A propósito de terrorismo



Colaborador da Secção Internacional do PCP

O atentado terrorista de 11 de Setembro desencadeou acontecimentos cuja real dimensão e impacto são ainda difíceis de avaliar. Entre a data em que estas linhas foram escritas (nos primeiros dias do ataque militar contra o martirizado Afeganistão), e aquela em que serão publicadas, são de prever acontecimentos de relevo. Mas, por entre as incertezas e dúvidas duma situação em desenvolvimento, algumas questões merecem ser sublinhadas e reafirmadas, tendo em conta a vergonhosa campanha de terrorismo ideológico a que assistimos.

A posição do PCP em relação aos atentados terroristas de 11 de Setembro foi de imediata e inequívoca condenação (1). Condenação de princípio contra o terrorismo, que é uma posição de sempre do movimento comunista internacional, por razões que o Avante!, num dos seus primeiros números (nº 5, de 1931) explicava: «Repudiamos em absoluto a tática terrorista pelo seu carácter anti-político e inhumano, e ainda porque constitui base de justificação para a instituição dos regimes de excepção, para as medidas repressivas e até mesmo para os golpes de Estado de tendência fascista. A nossa consciência política de classe exprime-se tão somente pela força dos trabalhadores organisados, sob a palavra de ordem específica de ‘luta de classes’. Se o Partido Comunista Português se dedicasse a lançar bombas nas ruas com o único objectivo de aterrorisar os burgueses, não só contrariaria todas as directivas demarcadas pelos Congressos da Internacional Comunista, como ainda praticaria um verdadeiro acto de selvageria inexplicável. Não somos terroristas, mas sim revolucionários actuando sob o ardente desejo de vêr emancipada a classe trabalhadora».

Mas não é honesto, nem decoroso, silenciar uma verdade historicamente irrefutável: esta posição de princípio contra o terrorismo não é partilhada pelos dirigentes políticos norte-americanos que agora inflamam o mundo com uma pretensa “guerra contra o terrorismo”. O terrorismo é, desde há décadas, uma arma fundamental da política do imperialismo norte-americano.

Não foram, até agora, fornecidas provas sobre quem esteve por detrás dos atentados terroristas nos EUA. A ser verdade o envolvimento de Osama bin Laden, razão terá a revista britânica The Economist (15.9.01) para comentar que se tratou de uma «colheita amarga» para os EUA. Porque bin Laden e os jihadistas sediados no Afeganistão, bem como os talibãs que, em 1996, tomaram o poder em Cabul, são uma criação dos serviços secretos norte-americanos (2), geridos pelos serviços secretos paquistaneses e financiados pela ditadura saudita - regimes que são desde sempre fiéis serventuários do Governo dos EUA. O embaixador paquistanês na ONU vem agora informar que «Bin Laden chegou pela primeira vez ao Afeganistão a bordo dum C-130 [avião de transporte militar] americano» (3). Para alguns, esse apoio seria justificado por uma ‘causa mais nobre’: a jihad reaganiana contra o Império do Mal soviético. Essa é a posição da antiga eminência parda da política externa dos EUA, Zbigniew Brzezinski, exposta numa esclarecedora entrevista à revista francesa Le Nouvel Observateur, em Janeiro de 1998 (4):

N.O.: O ex-director da CIA Robert Gates afirma nas suas Memórias que os serviços secretos americanos começaram a auxiliar os mujahedines afegãos seis meses antes da intervenção soviética. Na altura, você era conselheiro do Presidente Carter para as questões de segurança: teve, pois um papel chave nesta questão. Confirma este facto?

Z.B.: Sim, Segundo a versão oficial da história, o auxílio da CIA aos mujahedines teria começado cerca de 1980, ou seja após o exército soviético ter invadido o Afeganistão, em 24 de Dezembro de 1979. Mas a verdade, mantida secreta até agora, é bem diferente: foi na realidade em 3 de Julho de 1979 que o Presidente Carter assinou a primeira directiva de assistência clandestina aos opositores do regime pró-soviético de Cabul. E nesse dia eu

escrevi uma nota ao Presidente na qual explicava que, a meu ver, esse auxílio iria conduzir a uma intervençao militar dos Soviéticos. [...]

N.O.: Quando os Soviéticos justificaram a sua intervenção afirmando que pretendiam lutar contra uma ingerência secreta dos EUA no Afeganistão, ninguém acreditou neles. E no entanto, havia um fundo de verdade... Você não se arrepende de nada, hoje?

Z.B.: Arrepender de quê? Essa operação secreta foi uma excelente ideia. Teve por efeito atrair os soviéticos para a ratoeira afegã e você quer que eu esteja arrependido? [...]

