Sociedade da informação – um ângulo de abordagem

 



Engenheiro de Telecomunicações

Já há umas décadas – desde os anos 60/70 – que o termo socie dade da informação faz o seu caminho. Um caminho, então, quando nos seus primórdios, ainda estava longe de ser trilhado como um fenómeno de massas, tal como se pode testemunhar hoje.

Sociedade da informação que começou a ser vislumbrada através das primeiras realizações da transmissão de dados: (i) as implementadas sobre a Arpanet, a antepassada da Internet, ao serviço da DARPA (1) e como resultado das actividades desenvolvidas por projectos financiados por esta e incluindo investigadores de grandes universidades dos EUA; (ii) as implementadas sobre redes comerciais utilizando infra-estruturas dos operadores de telecomunicações e respeitando nomeadamente as aplicações da área financeira e dos sistemas de marcação de passagens aéreas.

De qualquer forma, uma sociedade da informação ainda restringida a sectores de ponta – de ponta, para o efeito da comunicação de dados à distância em “tempo real” –, quer ao serviço de departamentos estatais quer de grandes empresas. A informática, concentrada até então em grandes “fortalezas” onde a sua utilização era privilégio do respectivo “clero”, passava agora a dispersar-se pelas localizações requeridas por utilizações “periféricas”. E, entre os seus utilizadores, começaram a estar trabalhadores que já não faziam parte desse “clero” – em particular os operadores dos periféricos em balcões de atendimento de sistemas de marcação de passagens aéreas. Começava assim a participação no trabalho com sistemas informáticos a alargar-se para lá do tal “clero”.

Em paralelo, aprofundava-se a tendência de automatização da produção de bens. E as tecnologias da informação tornaram-se cada vez mais uma sua parte integrante. E não apenas para a substituição de mão-de-obra por máquinas ou no tornar mais eficientes os processos de produção – no consumo energético e nas cadências de produção. Agora, as possibilidades de reprogramação inerentes às tecnologias da informação permitiam, sem transformações pesadas e a custos aceitáveis, a adaptação à fabricação de bens com diferentes características. E, outra vez, o trabalho com as tecnologias da informação a alargar-se bem para lá do seu “clero”.

No caso da produção de bens, as aplicações confinavam-se ao perímetro da fábrica, não se colocando a questão da transmissão de dados. Portanto, por aqui não poderia a sociedade da informação ser entrevista. Contudo, o alargar do emprego das tecnologias da informação às fábricas constituiu mais uma indicação sobre o espraiar do que viria a ser o domínio do conceito da sociedade da informação.

Uma sociedade da informação teorizada, na sua fase inicial, sobretudo a partir dos EUA, e também dos seus vizinhos canadianos. Uma sociedade da informação que viria na sequência da sociedade industrial, como esta tinha vindo após a sociedade agrícola.

De início ainda houve quem procurasse crismar a nova situação que estaria a surgir como “sociedade pós-industrial”. Com efeito, olhando-se para o que se passava nas actividades económicas, e calculando o peso dos diversos sectores – o primário ou agrícola, o secundário ou industrial e o terciário ou de serviços – em termos de valores dos respectivos produtos e das quantidades de trabalhadores empregados em cada um deles, podia verificar-se que, para além de um confinar do primário a limites minoritários, o sector industrial parecia em recessão relativa e o dos serviços em progressão acelerada.

Isto era assim, olhando os analistas quase só para o Mundo que lhes interessava, ou seja, para os países “desenvolvidos” (2). Mais tarde deram-se conta da industrialização no “Sul” – na China, no Brasil ou nos “tigres asiáticos” – e do aumento do emprego operário no mundo (hoje em dia fala-se na deslocalização).

