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Para além da guerra |

Jornalista
Nas cartas que, em 1853, Marx e Engels trocaram entre si (Correspondência entre F. Engels e K. Marx, edição de Bebel e de Bernstein, 1913), afirma-se a dada altura que a história do Oriente quase sempre se assume como história religiosa. Isto resulta - anotam os dois grandes pensadores - das profundas contradições cavadas entre os sistemas que caracterizam as sociedades arabizadas dos grandes centros urbanos, ricas e corruptas, e as culturas dominantes entre as populações camponesas pobres e nómadas, tão tradicionalmente marginalizadas que desconhecem o latifúndio e a divisão social que este implica. Decorridos que são mais de 150 anos, tudo quanto nessas cartas se escreveu conserva um inestimável valor. Ainda que as técnicas e os sistemas políticos e económicos mundiais tenham, entretanto, sofrido profundas mudanças.
Noutro texto fundamental da sua obra teórica - O 18 Brumário de Luís Bonaparte - observa K. Marx: Sobre as diversas formas de propriedade, sobre as condições sociais da existência, ergue-se toda uma superestrutura de impressões, de ilusões, de maneiras de pensar e de concepções de vida diversas e moldadas de uma maneira específica. A classe, no seu todo, cria-as e forma-as a partir das suas bases materiais e das relações sociais correspondentes. O indivíduo isolado, a quem são transmitidas pela tradição e educação, pode julgar que elas são a razão determinante e o ponto de partida da acção.
Uma
terceira citação recorda-nos a tese revolucionária de Lenine:
O que importa é ver a mentira imensa contida na ideia burguesa
corrente segundo a qual o socialismo é algo de morto, de congelado, de
dado de uma vez para sempre, ao passo que, na realidade, é apenas com
o socialismo que irá começar em todos os domínios da vida
social e privada um movimento de progressão rápida, efectiva,
tendo verdadeiramente um carácter de massas e no qual participarão,
primeiro, a maioria, e depois a totalidade da população
(Obras, V. I. Lenine, Tomo 25, p. 510).
O sentido político e religioso do que actualmente decorre na Ásia Central valoriza-se nestas três vertentes.
2. No imenso conjunto dos seus territórios e populações, o Oriente não está evidentemente confinado a um só modelo político ou religioso. São extensos e extremamente duros os percursos da sua herança cultural. Há sistemas tribais, monarquias feudais, regimes com algumas marcas socializantes, teocracias, plutocracias, ditaduras militares, governos de tipo ocidental, etc.. Mas o vínculo religioso atravessa o mapa político asiático como principal factor da unidade do Estado. Ainda que, em toda a Ásia Central, não prevaleça qualquer tendência para a unidade religiosa. Há centenas, talvez milhares de cultos diferentes - locais, étnicos, nacionais, tribais - desde o animismo multiforme ao mais declarado sectarismo monoteísta. Mas para povos massacrados por sucessivas guerras, pela exploração dos grandes senhores e pelos cataclismos naturais, a subordinação ao transcendente adquire um extraordinário conteúdo político e cultural. Passam os conflitos, sucedem-se as tiranias e é a religião, são os valores tradicionais e as formas de relação imutáveis, que permitem transmitir, de geração em geração, formas de vida e de convivência profundamente enraizadas entre as populações. Neste aspecto, o Islão - sendo, muito embora, a religião mais recente da Ásia Central - constitui uma força condutora que acaba por fundir num só corpo as hierarquias sacerdotais e o aparelho do Estado - o poder religioso e o poder político.
3. Islão significa submissão à vontade divina. Por isso, a teologia islâmica é naturalmente conservadora. O espiritual e o temporal misturam-se entre si. Religião e sociedade são um todo. Os valores laicos submetem-se incondicionalmente aos dogmas corâmicos. O Alcorão institui uma religião canónica baseada nos preceitos simples das orações diárias, nos jejuns rituais, nas proibições alimentares, nas peregrinações a Meca e, sobretudo, na recusa formal da aceitação de uma hierarquia religiosa - todos os fiéis são ir mãos e iguais na comunidade. Princípios ingenuamente saudados como libertadores pelas classes muçulmanas mais humildes, por corresponderem a muitas das suas mais profundas aspirações. Segundo o Livro Sagrado, Alá não trata de maneira diferente o crente rico e o muçulmano pobre, o árabe, o arabizado ou o estrangeiro. Alá, o divino, e Maomé, o político, a todo o povo dirigem com equidade. Sem distinção de origem ou de classe, Deus reserva aos homens um mesmo destino final: o fiel, disciplinado e cumpridor dos mandamentos, gozará de todos os prazeres da vida eterna; mas o pecador e o infiel serão consumidos pelas chamas do inferno. Se a estas componentes religiosas - resignação, obediência, justiça, imortalidade, salvação ou perdição - juntarmos os dogmas da tradição e da revelação, tão frequentemente invocados na cultura islâmica, compreenderemos como a religião maometana (tal como as outras grandes religiões mundiais) é, já em si mesma, uma superestrutura política.
