Imperialismo e guerra são inseparáveis



Colaborador da Secção Internacional

Entre a data em que este artigo foi escrito e a da sua publicação, é possível que tenha sido desencadeada a guerra de agressão ao Iraque. As declarações cada vez mais claras a esse respeito, a dimensão dos contingentes militares estacionados na região e a posição de servilismo pró-americano por parte de oito chefes de governo europeus (de consequências ainda imprevisíveis para a União Europeia) são sinais que apontam para uma decisão já tomada.

A prevista agressão contra o Iraque representa um claro salto qualitativo na política belicista e agressiva do imperialismo norte-americano.

É hoje evidente, mesmo para muitos que durante os últimos anos se deixaram adormecer, e inclusivamente para muitos que durante décadas foram aliados fiéis dos EUA, que os círculos dirigentes da maior potência mundial estão actualmente empenhados em impor a sua hegemonia planetária por todos os meios, com destaque para os meios bélicos.

Como passo importante no processo de imposição dessa hegemonia planetária, o imperialismo norte-americano visa alcançar, por via militar, o controlo directo das fontes energéticas mundiais. Não apenas para fins de lucro imediato, mas sobretudo para poder ditar condições ao resto do planeta.

O “controlo da torneira” das fontes de energia de que dependem, em grande medida, a Europa, o Japão, a China, é um aspecto crucial para cercear o ascenso de novos “concorrentes”.

Não devem ser subestimadas as consequências políticas e sociais no seio de cada país, resultantes deste brutal salto militarista. Nem devem ser subestimados os perigos da crise que actualmente afecta o mundo capitalista e que alimenta tentações aventureiristas de resolver os graves problemas económicos pela via do militarismo e da guerra, à semelhança do que procurou fazer o capitalismo alemão nos anos 30 com a trágica aventura do nazi-fascismo.

A ameaça nuclear

Um dos aspectos mais preocupantes hoje é a banalização das referências à possível utilização de armas nucleares e de destruição massiva pelos governantes dos EUA.

Em 9.3.02, o jornal norte-americano Los Angeles Times escrevia:

«O governo Bush deu ordens aos militares para prepararem planos de contingência para a utilização de armas nucleares contra pelo menos sete países, e para construir armas nucleares de dimensão mais reduzida, a utilizar em certas situações no campo de batalha, de acordo com um relatório secreto do Pentágono a que o Los Angeles Times teve acesso. O relatório secreto, que foi entregue ao Congresso [Parlamento] no dia 8 de Janeiro [de 2002] afirma que o Pentágono tem de estar preparado para usar armas nucleares contra a China, a Rússia, o Iraque, a Coreia do Norte, o Irão, a Líbia e a Síria. Afirma que essas armas poderão ser usadas em três tipos de situações: contra alvos capazes de sobreviver a ataques não-nucleares; em retaliação por ataques com armas nucleares, biológicas ou químicas; ou “no caso de desenvolvimentos militares surpreendentes”». Ou seja, quando os governantes dos EUA quiserem.

Em 25.1.03, o mesmo jornal titula: «EUA ponderam ataque nuclear táctico ao Iraque».

E no dia seguinte escreve (pela pena do jornalista W. Arkin): «Um ano após o Presidente Bush ter designado o Iraque, Irão e Coreia do Norte como um “Eixo do Mal”, os Estados Unidos estão a considerar o impensável: estão a preparar um possível uso de armas nucleares contra o Iraque».

Já em Março passado o Secretário da Defesa britânico Geoffrey Hoon havia advertido: «podem estar absolutamente confiantes que, nas condições certas, estaremos dispostos a usar as nossas armas nucleares».

No mês passado, um «funcionário do Pentágono» revela à cadeia de televisão ABC que os EUA tencionam arrasar o Iraque do ponto de vista «físico, emocional e psicológico», com um ataque inicial «nunca antes visto, nem sequer contemplado» (notícia reproduzida pelo jor nal Sydney Morning Herald de 26.1.03).

Esse porta-voz militar fala numa chuva de 800 mísseis Cruzeiro que se irá abater sobre Bagdade nas primeiras 48 horas de guerra.

O New York Times (2.2.03) fala de 3000 mísseis em 48 horas. Esse plano é a tradução prática «duma estratégia designada “Choque e Temor” [Shock and Awe, em inglês] concebida na Universidade de Defesa Nacional em Washington».