De qualquer forma, entre a perspectiva de análise de produção de serviços (terciário) versus produção de bens (secundário e primário) e a perspectiva da informação (e comunicação), enquanto entidade transversal e essencial para todas as outras, optou-se por esta última. Além disso, a actividade de produção de serviços realça mais a entidade “informação” que a actividade da produção de bens. A sociedade da informação a fazer o seu caminho…

Entretanto, anos oitenta chegados, assim como os noventa, foram os computadores pessoais, o telemóvel, a Internet mais o e-mail e os chats (e também os jogos electrónicos, digitais) a fazerem a sua entrada e progressão de massas fulgurante nas nossas vidas. Sem esquecer o fax... e, no caso do nosso país, foi também não só no telefone fixo mas, simultâneo, uma entrada maciça em tudo isto. Com penetrações diversas, é verdade – menores nas áreas dos computadores e na da Internet, maiores nos telemóveis. No trabalho e na residência, e no lazer.

Então, recusar discutir o tema da sociedade da informação não é uma atitude proveitosa. E no entanto esta não tem sido uma tomada de posição invulgar fora do círculo dos seus apaniguados – designemo-los assim; aliás de forma pouco rigorosa e amalgamante dos diferentes tipos de argumentos empregues.

Uns tomam essa posição de recusa por acharem tratar-se a expressão “sociedade da informação” de nada mais que um balão cheio de vento. Outros, por acharem, não sem razão, que a expressão – olhada com atenção – é um aborto semântico. Outros para evitar embrulharem-se na problemática da sociedade da informação, por acharem que se trata de uma manobra de diversão das questões importantes e urgentes. E na verdade, estando à mão esta “grande narrativa”, a que a sociedade da informação se presta bem, mais o maravilhoso que dela pode ser induzido, ela também é utilizada, como seria de esperar, para fins de diversão.

Ou ainda, e na sequência deste último argumento, os adeptos da corrente – que aqueles vêem como contemporizadora com uma certa “modernidade” e com “as novas tecnologias” –, que acha que sim, que a sociedade da informação lá será alguma coisa, aceitam que se trata de um tema que merece ser examinado, mas nunca uma questão prioritária. E um tema a ser tratado como mais um entre os demais, como um subtema da área das comunicações com ramificações pela C&T (3). Uma tecnologia um pouco “imaterial” (4), frouxa, que não dá pão, nem casa, nem roupa, nem transportes. E uma tecnologia, a das correntes fracas, que até para os choques eléctricos é débil!

Bem, como as coisas se estão a encaminhar no texto, impõem-se agora dois comentários.

O primeiro, sobre o tom caricatural para onde está a resvalar este texto ao apresentar os críticos da propaganda da sociedade da informação e das tecnologias da informação e comunicação (TICs). De facto, o cerne dos argumentos críticos está representado atrás com alguma razoabilidade.

Contudo, o quase sarcasmo que sobressai, sobretudo na parte final da apresentação da argumentação, assume uma pretensão de caricatura dos praticantes desta posição como “massa bruta” ou “dinossauros”.

Mas é uma caricatura errada – e estou a afirmá-lo a partir de uma acepção racional –, pois, não só sob a forma como é efectuada leva a deformar a verdade desta posição crítica, como, em consequência, tende a não permitir que a posição apaniguada da sociedade da informação possa contribuir para a sua própria visão através de argumentos que, de outro modo, passariam despercebidos por não serem sequer formulados.

O segundo comentário respeita a estar a escrever em Setembro de 2003. Isto é, numa fase em que boa parte das posições atrás apresentadas, em termos de recusa da relevância da sociedade da informação, já estarão atenuadas. Atenuadas porque, mantendo-se os seus cultores numa atitude crítica, admitem ser necessário considerar a problemática da sociedade da informação nas suas várias vertentes, antes de tudo devido à transversalidade da sua inserção em todas as actividades e níveis das sociedades.

E foi só em data recente – há menos de uma década – que o termo sociedade da informação fez a sua aparição junto do grande público. E, claro, via media e embrulhada com um positivismo optimista sem falha. Mas também recebida com desconfiança quando olhada do avesso, do lado de quem suspeita das narrativas maravilhosas.

Além do mais, estes deste lado estão, por via de norma, mais aptos a analisar com objectividade tais fenómenos por hábitos de razão crítica – hábitos da família dos hábitos científicos, hábitos que empregam a formulação de hipóteses orientadas para a “falsificação” das teorias que aí estão.