4. A prática demonstra que o Islão actual é o oposto da sua versão mítica. A sociedade muçulmana revela-se ferozmente classista. Na realidade, a Nação Árabe, desprovida de unidade territorial, política ou administrativa, é uma pura ideia que parte da evocação nostálgica das grandezas passadas. Uma espécie de Quinto Império. Trata-se, na realidade, de um retalho de nações que entre si concorrem e frequentemente se degladiam e cobiçam. Nem sequer a língua árabe, falada e escrita pelos povos muçulmanos ou, no plano religioso, as liturgias seguidas em Oman ou na Mauritânia, em Marrocos ou no Dubai, são as mesmas que se podem reconhecer nos Camarões, em Zanzibar ou no Kuwait. Mesmo as formas de relação entre a Religião e o Estado são desiguais nos diferentes países das comunidades muçulmanas. Um notável especialista árabe nesta área - Abdelfattah Amor, catedrático da Universidade de Tunis - refere que os Estados árabes se organizam de maneiras diferentes relativamente à religião: separando o político do confessional; subordinando totalmente o político ao religioso; ou transformando a religião num serviço do Estado. Estão na primeira categoria nações como a Guiné-Conakri, a Guiné-Bissau ou, mesmo, a Indonésia; no segundo nível, o Irão, o Iraque, o Sudão, a Arábia Saudita, etc.; num terceiro patamar A. Amor agrupa os Estados árabes que se proclamam laicos, tais como os de Burkina Faso, dos Camarões, Gâmbia, o Mali, o Tchad, a Turquia ou a Argélia.
5. Considerações aparte é inegável, no entanto, que existe um pensamento colectivo islâmico fortemente inspirado nos valores do nacionalismo transnacional. Tanto o afegão urbano e sedentário como o pastor nómada ou o camponês egípcio, compartilham o sentimento solidário de pertença a uma pátria islâmica universal. O berbere do Magrebe sente-se tão argelino como o cidadão de Oran ou de Constantina. O nómada do Sinai é tão pan-árabe como o cosmopolita habitante do Cairo ou de Damasco. A todos une a imagem de uma comunidade virtual - o Islão - e o vínculo comum de uma religião política - o Islamismo. A região é a pátria e a pátria o império sonhado. O Universo é Alá. Esta concepção do Islão é intensamente partilhada e vivida pela massa humilde dos povos muçulmanos. Os explorados e os oprimidos cultivam o fatalismo do Corão - a resignação total face aos desígnios de Deus - e aceitam como válida uma ancestral escala de valores baseada na tradição histórica e religiosa. Pilar de um poder ancestral, a religião institucional reduz a consciência de cada cidadão ao nível inerte do suspiro da criatura oprimida que Marx também assinalou (A Sagrada Família, vol. II, pág. 284).

6. Como é evidente, os banqueiros e empresários ou a classe política muçulmana necessariamente que concebem noutro sentido os preceitos do Corão. Dirigem multinacionais com interesses astronómicos. Coordenam e conduzem forças militares extremamente poderosas. Gerem alianças políticas de âmbito internacional. São as mais importantes figuras das bolsas de valores, dos gabinetes onde se programam as geoestratégias e das economias paralelas por onde escorrem os miríficos lucros do petróleo, do gás natural, do tráfico das armas, da droga, da especulação financeira, do turismo ou do contrabando dos tabacos e das pedras preciosas. Perfilam-se como poderosos cidadãos do mundo. Giram entre Riad e Nova Iorque, fazem o périplo das grandes capitais. Como poderiam eles combinar tudo isso com as abluções ou com as cinco orações diárias viradas para Meca? Ou limitar o dinamismo próprio dos grandes banqueiros às demoras da arrastada vontade de Alá? Por isso, no mundo dos negócios, trocaram os dogmas corâmicos pela excitante cartilha da "globalização".
Assim, o mundo real do camponês afegão pobre é oposto, mesmo em termos de interioridade pessoal, àquele em que giram os seus chefes, os seus príncipes e os seus sacerdotes. Uns e outros pertencem a universos que apontam para objectivos antagónicos. Num dos casos, deseja-se o progresso da justiça social e do desenvolvimento, ainda que numa linha de tradição. Progredir, mas não à custa do sacrifício de formas de vida milenares. No outro caso, procura-se provocar uma ruptura brutal com o passado, no quadro dos interesses ocultos do grande capital. Por forma a acelerar a apropriação dos bens de cada nação. Segundo um mapa ditado pelas imposições de novos senhores.
É este o verdadeiro significado das guerras genocidas que se travam na Ásia Central.
