A indústria e a luta em desenvolvimento |
Prefácio
Neste livro, a quarta parte da obra Barreiro — Uma História de Trabalho, Resistência e Luta, Armando Teixeira dá-nos a sua visão de anos passados, organizando a exposição à volta de temas que todos os barreirenses devem conhecer mas só alguns ainda recordarão. É preciso ter presente, trinta anos passados sobre o 25 de Abril, que a população do Barreiro e as suas vivências e valores mudaram muito. Daqui decorre, a meu ver, o mérito principal do esforço do autor, orientado para fixar o ambiente vivido na nossa terra nas décadas que precederam a Revolução. O enquadramento, em quase todos os capítulos, é conseguido através de uma exposição fundamentada em documentação compulsada, em excertos do Avante!, em memórias próprias ou recolhidas de outros. A escrita é limpa, num estilo simples, atingindo momentos de qualidade literária. Apesar da limitação das fontes e do tom centrado na mitologia a que o autor adere sem disfarces, Armando Teixeira dá-nos uma aproximação muito conseguida do ambiente que se respirou no Barreiro, das condições de vida de muitos, das suas organizações, dos seus problemas e das suas aspirações. Regista aspectos já pouco lembrados, mas que não devem ser esquecidos: os sindicatos fantoches e as suas técnicas, os critérios beatos para atribuição de casa, de benesses e de promoções, os pequenos parasitas do regime e tantos outros que muito contribuíram para criar e manter dificuldades para quase todos e pequenas regalias para uns poucos. Talvez para simplificar situações que poderiam redundar em longa descrição de factos, o autor adopta em certas passagens o discurso directo, com pequenos episódios imaginados, tentando dar o tom camarro à conversa. A espaços, consegue atingir o objectivo — se é esse o objectivo, como suponho — apesar da economia que resulta para o texto. Fica uma intenção etnográfica, a explorar com cuidado futuro.
É claro que este livro agradará. Muito mais a uns que a outros. E também desagradará, nomeadamente àqueles que não viveram a época e a avaliam por clichés recentes retocados a diferente matiz. Numa parcialidade contrária à do autor. É instrutivo deixar registado (e insistir no registo, que a luta operária de meados do século XX no Barreiro, como no resto do País) se movia então por reivindicações simples — mais cinco ou dez escudos de salário diário — que hoje farão parecer longínquos, quase irreais, esses tempos difíceis. É preciso que fique escrito e registado, até à exaustão. Para que quem não viveu esses tempos dê valor a quem sofreu por isso e ao que hoje temos.
Achei curioso e interessante relembrar figuras, mitos e episódios que, não fora o reavivar da memória aqui induzido, talvez nunca mais voltasse a recordar: salvaguardadas as devidas distâncias, desde o Rodas Nepervil (nome próprio de um barreirense a quem o registo civil não terá deixado que se chamasse Livre Pensador, como os seus queriam), ao capataz e ao senhor engenheiro — face visível do (ausente) patrão — passando pelo Papa-Ratos, pelo Cabra-Alta e outros que a memória colectiva, para exemplo, não deveria esquecer.
Romanceados ou não, mais ou menos, os sucessivos capítulos e passagens constituem um contributo valioso para quem queira fazer ideia — uma ideia próxima, segundo o ponto de vista do autor — do Barreiro de meados do século passado. Com maior distanciamento, este livro pode ser ponto de partida para a investigação do fenómeno sociológico barreirense, ainda incompletamente estudado. Despindo-nos de preconceitos, há aqui sugestões que valerá explorar.
Não sei se esta meia dúzia de linhas correspondem ou não à intenção do autor ao convidar-me a prefaciar esta obra sua. Respondi como amigo de infância a que décadas de afastamento não fizeram esquecer o convívio na Rua da Praia. E respondi, também, em reconhecimento do apreço que sempre tive pelos pais do autor — a «menina» Filomena, que ajudava em casa de meus avós, e o senhor Armando, calmo pescador do Tejo, por devoção, e artífice doméstico, por necessidade — casal honesto e trabalhador que no n.o 60 da nossa Rua criaram e fizeram crescer o Armando Teixeira.
Pela sua mão, conduz-nos agora a um passado de «Trabalho, Resistência e Luta» a que nenhum barreirense ficará indiferente.
Lélio Quaresma Lobo
Coimbra, Maio, 2004
«O Militante» - N.º 277Julho/ Agosto 2005