Iraque:
crimes e ilegalidades de uma agressão

 



Colaborador da Secção Internacional

As questões suscitadas pela criminosa e ilegal agressão imperialista ao Iraque são numerosas e de grande alcance. Com os combates em curso, deixam-se aqui três apontamentos.

Armas não convencionais

Os primeiros dias da invasão do Iraque trouxeram relatos da utilização de armas não-convencionais. Não pela parte iraquiana, como a propaganda de guerra insinuava permanentemente, mas por parte das Forças Armadas do imperialismo. Bombas-cacho (cluster bombs), urânio empobrecido, napalm, daisy-cutters, aparecem referidas de passagem e como factos de rotina, nalgumas linhas escondidas em extensos artigos da comunicação social anglo-saxónica.

O jornal britânico The Guardian (31.3.03), no ante-penúltimo parágrafo duma longa história sobre a morte de um soldado britânico vítima de «fogo amigo» dum avião A10 norte-americano, escreve: «Ao amanhecer, o chefe do esquadrão, um padre e vários soldados regressaram ao local para extrair o corpo. Foi necessário vestir fatos de protecção de guerra química devido aos perigos resultantes do urânio empobrecido usado nas armas americanas». O jornal britânico não considera relevante assinalar que apesar de todas as garantias das chefias militares norte-americanas e britânicas (e portuguesas) de que o polémico urânio empobrecido não fazia qualquer mal, os militares britânicos no terreno assim não pensam.

A CNN, numa notícia do seu correspondente Martin Savidge (22.3.03, 11.07 GMT) afirma, sobre um dos primeiros combates desta guerra, em Safwan: «Estima-se agora que a colina foi tão duramente atingida por mísseis, artilharia e pela Força Aérea, que terá ficado com menos um metro [de altitude]. E tudo aquilo que lá permanecia após todas essas explosões foi então atacado com napalm. Isso pôs termo a quaisquer operações iraquianas nessa colina». O mesmo relato é feito pelo jornalista do jornal australiano Sydney Morning Herald (22.3.03): «Foram apoiados por aviões da Marinha dos EUA que despejaram 40 000 libras de explosivos e napalm, relatou um oficial dos EUA ao Herald». Os comandantes militares dos EUA negaram mais tarde a utilização de napalm, mas dificilmente a poderiam confirmar, uma vez que a utilização de napalm está proibida desde 1980 por uma Convenção da ONU (SMH, 22.3.03).

A agência britânica Reuters escreve (2.4.03, despacho das 11:26:03): «Duas enormes bombas explodiram perto da cidade de Kut, no leste do Iraque, na quarta-feira, lançando para o ar gigantescas nuvens com a forma de cogumelos, afirmou um correspondente da Reuters.O correspondente Sean Maguire afirma que os Marines dos EUA pensam que se tratou de duas das bombas designadas “daisy-cutters”».

O corajoso jornalista britânico Robert Fisk escreve no Independent (3.4.03): «As feridas são feias e profundas, uma multidão de perfurações escarlate nas costas, pernas ou cara, os fragmentos das bombas-cacho [cluster bombs] enterrados na carne, uma polegada ou mais. As enfermarias do Hospital universitário de Hillah são a prova de que algo ilegal – algo bem à margem das Convenções de Genebra – aconteceu nas aldeias em torno da cidade outrora conhecida como Babilónia. As crianças em pranto, as jovens com feridas nos seios ou pernas, os 10 pacientes sobre os quais os médicos tiveram de efectuar cirurgia ao cérebro, falam dos dias e das noites quando os explosivos caíram ‘como uvas’ do céu.»

Atacar civis como estratégia de guerra

Mais “convencionais” são os bombardeamentos com mísseis contra alvos civis, como os mercados das cidades iraquianas. No ataque ao mercado do bairro Shu’ale de Bagdad os crusados anglo-americanos mataram 62 pessoas. Como no anterior ataque a um mercado da capital, nunca reconheceram a autoria, lançando suspeitas sobre «falhas» da anti-aérea iraquiana. O sempre mentiroso gabinete de Blair chegou a “informar” os jornalistas britânicos que havia “informações” de que o responsável pelas anti-aéreas iraquianas havia sido demitido devido a essas "falhas". O jornalista Robert Fisk visitou o local do ataque e viu um destroço do míssil que atingiu o mercado de Shu’ale. Publicou num artigo o seu número de série. Um seu colega de jornal confirmou, através desse dado, que o míssil era dos EUA, fabricado pela empresa Raytheon numa fábrica na cidade texana de McKinney (Independent, 2.4.03). As autoridades militares americanas não comentaram, a grande comunicação social ignorou o facto, e o massacre prosseguiu.

