Vejam bem! A água na vida |
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Membro do Sector Intelectual da DORL
Engenheira Civil
1. Ambiente e desenvolvimento
Apresentam-nos números e mapas.
Valores preocupantes do estado da água, projecções de degradação futura, espécies em extinção, milhões de pessoas em risco.
Distraídos das propostas e medidas “oficiais” através das quais as transnacionais ajustam o saque na mercantilização da água, os ânimos exaltam-se no debate estéril entre defensores da “natureza” ou da “humanidade”.
Identificam “ambiente” ou “natureza” com um ideal estático e perfeito, referenciado como “situação pristina” – o estado primordial, puro e isento de qualquer intervenção humana. Identificam “desenvolvimento” e “bem estar” com toda a actuação humana na natureza, a “intervenção antropogénica”. Opõem o ideal da “situação pristina” ao de “bem-estar humano”.
A “situação pristina” é uma invenção, e não há qualquer contradição entre “humanidade” e “natureza”.
2. O referencial da situação pristina
Olhemos a água.
O que é a “situação pristina”? Como se caracteriza esse “estado ideal” de “perfeição natural”?
Não corresponde a nenhuma realidade física existente ou passada, nem é possível qualquer representação de referência, porque a água só existe em constante transformação.
A água não existiu sempre na Terra, resulta de um processo de transformações de matéria e energia. Decorreram ainda milhões de anos e sucessivas transformações antes que na água surgissem as primeiras formas de vida, muito e muito tempo até que um processo de evolução dos seres monocelulares originasse os primeiros hominídios.
Toda a vida que conhecemos só existe em metabolismo com a água, num processo de renovação constante e troca com a natureza. A presença da água nos três estados – sólido, líquido e vapor – só é possível por condições muito particulares de temperatura e pressão existentes na Terra, tão especiais que não existem actualmente em mais nenhum planeta do sistema solar. Condições que não existiram sempre desde a formação da Terra e são apenas uma etapa dum processo particular de evolução.
Muito antes da existência do homem e também nos seus primórdios transformou-se a geografia dos continentes e oceanos, houve glaciações e dilúvios, os mares ocuparam regiões que hoje são montanhas.
Na escala de tempos geológica e sem que o homem saiba interferir ou mesmo calcular o sentido com precisão, continuarão a transformar-se continentes e oceanos, as massas glaciares, os cursos dos rios e os aquíferos, as costas e as praias.
3. Ciclo hidrológico
A “água doce” – a comemoração deste ano, o “recurso escasso”, o “bem precioso” – não é nenhuma parcela delimitada e definida da água, mas um estágio mais ou menos fugaz da sucessão de transformações que designamos por ciclo hidrológico. Transformações organizacionais das moléculas de água que se configuram e combinam de diferentes formas constituindo alternadamente gelo, água líquida ou vapor. Transformações físicas, químicas e biológicas, outros ciclos de materiais e de vida induzidos e interactivos com a água no seu processo de circulação.
As transformações de estado da água e o seu movimento, associados a perdas e ganhos de energia não obedecem a um padrão exacto e repetitivo: em cada local há estações do ano com mais ou menos chuva, neve, água líquida ou gelo, há anos secos e outros húmidos, cheias e secas, marés vivas, mar de espelho ou tempestade. Um dia não é igual a outro dia, cada cheia é única, cada nuvem só é igual a si própria.
Moléculas de água líquida, por acção do calor do sol, das forças do vento ou da gravidade que induzem o movimento das ondas e dos rios, afastam-se, tornam-se mais leves e evaporam-se – sobem para a atmosfera e são transportadas nas correntes causadas pelos diferenciais de pressão e temperatura.
É essa água na atmosfera que a torna húmida e “respirável”, que atenua as variações térmicas entre o dia e a noite. Alguma entra em contacto com superfícies mais frias durante a madrugada, e condensa formando gotículas de orvalho que por vezes congelam em geada.
A água atmosférica vai perdendo energia por descidas de temperatura, descargas eléctricas, e pela própria acção da gravidade – as moléculas aproximam-se e a atracção eléctrica torna-se mais forte, formam-se núcleos minúsculos em torno de poeiras atmosféricas, e esses núcleos atraem outras moléculas até se tornarem gotinhas demasiado densas para se sustentarem na atmosfera, que caem sob a forma de chuva ou gelam em neve ou granizo. A neve e o gelo só voltam a entrar no ciclo hidrológico se receberem a energia suficiente para voltar à fase líquida – nalgumas regiões, como as calotes polares, isso pode levar milhares de anos, mas noutros climas o degelo dá-se todos os anos na Primavera.
A chuva continua sem interrupção o ciclo hidrológico precipitando nos oceanos, ou na crusta terreste e “descendo” pelo efeito da gravidade. Se o solo estiver seco e for permeável a água infiltra-se; alguma fica retida como humidade nos terrenos, é captada pelas raízes das plantas, entra no ciclo biológico dos inúmeros seres vivos que habitam os terrenos férteis, outra evapora-se pelo calor do sol.
Toda a água excedente continua a “descer”: pelos declives, à superfície, escavando barrancos e ravinas, formando os rios e cursos de água, ou no sub-solo, realimentando reservatórios de água subterrânea, reaparecendo em fontes e nascentes, ou alimentando os rios na estação seca.