N.O.: Você não se arrepende sequer de ter favorecido o integrismo islâmico, de ter dado armas, conselhos, a futuros terroristas?

Z.B.: O que é mais importante na história mundial? Os talibãs ou a queda do império soviético? Alguns islamistas exaltados, ou a libertação da Europa central e o fim da guerra fria?

N.O.: Alguns exaltados? Mas diz-se e repete-se : o fundamentalismo islâmico é hoje uma ameaça mundial...

Z.B.: Disparates! [...]

Enquanto aguardamos que nos sejam “reveladas as verdades” por detrás das “versões oficiais” dos acontecimentos actuais, é necessário sublinhar o real conteúdo das confissões de Brzezinski: o governo dos EUA mente quando lhe convém; e o terrorismo é bom e politicamente correcto quando se dirige contra comunistas ou outros opositores do imperialismo. E não se está a falar dum mero apoio simbólico. Os EUA e seus amigos sauditas forneceram armamento no valor de 6 mil milhões de dólares (5) aos terroristas da “resistência afegã”. Como acreditar então que a actual guerra seja uma “guerra contra o terrorismo”? Porque a natureza das activida des destes bandos terroristas não é uma novidade que só agora se descobre, como é recordado pelo jornalista britânico Robert Fisk: «Em 1980 eu trabalhava para o The Times, e, perto de Cabul, chegou-me aos ouvidos uma história perturbadora: um grupo de combatentes religiosos mujahedines tinha atacado uma escola porque o regime comunista havia obrigado as raparigas a receberem educação ao lado de rapazes. Por isso, haviam bombardeado a escola, assassinado a mulher do director, e decapitado o seu marido. Era tudo verdade. Mas quando o The Times publicou a história, o Foreign Office [Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico] protestou para o jornal, afirmando que o meu artigo apoiava os russos. Claro. Porque os combatentes afegãos eram ‘os bons’. Porque Osama bin Laden era ‘um bom rapaz’. Charles Douglas-Home, então director do The Times, insistia sempre que os guerrilheiros afegãos fossem designados por ‘combatentes pela liberdade’ nos títulos.(6)» O mesmo jornalista refere (7) que «quando os mujahedines afegãos abateram um avião civil transportando 49 passageiros e 5 membros da tripulação (utilizando um míssil Blowpipe de fabrico britânico) o jornal apelidou-os de ‘rebeldes’. Estranhamente, a palavra ‘terroristas’ nunca foi usada - excepto pelos soviéticos».

O UÇK, usado como ponta de lança na estratégia de guerra e ocupação dos Balcãs pelo imperialismo norte-americano e europeu é outro exemplo esclarecedor. Eis como é descrito por um influente comentarista do establishment norte-americano: «Washington e os seus aliados ocidentais, através das agências secretas, fundaram, treinaram, armaram e lançaram o Exército de Libertação do Kosovo contra o Sr. Milosevic durante a guerra no Kosovo. O Sr. Milosevic já lá não está. O Exército de Libertação do Kosovo permanece, mas agora administra uma boa parte do Kosovo [...]. Washington e a NATO fizeram de contas que o UÇK se tinha dissolvido e desarmado, fechando os olhos aos esforços organizados para expulsar os não-albaneses do Kosovo, assassinar os políticos moderados albaneses, intimidar testemunhas e juízes e reconstruir e controlar actividades ilegais como os tráficos de drogas, de armas e de pessoas. Altos funcionários internacionais no Kosovo reconhecem que antigos dirigentes do UÇK têm estado envolvidos em todas estas actividades»(8). Apenas se devem acrescentar as confissões de outros meios de comunicação ocidentais de que estes terroristas foram treinados por forças especiais ocidentais antes da guerra da NATO contra a Jugoslávia (9), quando a “verdade oficial” era que a diplomacia ocidental estava empenhada numa solução política; e ainda o estavam a ser quatro meses após o derrube de Milosevic (10).

