capital de um ponto de vista aparentemente burguês, e por meio deste «meio de guerra», como Marx lhe chamou, Engels conseguiu que os economistas burgueses tomassem posição. Além disso, contribuiu ainda, com os seus trabalhos publicados na imprensa democrática e proletária, para que O Capital encontrasse vasta propagação entre as massas. Numa recensão escrita em 1868, Engels afirmou sobre O Capital: «Desde que há no mundo capitalistas e operários não apareceu nenhum livro que fosse de tanta importância para os operários como o que temos diante de nós.» 27

Guerra e revolução

Em 19 de Julho de 1870, com a declaração de guerra do regime bonapartista à Prússia, atingiu-se uma nova etapa dos conflitos de classes em larga escala. A este respeito, Marx e Engels demonstraram que expedições de pilhagem no estrangeiro não podiam ocultar as contradições internas existentes. E, por isso mesmo, logo pouco depois do início da guerra, Marx previu que, após uma derrota de Bonaparte, com toda a probabilidade rebentaria uma revolução em França.

Durante a guerra, Friedrich Engels aplicou, de uma forma excelente, os seus conhecimentos de ciência militar e bélica à guerra franco-prussiana. Na sua série de artigos «Sobre a Guerra», publicados na Gazeta de Pall Mall, conseguiu prever com exactidão, mais de uma vez, acontecimentos importantes no decorrer da guerra, graças ao seu método de análise materialista histórico.

Em 1864, Engels tornara-se sócio da firma Ermen & Engels, e em Julho de 1869 abandonou a sua actividade comercial para se poder dedicar inteiramente às suas tarefas científicas e políticas. Por proposta de Marx, foi eleito para o Conselho Geral da Internacional em Outubro de 1870.

Quando, no dia 4 de Setembro, o povo francês derrubou o regime odiado de Napoleão III e obrigou à proclamação da República, as previsões de Marx e Engels a este propósito ficaram comprovadas. Mas os teóricos do socialismo científico também tinham reconhecido imediatamente que o novo governo burguês não queria assumir as tarefas da defesa nacional, pelo contrário: com medo do seu próprio povo revolucionário, tendia, cada vez mais, a colaborar com as tropas prussianas de ocupação, isto é, com o inimigo nacional.

O rebentar da revolução proletária em Paris, a 18 de Março de 1871, a Comuna de Paris, confirmou a apreciação da situação histórica feita por Marx e Engels. Era agora também ainda mais evidente a importância da luta ideológica contra as teorias socialistas pequeno-burguesas, à qual Marx e Engels tanto valor tinham dado dentro e fora da Internacional. Nomeadamente a prática dos proudhonistas e dos blanquistas, durante os dias da Comuna, revelou as consequências que advêm de uma atitude não científica perante a luta de classes e de teorias económicas pequeno-burguesas. Não obstante a sua permanente crítica aos erros da Comuna, Marx e Engels contam-se entre os mais entusiásticos defensores do primeiro Estado proletário da história, tendo organizado febrilmente acções de solidariedade.

Depois da vitória das forças contra-revolucionárias em Paris, os teóricos do socialismo científico generalizaram as experiências da Comuna, contribuindo assim para um novo e decisivo desenvolvimento do socialismo, particularmente com a elaboração da doutrina do Estado e das tarefas do proletariado na tomada do poder de Estado.

