| A militarização da terra numa crise de civilização |

Jornalista
Transcorrido um ano sobre os acontecimentos do 11 de Setembro é transparente o agravamento da crise de civilização provocada pela estratégia de dominação planetária desenvolvida pelo sistema de poder imperial dos EUA.
O Estado que funciona como pilar e motor da globalização neoliberal utiliza o seu enorme poder para desencadear, directa ou indirectamente, uma política terrorista contra governos e povos de países do mal chamado Terceiro Mundo. Paradoxalmente, essa escalada de violência é apresentada como uma exigência da história imposta pela defesa da democracia, da liberdade e de valores eternos da con-dição humana. Os EUA estariam investidos de um mandato de natureza quase divina para salvar a humanidade do terrorismo.
O projecto, que tem duas componentes, uma económica e outra militar, assume já contornos fascizantes e configura uma ameaça à própria sobrevivência do homem.
É hoje inquestionável que os actos terroristas que destruíram as Torres de Manhattan e uma ala do Pentágono, ocorridos em circunstâncias ainda envolvidas por uma cortina de mistério, criaram na sociedade estadunidense condições psicológicas muito favoráveis à cruzada de barbárie empreendida sob bandeiras humanitárias.
A estratégia que nos está a empurrar para uma militarização da terra é agravada pela presença na Casa Branca de um político ignorante, um homem de espírito primário e fanático. Na sua opinião os EUA devem governar o mundo com punho de ferro, como nação predestinada.
No seu discurso de West Point, dirigindo-se aos futuros oficiais, George W. Bush deu um passo em frente na escalada neonazi ao fazer a apologia das guerras preventivas. Considera negativo esperar pela concretização daquilo a que chama as ameaças terroristas. Anuncia que os EUA ao pressenti-las devem atacar sem perda de tempo. Por si só as referências que então fez a Cuba, apresentando a Ilha socialista como fonte potencial de agressões biológicas, é reveladora dos perigos que a estratégia da Casa Branca envolve para a humanidade.
No momento em que escrevo – meados de Setembro – uma guerra de aniquilação contra o Iraque é apresentada como iminente pela Casa Branca. A decisão final foi retardada pela oposição que o projecto encontrou. Com excepção de Tony Blair, os principais aliados europeus, sobretudo Schröeder (em vésperas de eleições), temem uma nova guerra de agressão no Médio Oriente por identificarem nela uma aventura irresponsável, de consequências imprevisíveis. Bush sentiu então a necessidade de fazer concessões. Não excluiu a hipótese de uma intervenção unilateral dos EUA, apoiada somente pelo Reino Unido. Mas, para remover a resistência da Alemanha, da França e da Rússia e impedir um choque muito incómodo com a China desenterrou dos arquivos o folhetim dos inspectores da ONU. Washington pretendia usar a recusa iraquiana sobre a volta dos inspectores para fazer aprovar no Conselho de Segurança uma Resolução que desse à agressão uma fachada de legitimidade institucional.
À última hora, entretanto, Bagdade fez desabar o plano. Ao aceitar o regresso incondicional das inspecções, o governo do Iraque forçou o sistema de poder dos EUA a remendar a estratégia de agressão. Ficando transparente que não iriam ser encontradas as tão faladas instalações e armas nucleares, Bush teve de apresentar novas exigências. Agora reclama o desarmamento total do Iraque, pede coisas que transformariam aquele país numa colónia à moda antiga.
Ao comportar-se mais uma vez como político sem palavra e um fora da lei internacional, o presidente dos EUA enfrentará novas dificuldades para convencer os aliados europeus e neutralizar a oposição chinesa. Na U.E. os povos estão cansados da arrogância norte-americana e do aventureirismo agressivo do seu presidente.
O fracasso das tentativas de Donald Rumsfeld e de Colin Powell para obterem apoio de alguns Estados árabes para o plano de George Bush tornou também transparente o temor que a estratégia dos EUA suscita na região. Somente em Ryad tinham obtido algumas promessas, cujo cumprimento dependeria de uma eventual resolução do Conselho de Segurança. Os governantes, do Koweit ao Egipto, passando pela Arábia Saudita e pela Jordânia, por mais submissos que sejam, estão conscientes de que os respectivos povos identificam na política de Washington uma amea-ça global contra o Islão, na sua totalidade. O mundo muçulmano, incluindo aliados como o Paquistão e os Emirados tira conclusões do genocídio do povo palestino e da implantação militar, económica e política dos EUA na Ásia Central e no Cáucaso.
