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A palavra manipulada |
1950.
O público começa a aperceber-se da nocividade do tabaco para
a saúde, e as pessoas que continuam a fumar conhecem cada vez melhor
os riscos que correm. A venda de cigarros acusa uma forte quebra. Os fabricantes,
inquietos, decidem confiar as operações de recuperação
aos especialistas da «procura de motivações», e
estes montam uma campanha de especial eficácia que tem durado até
aos nossos dias. Essa campanha conseguiu criar em amplas camadas do público,
praticamente a partir do nada, um desejo de fumar que provoca o constante
aumento do consumo. Ao falar deste período, os especialistas dizem
ter sido ele que deu origem à «epidemia de cancros» que
actualmente mata centenas de milhares de pessoas.
1958. Um coronel francês, empenhado na luta psicológica contra os guerrilheiros da FLN, põe em prática um estratagema no qual se serve do legítimo receio dos combatentes argelinos a infiltrações e traições. Algumas simples cartas, entregues a prisioneiros libertados, com uma mistura de informações verdadeiras e falsas, levam o dirigente da guerrilha a torturar e matar em poucos meses cerca de dois mil dos seus homens inocentes, é claro.
1970. Começam a aparecer na publicidade certas figuras de pessoas provocantes, associadas a gamas de produtos cada vez mais amplas. A sua presença não é, em si, escandalosa; mas o amálgama afectivo que provoca dá origem a comportamentos aquisitivos que sem ela não surgiriam. Tudo isso culmina na emblemática publicidade das pastilhas
Lajaunie, que as recupera para o gosto da época por via do abundante decote de uma figurante, cuja presença não tem qualquer justificação nessas circunstâncias. Tudo serve doravante para estimular o consumo e provocar um desperdício de bens raros sem igual na história.
1980. Curiosas técnicas de «comunicação» alastram como um cordão de pólvora numa sociedade persuadida de que o próximo fim do «comunismo» e a expansão generalizada dos meios de comunicação social especialmente da televisão anunciam o fim da propaganda e da coerção psíquica.
A pretexto da renovação dos métodos de gestão, proliferam nas empresas e noutros locais os «seminários» destinados a difundir os «novos métodos americanos» de influência e persuasão. Seduzidas pelas suas promessas de eficácia, numerosas pessoas começam a utilizar esses métodos na sua vida profissional e na sua vida particular à custa da sistemática degradação do clima de trabalho de inúmeras empresas e do rompimento de muitas relações in-terpessoais.
1990. O público descobre, apavorado, que eram falsos os ossários de Timisoara que tão grande indignação lhe haviam causado. Tudo recomeça no ano seguinte com a Guerra do Golfo, «limpa
e cirúrgica». Começa a era das grandes manipulações nos meios de comunicação social; estes dois exemplos revelam apenas o seu aspecto mais visível. Tendo-se apresentado até então como garantes de uma informação objectiva, ou pelo menos honesta, os meios de comunicação social são já o elo mais fraco, e só com grande circunspecção se pode agora conceder-lhes alguma confiança se é que a merecem.
Final dos anos 90. Os grandes demagogos estão já instalados em público, alcançam audiência na televisão e conseguem êxitos eleitorais sem precedentes. O clima político deteriora-se em toda a parte: a confiança depositada nos políticos chegou ao ponto mais baixo. Já ninguém sabe como dar combate às técnicas de manipulação que invadiram o debate no espaço público. Convidado, perante milhões de telespectadores, a explicar por que motivo os seus militantes assassinaram um jovem comorense que passava perto deles numa noite de colagem de cartazes, o principal dirigente de um partido da extrema direita francesa conseguiu criar a convicção de que os seus homens eram as vítimas e a vítima o culpado. Mais tarde, na presença de uns jornalistas incapazes de desmontar a manipulação do discurso, ele e os seus apaniguados conseguiriam impor a ideia de que o «lobby judaico» dominava a presidência da República Francesa O amálgama cognitivo que associa a presença de estrangeiros a todos os problemas de que hoje sofre a sociedade francesa amálgama que é um puro produto da manipulação da opinião pública conhece um êxito sem precedentes, a ponto de haver até certas forças de esquerda que nele se deixam enredar.
Todos estes exemplos têm em comum a entrada em cena de técnicas de manipulação bem definidas, utilizadas de um modo completamente consciente. Essas técnicas são ensinadas, são assunto de manuais vendidos nas livrarias, e até há investigadores e intelectuais capazes de legitimar o seu uso.
*) Da Introdução ao livro de Philippe Breton A palavra Manipulada, Editorial Caminho, Lisboa, Janeiro de 2002.
«O Militante» - N.º 258 - Maio/Junho de 2002