Como dar a volta a isto?
Uma experiência concreta

 


Membro do Comité Central do PCP

A organização não é um fim em si, mas um instrumento, o principal, da afirmação e intervenção revolucionária dos comunistas. O trabalho persistente e «silencioso» da construção organizativa tem de ser acompanhado da constante preocupação de «voltar o Partido para fora», num esforço permanente para levar a palavra do PCP aos trabalhadores e às massas, e incentivar e encabeçar as suas lutas.

O artigo Como dar a volta a isto? faz referência a experiências concretas que O Militante considera oportuno divulgar e que seria útil generalizar ainda mais na acção quotidiana do Partido.

A acção e a intervenção do Partido em torno de problemas concretos, nas empresas, nos sectores de actividade, nas localidades, têm merecido ampla discussão e reflexão. Existem inúmeras experiências que podem ser relatadas de ângulos diferenciados. O contributo que aqui pretendo dar assenta numa experiência concreta de uma organização de freguesia.

Tratava-se de uma organização numerosa, onde a influência do Partido se fazia sentir um pouco por todo o lado.

Há décadas que os trabalhadores e a população se habituaram a ver o Partido na resistência ao fascismo, na mobilização dos trabalhadores nas empresas, na actividade associativa e, mais tarde, nas autarquias.

Quadros experientes, prestigiados e capazes era coisa de que não nos podíamos queixar... Existia contudo um problema, que em si mesmo era um conjunto de vários problemas: o numeroso núcleo activo estava em grande parte transformado num colectivo de executores de tarefas partidárias e progressivamente foi-se afastando da discussão, intervenção e acção em defesa dos problemas das populações. A Junta e a Câmara, onde a CDU tinha a maioria, tomavam posição, discutiam, propunham, denunciavam e executavam. Havia a tendência para a subestimação da acção e afirmação própria do Partido.

Com a perca de posições do Partido nos órgãos autárquicos do concelho, as coisas mudaram muito. Era preciso arrepiar caminho, introduzir novos métodos, outras discussões... acção!

A experiência demonstrou que a rotina é um dos grandes inimigos da organização partidária, mas também revelou que a discussão, o dinamismo e o risco, podem ser um bom remédio para a eliminar.

Nesta organização fez-se o óbvio e o indispensável: virou-se o Partido para a rua.

«Para quê fazer bancas às quintas-feiras e aos sábados para vender o “Avante!”, se já vendemos mais de 50 todas as semanas, grande parte deles no Centro de Trabalho, que até está sempre aberto? Quem está interessado em comprar o jornal vem ao Centro... No Largo vamos contactar os mesmos...»

Um dia lá fomos todos, éramos bastantes e, para espanto geral, venderam-se todos os jornais que tínhamos connosco! As bancas para venda regular do “Avante!” e para distribuição de propaganda passaram a ser uma rotina... positiva!

Levar o debate para a rua

Os materiais de propaganda do Partido eram, sempre o foram, distribuídos e colados a tempo e horas. Mas havia um problema: ausência de materiais de propaganda sobre os problemas concretos da freguesia...

Fez-se então uma pequena revolução. Após a realização da Assembleia de Organização, onde foi discutido e aprovado um documento que continha a sistematização dos principais problemas da população e as propostas concretas para a sua resolução, a nova Comissão de Freguesia dinamizou a acção e a luta pela sua concretização.

Este documento foi transformado num boletim do Partido, com ampla difusão e aceitação entre a população. Mas foi-se mais além: decidiu-se realizar um debate público sobre as propostas do Partido. Todos estiveram de acordo com a realização da iniciativa, o problema residiu na escolha do local.

O hábito enraizado levaria a promovê-lo no Centro de Trabalho, no salão dos Reformados e, quando muito, na salão da Junta.

Alguém propôs que se levasse o debate para a rua! Isso mesmo, para a rua! «Se no Largo é onde se juntam as pessoas, seja de manhã, à tarde ou à noite, porque é que não fazemos o debate no Largo?» Que não, que podia estar vento, onde é que as pessoas se sentavam? E a aparelhagem? E a luz para ligar a aparelhagem?, etc., etc.

Todos acabaram por concordar em assumir o risco. Fez-se a propaganda, transportaram-se as mesas e as cadeiras, arranjou-se a aparelhagem e os projectores para iluminar melhor a praça. Resultado: 150 pessoas e um debate muito participado e animado.

Depois tudo foi mais fácil. A praça central da freguesia transformou-se no local de eleição para a realização de debates sobre temáticas nacionais e locais. Por ali têm passado dirigentes e deputados do Partido, eleitos e candidatos autárquicos. Ali se têm discutido assuntos tão diferentes como a construção do novo Centro de Saúde ou a guerra da Jugoslávia, os problemas ambientais ou a interrupção voluntária da gravidez. A participação continua a ser enorme.

