Intervenção de Jorge Cordeiro , membro do Secretariado e da Comissão Política do Comité Central, Encontro Nacional do PCP - «A situação nacional, as eleições para o Parlamento Europeu e a luta por uma política patriótica e de esquerda»

Abertura do Encontro Nacional do PCP

Abertura do Encontro Nacional do PCP

Camaradas

Realizamos este encontro num momento particularmente inquietante da história recente do nosso país.

Um país arrastado para uma situação sem precedentes de declínio económico, retrocesso social e dependência, resultado e consequência directa de 37 anos de política de direita, determinada pelos interesses do grande capital e subordinada à integração capitalista na União Europeia.

Hoje, como nunca antes, a luta pela ruptura com a política de direita é a mais urgente e patriótica tarefa e objectivo que se coloca aos trabalhadores, ao povo, a todos os democratas e patriotas que querem assegurar para Portugal um futuro enquanto nação soberana e independente.

Essa inadiável ruptura que abra uma janela de esperança, capaz de mobilizar energias e de afirmar uma corrente de exigência de uma nova política, uma política patriótica e de de esquerda, que assegure um futuro e uma vida melhor.

Este Encontro Nacional assume no actual quadro uma importância redobrada.

Um Encontro que, não sendo ponto de partida de uma intervenção há muito iniciada, é sem dúvida um momento para proceder a uma avaliação integrada das múltiplas tarefas e batalhas políticas que temos no horizonte e para definir as tarefas e linhas de intervenção política que hão-de confluir nesse mesmo objectivo que é o da ruptura com a política de direita e a construção de uma alternativa política, patriótica e de esquerda.

Um Encontro que deve contribuir para articular e projectar a actividade política de todas as organizações e militantes capaz de assegurar o desenvolvimento e a ampliação da luta de massas, impor a demissão do governo e a convocação de eleições antecipadas, preparar as eleições para o Parlamento Europeu, avançar na acção de reforço do Partido.

Uma intervenção que é, em si mesma, condição indispensável para afirmar a política patriótica e de esquerda que desamarre o país do rumo de dependência e retrocesso e afirme uma política determinada pelos valores de Abril, tão mais actuais quanto este ano se assinalam os 40 anos da Revolução.

Um Encontro onde está presente, bem viva, a convicção dos factores essenciais e determinantes para a construção do caminho para dar corpo à alternativa política – reforço do partido, expressão da luta dos trabalhadores e do povo, ampliação da acção e convergência de patriotas e democratas.

Mas também um Encontro onde marca presença na consciência de todos que a ampliação da influência eleitoral da CDU nas próximas eleições para o Parlamento Europeu é um elemento da maior importância para alargar a corrente de confiança de que sim é possível, pela acção, pela vontade e pela opção dos trabalhadores e do povo, abrir o caminho de progresso e dignidade a que têm direito.

Concentração de energias, tensão das forças e meios partidários, apurado sentido de direcção para a articulação das múltiplas tarefas e respostas que a acção eleitoral e a acção geral do Partido reclama, resposta pronta e oportuna aos desenvolvimentos políticos, económicos e sociais – eis, em breves palavras, o que se exige da intervenção política deste grande colectivo partidário.

A dimensão da crise económica e social, a degradação das condições de vida da generalidade da população, o aumento da exploração e das injustiças sociais, acompanhadas pela ofensiva política e ideológica para promover sentimentos de fatalismo e resignação, exigem mais que nunca a promoção do esclarecimento, da mobilização e da luta como factor essencial para afirmar o protesto e a exigência de mudança, com expressão na participação política e no voto.

As eleições para o Parlamento Europeu têm sem dúvida uma dimensão especifica.

Mas aos que se apressam a apresentar as eleições de 25 de Maio isoladas daquilo que é a situação concreta do país – queremos lembrar, e não deixaremos que ninguém o esqueça – que o País cá está, com milhões de portugueses a conviver com os dramáticos problemas que condicionam o futuro das suas vidas e comprometem o desenvolvimento e soberania nacionais.

Aos que se propõem utilizar estas eleições para esconder os problemas económicos e sociais do País e para iludir a natureza de classe da política do governo e as suas consequências – queremos lembrar, e não deixaremos que ninguém o esqueça – que estas eleições são uma oportunidade para condenar os que conduziram o país e a vida dos trabalhadores e do povo ao abismo económico e social que inferniza as suas vidas e compromete o futuro da soberania nacional.

Aos que aprestam a refugiar-se na retórica europeísta para vender de novo a terra prometida – queremos lembrar, e não deixaremos que ninguém o esqueça – que são exactamente esses mesmos promotores da política de direita (PS, PSD e CDS) que atrelaram o País a todas e a cada uma das decisões da União Europeia que atiraram Portugal para a dependência, para o retrocesso e o declínio económico e social.

