A Festa e o Partido




Membro da Comissão Política do PCP
Director do "Avante!"

Nascida na antiga FIL dois anos após o 25 de Abril, a Festa do Avante! impôs-se, desde logo, como o mais relevante acontecimento político--cultural do País; afirmou-se como um espaço novo e único de convívio, de debate, de cultura, de desporto, de alegria, de camaradagem, de solidariedade; confirmou o papel insubstituível da militância consciente, activa e determinada; enfim, evidenciou, sem margem para quaisquer dúvidas, que só um partido fortemente ligado aos interesses dos trabalhadores, do povo e do País, sustentado em sólidas raízes populares, estaria em condições de erguer e dar continuidade regular a tão importante evento.

É nesse conjunto de factores, aliás, que reside o segredo da força e do prestígio da Festa, visível no ambiente que ali se vive durante os três dias da sua duração (que decorre, naturalmente, do ambiente existente no período da sua construção), do seu carácter de massas, da dimensão crescente da sua vertente juvenil.

Foi tudo isso que lhe permitiu responder com êxito a todas as tentativas - e muitas foram e muito fortes! - de a liquidar.

Da FIL ao Vale do Jamor, ao Alto da Ajuda, a Loures, ela não só resistiu a todos esses ataques, como cresceu e conquistou um espaço próprio - a Quinta da Atalaia, adquirida graças a uma campanha nacional de fundos bem elucidativa do lugar que a Festa ocupa no coração de milhares e milhares de pessoas, comunistas e não comunistas - onde, de ano para ano, ao longo dos últimos dez anos, tem vindo a embelezar-se, a transformar-se num local cada vez mais funcional e aprazível e onde, cada vez mais, apetece ir... e voltar no ano seguinte.

Festa do órgão central do PCP, ela é, em primeiro lugar e por isso mesmo, a Festa dos comunistas, a Festa do Partido. Mas é mais, muito mais do que isso. Tal como o Partido intervém e age e luta em defesa dos interesses e direitos dos trabalhadores e do povo e tendo como objectivo a edificação de uma sociedade nova - democrática, participada, livre, fraterna, solidária, liberta de todas as formas de opressão e de exploração - e procura atrair à luta muitos e muitos homens, mulheres e jovens que, não sendo militantes comunistas, se identificam com esses objectivos, também a Festa do Avante! é - como todos os anos se confirma - um ponto de encontro de militantes e não militantes comunistas, um espaço amplo e aberto a todos os que queiram fazer também sua a nossa Festa.

Construímos mais uma vez a Festa do «Avante!», comemorando a sua 25ª edição neste ano de 2001, ano de datas certas de outras importantes comemorações, nomeadamente o 80º aniversário do PCP e da Juventude Comunista, os setenta anos de vida do «Avante!» e o centésimo aniversário do nascimento de Bento de Jesus Caraça.

Nos dias 7, 8 e 9 de Setembro, na Atalaia, serão lembrados - mais do que isso, estarão presentes - os oitenta anos de vida e de luta do PCP: a acção determinada, corajosa, coerente e singular do partido da classe operária e dos trabalhadores portugueses na luta contra a ditadura fascista, pela liberdade e pela democracia; a sua intervenção decisiva para o eclodir do 25 de Abril e para o seu êxito no derrubamento do governo e do regime fascistas; o seu papel determinante nos avanços e nas conquistas alcançadas no período revolucionário e, posteriormente, na luta pela defesa dessas conquistas face à investida contra-revolucionária; a sua intervenção insubstituível na construção do regime democrático; a sua acção diária, permanente, na luta contra a política de direita e por uma alternativa de esquerda - sempre com os trabalhadores, sempre com o Povo, sempre tendo como horizonte a construção no nosso País de uma sociedade nova, liberta de todas as formas de opressão e de exploração. E com a consciência profunda de que a luta complexa e difícil pela sociedade socialista e comunista - objectivo maior do PCP - integra as múltiplas batalhas do dia-a-dia travadas em todo o lado onde os direitos e interesses dos trabalhadores, do povo e do País são postos em causa; com a consciência profunda de que, pelo seu papel, pela sua intervenção, pela sua real ligação a todas as conquistas sociais e culturais, a todos os avanços civilizacionais, a tudo o que de positivo foi alcançado pelos trabalhadores e pelo povo, os oitenta anos de vida do PCP são parte integrante, fundamental e incontornável da história do povo português.

Assim, porque são preocupação permanente e razão de ser do PCP, os problemas e as lutas dos trabalhadores, dos jovens, das mulheres, dos reformados, dos agricultores, dos deficientes, têm presença inevitável no espaço aberto de solidariedade, camaradagem, alegria, fraternidade e luta que é a cidade nova da Atalaia.