Através da inclusão regular de um ponto na ordem de trabalhos da Comissão de Freguesia sobre problemas das populações, o Partido passou a ter uma radiografia muito pormenorizada dos problemas gerais e daqueles que diziam respeito a este ou àquele local, às novas urbanizações. Tal veio permitir que se programassem regularmente visitas e encontros com as populações, que, geralmente, estavam na base de intervenções a produzir nos órgãos autárquicos, para documentos do Partido e da CDU, para a recolha de assinaturas. Os assuntos eram bastante diversificados: desde a instalação de caixas multibanco ao ajardinamento de espaços públicos.

Mas se entre a população se enraizou a ideia de que nós éramos os porta-vozes das suas preocupações e anseios, já entre alguns dos nossos eleitos na freguesia este trabalho de contacto permanente com as pessoas passou a ser encarado, primeiro, com subestimação da sua importância e, mais tarde, como de oposição à Junta de Freguesia, que até era da CDU!

A razão para este mal-estar residiu no facto de alguns desses camaradas não entenderem como é que o Partido se posicionava do lado das populações reclamando a resolução dos seus problemas... Tudo se resolveria no quadro do relacionamento institucional com a Câmara Municipal, se e quando a Presidente quisesse...

O Centro de Saúde

Os problemas do Centro de Saúde e as promessas demagógicas da presidente da Câmara, levaram o Partido a avançar com uma acção em torno desta matéria: reunião do Partido com o director do Centro, visita de deputados, o tal debate público onde se lançou um abaixo-assinado, também ele graficamente inovador a atractivo. Foram inúmeras jornadas de recolha de assinaturas à porta do Centro de Saúde, a partir das sete da manhã, e bancas no Largo. Mais de 1500 assinaturas recolhidas, intervenções nas Assembleias de Freguesia e Municipal, requerimentos do Grupo Parlamentar e... propaganda, muita propaganda: cartazes A4 nas portas dos prédios, jornais de parede e o aproveitamento criativo das estruturas MUPI. Mas já lá vamos...

Aquilo que em muitas organizações se torna um problema, ali transformou-se num instrumento de comunicação: quando não há cartazes para colar, utilizam-se as estruturas para afixar jornais de parede, em papel autocolante, sobre problemas sentidos pela população.

O efeito deste instrumento de propaganda foi arrasador. A presidente da Câmara foi obrigada, em documentos, discursos e entrevistas, a responder a várias das questões que ali eram abordadas e que mereciam o apoio generalizado da população.

A Organização e os meios

Esta revolução foi sustentada num amplo e permanente debate na organização partidária.

Os plenários mensais de militantes foram instituídos, a participação era excelente. Mais camaradas envolvidos na vida partidária e no movimento associativo, mais recrutamentos, mais camaradas com tarefas.

E meios. Sim, tudo isto só foi e é possível, dotando a organização dos meios adequados à sua acção. Assim, por sua iniciativa e com a obtenção de receitas próprias, essa organização passou a ter um computador, um automóvel (usado vezes sem conta para carro de som), uma aparelhagem sonora – é que sem ovos não se pode fazer omeletes.

O reforço da organização do Partido, a dinamização da iniciativa e intervenção própria, poderá dar-se sem um trabalho persistente de informação e propaganda? Pode o Partido ampliar a sua influência se aqueles a quem nos dirigimos não conhecerem as nossas posições, as nossas propostas, o nosso trabalho?

A comunicação entre a organização do Partido e o meio onde está inserido é uma questão decisiva.

Afigura-se-nos de grande utilidade que, no momento em que estamos a debater os documentos preparatórios do nosso XVII Congresso, as questões da comunicação, entendida nas suas diversas vertentes, mereçam uma reflexão adequada.

O Partido ficará a ganhar se esse debate não se resumir apenas a apreciações de ordem geral, como sejam a qualidade deste ou daquele material de propaganda, a nossa mensagem política, a prestação deste ou daquele camarada na comunicação social.

O debate será tanto mais enriquecedor quanto proporcione também a reflexão dos militantes e organizações do Partido sobre a forma como, no seu raio da acção, podem melhorar o seu trabalho de comunicação.

Conforme temos afirmado repetidamente, no PCP não reduzimos a acção política à comunicação, mas também não ignoramos, não podemos ignorar, a crescente importância da comunicação na política.

 

«O Militante» - N.º 273 Novembro/Dezembro de 2004