Eles chegaram para ficar. Na República do Kirguistão foi construída uma gigantesca base aérea. Uma guarnição de 3000 norte- -americanos instalou-se nessa área, próxima das fronteiras ocidentais da China. No Turquemenistão, no Kasaquistão, no Azerbeijão, dirigentes e técnicos das grandes companhias petrolíferas movem-se como se estivessem no Texas. A Geórgia é tratada como se fora um protectorado.
Vladimir Putin não protesta. Vai mais longe nas cedências do que Ieltsin, o que não parecia possível. Simula ignorar que um cordão de bases militares norte-americanas vai surgindo da terra desde a região aralo-caspiana aos contrafortes das cordilheiras do Pamir e do Tien Chan.
A China não esconde a sua inquietação. Tem sobradas razões para isso.
A tragédia afegã
O Afeganistão é hoje, transcorrido um ano, uma terra arrasada e ocupada. Proclamando a necessidade de vingar os 3 milhares de mortos do 11 de Setembro, Bush escolheu como alvo da retaliação um remoto e paupérrimo país asiático e transformou o seu povo, alheio aos acontecimentos, em vítima da primeira agressão imperial do século. Milhares de afegãos pereceram durante os bombardeamentos e dezenas de milhares de fome. Os dois objectivos apresentados para justificar a agressão não foram atingidos. Osama Ben Laden e o mullah Muhamad Omar não foram capturados e o seu paradeiro é desconhecido. O governo imposto pelos EUA somente sobrevive porque um exército estrangeiro ocupa o país. O presidente fantoche, Hamid Karzai, ex-funcionário subalterno de uma companhia petrolífera norte-americana, já foi alvo de vários atentados.
A situação interna é calamitosa. Segundo o Washington Post (9/07) a anarquia alastra nas cidades e nos campos, o comércio do ópio prospera e o desprestígio do governo é transparente.
O ódio contra o invasor cresce a cada semana. Nos últimos dois meses foram abatidos mais militares dos EUA que nos dez anteriores. As bombas e os mísseis norte-americanos continuam a explodir nas montanhas. Com frequência as vítimas são pacíficos camponeses das tribos da fronteira ou militares aliados que participam na ocupação do país. Isso já aconteceu com tropas britânicas e canadianas. O «erro» mais chocante motivou um pedido de desculpas apresentado pelo próprio secretário da defesa, Rumsfeld: um piloto da USAF tomou uma festa de casamento por concentração subversiva e procedeu a uma chacina colectiva. Noivos e convidados foram despedaçados pela metralha.
Os ataques a bases norte-americanas sucedem-se. A própria imprensa estadunidense reconhece que uma seara de ódio cresce entre o povo contra os EUA. A maioria dos ataques provém das tribos montanhesas que se organizam para uma luta de longa duração. O alto comando norte-americano atribui essas acções à Al Qaeda, mas mente conscientemente. Os comunicados oficiais envolvem em mistério as baixas em combate. Não se limitam a reduzir o número de mortos: ocultam a origem. A fórmula oficial passou a ser: «morreram tantos soldados e oficiais das forças aliadas»...
Crimes contra a humanidade
Com muito atraso, lentamente, pequenas parcelas da humanidade começam a tomar conhecimento dos crimes cometidos no Afeganistão pelas Forças Armadas dos EUA.
O achado próximo de Mazar-i-Charif numa fossa comum de milhares de cadáveres de prisioneiros abatidos foi recebido com alguma surpresa no Ocidente. O espanto é explicável pela cortina de silêncio montada pelas grandes cadeias de televisão em torno das chacinas cometidas no Afeganistão de Dezembro a Fevereiro do ano passado. Outra matança somente foi conhecida há poucas semanas: centenas de prisioneiros, encerrados em contentores, morreram ali por asfixia.
