Campanha de contactos
Uma experiência no Algarve

 


Membro do Secretariado da DORAL e responsável da Concelhia de Faro

Em conferência nacional, o PCP decidiu, com toda a justeza, que se encetasse a tarefa de contactar todos os membros do Partido. Tarefa complexa, mas absolutamente necessária.

De uma forma geral, todos os camaradas concordaram com a necessidade de se proceder ao acerto dos ficheiros, de se estabelecer contacto com camaradas desligados, de se conhecer quantos somos e quem somos, porque só desta forma se saberia o Partido que temos na região.

Hoje, a realidade sócio-económica do Algarve é bem diferente dos anos pós-revolução de Abril, havendo então centenas de inscrições no Partido que correspondiam a emprego que hoje deixou de existir. Actualmente é uma das regiões do País com a taxa de emprego mais baixa, situação originada pelo desaparecimento das indústrias tradicionais, pelas dificuldades nas pescas e na agricultura provocadas pela integração europeia e pela inexistência de uma política séria para estes sectores. No sector do turismo o emprego é cada vez menos e mais sazonal, fruto das políticas de direita que têm desactivado a economia da região e do País.

Face a esta evolução da situação, já aquando do XVI Congresso o acerto dos ficheiros originou uma quebra significativa dos inscritos no Partido, principalmente pela dificuldade de se localizarem camaradas saídos da região. Daí a complexidade da tarefa de determinar a situação concreta de cada militante perante o Partido, privilegiando-se o contacto directo.

Foi morosa a discussão antes de se avançar para o terreno. À medida que se ia discutindo, apareciam opiniões de que a tarefa, sendo necessária, seria difícil de levar à prática.

Tomando como exemplo a Comissão Concelhia de Faro, foram várias as reuniões em que se discutiu e se apontaram formas de acção. De reunião para reunião verificava-se que pouco ou nada se tinha avançado, situação que, como é óbvio, não podia continuar e que exigia tomada de medidas. Decidiu-se então envolver mais o secretariado da Comissão Concelhia nesta tarefa, as medidas concretas surgiram e finalmente passou-se à acção. Formou-se uma comissão que rapidamente começou a trabalhar. Numa primeira fase identificaram-se os camaradas com efectiva ligação à organização, os que estavam desligados, aqueles de que se tinha algum conhecimento mas de difícil contacto e, finalmente, as situações completamente desconhecidas.

Foi criado um grupo de trabalho que começou a preencher parcialmente a ficha de dados, deixando somente por preencher o que só poderia ser preenchido através do contacto pessoal. Simultaneamente, preparava-se a informatização do ficheiro.

Procedeu-se, em muitos casos através do telefone, a um primeiro contacto, preparando a conversa com o camarada no centro de trabalho ou na sua residência. Formaram-se equipas de contacto e avançou-se para o cumprimento da tarefa.

O reencontro

Começaram a aparecer os primeiros resultados e com eles a confirmação da justeza da decisão e da necessidade da sua conclusão o mais depressa possível.

Do contacto directo, verificou-se que a maioria dos camaradas há muito desligados manifestou satisfação, foi possível conversar sobre o Partido, a situação política, a cotização, em alguns casos com atrasos de vários anos. A maioria declarou que queria continuar a ser membro do Partido; surgiram algumas desistências, umas, poucas, por motivos ideológicos, outras por motivos de ordem diversa. Vários contactados afirmaram que iriam continuar a votar no Partido. Surgiram críticas em relação ao funcionamento do Partido, principalmente no aspecto da ligação e da informação aos militantes, o que se compreende facilmente. Estando os camaradas desligados, entregues à (des)informação da comunicação social, muitos só lendo o «Avante!» esporadicamente, ou nem isso, é natural que tivessem esta opinião, porque a informação veiculada, que tem dono e origem de classe, mistifica e não informa. Daí a importância deste contacto directo, do esclarecimento, do desmistificar e dar ânimo para que muitos camaradas continuem a sentir que é necessário prosseguir a luta.

No tocante à imprensa do Partido, ganhámos alguns dos camaradas para a compra e leitura do «Avante!», alguns através de assinatura, outros adquirindo-o no centro de trabalho ou através de camaradas.

Relativamente à cotização, com os que a tinham muito atrasada acordou-se que fariam um pagamento simbólico, actualizando e começando o pagamento normal a partir da data do contacto.

Uma experiência concreta

É importante referir a experiência de uma freguesia do concelho de Faro, Santa Bárbara de Nexe, de maioria CDU, onde o Partido goza da simpatia de uma parte significativa da população e onde, num passado ainda recente, existiram dificuldades na organização, hoje em grande parte superadas. Nesta freguesia, o primeiro passo foi realizar uma assembleia da organização, o que há dezoito anos não acontecia. Foi eleita uma Comissão de Freguesia, fez-se o balanço do trabalho realizado e aprovou-se um documento de acção, no qual se apontou a campanha de contactos como tarefa prioritária.

A par da distribuição de tarefas e do relançamento do trabalho, discutiram-se formas de contacto com todos os camaradas da freguesia inscritos no Partido. Da totalidade dos militantes contactados só três não consideraram manter a sua filiação, embora expressando que continuariam sempre a votar no Partido. Foram recuperados camaradas que já não contavam como membros do Partido no ficheiro, fruto de acertos administrativos antes efectuados, e foi regularizado o pagamento da cotização.

O resultado foi positivo, todos os camaradas têm as cotas em dia, prova de que, por muito difícil que sejam determinadas tarefas só não se cumprem quando se baixam os braços.

De uma forma geral, apesar dos avanços e de uma compreensão da necessidade de rapidamente se concluir esta importante tarefa do Partido, apesar de algumas organizações terem avançado mais do que outras, ainda registamos atrasos significativos. Daí a insistência em que é preciso ir para o terreno e ganhar mais camaradas para reforçar as equipas que têm vindo a desenvolver este trabalho.

É igualmente necessário que, a partir de agora, os ficheiros tenham outro tratamento, que se lhes dê maior importância e se destaquem camaradas com a responsabilidade de tratamento e actualização dos dados. O ficheiro de um partido revolucionário como o nosso não pode ser, de forma alguma, um amontoado de fichas, tem de ser um instrumento de ligação do Partido aos militantes. Só desta forma ligaremos o Partido aos trabalhadores e às massas populares, elos que formam a corrente que gera a luta necessária para derrotarmos a política de direita e para a construção de uma sociedade mais justa, o socialismo e o comunismo.

Tarefa difícil, é certo, mas não impossível. Quando se persiste, quando se luta, é possível vencer.

 

«O Militante» - N.º 273 Novembro/Dezembro de 2004