José Afonso
Um Olhar Fraterno

 

O homem é a obra, segundo uma já velha (e discutível) sentença. É-o também na relação consigo mesmo e com os outros. A esta luz, a obra pode lançar sobre quem a gerou um clarão diurno mas não dar totalmente a sua medida. De José Afonso se dirá com razão isso mesmo. Projectou-se (ou projectaram-no) para além da poética musical que nos legou. Por causa dela, é certo. Mas não foi indiferente o seu modo de estar, o apego à liberdade e independência, a generosa dádiva de si mesmo, a coerência (teimosamente perseguida) — enfim, a relação empenhada que teve com o seu tempo, um tempo colectivo que melhor o vemos agora, olhando para trás, transcendente e único. Um tempo a saber a oportunidade perdida, diremos talvez. Mas perdida em relação a quê se a ulterioridade dos factos históricos — marcada por esse sinal da globalidade que é o grande axioma (e argumento) dos nossos dias — desmentiu como utópicas as hipóteses de ontem?

Ao longo dos anos de silêncio coacto (e, por fim, de gestação democrática) foram muitos os que o fizeram depositário da chama ideal que reconditamente nos habita — a todos, creio, apesar dos comprometimentos de um quotidiano banaliza-dor, o de outrora e o de hoje, ressalvadas as enormes distâncias. E à mesma se encontrou do outro lado da barricada quando, ao velho e autocrático, se substituiu o novo poder festivo.

Biografá-lo, ainda que contra ele, quero dizer, contra a sua natural singeleza, a aversão à ribalta, a propensão a subalternizar o que empreendeu no campo criativo e interventor, é tarefa de si justificada. Mas trabalhosa, até por força da particularidade acabada de enunciar. Será necessário escavar por debaixo dessa atitude para se encontrar a pessoa e talvez a época que, à sua dimensão, espelhou e sobre a qual, queiramos ou não, actuou — ele e todos quantos com ele estiveram nessa jornada de dar voz a quem a não tinha, embora a sua fosse porventura a mais autêntica e visível voz de quantas então se manifestaram. Mas essa tarefa sistemática de indagação e contextualização excede o propósito destas linhas que, no ponto, não vão além de uns comentários e reflexões despreocupados.

À falta de uma verdadeira biografia, ficam os contributos parcelares que, todos juntos, acabarão por ajeitar o quadro, talvez com a vantagem de a composição sair multifacetada, multiperspectivada, como um desses retratos cubistas desdobrados em vários planos, conforme os pontos de vista a partir dos quais é olhado o original (substituída a paleta singular pela colectiva). Este escorço é uma pedra mais a somar às do conjunto, as já existentes e as futuras.

Para falar de um percurso pessoal, o melhor ainda é seguir a cronologia. De modo que o texto, embora de forma entrecortada, não linear, cumpre, conforme pode, a cómoda regra de remontar ao princípio (convencional) e daí caminha paralelamente ao transcurso vivido. Tudo discernido, é claro, do ângulo do observador. Em suma, uma visão própria (como poderia ser de outro modo?) expressa em abordagens provisórias, no sentido já sublinhado de que hão-de cruzar-se com outras representações do mesmo objecto. Subjectiva mas não preconceituosa. Isto é, procura não enveredar por enquadramentos redutores, não trajar a personagem no pronto-a-vestir das ideias feitas, sejam elas políticas, ideológicas ou quaisquer outras, em que ele, Zeca, nunca se abasteceu. Alguma coisa se repete do que foi dito ou escrito? Poderia imodestamente deslocar do puro pensamento para aqui a afirmação magistral de que «uma diferença faz sempre desviar a repetição». Algo de substantivo se acrescenta, penso, quanto mais não seja o que decorre da observação e da lembrança próprias. Ensejo ainda para se repor a verdade de alguns dados — secundários, é certo — que andam incorrectamente reproduzidos.

Resta acrescentar que, à narração principal, se pospôs uma tábua com as principais efemérides biográficas de José Afonso, tendo por fundo os acontecimentos políticos, nacionais e internacionais e alguns comentários do tempo, incluindo os do próprio. Menção aleatória, como é evidente. Nós cegos, a segurarem, em pontos fixos, a teia do tempo.

 

«O Militante» - N.º 261 Novembro/Dezembro de 2002