7. Os comunistas desta parte do mundo conhecem bem a desumanidade dos barões do poder e da guerra que falam em paz e em progresso enquanto chacinam populações inteiras. Ao longo dos últimos 50 anos foram perseguidos, torturados e assassinados, desde a Síria ao Sudão, do Iraque ao Egipto, da Argélia ao Afeganistão. Sucessivamente dizimados pela repressão, sempre as suas fileiras se renovaram. Deram exemplos de coragem e de ousadia que determinaram o aparecimento de outras forças populares revolucionárias. Tal como sucedeu no Afeganistão em 1978, os comunistas dos países muçulmanos lutam, não por uma ideia utópica de socialismo, mas pela concretização de um programa social e político em que os direitos básicos sejam reconhecidos e as instituições se revelem mais amplas, abertas e unitárias. Pela consolidação de uma sociedade de onde sejam banidas as burkas, a exclusão da mulher, as polícias secretas, o humilhante analfabetismo ou a selvageria dos castigos impostos em nome da justiça do Estado e da Islão. Que integre o direito de todos os povos à liberdade de expressão e associação, à educação e à saúde. E que faça promulgar, em consonância com tudo isto, uma Carta de Direitos para os povos árabes, considerados na sua diversidade e no conjunto dos seus interesses e das suas características próprias.
8. A prolongada e dolorosa experiência do povo afegão é outro caso de história mal contada no Ocidente. É certo que, ao longo de milénios, o Afeganistão foi retalhado, destruído e saqueado. Mas o seu povo não salta, como que por encanto, da noite medieva para os tempos modernos. O capitalismo procura apagar essa memória mas não pode ocultar que no último meio século, travando uma luta desigual nas montanhas cujos nomes só agora conhecemos, os afegãos livres e esclarecidos abriram caminho a uma verdadeira revolução socialista e democrática. Conquistaram o poder político e mantiveram uma luta heróica de resistência às mais reaccionárias e agressivas forças da reacção interna e internacional. Durante longos anos, paralelamente ao esforço sobre-humano da mobilização militar, lançaram os fundamentos de um Afeganistão futuro, isento de conflitos, de ambições e de obscurantismos. Promoveram a condição da mulher, construíram centenas de hospitais e de novas aldeias, fomentaram a Reforma Agrária e encetaram a reconstrução do país. Instalaram novas administrações públicas em mais de 9.000 aldeias e em 45 cidades. Ampliaram o número de escolas e faculdades e deram à geração mais jovem a possibilidade de se educar e de participar no desenvolvimento do país. 500.000 iletrados frequentavam 25.000 cursos de alfabetização. Finalmente, desencadeou-se um forte movimento pela paz. Os afegãos estão cansados de derramar sangue e já não querem olhar-se através da mira da espingarda - escreveu então Mohamed Najibullah, secretário-geral do PDSA - Partido Democrático Popular do Afeganistão - Os meios de informação do Ocidente costumam dizer que nós, os afegãos, somos vítimas dos nossos próprios ódios. Pelo contrário, esta não é uma guerra civil mas uma guerra imposta ao nosso povo, a partir de fora. O PDSA decretou então, unilateralmente, o cessar-fogo e a opção pela luta pacífica baseada na ideia humanista da reconciliação. Em cinco anos de governo socialista, o PIB tinha aumentado 18%, o rendimento nacional10% e os investimentos na esfera produtiva tinham subido, de l2000 milhões, para 22700 milhões de afganis, a unidade monetária nacional.
9. Sobrevieram, então, graves acontecimentos internacionais. Primeiro, a retirada do Afeganistão do corpo de intervenção soviético e o consequente agravamento da luta militar. Depois, a crise económica causada pela crescente desagregação do mercado socialista. Finalmente, o desmembramento dos estados da URSS. O PDSA e parte do povo afegão resistiram, enquanto foi possível, a esta sucessão de golpes mortais. Quando os mujaidines (os lutadores pela fé), fortemente apoiados pelo Paquistão e pelos EUA, lançaram a sua ofensiva final e conquistaram Kabul, Najibullah, já então Presidente da República do Afeganistão, foi preso e sumariamente executado. Pouco tempo depois, os mujaídines tiveram de ceder o poder a outra facção, ainda mais radical, os talibans (os estudantes de Teologia). Uma espessa cortina obscurantista voltava a abater-se sobre o Afeganistão. O processo libertador tinha sofrido um sério revés. Entretanto, é curioso constatar-se, como o próprio Najibullah não entendia a inevitabilidade da fusão política das hierarquias religiosas com os poderes reaccionários: Veja-se o paradoxo: nós, os representantes do poder revolucionário, chamados infiéis pelos nossos inimigos, restabelecemos e construímos mesquitas e respeitamos o clero muçulmano, enquanto que os lutadores pela fé, tão abençoados pelo Ocidente, queimam e fazem voar os santuários dos muçulmanos e matam os servidores do mundo islâmico (Revista Internacional, Fevereiro de 1988, Nº. 163).
10. Uma última alusão, também a uma obra de K. Marx (Manifesto do Partido Comunista, Obras Completas, vol. VI, pág. 534): De vez em quando, os trabalhadores conseguem uma vitória, mas uma vitória passageira. O verdadeiro resultado dessas lutas não é o êxito imediato, mas uma união cada vez mais larga dos trabalhadores... Uma vez realizada esta união, as numerosas lutas locais de um mesmo tipo centralizam-se numa luta nacional, numa luta de classes. Toda a luta de classes é uma luta política.
A breve reflexão sobre os acontecimentos no Afeganistão e na Ásia Central remete constantemente para esta passagem de Marx.
«O Militante» - N.º 257 - Março/ Abril de 2002