O autor dessa estratégia explica: «queremos que desistam, não que lutem – daí esse efeito simultâneo – semelhante ao das armas nucleares em Hiroxima» (SMH, 26.1.03).

Os alvos não serão apenas militares, visando também «aniquilar todo o abastecimento de electricidade e água da capital».

É a renovada confissão duma estratégia militar que, desde sempre, caracteriza o imperialismo norte-americano: aterrorizar a população civil para vergar os governos; e utilizar qualquer tipo de armas que sejam politicamente viáveis (bombas atómicas no final da Segunda Guerra Mundial, urânio empobrecido nos Balcãs e no Golfo, napalm e Agente Laranja no Vietname).

Os efeitos dessa estratégia são confirmados indirectamente num relatório elaborado pela ONU, não divulgado oficialmente.

Nesse relatório prevê-se que «meio milhão de iraquianos podem vir a necessitar de assistência médica, como resultado de ferimentos graves sofridos logo na primeira fase duma guerra no Iraque» (Reuters, 7.1.03). E quantos mortos?

E depois do Iraque?

Mas ainda os EUA não desencadearam o ataque ao Iraque, e já falam de novos alvos que se seguirão. No famigerado discurso do Estado da Nação de 2002, Bush falou dos países do “Eixo do Mal”: Iraque, Irão e Coreia do Norte. No discurso deste ano voltou a referir-se-lhes em tom ameaçador.

Segundo o Washington Post (23.1.03), os EUA têm um «Plano Estratégico Militar Nacional para a Guerra contra o Terrorismo» que permanece secreto, mas que foi referido aos jornalistas pelo Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas dos EUA, General Richard Myers. «Prevê três grandes fases duma possível guerra, começando com a actual atenção ao combate à Al Qaeda e passando para uma segunda fase que prevê o confronto com países que patrocinam o terrorismo: o Iraque agora, e outros como o Irão e a Síria mais tarde».

Declarações de Blair ao Parlamento britânico foram sintetizadas pelo jornal The Guardian (29.1.03) com o título: «Blair: a seguir será a Coreia do Norte».

O recém-eleito Presidente da Coreia do Sul, Roh Moohyun, declarou num discurso televisivo ao país (CNN, 19.1.03): «quando fui eleito, os falcões e mesmo pessoas em posições de responsabilidade no governo dos EUA falavam na possibilidade de atacar a Coreia do Norte».

Não parecem exageradas, as advertências de Nelson Mandela (BBC, 30.1.03) de que os EUA «se preparam para lançar o mundo num holocausto».

Mas a constatação, infelizmente evidente e necessária, exige que se pergunte: “como foi possível ter-se chegado a este ponto?”.

A resposta foi dada, há muito tempo, nas Resoluções Políticas dos Congressos do PCP.

Quando muitos, mesmo gente de esquerda, falavam em “época dos povos”, dos “cidadãos”, das “democracias” e dos “direitos”, o PCP advertiu que:

«com o colapso da URSS e dos países socialistas do Leste europeu, a correlação de forças desequilibrou-se a favor do imperialismo. Os EUA aproveitaram a conjuntura para, servindo-se da sua brutal e hoje incontestada supremacia militar e do seu enorme poderio económico, político e ideológico, tentarem impor a sua liderança universal num mundo que pretendem perpetuar como ‘unipolar’. A ‘nova ordem mundial’ proclamada por Bush [pai] [...] é pensada como um sistema mundial de poder do imperialismo, sob a hegemonia dos EUA, para consagrar e assegurar a submissão de todos os Estados e povos» (XIV Congresso, 1992);

«O militarismo confirma-se assim como uma tendência e uma característica intrínseca do imperialismo que encerra enormes perigos para a paz, a independência e soberania dos povos e para o próprio futuro da Humanidade» (XV Congresso, 1996).

Fala-se muito, a propósito da planeada agressão contra o Iraque, na pessoa de Bush Jr., e do círculo de aventureiros senhores da guerra que o rodeiam.

Fala-se muito de violação do Direito Internacional e de desrespeito pela ONU. Os factos são óbvios a esse respeito. Mas importa não esquecer que essa sempre foi a realidade das guerras imperialistas.