Tal como outros escritores e jornalistas denunciei, na época, a chacina dos prisioneiros de Kunduz e Mazar que se ha-viam rebelado após o assassínio pela CIA de um dos seus companheiros. Os factos eram conhecidos. Foi um oficial dos EUA quem decidiu que não deveria haver sobreviventes. Mas a imprensa norte-americana fez do massacre um incidente sem importância. Posteriormente o saque de Kandahar por bandidos mobilizados pelo comando norte-americano (depois de a guarnição da cidade ter capitulado e receber garantias) desenvolveu-se numa atmosfera de apocalipse. Mais de um milhar de cadáveres, abatidos no saque medieval, empilhavam-se nas ruínas da cidade quando, finalmente, as tropas americanas entraram em Kandahar. Washington não queria, também ali, sobreviventes.
O relato do documentalista Jamie Doran (edição francesa de Setembro de Le Monde Diplomatique) sobre a fria determinação do comando norte-americano de matar os prisioneiros ilumina crimes que somente encontram precedente nos cometidos pelas SS nazis durante a II Guerra Mundial. O que ele nos conta sobre a tortura a que foram submetidos combatentes de Kunduz e Mazar coloca o leitor perante um quadro alucinatório. Em Sheberghan, militares norte-americanos mataram prisioneiros como gado, para gerar um clima de medo, esfaquearam outros, cortaram línguas.
Os tratamento a que foram submetidos os prisioneiros concentrados em Guantanamo – a maioria entregues pelo Paquistão aos EUA – levantou clamores de protesto em todo o mundo. Mas as correntes nos pés e o recurso a drogas aparecem como crimes menores comparados com as sádicas chacinas do Afeganistão, executadas por iniciativa e sob a supervisão do alto comando das FAs dos Estados Unidos.
O comportamento das tropas norte-americanas no cenário afegão ajuda a compreender a atitude de Washington ao proclamar que os seus oficiais e soldados acusados de crimes de guerra não serão, em hipótese alguma, submetidos à jurisdição do Tribunal Penal Internacional criado pelas Nações Unidas.
Tribunais como o TPI devem servir, na opinião da Casa Branca, apenas para julgar ex-dirigentes socialistas como o jugoslavo Milosevic, ou eventualmente comandantes revolucionários das FARC que se batem pela liberdade do seu povo, mas nunca membros das FAs dos EUA, comprovadamente responsáveis, esses sim, pela prática de crimes contra a humanidade.
O alvo iraquiano
O combate eficaz a ameaças devastadoras que impendem sobre a humanidade exige a assimilação pela consciência dos povos de uma realidade: o perigo – insisto – vem precisamente da engrenagem de poder que se apresenta como guardiã e defensora de valores da condição humana.
Parece fácil demonstrar a inversão da realidade, mas na prática a tarefa é dificílima.
A máquina da desinformação funciona a partir de um axioma maniqueísta que divide o mundo em bons e maus. Os EUA – a sociedade, o modo de vida, as instituições, os governantes, as suas guerras – encarnariam o bem; os seus adversários e vítimas seriam símbolos do mal.
O bombardeamento mediático, desencadeado nas últimas semanas para amortecer resistências suscitadas pela intenção dos EUA de atacar o Iraque, constitui um exemplo expressivo da técnica de manipulação e anestesia das consciências.
Em Washington sabia-se que não bastava repetir acusações antigas contra Saddam Hussein. Fora do mundo islâmico o presidente iraquiano não encontra praticamente quem o defenda. Mas o discurso americano que apresenta a necessidade de uma guerra para derrubar um dirigente não convence; é mal recebido. Porquê e agora?
Os falcões perceberam que era indispensável inovar, introduzir um factor capaz de persuadir, que fosse além da satanização de um homem. É então que intervém em força a perversão mediática. De repente cadeias de televisão, jornais, rádios, sítios na Internet passaram da exigência do regresso dos inspectores da ONU a Bagdade à repetição massa-crante de um tema: o Iraque disporia já de armas nucleares, ou estaria prestes a obtê-las. Conclusão: seria urgente atacar o Iraque, invadir e arrasar aquele país porque configura ameaça à humanidade. A resistência dos aliados que desaprovam a guerra enfraqueceu; os epígonos pigmeus como Aznar e Durão Barroso exultam e rastejam. A Base das Lajes, claro, seria posta às disposição da US Air Force. A parelha luso-espanhola paramenta-se mentalmente com túnicas guerreiras e brada que é urgente e imprescindível defender a civilização do perigo iraquiano; oferece os seus préstimos de vassalos. As manchetes dos media, em todo o Ocidente, sugerem que o ataque ao Iraque se tornou exigência da defesa da civilização. Os colunistas de serviço tratam de apresentar o crime em preparação como gesto humanitário e acto de sabedoria política.