Vários são os países que enfrentam hoje actividades de bandos terroristas de inspiração fundamentalista no seu próprio território (11). Muitos deram agora o seu apoio político, ou mesmo disponibilizaram o seu território para ser usado pelas forças armadas dos EUA nesta nova guerra, presumivelmente esperançados em que esse apoio pudesse contribuir para pôr fim às actividades desses grupos. Mas os governantes dos EUA têm uma interpretação da palavra “protecção” em tudo análoga à que tinha Al Capone, e é natural que os dirigentes desses países se venham a arrepender amargamente da sua decisão. Como aconteceu com os dirigentes da Macedónia, que depois de se terem mantido disciplinadamente alinhados com os EUA/NATO durante a guerra contra a Jugoslávia, viram o seu território ser invadido pelos bandos armados do UÇK, provenientes dum Kosovo sob a ocupação de 40 000 soldados da NATO (12). Na altura em que a incursão do UÇK começou, o Primeiro Ministro Sueco, Persson, falando em nome da União Europeia afirmava peremptório. «Não pensem que alguma vez aceitaremos uma solução nos Balcãs imposta pela força das armas » (13). O Comissário europeu Chris Patten proclamava: «Os extremistas armados vão ser derrotados. Penso que seria errado procurar envolvê-los em qualquer espécie de diálogo. O diálogo tem de ser com quem escolheu uma causa política - a urna de voto e não as balas e bombas. [...] é preciso distinguir entre o extremismo armado - o terrorismo - e o processo democrático» (14). Para que fique claro quais são as reais “regras do jogo” e quem na realidade as comanda, seis meses mais tarde o governo e Parlamento eleitos da Macedónia foram obrigados, pela força das armas dos extremistas armados - os terroristas que escolheram as balas e as bombas em vez da urna de voto - e as imposições da NATO (15), a assinar um acordo que, na prática, estabelece a partição do país: a ulterior balcanização de um país que já é fruto da balcanização.

A verdade é que a criação, armamento, financiamento e promoção de autênticos exércitos terroristas, ligados a tráficos sórdidos, e que agem como tropas de choque do imperialismo, faz parte integrante da política externa dos EUA. Exemplos análogos não são difíceis de encontrar: a UNITA, os paramilitares colombianos, os contras nicaraguenses, os grupos neofascistas e bombistas italianos (16), entre outros. Pode-se falar, sem qualquer exagero, duma “doutrina bin Laden” da política externa norte-americana. E seria bom que os dirigentes e apologistas da actual auto-proclamada «guerra contra o terrorismo» afirmassem claramente que o terrorismo merece condenação, mesmo quando é promovido pelos governantes dos Estados Unidos da América.

Ou quando toma a forma de terrorismo de Estado, praticado directamente pelas potências imperialistas ou por intermédio dos inúmeros regimes ao seu serviço. É indiscutível que não há justificação possível para a morte de tantos trabalhadores nas torres de Nova Iorque. Como não havia justificação possível para a morte de tantos trabalhadores do complexo industrial de Pancevo ou da televisão sérvia, vítimas da guerra da NATO contra a Jugoslávia; nem para a morte de tantos civis afegãos na nova guerra imperialista destes dias. Não há justificação possível para a morte de tantos inocentes passageiros de avião no dia 11 de Setembro. Como não havia justificação possível para a morte dos inocentes passageiros do comboio jugoslavo, ou dos automóveis que atravessavam as pontes de Belgrado quando estes foram destruídos pelos mísseis e aviões dos EUA/NATO. Não há justificação possível para a morte de milhares de civis inocentes nos EUA, que não são responsáveis pela política do governo do seu país. Como não há justificação possível para a morte de centenas de milhares de civis inocentes iraquianos (em grande parte, crianças), que desde há uma década são vítimas do genocídio silencioso imposto pelos EUA através das criminosas sanções (17). Não há justificação possível para se semear a destruição no centro de cidades. Sejam essas cidades Nova Iorque, Cabul, Belgrado, Bagdade, Hanói, Dresden, Hiroxima ou Nagasaqui. O terrorismo não é condenável apenas quando as suas vítimas são norte-americanas. O terrorismo não deixa de o ser, só por ser política oficial de Estado (18).

Se as reais intenções dos governantes norte-americanos fossem as de combater o terrorismo, como afirmam, a estratégia vencedora seria fácil: pôr fim às suas políticas de agressão e guerra, de promoção e armamento de exércitos terroristas, de apoio a governos que não respeitam acordos nem leis (Israel); acatar e respeitar os acordos e o Direito internacionais, as instituições da ONU; reconverter os seus

fabulosos gastos militares e de subversão (CIA), destinando-os a combater a fome, a miséria, o analfabetismo, as doenças curáveis, as injustiças que alimentam e dão base de apoio ao terrorismo. Mas isso significaria contrariar os interesses de classe dos quais o governo dos EUA é expressão, e que sobrepõem a procura do lucro a qualquer outra consideração.

Ouve-se hoje com frequência que estamos perante uma “guerra de longa duração”, que irá “alterar as nossas vidas”, sendo mesmo necessário “aceitar restrições às liberdades”. Assiste-se a uma tentativa de utilizar a repressão interna e externa como instrumento ‘de rotina’ para a gestão da grave crise económica, social e política do mundo capitalista, cujos sinais eram já evidentes antes de 11 de Setembro. Tudo deixa antever que a ‘guerra ao terrorismo’ anunciada pelos EUA será uma gigantesca operação visando aquilo que já eram os objectivos centrais do imperialismo norte-americano: afirmar a sua hegemonia e a supremacia mundial do complexo militar-industrial dos EUA.

