Confiança renovada
Contra a política de direita, a luta continua!

 

 

Porventura a principal lição a extrair dos resultados da batalha eleitoral que conduziu em 20 de Fevereiro à espectacular derrota e afastamento da direita do Governo, é a de que lutar vale sempre a pena. Lição que é preciso evidenciar e enraizar como convicção profunda para, em situações desfavoráveis de recuo ou insucesso, melhor resistir às pressões fatalistas, derrotistas e mesmo liquidacionistas que tendem em assolar aqueles que não se conformam com as tremendas injustiças e desigualdades sociais segregadas pelo capitalismo e se propõem não apenas reduzi-las mas eliminá-las, pondo fim à exploração do homem pelo homem. Como a História comprova esta é uma tarefa verdadeiramente ciclópica. E no contexto da actual correlação de forças no plano internacional, quando o imperialismo, como bem mostra o recente périplo de Bush pela Europa, persiste e acentua a sua ofensiva planetária, temos de contar com tudo menos com soluções fáceis para os graves problemas que afectam os trabalhadores e os povos, em Portugal como em qualquer outra parte do mundo. Sem a força das convicções e a persistência do trabalho organizado nenhum avanço é possível.

Tudo isto torna ainda mais importante a valorização dos resultados das eleições de 20 de Fevereiro em que foram alcançados os dois objectivos centrais que animaram a campanha da CDU e a intervenção militante e entusiástica de muitos milhares de activistas: colocar a direita em minoria e reforçar a CDU em votos e mandatos. O que constitui um sucesso tanto maior quanto a CDU, contra os vaticínios de muitos e a ambição eleitoralista e anticomunista de alguns, se tornou a terceira força política do espectro parlamentar.

 

Sim, valeu a pena lutar. A excelente campanha eleitoral do PCP e da CDU, com particular destaque para as actividades em que participou o camarada Jerónimo de Sousa, contribuiu certamente para o bom resultado alcançado. De norte a sul do país tiveram lugar grandes iniciativas de massas que projectaram a capacidade de organização, a simpatia e o apoio popular, o dinamismo combativo e a confiança que sustentam o seu projecto. Uma campanha centrada nos reais problemas do povo e do país, rejeitando os “fait divers” com que o PS, PSD e CDS/PP procuraram esconder as coincidências de posições e a natureza de classe dos seus programas, assente no contacto directo e no diálogo com os trabalhadores e as populações e dirigida à sua inteligência e convencimento. Uma campanha envolvida por uma estimulante onda de simpatia que, não tendo embora a correspondente tradução eleitoral, abriu um amplo espaço ao alargamento da influência política e ao reforço orgânico do PCP.

De facto a campanha eleitoral da CDU valeu muito especialmente pela sementeira de valores, de contactos e de afectos que significou. Impõe-se agora cuidar dessa sementeira sem mais demoras, sem hiatos que, aliás, não seriam compreendidos por quem ficou mais sensibilizado para as nossas propostas e com mais expectativas em relação ao papel dos comunistas na realização das suas aspirações a uma vida melhor. As tarefas apontadas pelo Comité Central respondem a esta necessidade: cada organismo do Partido, da Direcção Regional à comissão de freguesia e à célula de empresa, é chamado a tomar medidas para a sua concretização na respectiva esfera de intervenção e de acordo com as suas possibilidades (em geral maiores do que à primeira vista pode parecer) e as condições concretas em que intervém. Cada camarada é chamado a dar provas de redobrada iniciativa e audácia no quadro da orientação traçada, sem ficar à espera do que vem “de cima”. Por toda a parte é necessário realizar plenários que possibilitem a participação e a contribuição do maior número possível de membros do Partido. As iniciativas do aniversário do Partido, que estarão já a decorrer quando este número de “O Militante” estiver em distribuição, revestem-se, neste contexto, de uma particular importância. Entra na ordem do dia o trabalho com vista às eleições autárquicas.

 

Na hora de avaliar os resultados da grande batalha política eleitoral que acabámos de travar e de perspectivar a iniciativa do Partido para os próximos tempos, duas idéias mais importa sublinhar.

A primeira tem que ver com a luta desenvolvida para interromper e derrotar a política reaccionária da coligação PSD-CDS/PP e para a afastar do Governo. Não podemos permitir que seja adulterado e revisto o processo que conduziu à histórica derrota da direita em 20 de Fevereiro. Não, não foi a “incompetência” ou a “falta de sentido de Estado” que determinaram a clamorosa derrota da dupla Santana/Paulo Portas. O que a determinou foram as políticas reaccionárias realizadas, foi o profundo descontentamento que provocaram, foi a resistência e a luta que suscitaram por parte dos trabalhadores e outros sectores da população, foi a firme oposição do PCP com o seu oportuno “cartão vermelho”, quando o PS, mais interessado em aproveitar-se do que preocupado com a grave situação do país, apenas levantava um envergonhado “cartão amarelo”. A campanha eleitoral teve o seu insubstituível papel, mas foi isto que foi determinante na derrota da direita. E é esta lição que tem de estar bem presente agora quando se trata de desenvolver a iniciativa política na Assembleia da República, e fora dela, para dar expressão e sentido à profunda vontade de mudança que os resultados eleitorais traduzem mas que a maioria absoluta do PS faz correr o risco de frustrar – e esse é um factor negativo para o qual alertamos. Quando se trata de prosseguir a luta para que a derrota da direita acabe por transformar-se na derrota das políticas de direita que há mais de 28 anos dominam a vida política portuguesa e arrastaram o país para a grava situação a que chegou. Avançando com as propostas e bandeiras que levantou na campanha eleitoral, o PCP não poupará esforços para que se desenvolva a intervenção e a luta popular, agora e sempre o motor do processo de transformação social.

A segunda ideia tem que ver com o XVII Congresso do PCP, realizado há apenas três meses embora a acelerada evolução da vida política dê a sensação de que o foi há muito mais tempo atrás. A campanha e os resultados eleitorais são inseparáveis da orientação aprovada e da Direcção eleita no XVII Congresso, do reforço da coesão partidária e da dinâmica de alegria e de confiança que a sua realização com sucesso, como afirmação autónoma e soberana dos comunistas portugueses (não se esqueçam nem as pressões em relação à eleição do novo Secretário-Geral, nem as leis fundamentalmente dirigidas contra o PCP) trouxe ao colectivo partidário. Perante sofisticadas tentativas para separar uma coisa da outra, é importante sublinhar esta realidade. Mas é sobretudo necessário retomar com vigor as tarefas de fortalecimento do Partido determinadas pelo XVII Congresso, do recrutamento à promoção de quadros e à construção de novos colectivos, da finalização da campanha de actualização de dados à difusão da imprensa do Partido, do reforço da organização nas empresas e outros locais de trabalho à actividade voltada para a juventude e para as mulheres.

Tarefas não faltam, mas o Partido vive um bom momento que favorece a sua realização com sucesso. Na sequência do êxito do XVII Congresso, o sucesso alcançado nas eleições para a Assembleia da República cria condições muito favoráveis para o reforço do Partido e da sua influência política, condição indispensável para a ruptura com as políticas de direita e por uma mudança a sério, por um rumo realmente novo na vida nacional.

 

«O Militante» - N.º 275 Março/Abril 2005