  • Publicação em Zurique da obra de Engels A Origem da Família, da Propriedade Pri­vada e do Estado.
  • Publicação em Zurique de uma brochura coligindo os artigos de Marx Trabalho Assalariado e Capital, com um prefácio de Engels.
  • Publicação em Stuttgart da primeira edição alemã de A Miséria da Filosofia de Marx, com um prefácio de Engels.
  • Publicação em Hamburgo do livro segundo de O Capital, preparado para impressão por Engels, com um prefácio seu.
  • Publicação da terceira edição alemã de Revelações sobre o Processo dos Comu­nistas de Colónia, de Marx, com a introdu­ção de Engels Para a História da Liga dos Comunistas.
  • Engels publica em Die Neue Zeit a sua obra Ludwig Feuerbach e a Saída da Filosofia Alemã Clássica, que, após correcção, será publicada em livro em 1888 em Stuttgart. Engels publica aí em anexo as teses de Marx sobre Feuerbach.
  • Publicação em Zurique, a pedido de Engels, da obra de Wilhelm Wolff Os Mil Milhões da Silésia, precedida do estudo de Engels Para a História dos Camponeses da Prússia.
  • Johann Philipp Becker morre em Genebra. Engels publica um elogio fúnebre em Der Sozialdemokrat.
  • Publicação em Londres do livro primeiro de O Capital em inglês.
  • Publicação em Nova Iorque da tradução inglesa, realizada por Engels, da sua obra A Situação da Classe Laboriosa em Ingla­terra.
  • Engels redige o início da brochura O Papel da Violência na História, que fica inacabada.
  • Publicação em Zurique, em edição sepa­rada, do prefácio de Engels à brochura de Borkheim À Memória dos Patriotas Ale­mães Assassinados. 1806-1807.
  • Engels faz uma viagem aos Estados Unidos da América e Canadá, acompanhado por Eleanor Marx-Aveling, Edward Aveling e Carl Schorlemmer.
  • Engels intervém na preparação do Congresso Internacional Operário Socia­lista de Paris.
  • Abertura do Congresso Internacional Operário Socialista em Paris, que marcou a fundação da II Internacional.
  • Publicação na revista russa Sotsial-Demokrat da análise de Engels A Política Externa do Tsarismo Russo, publicada em alemão em Die Neue Zeit em Abril e Maio.
  • Engels participa na primeira manifestação do 1.° de Maio em Londres.
  • Engels visita a Noruega na companhia de Carl Schorlemmer.
  • Revogação da lei contra os socialistas na Alemanha.
  • Congresso do Partido Operário Francês em Lille.
  • Congresso do Partido Social-Democrata da Alemanha em Halle.
  • Morre em Londres Helene Demuth, que se encarregara do lar de Engels após a morte de Marx.
  • 70.º aniversário de Engels, que recebe men­sagens do mundo inteiro.
  • Engels publica em Die Neue Zeit, com um prefácio, as Glosas Marginais ao Programa do Partido Operário Alemão de Marx.
  • Por ocasião do 207 aniversário da Comuna de Paris, Engels faz publicar em Berlim a obra de Marx A Guerra Civil em França, com um prefácio.
  • Engels faz chegar à direcção do Partido Social-Democrata as suas observações sobre o projecto de programa social-de­mocrata, em vésperas do Congresso de Erfurt.
  • Segundo Congresso Internacional Operário Socialista em Bruxelas.
  • Engels faz uma viagem à Irlanda e à Escócia na companhia de Luise Kautsky e Mary Ellen Rosher, sobrinha de Mary e Lizzie Burns.
  • Congresso do Partido Social-Democrata da Alemanha em Erfurt.
  • Publicação no Almanach du Parti Ouvrier pour 1892 do artigo de Engels O Socialismo na Alemanha. A versão alemã é publicada em Janeiro de 1892 em Die Neue Zeit.
  • Engels redige um longo prefácio para a edição inglesa de O Desenvolvimento do Socialismo da Utopia à Ciência. É publi­cado em alemão na Die Neue Zeit e será traduzido em várias outras línguas.
  • Engels evoca em Londres os problemas do movimento operário internacional com Bebel.
  • Morte em Manchester de Carl Schorlemmer. Engels vai ao funeral.
  • Engels publica uma curta biografia de Marx no Dicionário Portátil de Ciências Sociais.
  • Fundação em Bradford do Independent Labour Party de Inglaterra.
  • Engels publica no Vorwarts de Berlim a série de artigos Pode a Europa Desarmar­-se?, mais tarde publicada em brochura.
  • Engels assiste em Manchester ao funeral do seu amigo Dr. Eduard Gumpert.
  • Engels viaja pela Alemanha, Suíça e Áus­tria.
  • Engels participa nos trabalhos do último dia do Congresso Operário Socialista Inter­nacional em Zurique e pronuncia uma alo­cução final em inglês, francês e alemão.
  • Engels intervém num comício social-demo­crata em Viena.
  • Engels pronuncia uma alocução num comí­cio social-democrata em Berlim.
  • XII Congresso do Partido Operário Francês.
  • Publicação em Die Neue Zeit do artigo de Engels Para a História do Cristianismo Primitivo.
  • Congresso do Partido Social-Democrata da Alemanha em Frankfurt.
  • Publicação em Die Neue Zeit de A Questão Camponesa em França e na Alemanha, de Engels.
  • Publicação em Hamburgo do livro terceiro de O Capital, edição preparada por Engels.
  • Engels começa a preparar a edição completa das obras de Marx e dos seus trabalhos.
  • Engels escreve o prefácio da nova edição de As Lutas de Classes em França de 1848 a 1850, de Marx.
  • Engels inicia os preparativos para a edição do quarto livro de O Capital.
  • Engels efectua uma última estada em Eastbourne, onde recebe a visita de Eleanor Marx-Aveling, Laura Lafargue, Edward Aveling, Victor Adler e vários outros.
  • Engels morre em Londres.
  • As cinzas de Engels são lançadas ao mar, a certa distância da costa, em Eastbourne, segundo a vontade por si manifestada.