Contudo, a influência dos novos meios de comunicação tem sido tão intensa que os poderes passaram a preocupar- -se deveras com o assunto. Foi a pornografia infantil, depois a pedofilia, de seguida o terrorismo. Este, sobretudo após o “11 de Setembro”, a concorrer de forma decisiva para um apertado controlo “securitário” da nova situação comunicacional que se instalou no Mundo.

“Situação comunicacional que se instalou no Mundo?! Aí está o palavreado de quem está com a “moda” da sociedade da informação”. Vamos por aí: e o Sul, mais os excluídos do Norte? Sentimentos partilhados – são os de quem estas linhas escreve. E por várias razões.

Logo, do lado de questionador da importância da alteração da situação comunicacional, ocorre: uma situação, a comunicacional, a dar-se num plano “hiperreal” ou mesmo “imaterial” – então a falta de água, e os gastos de energia, e a fome, e a educação, e a saúde, e a Terra? Enquanto, do outro lado, a “resposta”: Mas, para que tais problemas sejam resolvidos não são as TICs e a sociedade da informação algo a não perder? Um instrumento que tanto pode obrar pela eficiência da utilização dos recursos para a satisfação das necessidades básicas? Mais a mais, não é por causa do nível de recursos consumidos nas TIC que é inibida a atribuição de recursos para a satisfação das necessidades básicas…

Sou interrompido: Não é por causa dos gastos na sociedade da informação que os devidos recursos para as outras áreas não são atribuídos? Para o ver não basta olhar os orçamentos de Estado ou os orçamentos da União Europeia e ver os recursos para a C&T e I&D a irem antes, com generosidade, para os computadores – para o negócio dos computadores – e a escassearem para o resto? Eu a contrapor: Será verdade, mas então é a totalidade atribuída aos computadores mais a tudo o resto que é escassa. E é mesmo.

A consciência ainda a berrar-me por ter escrito que uma nova situação comunicacional se instalou no Mundo: “Ter-se-á instalado sobretudo nos países ‘ricos’ e, mesmos nestes, só beneficiará parte da sua população. O resto são os excluídos”.

Verdade, mas já não tanto. Com efeito, não será a piedosa declaração da Cimeira Mundial para a Sociedade da Informação que irá resolver estas questões. Mas o certo é também não se poder continuar a basear as análises em pressupostos que se alteraram na última década. É só ver o que se passa com países como a China, o Brasil ou a Índia.

Mais. A caminho dos nove milhões de clientes de telemóvel no nosso País, como negar esta realidade maciça, mesmo sabendo que há pessoas que possuem três contratos e, pelo menos, outros tantos telemóveis? Realidade que não deu para satisfazer as necessidades básicas ou acabar com o desemprego. Mas a dizer-nos que os hábitos de comunicação estão mesmo a ficar mudados.

Dir-se-á que sociedade da informação são os computadores e a Internet, na Educação, na Saúde, na produção, nos serviços públicos e que, nestas áreas, o seu acesso não atinge os níveis do telemóvel. Mas também não são assim tão baixos, nem parece que se vão ficar por aí. E o telemóvel é mesmo parte, e como, das transformações de hábitos comunicacionais que estão a acontecer.

Mas tudo a acontecer com naturalidade. Com rapidez. Quase nem damos por isso. O telefone (fixo), a rádio, a televisão, os frigoríficos, a electricidade, levaram tanto tempo a generalizar-se no nosso País!

(1) DARPA – Defence Advanced Research Projects Agency, dos EUA.
(2) O universo constituído pelos países da OCDE constituía a amostra adequada.
(3) Ciência & Tecnologia
(4) Trata-se de uma liberdade de expressão – esta da imaterialidade – tomada à letra por muitos, mas uma expressão enganosa. Na realidade não há tecnologias imateriais. Podem é não ser visíveis, nem ter peso facilmente detectável.

«O Militante» - N.º 268 Janeiro/ Fevereiro de 2004