|
O jornalismo português |
A
história do estudo do jornalismo no nosso país é inseparável
da própria história do jornalismo e da sociedade portuguesa dos
últimos séculos. A presença da censura política
e religiosa com o exercício do exame prévio, o encerramento de
jornais e a condenação dos seus responsáveis a pesadas
penas, a quase ausência de um «espaço público de discussão»,
no sentido que Habermas evoca como marca de sociedades europeias dos séculos
XVIII e XIX, as elevadas taxas de analfabetismo e os baixos índices de
leitura de jornais, o provincianismo como ideologia ou a proibição
ou criação de dificuldades à constituição
de cursos profissionais nesta área nos tempos mais recentes são
apenas alguns dos elementos de uma rede complexa de interacções
que vão afectar os modos como, em Portugal, o jornalismo tem intervindo
na escolha e tratamento de acontecimentos do país e do mundo.
O estudo do jornalismo é ainda recente em Portugal.
O primeiro curso de Comunicação Social surgiu na Universidade Nova de Lisboa, em 1979. A expansão de cursos universitários e politécnicos de Comunicação, com diferentes orientações incluindo o jornalismo, foi célere nos anos seguintes, atingindo o número de 27 em 1996. Um estudo sobre os seus currículos (Mesquita e Ponte, 1998), e no que se refere à área do Jornalismo, dá conta da escassa presença de cadeiras orientadas para a reflexão e análise comparativamente a cadeiras práticas e de técnicas. Assim, em 1996-97, nos 276 cursos superiores existia, em apenas nove, a cadeira de Géneros Jornalísticos, Cadeiras como História da Imprensa e Teoria da Notícia surgiam somente em dois cursos. No mesmo estudo, assinala-se ainda o primeiro mestrado que contemplava especificamente tal campo (Estudos dos media e do jornalismo), também iniciado na Universidade Nova, em 1993.
Este livro remete para o estudo do jornalismo em dois sentidos. Por um lado, apresenta diferentes linhas de pesquisa na área, tomando como base contributos norte-americanos e britânicos, e uma revisão de literatura sobre relações entre fontes e jornalistas. Por outro, contém um conjunto de estudos de caso sobre a cobertura jornalística de eventos e problemáticas no contexto português nos últimos anos. Realizados como comunicações académicas, no âmbito de teses de mestrado ou tendo como base solicitações institucionais, estes estudos têm em comum um assumido carácter empírico. São estudos «de jornal na mão», que variam nas suas formas de análise: alguns adoptam contributos de linhas de investigação baseadas em inquéritos ou na análise quantitativa de conteúdo, outros fazem incursões pela análise da linguagem jornalística enquanto discurso social e enquanto produtor de estórias e de propostas de leitura do mundo, outros ainda entram nas salas de redacção, em observação participante das teias de relações entre jornalistas e entre estes e as fontes. Os estudos de caso cobrem as décadas de 80 e de 90 mas todos tratam problemas prementes na investigação sobre o jornalismo e sobre a sua intervenção social. Tendo-se alterado algumas das suas condições de produção - como o quase desaparecimento de vespertinos na imprensa diária, a entrada de canais privados no panorama televisivo, o incremento das comunicações via satélite que permite o recurso ao «directo» e o seu simulacro de representação do real, para só referirmos algumas - há nestes estudos matéria para o conhecimento de um passado recente e para a sua apreciação crítica que continuamente, consideramos, interpela a pensar o presente. É esse o sentido desta colectânia.
O texto As teorias das Notícias, de Nelson Traquina, dá conta de linhas de organização do estudo do jornalismo no século XX. Apresenta abordagens diferentes, muitas vezes contraditórias, que forneceram quadros para a elaboração de diversas teorias das notícias (...)
O segundo capítulo, Práticas produtivas e relacionamentos entre fontes e jornalistas, de Rogério Santos, (...) integra pesquisas recentes da sociologia do jornalismo sobre relações entre jornalistas e fontes (...) e resume as observações da sua investigação empírica a partir da análise a uma redacção jornalística portuguesa no início dos anos 90. (...)
O campo jornalístico e o II Congresso dos jornalistas, de Nelson Traquina, que constitui o terceiro capítulo, analisa a cobertura de um evento de curta duração no qual interveio a comunidade em análise: o II Congresso dos Jornalistas, realizado em Novembro de 1986 em Lisboa. (...)
O quarto capítulo, também de Nelson Traquina, é um estudo exploratório. O jornalismo português e a problemática VIH/SIDA, reúne e completa alguns dos trabalhos que o autor vem publicando sobre o tema. (...)
O quinto capítulo apresenta um estudo sobre o trajecto de um acontecimento de longa duração na imprensa portuguesa, que se começou a desenhar em Novembro de 1991 e teve o seu clímax em Março do ano seguinte. Missão Paz em Timor: o percurso de um pseudo-acontecimento, de Ana Cabrera, é uma síntese da investigação da sua tese de mestrado. (...)
O último capítulo, Discurso jornalístico e cobertura da problemática da toxicodependência, de Cristina Ponte, analisa a cobertura jornalística desta problemática nos primeiros anos de governação socialista, saída das eleições de 95, cuja campanha eleitoral fizera da «droga como inimigo público» uma das suas bandeiras. (...)
«O Militante» - N.º 255 - Novembro/Dezembro 2001