O Partido Operário Social-Democrata

Uma das principais tarefas do proletariado alemão era para Marx e Engels a unificação revolucionária da Alemanha, que falhara em 1848-1849. Por isso mesmo, era tarefa prioritária a criação da organização, da unidade e da consciência política do proletariado. Ora, a Associação Geral dos Operários Alemães, fundada em 1863 sob a direcção de Lassalle 28, não estava à altura destas necessidades. Lassalle odiava de tal forma a burguesia que até com Bismarck fez um pacto contra ela, o que teve como consequência que a solução dos problemas do povo alemão lhe fosse imposta «de cima». Além disso, os lassallianos defendiam concepções erradas no campo económico, concepções que Marx e Engels criticavam severamente. A variante do socialismo representada por Lassalle definiram-na eles como «socialismo governamental real-prussiano».

Na luta contra o lassallianismo Engels escreveu importantes ensaios que esclareceram as relações entre o proletariado e o campesinato, e nos quais, acima de tudo, concretizou a tese de que era necessária uma estreita aliança entre o proletariado e o campesinato, de que o movimento operário não deveria abandonar os camponeses à reacção, mas antes desenvolver uma correcta política de alianças.

A fundação do Partido Operário Social-Democrata em 1869, em Eisenach, sob a direcção de Wilhelm Liebknecht 29 e August Bebel 30, foi um acontecimento extraordinário na história do movimento operário alemão. Foi uma vitória do marxismo e da Internacional. É que, apesar de certas debilidades teóricas, o Partido assentava solidamente no marxismo. Para mais, o enérgico apoio de Marx e Engels permitiu «lançar os alicerces sólidos de um partido operário realmente social-democrata 31. Ora, na época tratava-se precisamente dos alicerces do partido» 32. O Congresso da fundação do Partido Operário Social-Democrata, realizado em Eisenach, sublinhou, ao decidir ligar-se à Internacional, a sua aceitação do internacionalismo proletário.

A íntima colaboração entre Marx, Engels, Bebel e Liebknecht tornou-se evidente durante a guerra franco-prussiana e a Comuna de Paris. De acordo com as apreciações de Marx e Engels, Bebel e Liebknecht assumiram no Reichstag (Parlamento alemão) uma posição internacionalista consequente. Condenaram severamente a anexação da Alsácia-Lorena e a cumplicidade da reacção alemã e francesa para esmagar a Comuna.

Depois de a Internacional ter atingido, no essencial, o seu objectivo – a coesão das forças revolucionárias a nível internacional –, era necessário criar partidos proletários nacionais tão fortes quanto possível. Depois da derrota da Comuna, e da desorganização e repressão do proletariado francês que se lhe seguiram, o centro de gravidade do movimento revolucionário deslocou-se da França para a Alemanha. Os esforços de Marx e Engels visaram, por isso, em especial, dar ao partido alemão uma concepção teórica bem clara que pudesse evitar que se degradasse numa prática oportunista.

Luta contra o oportunismo

A unificação do Partido Operário Social-Democrata (grupo de Eisenach) com a Associação Geral dos Operários Alemães (grupo de Lassalle), que se desenhara em 1875, levou Marx e Engels a intervirem ainda mais activamente do que antes nas discussões do partido.