Camaradas

Vamos ser chamados a construir uma campanha que seja simultaneamente de mobilização para o voto e de esclarecimento sobre a necessidade do reforço da CDU.

Vamos construi-la ancorados no património de intervenção do Partido, no percurso de intransigente defesa dos interesses do povo e do País, identificando as razões e importância do voto na CDU, da sua contribuição para a luta mais geral em defesa dos direitos dos trabalhadores e do povo, da exigência de uma outra política.

Vamos construi-la com a razão e a autoridade singulares de quem pode apresentar-se aos olhos do povo português com a coerência das suas posições, a que a vida deu e dá razão.

A vida deu-nos e dá razão quando há mais de trinta anos denunciámos a integração na CEE ditada não por razões de dimensão económica mas sim enquanto operação política integrada na justificação e apoio ao processo contra-revolucionário.

A vida deu-nos e dá razão quando alertámos para as ruinosas consequências para a economia e produção nacionais que resultariam do então chamado mercado comum.

A vida deu-nos e dá razão quando, contra a corrente e a ilusão dos milhões de euros de fundos comunitários então apresentados, evidenciámos que não só não trariam a coesão económica e social prometidas, mas sim mais dependência, mais desigualdades e assimetrias.

A vida deu-nos e dá razão quando há mais mais de década e meia denunciámos o que a criação da União Económica e monetária e adesão ao Euro significariam de liquidação de uma política monetária e cambial enquanto instrumento crucial para o desenvolvimento soberano.

A vida deu-nos e dá razão quando há três anos, perante o cínico e falso clamor da bancarrota agitado por PS, PSD e CDS, denunciámos que o Pacto de Agressão era apenas o pretexto para o aumento da exploração e para destruição de direitos, um instrumento de afundamento do país e de empobrecimento do povo português.

A vida deu-nos e dá razão quando, há três anos, antes de quaisquer outros e enfrentando incompreensões, colocámos a renegociação da dívida como o único e indispensável caminho para evitar o rumo de afundamento e declínio que hoje temos confirmado.

Com inteira razão podemos apresentar-nos com a força da verdade contra as novas mentiras dos dias de hoje e as que já ensaiam para o amanhã.

A força da verdade sobre o que resultaria do processo de integração capitalista europeu contra a mentira dos que nos prometiam um lugar no “pelotão da frente”.

A força da verdade quanto aos verdadeiros objectivos da integração na União Europeia e do seu projecto de espoliação dos recursos e soberania nacionais, contra a mentira dos que vendiam a tese da “Europa connosco”.

A força da verdade de quem denunciava as consequências para o País da crise estrutural do capitalismo, contra a mentira dos que como, em 2009, o ex-primeiro-ministro e o cabeça da lista do PS ao PE proclamavam e cito “ é a Europa nos protege da crise”.

A força da verdade de quem salienta que perante a sua natureza de classe a União Europeia é irreformável, contra a mentira dos que vendem a patranha da sua democratização e de um suposto federalismo de esquerda.

Não faltarão os que temendo o julgamento popular pelo que de mal tem feito ao país e aos portugueses e que temendo, com razão, o reconhecimento de milhares de portugueses pela intervenção e assumida coerência do Partido e da CDU, procurarão semear a confusão para desmobilizar ou dificultar o voto que mais temem, o voto na CDU.

Aos que atingidos pela campanha de mentira se interrogam, perante a critica e denúncia que fazemos sobre a integração europeia, se vale a pena votar em quem está contra essa integração, dizemos com toda a clareza: sim, não só vale a pena votarem na CDU, como o voto na CDU é o único que pode assegurar a presença de deputados no PE comprometidos com os interesses nacionais e a defesa dos trabalhadores e do povo.

Aos atingidos pela campanha de mentira que procura confundir a dimensão de afirmação patriótica do PCP e da CDU com atitudes isolacionistas e coincidentes com nacionalismos de direita, dizemos sem hesitação: o voto na CDU é o único voto que concilia com coerência a defesa do País com a indispensável cooperação e a acção convergente com os trabalhadores e os povos de outros países na luta por uma Europa de paz, cooperação e progresso.

O voto que assegura pela luta contra a exploração e a pobreza as condições que a política de direita, essa sim, cria para o fomento da extrema-direita e das organizações fascizantes.

Aos que atingidos pela campanha de mentira, são tocados pela mistificatória acusação sempre dirigida contra o PCP quanto às suas responsabilidades por aquilo que apresentam como “uma direita unida e uma esquerda dividida”, lhes dizemos: como a vida comprova é a política de direita que une, quer na política nacional quer nas instituições europeias, PS, PSD e CDS e que o voto que conta para dar força a uma convergência de esquerda é o voto na CDU, o voto na candidatura patriótica e de esquerda indispensável à defesa dos direitos do povo português e dos interesses nacionais.