Para falar apenas dos últimos 20 anos, com a única excepção da Guerra do Golfo de 1991, nunca os EUA agiram através da ONU, e sempre violaram a legalidade internacional: na agressão à Nicarágua, na malograda incursão militar no Irão, nas invasões de Granada e Panamá, no bombardeamento de Tripoli, no Líbano, no lançamento de mísseis contra o Sudão, Afeganistão e Iraque, nas guerras contra a Jugoslávia e o Afeganistão.

Esta escalada gradual de agressões e guerras, com que os EUA foram invertendo a situação criada pela sua humilhante derrota militar às mãos do heróico povo vietnamita, foi levada a cabo independentemente dos Presidentes que se sucederam à frente daquele país.

Foi sob a Presidência Clinton e com a vergonhosa cumplicidade activa dos governos da Europa, então hegemonizados pelos partidos da Internacional Socialista, que se cometeu a criminosa agressão nos Balcãs. E são os ex-ministro e vice-ministro da Defesa de Clinton que confessam agora (Washington Post, 20.10.02) que «passaram boa parte da primeira metade de 1994 a preparar a guerra na Península Coreana», guerra que haveria de começar com um ataque militar norte-americano à central nuclear (para fins civis) norte-coreana de Yongbyon.

A realidade é que a política do imperialismo norte-americano tem raízes e causas muito mais profundas e menos conjunturais.

O que os actuais governantes dos EUA trouxeram de novo foi um inegável salto qualitativo de arrogância em todas as frentes e um unilateralismo que deixa os seus antigos “parceiros” e “aliados” a sentirem-se cada vez mais na posição de vassalos, para usar a expressão do antigo Conselheiro de Segurança Nacional de Carter, Zbigniew Brzezinski.

É essa a verdadeira razão da crescente clivagem entre as classes dominantes da Europa e dos EUA, e não as preocupações pelo Direito Internacional, pela paz ou os interesses dos povos.

Na sequência dos cada vez mais numerosos embates no campo económico e político, a autêntica guerra verbal transatlântica e a mediática cisão, no seio da União Europeia, protagonizada pela carta dos oito defensores do belicismo e hegemonia norte-americanas (entre os quais Durão Barroso) veio tornar evidente que as rivalidades inter-imperialistas são um factor de peso crescente na situação mundial.

Também aqui, e quando raríssimas eram as vozes nesse sentido, o PCP acertou na caracterização feita na Resolução Política do XV Congresso (1996):

«O reforço das estruturas (formais e informais, públicas e privadas) internacionais e supranacionais do imperialismo visa concertar uma estratégia planetária comum [...] É um processo que põe em evidencia a solidariedade de classe do grande capital mas que não anula nem domestica as contradições no campo imperialista. Pelo contrário, as rivalidades, conflitos e contradições entre as grandes potências e os grandes pólos do impe-rialismo não se atenuaram e mostram mesmo tendência para se avolumar e exacerbar. Para isso concorrem: o desenvolvimento desigual do capitalismo, com as brutais pressões dos EUA para impôr a sua hegemonia no plano mundial e assegurar a todo o custo a supremacia no próprio campo imperialista; a formação de grandes espaços de integração económica e livre comércio com a agudização da luta por matérias-primas (nomeadamente petróleo), mercados, esferas de influência, posições de importância geo-estratégica; uma nova partilha imperialista do mundo no quadro do que os próprios designam de ‘preenchimento do vazio estratégico’ criado pelo desaparecimento da URSS e do socialismo como sistema mundial. A guerra económica entre os três grandes pólos do imperialismo – EUA, União Europeia/Alemanha e Japão – marcada por arrogantes imposições unilaterais dos EUA, tende a agudizar-se. Não pode ser subestimado o perigo de que a guerra económica, agudizando confrontos políticos, possa resvalar, por vias diversas, para a disputa militar».

Neste quadro, é evidente que o curso da militarização da União Europeia defendida por alguns (vide Mário Soares), apenas pode contribuir para agravar os perigos de guerra a nível mundial.

O combate pela paz é hoje uma tarefa central, da maior urgência e importância. Esse combate, no qual os comunistas têm um papel crucial, tem de ser travado na mais vasta unidade possível e sem preconceitos. Mas sem abdicar de apontar as reais causas da monstruosidade belicista que ameaça o planeta neste início do Século XXI. O imperialismo e a guerra são inseparáveis. Para assegurar a Paz é necessário derrotar o imperialismo.

«O Militante» - N.º 263 Março/Abril de 2003