O apoio a uma organização proletária una, apoio que era conforme aos princípios de classe do proletariado, não impediu Marx e Engels de fazerem frente, energicamente, à ameaça de uma diluição teórica resultante da unificação. Exactamente como Marx na sua Crítica do Programa de Gotha 33, também Engels, numa carta a Bebel, de 18-28 de Março de 1875 34, se opôs às cedências feitas aos lassallianos pelo grupo de Eisenach no projecto do programa, e cujas consequências, na prática, só podiam levar ao oportunismo. Engels combateu em especial a tese de Lassalle de que, em comparação com a classe operária, todas as restantes classes eram uma «massa reaccionária» e desmascarou-a como esquerdista, uma vez que se negava aqui uma aliança do proletariado com o campesinato sem se tomar em conta a situação histórica concreta. Engels denunciou como abandono da luta de classes os tópicos do projecto de programa sobre, por exemplo, «ajuda do Estado» e «cooperativas de produção», e as concepções a eles ligadas do Estado como existindo acima das classes. Criticou-os também por despertarem a ilusão de que a libertação do proletariado se poderia atingir no Estado prussiano da aristocracia agrária. A análise e a crítica do projecto de programa por Marx e Engels defenderam a classe operária alemã de muitos erros, mas não puderam impedir completamente que o oportunismo fosse aumentando a sua influência.

Um outro perigo ameaçava o jovem partido – vinha de outra direcção, mas era favorecido pelas cedências do grupo de Eisenach na fusão com o de Lassalle. De todas as correntes antimarxistas, começavam a actuar negativamente no partido sobretudo as concepções do ideólogo pequeno-burguês Dühring 35. A «teoria» de Dühring era uma mistura de diferentes concepções materialistas vulgares, idealistas, positivistas, económicas vulgares e pseudo-socialistas. Em colaboração íntima com Marx, Engels elaborou o brilhante livro, geralmente considerado polémico Anti-Dühring. O Revolucionamento da Ciência do Senhor Eugen Dühring 36, no qual não só submeteu as ideias de Dühring a uma crítica demolidora como também, paralelamente, expôs a base da teoria marxista. Este trabalho de Engels foi publicado numa série de artigos no Vorwärts! (Avante!), órgão central do Partido Social-Democrata. Mais tarde Engels chegou à conclusão de que «a monotonia da polémica com um adversário insignificante não impediu, de facto, que a tentativa de apresentar um quadro enciclopédico da nossa concepção dos problemas filosóficos, das ciências da natureza e históricos tivesse sucesso» 37.

Como já no Anti-Dühring, também no seu fragmento póstumo Dialéctica da Natureza Engels aplicou a dialéctica materialista a problemas das ciências da natureza. O objectivo desta sua obra formulou-o ele no prefácio à segunda edição do Anti-Dühring: «Nesta minha recapitulação da Matemática e das ciências da Natureza, tratava-se evidentemente de me convencer, também no pormenor – quando, no geral, não havia, para mim, dúvida nenhuma –, de que, na Natureza, se impõem, no emaranhamento das inúmeras modificações, as mesmas leis dialécticas do movimento, que também dominam, na história, a aparente casualidade dos acontecimentos» 38.

«Intérpretes» burgueses do marxismo atrevem-se a afirmar que Engels «introduziu» a dialéctica na natureza, ao passo que Marx só aplicara a dialéctica materialista à sociedade, na qual o homem age directamente. A pretensa contradição entre Marx e Engels nasceu apenas, na verdade, dos desejos dos «marxólogos», pois Marx conhecia e aprovava os trabalhos de Engels em causa. De facto até colaborou neles, como, por exemplo, no Anti-Dühring, para o qual escreveu um capítulo sobre economia. Que Engels neste período tenha escrito principalmente trabalhos filosóficos e sobre ciências da natureza, deve-se, em primeiro lugar, a razões de economia de trabalho, uma vez que Marx estava totalmente ocupado com O Capital.

A herança de Marx

Karl Marx morreu em Londres, a 14 de Março de 1883. Engels, que participou imediatamente a todos os dirigentes do movimento operário internacional a morte do amigo, do maior sábio e lutador do proletariado, escreveu a Philipp Becker 39: «Ontem à tarde, às 2.45, deixado sozinho uns dois minutos, encontrámo-lo calmamente adormecido na poltrona. A cabeça mais poderosa do nosso partido deixara de pensar, o coração mais forte que alguma vez conheci apagara-se.» 40

No funeral de Marx, no cemitério londrino de Highgate, Engels proferiu um discurso fúnebre em que apreciou a importância histórica da obra de Marx e os seus méritos como revolucionário proletário e fundador do socialismo científico 41.

