Memória Alentejana * |
Este livro integra um trabalho dedicado ao levantamento da vida no Alentejo nas últil, mas décadas, ao conhecimento do que foi a Resistência ao fascismo e do que é a luta pela Reforma Agrária. Noutro volume são abordados o passado, o presente e as perspectivas para o futuro no distrito de Évora; neste, são focadas duas zonas do distrito de Portalegre, Benavila e Campo Maior.
Não se trata de um levantamento de carácter sociológico, económico e político em absoluto; o leitor notará aspectos diferentes nos depoimentos, que surgem, a par dos textos intermédios, com organização por vezes aproximada à de uma obra de ficção.
Tal não acontece por acaso. No primeiro livro em que ensaiámos este tipo de trabalho, Emigração e Crise no Nordeste Transmontano, publicado em 1973, as entrevistas surgiam quase como tinham sido feitas; em Perspectivas de Libertação no Nordeste Transmontano, que saiu depois do 25 de Abril, o método foi aproximadamente o mesmo, assim como em Vida ou Morte no Distrito de Viseu, livro dedicado às Campanhas de Dinamização do MFA e à vida do povo da Beira Alta. Porém, ao iniciar este trabalho sobre o Alentejo, ficou claro que o nível mais elevado da linguagem dos trabalhadores, devido a uma maior consciência de classe, e a sua capacidade de descrição e de reconstrução dos acontecimentos permitiam ensaiar uma nova forma.
Assim, desaparecem as perguntas e ficam só os depoimentos, colectivos e individuais, sem interrupções ou quebras; nos que são colectivos, vamos ao ponto de adoptar o processo de não identificar expressamente quem fala, deixando um cunho de entrelaçamento de depoimentos que preserva melhor, quanto a nós, aspectos romanescos e poéticos (no sentido do real) tão ricos e complexos da vida dos trabalhadores do Alentejo; aspectos que já deram belos romances, contos e poesia (por exemplo, grande parte da obra de Manuel da Fonseca) e que serão a base, no futuro, de trabalhos literários que o povo alentejano bem merece dos escritores portugueses.
Este levantamento da vida, do sofrimento e das vitórias dos trabalhadores alentejanos tem riscos e deficiências. Nunca sentimos tanta amargura, ao fazer este tipo de trabalho, como em certa noite passada em Évora, ao tomarmos pela primeira vez o peso do que fazíamos isoladamente. Tratava-se de uma tarefa que deveria ser feita por equipas desdobradas pelo Alentejo e pelo Ribatejo, colhendo organizadamente essa experiência única que tem sido a luta dos trabalhadores dos campos pela dignidade humana, pela libertação e pela Reforma Agrária.
Para nós, apesar de todas as falhas, o levantamento da realidade de norte a sul do país foi o meio através do qual se tornou possível ultrapassar a muralha de silêncio que a partir do início da década de 1960/70 se ergueu entre parte dos intelectuais e o povo português, evitar a colonização cultural já dominante, superar a perspectiva essencialmente formalista que se instalou em sectores das Artes e das Letras portuguesas enquanto decorriam a emigração e a guerra colonial e o fascismo apertava as garras em torno da nossa vida. Hoje, para nós está claro que não há campos (de imaginação) mais férteis, para o trabalho literário, de que aqueles de onde brota a vida vivida, absurda, trágica, alegre e real do povo deste país. E isso é já um bom ponto de partida para novos projectos.
MOTE Nunca a terra teve dono I O que está a germinar II Ao serviço da verdade
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III A terra cria e come IV Essa mentira aprovada José Manuel Sebastião |
(*) Introdução ao livro Memória Alentejana. Resistência e Reforma Agrária em Benavila e Campo Maior, de António Modesto Navarro, «Edições Avante!», Lisboa 2002.
«O Militante» - N.º 262 Janeiro/Fevereiro de 2003