Mais tarde ou mais cedo acaba por correr para o oceano, interagindo e transformando sempre os caminhos por onde passa – por erosão física e transporte ou por erosão química, porque a água é um excelente solvente e provoca alterações químicas em grande parte devido à sua molécula “polar” que, como um minúsculo íman, “perturba” a estabilidade de outras substâncias, suscitando as transformações.
Os oceanos são receptores de todas essas substâncias – muitas delas acabam por encontrar a forma mais estável como sais e assim, ao longo do tempo, a água do mar torna-se cada vez mais salgada.
3. Metabolismo
Na fase líquida inicia-se também a parte biológica do ciclo da água. O metabolismo dos seres vivos exige a absorção de quantidades de água constantemente renovadas e sem as quais a vida não é possível.
As plantas terrestes captam a água principalmente através das raízes na humidade do solo, esta entra no metabolismo e é posteriormente libertada para a atmosfera através da evapotranspiração. Do mesmo modo os animais absorvem água, que num curto espaço de tempo voltará ao exterior e terá de ser renovada no organismo.
A “mesma” água tem em geral um período de residência num ser vivo de algumas horas. Não há “consumo” nem “apropriação” da água no metabolismo dos seres vivos: a água é tomada do exterior e devolvida a curto prazo, eventualmente noutra fase ou noutro ponto do ciclo hidrológico, com substâncias diferentes dissolvidas. A mesma porção de água (as mesmas moléculas) é reutilizada através do tempo por seres vivos sucessivos e continua no ciclo hidrológico há milhões de anos.
Para a sobrevivência de cada espécie e de cada ser vivo individual, o que está em causa não é a atribuição de um “quinhão” numa divisão da água total da natureza, mas a garantia de ser parte integrante do ciclo hidrológico, de que a água passa através do seu corpo todos os dias, no complexo processo dinâmico de transformação contínua que é a vida.
A humanidade e cada indivíduo são assim parte integrante do ciclo hidrológico através duma relação metabólica, do próprio processo orgânico. A água – a “água que passa”, no sentido dinâmico de circulação, do ciclo hidrológico – é a continuação indissociável do corpo vivo. Tão vital como a circulação do sangue que se processa sempre no interior de um mesmo indivíduo, a circulação da água no ciclo hidrológico é uma circulação comum a todos os seres vivos.
O corpo humano é parte do ciclo hidrológico, e é-o duplamente. Porque se alimenta de matéria orgânica, parte também do mesmo ciclo da água.
4. Desenvolvimento
Fazendo o Homem parte duma Natureza em constante movimento e transformação, evoluindo e transformando-se ao mesmo tempo que é também agente de transformação, dependendo em cada momento a sua sobrevivência das condições naturais em que se insere, só pode haver desenvolvimento humano em harmonia com a Natureza.
Milénios de interacção dos homens entre si e com a Natureza conformaram os homens de hoje, a morfologia da Terra habitada e a relação com a natureza. Relação diversificada nas sociedades e nos espaços, cujas fracturas provocam fomes numas regiões, poluição química noutras. Mas o metabolismo quotidiano da humanidade e de cada indivíduo, a sobrevivência, a saúde e o bem-estar dependem cada vez mais dos instrumentos humanos e do aperfeiçoamento da interacção com a Natureza.
Único entre todos os animais, o Homem desenvolveu a capacidade de compreender a Natureza e utilizar as suas leis para se defender das condições naturais adversas, aceder à água nos períodos secos, fazer crescer os alimentos de que precisa, proteger-se do frio e do calor, transformar água inquinada em potável, retirar-lhe as substâncias nocivas que impedem a reutilização, proteger as terras férteis da submersão pelo mar (como na Holanda), aproveitar a energia das quedas de água, atravessar os rios com pontes, navegar.
O Homem aprendeu a prever as consequências dos seus actos, a agir a prazo e intencionalmente, utilizando o conhecimento da Natureza para prever os efeitos directos e indirectos da sua actuação.
O Homem tem consciência do Universo, da Terra e da Humanidade inteira, da história passada e da presente, pode escolher e construir a história futura.
Não há qualquer contradição entre a “condição humana” e a “natureza”.
Essa contradição foi inventada por um poder sustentado pela negação de toda a grandeza humana, um poder cujo ícone e motor é a competição entre indivíduos, o mesmo com que Darwin explica a evolução biológica dos animais;
Poder esse centrado na produção desenfreada de mercadorias precárias e na estimulação de consumo, na protecção das cobiças e vilezas, na corrida sem peias pela acumulação individual de riqueza à custa do trabalho alheio e da degradação da natureza;
Desprezo instituído pelo bem público e pelos objectivos comuns, reduzidos à fábula da “mão invisível do mercado”, substituta da justiça social, do exercício da vontade dos homens, do planeamento, do conhecimento e da autodeterminação na construção do futuro.
A verdadeira contradição é entre capitalismo e desenvolvimento.
Inimigo simultâneo da Humanidade e da Natureza, o capitalismo é incompatível com o desenvolvimento, o verdadeiro desenvolvimento: o da felicidade humana e da harmonia com a natureza.
«O Militante» - N.º 265 Julho/Agosto de 2003