Engels considerou como sua primeira obrigação para com o proletariado internacional e o seu defunto amigo cuidar da publicação dos volumes ainda inéditos de O Capital. Ao fim de dois anos de cuidadoso trabalho, aprontou para publicação o segundo volume da obra, que veio a público em Maio de 1885. A conclusão do terceiro volume foi uma tarefa muito difícil, porque este não se encontrava na forma de um rascunho já pronto, constava em parte apenas de notas e comentários, deixados por Marx, que ainda precisavam de um trabalho profundo. Engels cumpriu também esta tarefa em completo respeito pelas ideias do seu genial amigo. Em 1894, ao fim de quase 10 anos de trabalho, foi finalmente publicado o terceiro volume de O Capital. Com esta obra, Marx e Engels tinham dado ao proletariado alicerces teóricos inabaláveis: com ela, graças ao método científico materialista dialéctico, a economia política burguesa conheceu uma transformação radical, ao mesmo tempo que a filosofia e a ciência da história atingiam um estádio de desenvolvimento mais avançado.

Neste período, Engels não estava só ocupado com a conclusão dos volumes inéditos de O Capital. Controlava também, com muito cuidado, a nova edição do primeiro volume na Alemanha, bem como a exactidão das traduções inglesa e russa. Deste período data também um trabalho muito importante da autoria do próprio Engels: A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado 42. Baseado em dados do investigador americano Morgan, em investigações próprias e em extensas notas deixadas por Marx, Engels examinou nesta obra as formas sociais anteriores ao capitalismo, o aparecimento das classes e da luta de classes e, simultaneamente, desenvolveu ainda, de forma criadora, a doutrina marxista do Estado.

Tal como Marx, também Engels tinha estudado toda a vida, e amplamente, as ciências da natureza. E ainda hoje é considerado um etnólogo importante. (De resto, dominava à volta de 20 línguas!) De grande importância é ainda o escrito de Engels Ludwig Feuerbach e a Saída da Filosofia Alemã Clássica 43. Nesta obra, Engels clarifica a relação do marxismo com Hegel e Feuerbach, formula o problema fundamental da filosofia e apresenta um resumo da teoria marxista da sociedade.

A par de toda esta actividade há que mencionar também o grande cuidado e a atenção com que Engels acompanhou, nos últimos anos da sua vida, o desenvolvimento do movimento operário alemão e internacional. Com o início do desenvolvimento do capitalismo pré-monopolista, assente na livre concorrência, para o capitalismo monopolista, para o imperialismo, verificou-se uma agudização da luta de classes à escala internacional. Mas o reforço geral do movimento operário coincidiu com um crescimento de correntes oportunistas e esquerdistas, uma vez que cada vez mais elementos pequeno-burgueses vinham às fileiras dos partidos proletários. Apesar da sua idade avançada, Engels lutou em todas as frentes contra a falsificação do marxismo e aconselhou os partidos do proletariado sobre muitos problemas. Foi ele a força impulsionadora da fundação da Segunda Internacional em 1889, em Paris.

Já em 1878, depois da promulgação das «leis anti-socialistas», leis verdadeiramente antipopulares, se vira que os elementos oportunistas e reformistas haviam ganho considerável influência na social-democracia alemã, pois parte da direcção do Partido se revelara, a princípio, incapaz de organizar a luta doravante ilegal contra o capitalismo. Depois de estas leis serem vencidas pela força crescente da social-democracia e de Bismarck se ter demitido, de novo as forças oportunistas se fizeram sentir com redobrada intensidade. Especialmente à incansável actividade de Engels se ficou a dever o facto de as teorias divulgadas pelos oportunistas e reformistas terem conseguido apenas uma influência limitada.

Quando Friedrich Engels morreu, em Londres, a 5 de Agosto de 1895, o proletariado internacional e os oprimidos de todo o mundo perderam, depois de Karl Marx, o seu mais importante teórico e mestre. Engels dedicara toda a sua vida à luta contra os exploradores e os opressores da humanidade, à luta pela criação de uma sociedade humana, uma sociedade sem exploradores nem explorados, uma sociedade em que, sobre a base da propriedade colectiva dos meios de produção, se pudesse tornar realidade o desenvolvimento livre e integral das capacidades e dos dotes individuais.

