Exploração, desigualdades e pobreza em Portugal

 

 


Economista

O trabalho tem uma característica que o diferencia de todas as outras mercadorias, que é a de produzir um valor superior ao seu próprio valor. O valor da força de trabalho é igual ao valor dos meios de subsistência necessários à manutenção dos trabalhadores e da sua família, que corresponde ao capital variável (v), ou seja, às remunerações recebidas pelos trabalhadores. No entanto, o trabalhador produz mais do que aquilo que recebe, e é precisamente o valor criado pelos trabalhadores acima do valor da sua força de trabalho, e do qual os capitalistas se apropriam gratuitamente pelo facto de deterem o controlo dos meios de produção que se chama mais-valia (m), ou seja, a mais-valia é o resultado do trabalho não pago aos trabalhadores.

Assim, numa sociedade capitalista o grau de exploração dos trabalhadores é medido pela taxa de mais-valia ou de exploração. E a taxa de mais-valia (M') é dada pela relação mais-valia (m) e capital variável (v), ou seja, é calculada com base na fórmula matemática: M'=(m/v)x100 (divide-se a mais-valia pelo capital variável e multiplica-se por 100, porque é uma percentagem) Embora não existam estatísticas especificas sobre mais-valia para cada um dos países da UE, por razões evidentes (publicá-las seria reconhecer e tornar visível o elevado grau de exploração a que continuam sujeitos os trabalhadores), no entanto existem dados publicados sobre o “Excedente Bruto de Exploração” que é, na falta de melhor informação, aquela que mais se aproxima do valor da mais-valia, já que o próprio Instituto Nacional de Estatística português define Excedente Bruto de Exploração (EBE) como “a totalidade do valor afecto à remuneração do factor capital” (Sistema de Contas Integradas das Empresas: 1997-1998, INE, pág. 20).

Quadro I – Taxa de mais-valia ou de exploração nos países da UE – 2002

País
Milhões de euros - 2002
Taxa de mais-valia M'=m/v
Dia de trabalho = 480 minutos
Remunerações e salários (v)
Excedente bruto de exploração (m)
Tempo trabalho necessário Minutos
Tempo trabalho complementar Minutos
UE15 4.699.556 3.337.403 71% 281 199
Bélgica 139.343 89.445 64% 292 188
Dinamarca 100.065 56.472 56% 307 173
Alemanha 1.131.000 759.800 67% 287 193
Grécia 46.923 76.660 163% 182 298
Espanha 346.515 279.819 81% 266 214
França 802.319 510.331 64% 293 187
Itália 518.992 568.839 110% 229 251
Luxemburgo 11.835 7.817 66% 289 191
Holanda 231.856 162.091 70% 283 197
Portugal n.d. n.d. n.d. n.d n.d
Finlândia 68.387 54.443 80% 267 213
Suécia 147.995 67.492 46% 330 150
Reino Unido 934.254 514.059 55% 310 170

FONTE: Produit Intérieur Brut 2002 - Comptes Nationaux - EUROSTAT - THÈME 2 - 56/2003

O quadro I que se apresenta contém dados publicados pelo EUROSTAT, que é o serviço de estatística da UE, referentes às “Remunerações” recebidas pelos trabalhadores e ao “Excedente Bruto de Exploração” de que se apropriam os capitalistas de cada país, dados estes relativos ao ano de 2002.

Assim, de acordo com os dados do quadro I, em 2002, a taxa média de mais-valia atingiu na UE o valor de 71%, variando entre o máximo de 163,4% na Grécia e um mínimo de 45,6% na Suécia.

Utilizando os mesmos dados calculou-se o “Tempo de trabalho necessário” em que o trabalhador produz um bem que vendido corresponde em valor ao salário que recebe, e o “Tempo de trabalho complementar” em que o trabalhador trabalha gratuitamente para a entidade patronal porque a jornada de trabalho é superior ao “Tempo de trabalho necessário”, ou seja, ao tempo que o trabalhador necessita para produzir um valor igual à remuneração que recebe.

