Debater, Unir, Agir!

 

O debate, que culminará na Conferência Nacional do PCP em 22 de Junho, está em pleno desenvolvimento.

Todos os membros do Partido que sinceramente desejam o reforço da coesão e da capacidade de intervenção do Partido têm à sua disposição um amplo espaço democrático para expôr e bater-se pelas suas opiniões e propostas sobre tudo quanto considerem ser o melhor para o Partido. No plano nacional certamente. Mas também e necessariamente ao nível da actividade dos organismos a que pertencem, com espírito crítico e autocrítico e a firme decisão de cada um melhorar o próprio trabalho.

Todos, absolutamente todos, do núcleo activo militante, sobre o qual recai o grosso das tarefas quotidianas de construção e intervenção do Partido, à grande massa dos membros do Partido com menos intensa e regular actividade. Dos que simplesmente se preocupam com insucessos e derrotas e se empenham em compreender as suas causas internas e externas, aos que delas partem para preconizar substanciais alterações na orientação e na direcção do PCP. Mesmo aqueles que considerem necessário introduzir modificações no Programa e nos Estatutos, ou preferiam à Conferência Nacional a convocação de um Congresso, têm lugar por inteiro no debate. O Partido precisa da contribuição de todos para encontrar as melhores respostas. Com a sua opinião própria, em ambiente de liberdade, de lealdade e de frontalidade, de respeito pelas diferenças, de crítica e autocrítica, de vontade de compreender e acertar.

Brecht dizia que cada um de nós tem dois olhos mas o Partido tem mil. Sim, o sentido do valor do colectivo, componente identitária deste concreto partido que é o PCP, deve estar bem presente no debate e no apuramento do seu resultado. Ao contrário do miserável labéu da campanha anti-PCP que alguns membros do Partido persistem em alimentar, o Comité Central propõe e está empenhado num debate real, certamente não anárquico, mas aberto, sem limites rígidos apriorísticos, em que a "nota de trabalho" para apoio ao debate mais não é que uma elencagem exemplificativa de matérias a considerar. Mas o PCP não é um clube de discussão e o debate tem objectivos. A Conferência Nacional visa apurar conclusões quanto ao exame do novo quadro político e as tarefas para o reforço da intervenção e influência do Partido. O que, parecendo porventura pouco a alguns, é na realidade muitíssimo, sobretudo tendo em conta o pouco tempo disponível e o contexto muito complexo em que se desenrola. Por isso precisa do empenho e da contribuição de todos. Dos membros dos organismos executivos ao simples militante de base. Do intelectual mais preparado e insinuante ao mais modesto militante com dificuldade de expressão, mas sem o qual o Partido não teria as raízes populares que moldam decisivamente a sua identidade revolucionária.

Os tempos que vivemos não são fáceis para os comunistas e quantos, combatendo o sistema de exploração e opressão capitalista, se empenham na luta pela transformação progressista e revolucionária da sociedade. No plano interno temos um novo quadro político com um governo de direita apostado em pôr em marcha uma duríssima ofensiva do capital contra os trabalhadores e a própria democracia. E no plano internacional, a arrogância imperialista dos EUA, os crimes israelitas contra o povo palestiniano, o avanço inquietante da direita e extrema-direita na Europa configuram perigosas regressões, com incidências sérias na correlação de forças e no estado de espírito das massas que influenciam a nossa própria luta em Portugal. A campanha desencadeada contra o nosso Partido com expressão particularmente intensa na comunicação social, visando perturbar a vida interna do Partido e afectar a sua capacidade de intervenção, completa o quadro complexo, exigente, realmente difícil em que intervimos.

Mas é em tais momentos que melhor se avalia a têmpera dos comunistas, a solidez das suas convicções, a constância dos seus ideais. É nos momentos difíceis - e são eles que predominam na história de 81 anos do PCP - que melhor se afirma a real dimensão do potencial revolucionário de um colectivo, a validade de um Programa, o valor de um projecto, o projecto de superação revolucionária do injusto e iníquo sistema capitalista.