A candidatura verdadeiramente patriótica e de esquerda, que não se refugia nas questões europeias para esconder a promoção ou a conivência com a política de desastre que cá se faz;

A candidatura verdadeiramente patriótica e de esquerda que não separa o combate no Parlamento Europeu para fazer afirmar os direitos nacionais com o que no nosso País se exige fazer para romper com política de direita;

A candidatura verdadeiramente patriótica e de esquerda que defende nas instituições nacionais e no PE, a nossa produção, a nossa agricultura e as pescas, os serviços públicos, o nivelamento por cima dos direitos dos trabalhadores e da protecção social, ao contrário de outros que dizem cá o inverso do que fazem na UE.

A candidatura verdadeiramente patriótica e de esquerda que assume, sem rodeios, que não é possível defender sólida e coerentemente os interesses nacionais sem mudar de política em Portugal.

A candidatura verdadeiramente patriótica e de esquerda que, convictamente, sabe não haver defesa da soberania e independência nacionais com o aprofundamento do federalismo.

A candidatura que vencendo a barragem ideológica sobre uma alegada “saída limpa” do Programa de Agressão que sufoca o País, sabe e afirma que não só não há saída limpa no quadro do lamaçal que a integração capitalista representa, como denúncia, com clareza, a manobra para fazer perpetuar pelos instrumento de dominação económica e política da União Europeia o saque, a exploração e dependência.

Camaradas,

Está nas nossas mãos, na nossa acção colectiva e individual dar corpo a uma campanha assente no contacto directo e no convencimento pessoa a pessoa, no esclarecimento que mobilize vontades e agregue em torno da CDU uma corrente de esperança e confiança na construção de uma nova política e de uma vida melhor.

Uma campanha que faça convergir para o voto na CDU todos quantos lutaram e lutam por melhores salários e emprego com direitos; todos quantos ao nosso lado estiveram e estão na defesa do serviço público ou do acesso à saúde; todos quantos reconhecem na CDU o trabalho, a honestidade e competência que é garantia de uma comprometida defesa com os seus interesses; todos quantos identificam na CDU o espaço de participação unitária e convergência democrática indispensável a uma outra política.

Vamos construir uma intensa campanha de mobilização para o voto na CDU.

O voto que conta para a derrota do governo e a ruptura com a política de direita.

O voto que dá razão e expressão a todos quantos querem condenar a política de saque do governo PSD/CDS.

o voto que projecta com coerência o caudal de luta e de protesto em defesa dos direitos, do emprego, dos salários, das reformas, da protecção social.

o voto que assegura no Parlamento Europeu a voz e acção indispensáveis para combater todas as decisões que prejudicam Portugal e aproveitar em benefício do nosso País todas as possibilidades e instrumentos.

O voto que pesa verdadeiramente para dar força a uma alternativa política, patriótica e de esquerda.

Uma campanha que exige de todos e de cada um empenhamento, disponibilidade e convicção na construção de um resultado que se projecte para lá das eleições para o Parlamento Europeu e se incorpore nas muitas e decisivas batalhas políticas que temos por diante.

Uma campanha que exige a mobilização de todas as organizações e militantes e que tem na acção de contacto com os membros do Partido a iniciar na próxima semana um momento para o seu envolvimento.

Uma campanha que exige a mobilização e envolvimento de todos os activistas da CDU – a começar pelos milhares de independentes que com connosco travaram a batalha de Setembro passado – para darem agora sequência no plano nacional ao reforço construído no plano local.

Uma campanha que exige a participação e empenhamento de todos os comunistas eleitos, activistas sindicais e dirigentes de outras organizações de massas para associar e prolongar o seu trabalho e intervenção em defesa das aspirações dos trabalhadores e do povo com essa condição maior que o reforço da CDU representará.

Com consciência das responsabilidades acrescidas pela crescente confiança do nosso povo na acção do PCP e da CDU, com a confiança de quem sabe que reside nos trabalhadores e no povo a força para tomarem em suas mãos o futuro, construiremos em 25 de Maio próximo um resultado traduzido no reforço da CDU, designadamente da sua votação e do número de deputados no Parlamento Europeu.

Reforço da CDU que constituirá um contributo mais e importante para derrotar a política de direita, dar força a uma política e a um governo patrióticos e de esquerda, em si mesmo condição para defender os interesses de Portugal e a sua soberania, projectar e afirmar os valores de Abril e as suas conquistas.

Com Abril,
Viva a CDU,
Viva o PCP

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