E a conclusão a que se chegou também consta do quadro I. Tomando como base um dia de trabalho de 8 horas, ou seja, de 480 minutos, em 2002, na UE os trabalhadores trabalhavam em média 281 minutos (4 horas e 41 minutos) para produzir um valor igual ao salário que recebiam e o restante tempo (199 minutos, ou seja, 3 horas e 19 minutos) gratuitamente para as entidades patronais.

Portugal é o único país da UE que não fornece ao serviço de estatísticas da UE15, o EUROSTAT, dados sobre “Remunerações” e “Excedente bruto de exploração”, por isso, nos quadros do EUROSTAT as linhas referentes a Portugal relativas a esta realidade estão sistematicamente vazias. Certamente é uma forma grosseira de tentar ocultar a realidade. Por essa razão tivemos necessidade de contornar esta dificuldade, pesquisando dados em fontes nacionais.

Para resolver a lacuna anterior recorreu-se, para o período compreendido entre 1960 e 1995, a dados sobre “Remunerações” e a “Excedente bruto de exploração” que se encontram disponíveis no site do Banco de Portugal, e para os anos de 2001 e 2002 os valores constantes do quadro II foram estimados utilizando dados também publicados pelo Banco de Portugal mas constantes dos seus relatórios referentes àqueles anos. Os resultados obtidos constam do quadro II.

O quadro II permite tirar algumas conclusões importantes.

QuadroII - Evolução da taxa de mais-valia em Portugal entre 1960 3 2002

ANOS
PIB pm
Mil contos
Ordenados e
salários
(capital variável)
Mil contos
Excedente bruto
de exploração
(mais-valia)
Mil contos
Taxas de
mais-valia
ou de exploração
1960
88.994
38.026
41.494
109,10%
1962
103.987
43.693
48.600
111,20%
1965
135.681
58.697
61.118
104,10%
1967
162.217
75.189
65.490
87,10%
1973
342.817
162.368
127.325
78,40%
1974
405.744
213.138
129.401
60,70%
1975
469.776
276.981
113.966
41,10%
1976
561.947
321.305
144.720
45,00%
1977
722.257
369.080
224.808
60,90%
1978
893.364
429.916
318.697
74,10%
1979
1.135.905
504.889
454.052
89,90%
1980
1.476.316
634.724
611.415
96,30%
1983
2.740.339
1.104.946
1.112.860
100,70%
1984
3.365.099
1.227.233
1.627.892
132,60%
1986
5.048.501
1.753.399
2.178.085
124,20%
1987
5.948.432
2.058.175
2.574.834
125,10%
1988
7.100.357
2.433.314
3.087.122
126,90%
1990
10.072.063
3.533.078
4.342.916
122,90%
1991
11.549.381
4.210.922
4.762.834
113,10%
1994
14.722.964
5.253.880
5.926.714
112,80%
1995
15.912.873
5.567.193
6.335.542
113,80%
 
Milhões
euros
Milhões
euros
Milhões
euros
2001 (E)
123.762
49.574
49.574
100,00%
2002 (E)
129.280
52.299
52.299
100,00%

Fonte: 1960 – 1985: Dados disponíveis na página WEB do Banco de Portugal.
2001 e 2002: Estimativas obtidas a partir de dados dos Relatórios Anuais - Banco Portugal

Em primeiro lugar, os dados oficiais publicados pelo Banco de Portugal mostram que foi precisamente em 1974 e em 1975 que a taxa de mais-valia ou de exploração dos trabalhadores portugueses atingiu o seu valor mais baixo, sendo 60,7% em 1974 e apenas 41,1% em 1975.

Em segundo lugar, a taxa de mais-valia, ou seja de exploração dos trabalhadores, tem aumentado desde 1975, atingindo actualmente 100%, que é mais elevada do que a verificada em vários anos mesmo antes do 25 de Abril. Recorde-se que uma taxa de mais-valia de 100%, que foi a obtida para o de 2002, significa que o dia de trabalho se divide em duas partes iguais, uma chamada “Tempo de trabalho necessário”, onde cada trabalhador português produz um valor igual à remuneração que recebe, e a outra parte (“Tempo de trabalho complementar”) trabalha gratuitamente para o seu patrão.