Ao contrário dos comunistas e socialistas utópicos e dos inúmeros «libertadores da humanidade», e das suas concepções moralizantes, Marx e Engels deram ao socialismo uma base científica. Pela assimilação de todo o conhecimento positivo de então, pela compreensão das leis de desenvolvimento da sociedade e da natureza e pela elaboração analítica concreta dos acontecimentos sociais – Marx e Engels fizeram da reivindicação moral de condições de vida humanas e dignas neste mundo uma certeza histórica: a certeza de que a queda da dominação capitalista tem um fundamento objectivo e de que o coveiro da ordem capitalista de exploração é o proletariado internacional.

Notas

(1) V. I. Lénine, «Friedrich Engels», in Obras Escolhidas em três tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, t. 1, 1981, p. 28. (Nota das Edições «Avante!».)

(2) A designação «cartismo» deriva de Carta do Povo, um projecto de lei que devia ser apresentado ao Parlamento inglês e continha diversas reivindicações, entre outras o direito ao sufrágio universal. O movimento cartista, que se desmembrou em 1848, era sem dúvida revolucionário, mas não socialista.

(3) V. I. Lénine, «A Terceira Internacional e o seu lugar na história», in Obras Escolhidas em seis tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, t. 4, 1986, p. 236. (Nota das Edições «Avante!».)

(4) Marx-Engels, Werke, vol. 21, p. 211.

(5) Adam Smith, David Ricardo, Jean-Baptiste Say, J. R. MacCulloch, James Mill e outros.

(6) Ver o caderno intitulado Precursores do Socialismo Moderno (O socialismo utópico) desta colecção. (Nota das Edições «Avante!».)

(7) Arnold Ruge (1802-1880), publicista radical, jovem hegeliano, democrata pequeno-burguês, depois de 1866 partidário de Bismarck. Em 1844, com Marx, editor dos Anais Franco-Alemães.

(8) F. Engels, Para a História da Liga dos Comunistas, in Marx/Engels, Obras Escolhidas em três tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, t. III, 1985, p. 199. (Nota das Edições «Avante!».)

(9) Wilhelm Weitling (1808-1871), destacado representante do movimento operário alemão na fase do seu nascimento; membro da Liga dos Justos, divulgou um comunismo igualitário utópico. Em 1849 emigrou para a América e desligou-se do movimento operário.

(10) F. Engels, Para a História da Liga dos Comunistas, ed. cit., p. 199. (Nota das Edições «Avante!».)

(11) Ver K. Marx/F. Engels, A Ideologia Alemã (1.º capítulo), Edições «Avante», Lisboa, 2020. (Nota das Edições «Avante!».)

(12) F. Engels, Para a História da Liga dos Comunistas, ed. cit., p. 202. (Nota das Edições «Avante!».)

(13) Wilhelm Wolff (1809-1864), revolucionário proletário; participa no movimento estudantil; de 1843 a 1848 preso na Prússia; membro da Liga dos Comunistas e redactor da Nova Gazeta Renana; amigo comum de Marx e Engels. Marx dedicou-lhe o primeiro volume de O Capital.

(14) F. Engels, Para a História da Liga dos Comunistas, ed. cit., p. 202. (Nota das Edições «Avante!».)

(15) Ver K. Marx/F. Engels, Manifesto do Partido Comunista, Edições «Avante!», Lisboa, 5.ª ed., 2011. (Nota das Edições «Avante!».)

(16) V. I. Lénine, «Friedrich Engels», ed. cit., t. 1, 1981, p. 32. (Nota das Edições «Avante!».)

(17) A revolta armada do proletariado parisiense iniciada em 23 de Junho de 1848; opunha-se à destruição das conquistas da Revolução de Fevereiro, nomeadamente as oficinas nacionais e uma comissão operária.<

(18) A revolta armada do proletariado parisiense iniciada em 23 de Junho de 1848; opunha-se à destruição das conquistas da Revolução de Fevereiro, nomeadamente as oficinas nacionais e uma comissão operária.<

(19) Marx/Engels, Werke, vol. 6, p. 519.