Perante este e outros crimes, a quase totalidade da comunicação social opta por falar em “erros lamentáveis”, “desastres em termos de Relações Públicas”, “factos não confirmados”, de “origem incerta” e outros eufemismos cúmplices. A palavra “crime” é tabú. Alguns acharão difícil acreditar que “democracias” ataquem propositadamente alvos civis. Mas a História fala por si, a este respeito. As bombas atómicas de Hiroxima e Nagasaqui, o bombardeamento a tapete de Dresden que criou uma bola de fogo que vitimou dezenas de milhar de pessoas, o análogo bombardeamento de Tóquio em Março de 1943 que matou 100 mil pessoas numa só noite, as atrocidades americanas nas guerras da Coreia e do Vietname, são terrivelmente eloquentes a esse respeito. Mas para além dos grandes crimes, existe uma estratégia de condução de guerras que vê nos ataques a civis a forma de alcançar objectivos militares. É a estratégia a que se refere a revista norte-americana Newsweek (15.5.00) quando, após dar conta de que os bombardeamentos da NATO contra o equipamento das Forças Armadas jugoslavas em 1999 havia sido um fracasso, como sempre afirmaram os dirigentes jugoslavos, escreve: «O poderio aéreo foi eficaz, na guerra do Kosovo, não contra os alvos militares, mas contra os alvos civis. Os estrategas militares não gostam de falar francamente em bombardeamentos para aterrorizar civis (“alvejamento estratégico” é o eufemismo preferido), mas o que prendeu a atenção de Milosevic foi o apagar das luzes no centro de Belgrado». De igual modo, o General Michael Short, comandante das forças aéreas da NATO, declarou numa entrevista ao International Herald Tribune (18.5.99): «Se acordarem de manhã e não tiverem electricidade em casa, nem gás no fogão, e se a ponte que vos leva para o trabalho tiver sido abatida e ficar a flutuar no Danúbio durante os próximos 20 anos, penso que irão começar a perguntar: ‘Oh, Slobo, o que se passa, afinal? E quanto mais disto é que vamos ter que suportar?’». Esta confissão está, naturalmente, cirurgicamente asseada: as vítimas civis da agressão à Jugoslávia não foram apenas famílias sem luz ou gás. Mas toca no cerne da questão.

A estratégia de alvejar civis para alcançar fins militares – que é, ao fim e ao cabo, a definição de terrorismo – é estudada e executada desde há muitas décadas pelas potências imperialistas. Numa curiosa Tese para a obtenção de um grau académico na Universidade do Ar (School of Advanced Airpower Studies), o então Major Michael Longoria da Força Aérea dos EUA estudou a experiência britânica de “policiamento aéreo”1 , eufemismo para as operações de subjugação colonial utilizando a força aérea. A resenha histórica é actual, pois o imperialismo permanece igual a si próprio: «Em Maio de 1919 a RAF [Força Aérea Britânica] tinha um bombardeiro Handley Page V.1500 que atacou a capital afegã de Cabul. [...] A RAF viria mais tarde a usar o controlo aéreo na Somalilândia, Iraque, Aden [actual Iémene – N.T.] Palestina, North-West Frontier [no actual Paquistão – N.T.] e noutras áreas remotas. Foi utilizado mais perto de casa, como na Irlanda do Norte». No seu estudo, o então Major Longoria, que é hoje Coronel e comandante do 18th Air Support Operations Group, analisa a doutrina militar britânica para essas operações e refere, como «particularmente significativo» o «princípio da interferência», formulado no Memorandum No. 16 do Vice-Marechal do Ar, Sir John Salmond, Comandante-em-Chefe das forças britânicas no Iraque. Escreve Longoria: «O mais importante princípio de Salmond diz respeito ao mecanismo usado para coagir os homens das tribos a submeterem-se – o princípio da interferência». E passando a citar o próprio Salmond: «o verdadeiro peso da acção aérea reside no facto de poder provocar a interrupção diária da vida normal, se necessário por um período indefenido, ao mesmo tempo que proporciona hipóteses negligenciáveis de pilhagem ou de contra-ataque. Pode destruir os telhados das palhotas e impedir a sua reparação, o que é um trastorno considerável durante o inverno. Pode interferir gravemente com a lavra ou a colheita – uma questão vital; ou incendiar os depósitos do combustível que fora arduamente recolhido e preparado para o inverno; pode atacar o gado, que é a principal forma de capital e fonte de riqueza para as tribos menos sedentárias, pode na prática impor uma penalização considerável, ou interferir gravemente com a própria fonte de alimentação da tribo – e ao fim e ao cabo, os homens das tribos acharão que é bem preferível obedecer ao Governo». Todos os exemplos de Salmond são de ataques a alvos civis.