Finalmente, interessa ainda referir para que se possa ficar com uma ideia clara de quem é beneficiado com esta repartição da riqueza criada em Portugal que, em 2002, segundo o INE (Boletim Mensal de Estatística, Junho/2003, pág. 26), verificava-se a seguinte situação: 1) a população empregada rondava os 5.051.300 portugueses; 2) que deste total 3.678.600 eram trabalhadores por conta de outrem, ou seja, 73%, sendo estes os que recebiam os “Ordenados e Salários” que representavam, para a maioria dos anos analisados, menos de metade da riqueza criada no País; 3) que os “Empregadores” eram somente, na mesma altura, 314.300, ou seja, apenas 6,2% da população empregada, e eram fundamentalmente estes que se apropriavam do “Excedente bruto de exploração”, cujo valor, exceptuando os anos de 1974 e 1975, tem representado sempre mais de um terço da riqueza criada no nosso País.

É evidente que os valores da taxa de mais-valia constantes do quadro II são valores médios que variam de sector para sector, como mostram os dados do quadro III.

No quadro III, a taxa média de mais-valia em Portugal, em 1997, nas empresas não financeiras, que são aquelas que constam do quadro, atingiu 100,2% tendo aumentado, em 1998, para 102,5%. Por outro lado, por sectores de actividade a taxa de mais-valia ou de exploração dos trabalhadores portugueses não é a mesma. Varia muito de sector de actividade para sector de actividade. Por exemplo, em 1998, nas indústrias extractivas a taxa de mais-valia atingiu 135,4%, enquanto no sector de “Alojamento e restauração” alcançou 69,4%.

No quadro III, também se encontra por sectores de actividade, e tendo como base uma jornada diária de 8 horas, a duração do “Tempo de trabalho necessário” em que o trabalhador produz um valor igual à remuneração que recebe, e “Tempo de trabalho complementar” em que o trabalhador continua a trabalhar, porque a jornada de trabalho diário contratada com a entidade patronal não termina quando o trabalhador produz um valor igual à sua remuneração, e o valor produzido no período de tempo complementar é apropriado gratuitamente pela entidade patronal constituindo a mais-valia.

Como se vê tanto o “Tempo de trabalho necessário” como o “Tempo de trabalho complementar” varia muito de sector para sector. Por exemplo, em 1998, nas indústrias extractivas, o “Tempo de trabalho necessário” era apenas de 180 minutos (3 horas), enquanto o “Tempo de trabalho complementar”, em que o trabalhador trabalha gratuitamente para a entidade patronal, era de 300 minutos (5 horas). Por outro lado, no mesmo ano (1998), na indústria de couro o “Tempo de trabalho necessário” atingia 315 minutos (5h e 15 min.), enquanto o “Tempo de trabalho complementar” era de 165 minutos (2h e 45 min.).

Agravamento das desigualdades e da pobreza

Em 99, de acordo com o EUROSTAT, na UE, em média, os 20% da população mais ricos recebiam 4,6 vezes mais rendimento do que os 20% mais pobres. Em Portugal esta situação era muito mais grave, já que de acordo também com os serviços de estatística da UE, no mesmo ano, os 20% mais ricos recebiam 6,4 vezes mais rendimento do que os 20% da população portuguesa mais pobres.

Esta situação não melhorou nos últimos anos como provam dados constantes do estudo da OCDE sobre Portugal – OECD Economic Surveys Volume 2003/2 – publicado em 2003. Assim de acordo com o quadro 15-C, pág. 91, daquele estudo, e utilizando dados do rendimento total, que inclui também as prestações sociais, em Portugal o rendimento recebido pelos 20% da população mais ricos foi 7,1 vezes superior ao rendimento de 20% da população com menor rendimento; dito de outra forma, o rendimento dos 20% mais ricos foi 7,1 vezes superior ao dos 20% mais pobres.