(20) F. Engels, Para a História da Liga dos Comunistas, ed. cit., p. 208. (Nota das Edições «Avante!».)

(21) Marx/Engels, Werke, vol. 21, p. 221.

(22) August Willich (1812-1870, membro da Liga dos Comunistas, comandante de um corpo de voluntários na revolta de 1849, em Baden-Palatinado; sectário; general do exército dos Estados do Norte, na guerra civil americana.

(23) Karl Schapper (1812-1870), membro da Liga dos Comunistas; em 1850, dirigente da fracção sectária da Liga; a partir de 1856, nova aproximação de Marx; membro do Conselho Central da Internacional.

(24) Simpatizantes de Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), um dos fundadores do anarquismo.

(25) Simpatizantes de Louis-Auguste Blanqui (1805-1881).

(26) Os três livros de O Capital, de Karl Marx, encontram-se publicados pelas Edições «Avante!» em oito tomos. (Nota das Edições «Avante!».)

(27) F. Engels, «Recensão do primeiro volume de “O Capital” para o “Demokratisches Wochenblatt”», in Marx/Engels, Obras Escolhidas em três tomos, ed. cit., t. II, 1983, p. 159. (Nota das Edições «Avante!».)

(28) Ferdinand Lassalle (1825-1864), democrata vulgar com tendências fortemente bonapartistas (Engels); fundador da Associação Geral dos Operários Alemães, cujo mérito histórico consiste em ter feito despertar o movimento operário depois de um longo letargo, e o ter libertado da orientação da burguesia liberal.

(29) Wilhelm Liebknecht (1826-1900), marxista, dirigente da social-democracia alemã, amigo de Marx e Engels.

(30) August Bebel (1840-1913), marxista, dirigente da social-democracia alemã, discípulo e amigo de Marx e Engels.

(31) Social-democrata, entenda-se: comunista – como no caso do Partido Operário Social-Democrata Russo (Bolchevique), o partido proletário dirigido por Lénine. (Nota das Edições «Avante!».)

(32) V. I. Lénine, Œuvres, Éditions Sociales- Éditions du Progrès, Paris-Moscou, vol. 19, p. 316.

(33) K. Marx, Crítica do Programa de Gotha, in Marx/Engels, Obras Escolhidas em três tomos, ed. cit., t. 3, 1985, pp. 5-30. (Nota das Edições «Avante!».)

(34) Id., ibid., pp. 31-38. (Nota das Edições «Avante!».)

(35) Eugen Karl Dühring (1833-1921), pensador confuso e confusionista no domínio da filosofia e da economia; entre 1863 e 1867, ensinou na Universidade de Berlim; ideólogo da pequena burguesia.

(36) F. Engels, Anti-Dühring. O Revolucionamento da Ciência do Senhor Eugen Dühring, Edições «Avante!», Lisboa, 2020. (Nota das Edições «Avante!».)

(37) F. Engels, Carta a Bernstein, 11 de Abril de 1884, in Marx-Engels, Werke, vol. 36, p. 16.

(38) F. Engels, Anti-Dühring. O Revolucionamento da Ciência do Senhor Eugen Dühring, ed. cit., p. 506. (Nota das Edições «Avante!».)

(39) Johann Philipp Becker (1809-1886), participante na Revolução de 1848-1849; comandante da milícia popular de Baden, durante a revolta de Baden-Palatinado, em 1849; dirigente da Associação Internacional dos Trabalhadores; redactor do jornal Der Vorbote (O Arauto). Amigo e companheiro de luta de Marx e Engels.

(40) F. Engels, Carta a Johann Philipp Becker, de 15 de Março de 1883, in Marx-Engels, Werke, vol. 35, p. 458. (Nota das Edições «Avante!».)

(41) Ver F. Engels, «Discurso diante do túmulo de Karl Marx» in Marx/Engels, Obras Escolhidas em três tomos, ed. cit., t. 3, pp. 179-181. (Nota das Edições «Avante!».)

(42) F. Engels, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Edições «Avante!», Lisboa, 2.ª ed., 2002. (Nota das Edições «Avante!».)

(43) F. Engels, Ludwig Feuerbach e a Saída da Filosofia Alemã Clássica, Edições «Avante!», Lisboa, 2019. (Nota das Edições «Avante!».)