É impossível não pensar nas doutrinas coloniais britânicas, estudadas nas escolas militares norte-americanas, ao ouvir as denúncias iraquianas de que as forças britânicas, durante o cerco a Baçorá, destruíram os armazéns de alimentos da cidade. Os ataques a mercados, a veículos que circulam nas estradas, às telecomunicações civis, às escolas e hospitais, às residências e locais de trabalho, são parte integrante desta estratégia da «interferência». Visam fazer aos iraquianos de hoje “achar que é preferível obedecer” aos senhores da pilhagem imperial-petrolífera, da mesma forma que os habitantes de Chicago achavam “ser preferível” aceitar a “protecção” de Al Capone. É isto a proclamada “libertação” dos iraquianos.

O futuro

Ainda a agressão ao Iraque não havia começado e já se discutia abertamente na comunicação social anglo-americana quais os alvos seguintes da guerra de colonização mundial do imperialismo norte-americano. São já permanentes as referências à Coreia

do Norte, Irão, Síria, Líbia. O ex-Director da CIA James Woolsey, falando a estudantes universitários da Califórnia, ao fim de duas semanas de guerra, falava alegremente numa nova Guerra Mundial, que «durará bem mais do que a Primeira e Segunda Guerras Mundiais», e acrescentava à lista de países e regimes «que queremos ver nervosos» o Egipto e a Arábia Saudita (CNN, 3.4.03).

A agressividade dos actuais dirigentes do imperialismo norte-americano dirige-se também para todos aqueles que ousaram contrariar, ou apenas gemer um pouco, perante os planos de conquista militar do Médio Oriente pelos EUA. O ataque à coluna de pessoal diplomático russo que abandonava Bagdad, no dia 6 de Abril, é um "recado" intencional, tal como o fora o bombardeamento da embaixada chinesa em Belgrado, em 1999. O jornal norte-americano International Herald Tribune (15.3.03) publica um artigo de título «França deverá sofrer represálias da América». Começa por escrever: «a França parece destinada a sofrer uma onda de perdas económicas e políticas às mãos dos americanos [...]. O contra-ataque dos EUA contra a França deverá abarcar um vasto espectro, desde iniciativas para reduzir a importância do Conselho de Segurança e de outros organismos internacionais que sustentam o prestígio francês, até golpes contra a cooperação industrial transatlântica que introduza tecnologia americana em empresas francesas [...]. O risco económico mais óbvio para a França é a exclusão de oportunidades num Iraque pós-guerra». Depois deste anúncio de que a ONU está na mira e da aberta confissão do que se deve entender por “devolução do Iraque ao seu povo”, vem uma ameaça mal velada: «O Pentágono pode impedir que empresas de defesa francesas tenham acesso a tecnologia dos EUA, mas os efeitos disso devem ser vistos no contexto dos interesses americanos mais gerais, afirmaram funcionários. O establishment militar da França é considerado o ramo do Estado francês mais favorável à política de força dos EUA no Iraque. “Queremos cortar a cooperação militar e de serviços secretos e alienar um lobby potencialmente influente em França, ou esperamos ver os militares a desempenharem um papel no repensamento de algumas atitudes no governo Chirac?”». Para bom entendedor... E para quem se anda a deixar enganar pela falsa tese de que a militarização da união Europeia será uma forma de travar o imperialismo norte-americano, este é mais um aspecto a levar em devida conta.

É já por demais evidente que a agressividade aventureirista dos dirigentes do imperialismo norte-americano é um perigo para a Humanidade. Qualquer cedência, compromisso ou submisão apenas alimentará ainda mais a arrogância delirante que prevalece em Washington. Toda e qualquer resistência e oposição a este monstro gerado nas entranhas do capitalismo é não apenas algo positivo. É uma necessidade vital para a Paz mundial.

1 A Historical View of Air Policing Doctrine: Lessons from the British Experience between the wars, 1919-1939, Tese com a data de 1992 e disponível na Internet, em http://www.maxwell.af.mil/au/aul/aupress/SAAS_Theses/Longoria/longoria.pdf

«O Militante» - N.º 264 Maio/Junho de 2003