Um outro estudo publicado pelo INE em 2002, com o título “Rendimento, Desigualdade e Pobreza” de Regina Soares e Teresa Bago Uva, revela ainda de uma forma mais clara e pormenorizada as desigualdades que existem na distribuição da riqueza e do rendimento em Portugal. O quadro IV que se apresenta foi construído com dados retirados desse estudo.

Quadro IV – Distribuição do Rendimento em Portugal por grupos da população

DECIS - Grupo correspondente
cada um deles a 10% da população
% de rendimento auferida
por cada um dos grupos
de 10% da populçºão
% acumulada da população
% acumulada do rendimento
1ºgrupo igual a 10% da população
2,20%
10%
2,20%
2ºgrupo igual a 10% da população
3,70%
20%
5,90%
3ºgrupo igual a 10% da população
5,30%
30%
11,20%
4ºgrupo igual a 10% da população
6,10%
40%
17,30%
5ºgrupo igual a 10% da população
7,40%
50%
24,70%
6ºgrupo igual a 10% da população
8,60%
60%
33,40%
7ºgrupo igual a 10% da população
9,90%
70%
43,20%
8ºgrupo igual a 10% da população
11,90%
80%
55,00%
9ºgrupo igual a 10% da população
15,90%
90%
71,00%
10ºgrupo igual a 10% da população
29%
100%
100,00%

Fonte: Rendimento, Desigualdade e Pobreza em Portugal, INE, pág. 26.

 

Como mostram os dados do quadro IV, 50% da população portuguesa recebe apenas 24,7% do rendimento distribuído no nosso País, enquanto os 10% mais ricos recebem 29% do rendimento total. É uma desigualdade extremamente grande e grave, que não tem sido reduzida nos últimos anos, muito pelo contrário até se tem agravado, que é chocante e desumana até tendo em conta o baixo nível de desenvolvimento do País (o pouco que existe está muito mal distribuído, mesmo muito pior que a média da UE15).

Outra medida utilizada normalmente para medir a desigualdade na distribuição do rendimento num país é o chamado coeficiente de Gini.

Segundo o estudo do INE referido anteriormente, “o coeficente de Gini mede o “gap” (a diferença) entre a linha real de distribuição do rendimento verificada num país e a linha mítica de distribuição da curva de Lorenz, que corresponde a uma distribuição totalmente igualitária (10% da população recebe 10% do rendimento; 20% da população recebe 20% do rendimento; 30% da população recebe 30% do rendimento; etc.). Numa sociedade igualitária, o coeficiente de Gini seria igual a zero. Na prática o coeficiente de Gini varia entre 0,2 (que corresponde ao mínimo de desigualdade) e 0,42 (que corresponde ao máximo de desigualdade).

Segundo o mesmo estudo, “Portugal apresenta um coeficiente de Gini igual a 0,38 que corresponde a um alto grau de desigualdade” (Rendimento, Desigualdade e Pobreza em Portugal, INE, pág. 30).

No estudo da OCDE sobre Portugal publicado em 2003 – OECD Economic Surveys Portugal, pág. 91 – apresenta para Portugal um coeficiente de Gini igual a 0,37, para a Áustria 0,26, para a Bélgica 0,28, para a Dinamarca 0,23, para a França 0,29, para a Alemanha 0,28, para a Grécia 0,34, para a Irlanda 0,33, para a Itália 0,33, para o Luxemburgo 0,28, para a Holanda 0,29, para a Espanha e Reino Unido 0,33, e a média na UE é de 0,31. Resumindo, segundo também a OCDE, Portugal apresenta a mais elevada desigualdade na distribuição do rendimento entre todo os países da UE15.

E como refere ainda o estudo da OCDE, em Portugal “o sistema fiscal provavelmente ainda agrava a desigualdade na distribuição do rendimento” (OECD Economic Surveys Portugal, pág. 90). Mas isso deixaremos para um outro trabalho, pois este estudo já está demasiado grande.

 

 

«O Militante» - N.º 268 Janeiro/ Fevereiro de 2004