Da Festa saíremos melhor preparados e com mais energias para dar continuidade à luta por uma política de esquerda, ponto de partida indispensável para o início da resolução dos problemas dos trabalhadores, do povo e do País.

Duas décadas e meia de política de direita, praticada ora pelo PS ora pelo PSD - e sempre com o apoio explícito ou implícito do CDS/PP - mostraram que esse não é o caminho que serve os interesses da maioria dos portugueses. Bem pelo contrário: a política de direita, anti-nacional e anti-patriótica, tem tido sempre como principais beneficiários os grandes grupos económicos nacionais e estrangeiros; utiliza a soberania e a independência nacionais como mercadorias e transforma Portugal num servo da nova ordem imperialista; procede à sistemática liquidação das conquistas da revolução de Abril - nomeadamente entregando ao grande capital, a preço de saldo, sectores fundamentais e altamente rentáveis da nossa economia e violando direitos fundamentais dos trabalhadores, conquistados através de lutas históricas; empobrece contínua e acentuadamente o conteúdo democrático do regime criado na sequência de Abril; enfim, assume-se como uma política com a iniludível marca de classe do grande capital e, em consequência disso, em total sintonia com os objectivos do processo de globalização que visa o controlo absoluto do Planeta pelo imperialismo.

Derrotar esta política e substituí-la por uma política de sentido oposto é, pois, no momento actual, o objectivo prioritário da luta dos comunistas e de muitos milhares de homens e mulheres de esquerda. Luta de que a Festa do Avante! é um momento importante porque nela se procede ao debate e balanço do ano político que termina e nela se apontam os caminhos de intervenção e de luta para o ano que se lhe sucede, quer no plano nacio-nal, quer no plano internacional - na Festa dos comunistas, o interna-cionalismo proletário, a solidariedade internacionalista não poderiam deixar de ter lugar de destaque: dezenas de partidos comunistas e outras organizações progressistas trarão à Atalaia notícias da luta que travam nos seus países e que são indispensáveis não só no plano interno mas igualmente enquanto alavancas determinantes para o reforço da luta contra a globalização imperialista.

Ali - na Festa deste ano - comemoraremos o aniversário do «Avante!», esses setenta anos durante os quais, sempre assumindo com dignidade a sua condição de órgão central do PCP, o nosso Jornal foi, ontem, a voz livre e insubmissa face à censura fascista; e é, hoje, a voz livre e insub-missa face ao manto opressivo do pensamento único; ontem, hoje e sempre, tribuna permanente da luta pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo e o comunismo; veículo fiel do projecto, da mensagem, das propostas, das posições do PCP; porta-voz coerente da defesa dos an-seios e aspirações das massas populares.

Ali, na Festa, assinalaremos os 80 anos de existência da Juventude Comunista - e nenhum outro local será mais adequado a tal comemoração: na verdade, a Festa do «Avante!» é, cada vez mais, a Festa da Juventude, quer pela participação marcante dos membros da JCP na sua construção, quer pela crescente presença juvenil nos três dias da sua duração.

Ali, na Festa, assinalaremos o centenário do nascimento de Bento de Jesus Caraça - a sua vida, a sua obra, a sua intervenção pedagógica e política, a sua postura vertical e coerente, inseparáveis do seu ideal político e da sua condição de militante comunista.

O novo ano político vai ser, inevitavelmente, um ano de grandes e importantes lutas para os comunistas e os seus aliados. As eleições autárquicas de Dezembro - batalha de todo o Partido e à qual é necessário atrair, no âmbito da CDU, um número cada vez maior de homens, mulheres e jovens de esquerda - assumem, também por isso, enorme relevância. Não obstante as dificuldades e obstáculos que sempre se nos colocam nesta como noutras matérias, as próximas autárquicas constituem uma real possibilidade de a CDU avançar e crescer - possibilidade que é necessário saber aproveitar e que tudo faremos para aproveitar, com trabalho, com perseverança, com confiança. Tanto mais que, como se sabe, o reforço autárquico da CDU será um contributo essencial para dar mais força à luta contra a política de direita, à luta visando pôr termo ao processo alternante protagonizado pelo PS e pelo PSD - que procuram eternizar-se no governo na aplicação da mesma política - e conquistar uma verdadeira alternativa, a alternativa de esquerda.

A Festa do Avante!, espaço e momento de alegria, é também espaço e momento dessa luta.

«O Militante» - N.º 254 - Setembro/Outubro 2001