Promover o mais intenso debate, assegurar a mais ampla participação dos membros do Partido, sintetizar na Conferência Nacional o resultado da discussão, prosseguir - sempre em ligação com a necessária resposta política e intervenção de massas e o esforço permanente de construção e reforço do Partido - em direcção à “Festa do Avante!”, ao Encontro sobre o trabalho do Partido junto dos trabalhadores, à Conferência Nacional sobre o PCP e o poder local - tal é o caminho para vencer esta curva apertada da vida do Partido, com a serena confiança em que há experiência e energias suficientes para seguir em frente, renovando ou repondo, com frontalidade e coragem, o que se revelar necessário, mas afirmando com convicção uma identidade que não vive ao sabor de conjunturas, da contingência de necessários entendimentos político-partidários, de resultados eleitorais por mais surpreendentes que sejam.

Mas o tempo que vivemos, inquietante na agressividade do capital e do imperialismo, é simultaneamente de resistência e luta (Palestina, Venezuela, Argentina, grandes lutas da classe operária e dos trabalhadores na Itália, manifestações “antimundialização” de Barcelona, mobilizações antifascistas em França...) e, perante o estrondoso desastre da globalização capitalista e a agudização de contradições do capitalismo contemporâneo, encerra grandes potencialidades revolucionárias. Importa ter isto sempre presente na hora de enfrentar dificuldades, entre elas a mais dura de todas, a do rompimento de laços de solidariedade e de princípios básicos da ética partidária por membros do Partido que facultam ao adversário de classe armas preciosas no seu combate ao PCP. E dar particular atenção ao “factor subjectivo”, (batalha ideológica, partido revolucionário, organização do movimento operário e popular) e a sua crucial importância no processo de transformação social. Talvez nunca como na actual sitação mundial se tenham feito sentir tanto os atrasos do "factor subjectivo” e se tenha revelado tão necessária a existência de fortes partidos comunistas, coesos e enraizados nas massas. Daí a persistência das campanhas anticomunistas e em particular da violência da campanha em curso contra o PCP. É profunda convicção de “O Militante” que a concretização das orientações traçadas pelo Comité Central e, no imediato, a realização da Conferência Nacional de 22 de Junho, exigindo um grande empenhamento do colectivo partidário é o caminho seguro e certo para o reforço do Partido e da sua influência entre as massas.

"No nosso Partido não encontra terreno favorável quem quer que compreenda a democracia como uma forma directa ou indirecta de fazer vingar as suas opiniões individuais.

De facto aparecem episodicamente camaradas que, em termos gerais, defendem a mais ampla democracia, de forma a que seja ouvida e entendida a opinião dos militantes, mas que de facto só reconhecem existir democracia quando impõem a sua opinião pessoal.

Se o colectivo a que pertencem concorda com as suas opiniões, a democracia (segundo eles) está a ser aplicada e então exigem naturalmente que todos cumpram o decidido, e contestam que outros camaradas continuem defendendo as suas opiniões próprias.

Mas, se o colectivo não aceita as suas opiniões e põe em prática as que são democraticamente decididas, então (segundo eles) já não existe democracia e, em nome da democracia, sentem-se no direito de, contra a opinião e as decisões do colectivo, defenderem as suas opiniões que não foram aceites.

Todos os membros do Partido têm o direito de expressar e defender a sua opinião no organismo a que pertencem, mas nenhum tem o direito de sobrepor ou querer sobrepor a sua opinião individual à opinião do colectivo, à opinião do seu organismo ou organização, à opinião do seu Partido.

Assim se compreende a democracia no nosso Partido. É a mais larga, a mais sã, a mais profunda jamais existente em qualquer partido político português."

In "O Partido com Paredes de Vidro", de Álvaro Cunhal

 

 

«O Militante» - N.º 258 - Maio/Junho de 2002