A actual aventura militar imperialista tem de ser travada. E a década que decorreu desde a derrocada do sistema socialista na Europa comprovou já à saciedade que o enfraquecimento do movimento operário, comunista e progressista a nível mundial representa um retrocesso para os trabalhadores e povos do mundo no campo económico e social e enfraquece seriamente o campo das forças da paz. A guerra é indissociável do imperialismo. A luta pela paz é indissociável da luta para derrotar o imperialismo.

 

Notas:

(1) Comunicados do Secretariado (11.09.01) e da Comissão Política (12.09.01).
(2) Veja-se o Avante! de 20.09.01, e as citações da imprensa britânica aí referidas.
(3) Diário de Notícias, 13.10.01. O Embaixador Shamshad Ahmad afirma ainda: «se [muitos afegãos] foram para determinado tipo de escolas [as madrassas de ensino religioso] - criadas nos campos de refugiados - foi porque os EUA queriam preparar uma geração mais jovem para se tornarem guerreiros sagrados para lutarem contra a URSS».
(4) O texto completo da entrevista está disponível no site da Internet http://www.nouvelobs.com, nos números 1730 e 1732 da revista.
(5) O montate é referido pelo New York Times de 24.8.98, citado em Washington: Parent of the Taliban and Colombian Death Sequads, de Jared Israel, disponível na Internet em http://www.emperors-clothes.com.
(6) Texto disponível na Internet, em http://www.zmag.org/fiskbomb.htm.
(7) Na revista norte-americana The Nation, de 21.9.98 (ver http://www.thenation.com).
(8) Steven Erlanger, International Herald Tribune, de 28.03.01. Recorde-se que estão cerca de 40 000 soldados da NATO no Kosovo.
(9) Sunday Times, 18.03.01.
(10) BBC, em http://news.bbc.co.uk/hi/english/world/europe/newsid 1142000/1142478.htm.
(11) A revista norte-americana Times de 21.12.98 cita os seguintes países e regiões como sendo palco das actividades de grupos terroristas apoiados por bin Laden: Egipto, Argélia, Iémene, Sudão, Filipinas, Bósnia, Quénia, Tadjiquistão, Tcehtechénia, Somália, Albânia, Afeganistão.
(12) E muitos meses depois de o "papão" da "verdade oficial" ocidental, Milosevic, ter sido derrubado.
(13) Não consta que estivesse a ser irónico para com os seus colegas da NATO que participaram na guerra contra a Jugoslávia.
(14) CNN, versão electrónica, 23.03.01.
(15) Leitura imprescindível, a este respeito, é o artigo de Michel Chossudovsky Washington Finances Ethnic Warfare in the Balkans, disponível na Internet em http://emperors-clothes.com.
(16) Em Junho do ano pasado, o partido italiano dos Democráticos de Esquerda (DS, membro da Internacional Socialista) divulgou um dossier sobre "Massacres e terrorismo em Itália, desde o fim da [II] Guerra [Mundial] até 1974". Esse relatório acusa, sem ambiguidades, os EUA e os seus tentáculos (NATO, CIA) de estarem por detrás da longa história de atentados terroristas com que se travou, naquele país, o ascenso do movimento operário e popular, e a possibilidade de o Partido Comunista Italiano chegar ao poder, por via democrática e eleitoral. Veja-se o Avante! de 29.6.00.
(17) Madeleine Albright, na altura embaixadora dos EUA na ONU, deu em 1996 uma espantosa entrevista a um programa da estação americana de televisão CBS. O entrevistador perguntou-lhe: «Ouvimos dizer que meio milhão de crianças [iraquianas] já morreram. Mas isso são mais crianças do que as que morreram em Hiroxima. E acha que isso é um custo aceitável?». Albright respondeu: «Penso que é uma opção muito difícil, mas é um custo que pensamos que vale a pena pagar». A escritora indiana Arundhati Roy (The Guardian, 29.09.01) afirmou, causticamente, que Albright nem sequer perdeu o emprego por afirmar isto. Pelo contrário: foi promovida a Ministro dos Negócios Estrangeiros, no tempo de Clinton.
(18) Para uma expressiva ilustração visual desta ideia, veja-se na Internet o endereço http://emperors-clothes.com/1/rem.htm

 

«O Militante» - N.º 255 - Novembro/Dezembro 2001