A mensagem é primária, mas o controlo quase absoluto do sistema mediático, nesta era da informação instantânea e universal, permite atingir em grande parte o objectivo visado.
O discurso maniqueísta e farisaico não convence a intelligentsia nem milhões de trabalhadores triturados pelas políticas neoliberais, mas perturba as grandes maiorias, confunde-as e, embora não obtenha a sua adesão à guerra, neutraliza-as, mantendo-as passivas.
Oportunamente o mundo será informado de que 44 países dispõem de tecnologia para construir armas nucleares (v. em resistir. info artigo do físico italiano Angelo Baracca). O Iraque é um deles. Com a peculiaridade de ter recebido a tecnologia dos EUA há cerca de vinte anos. Não estamos perante uma revelação. A novidade está no alarido subitamente levantado em torno da suposta ameaça iraquiana. Existe uma distância intransponível entre o conhecimento suficiente para construir armas nucleares e a capacidade financeira e a posse de materiais cindíveis imprescindíveis para a sua produção. É absurdo admitir que Bagdade tenha obtido esses materiais após a Guerra do Golfo.
O perigo iraquiano é uma colossal mistificação.
Um dia a verdade será tornada pública. Então a humanidade tomará conhecimento de que a bomba iraquiana não passou de uma mentira forjada para abrir caminho à destruição do Iraque; mas quando isso acontecer a tragédia terá possivelmente sido consumada e a reposição da verdade passará despercebida.
Seria uma ingenuidade admitir que a invasão e a destruição do Iraque assinalariam o fim da escalada bélica. George Bush não lançou por capricho a fórmula do Eixo do Mal. Depois do Iraque chegaria a vez do Irão. A Coreia do Norte está na sua lista e a intervenção na Colômbia figura há muito nos planos do Pentágono.
A história não se repete, porque as consequências de actos na aparência similares são sempre diferentes. Mas a agressividade, a ambição e a irresponsabilidade do sistema de poder dos EUA traz à memória o comportamento da Alemanha nazi no final dos anos 30. Depois da Áustria, foi a Checoslováquia e, finalmente, a Polónia.
O inventário dos crimes cometidos pelo Estado norte-americano desde o desaparecimento da URSS está feito. Nos livros de intelectuais como Noam Chomsky e em trabalhos da Monthly Review encontramos, aliás, as mais completas descrições e análises das agressões, ignomí- nias, crimes e golpes da CIA, e intervenções directas e indirectas que, em desafio frontal ao Direito Internacional e à Carta da ONU fizeram dos EUA um Estado terrorista que se coloca acima das leis.
Essa acumulação recorde de crimes contra a humanidade, colectivos e públicos uns, encobertos outros, continua, entretanto, a ser conhecida e devidamente avaliada somente por uma ínfima minoria de habitantes da Terra. O controlo da informação e a cumplicidade covarde dos países da U. E., do Japão, do Canadá, da Austrália (sócios na partilha das riquezas do mundo) e também da Rússia terceiro- -mundizada (ela própria ameaçada) encobre o rosto e muito da agressividade do sistema de poder imperial dos EUA.
É assim que desde a Guerra do Golfo, numa escalada assustadora, a política de irracionalidade, do anti-humanismo, da opressão dos povos e da sobre-exploração dos trabalhadores, da destruição do am-biente e das culturas nacionais é diariamente apresentada como mensageira do bem, patamar superior da democracia e síntese das conquistas da civilização e baluarte da sua defesa.
O assalto à razão assume facetas tão absurdas que um cidadão de escassa inteligência, que faz da guerra o instrumento de uma nova ordem mundial, ocupa em Washington o vértice de um sistema de poder orientado para uma ditadura planetária.
Pela sua irracionalidade esse sistema de poder, de contornos fascizantes, contém em si mesmo as sementes da própria destruição. Configura uma ameaça à continuidade da vida na Terra, mas a luta dos povos acabará por o derrotar. Embora lentamente, a maré da resistência sobe. A humanidade vencerá, acredito, a grande batalha de que depende o seu amanhã.
«O Militante» - N.º 261 Novembro/Dezembro de 2002