| A destruição de um país |
(...)
O título, A Destruição de Um País, foi escolhido
porque a guerra por procuração que os EUA apoiaram em Angola,
levada a cabo pela África do Sul e pela UNITA durante duas décadas,
destruiu a sociedade angolana. Os custos humanos e materiais são devastadores.
Mais de um milhão de pessoas foram mortas, na sua maioria civis e sobretudo
crianças, em consequência directa da guerra ou com ela relacionada,
representando 10% da população. Cerca de 100 000 pessoas ficaram
mutiladas em resultado de minas antipessoais, fazendo de Angola o país
com o maior número de amputados per capita em todo o mundo. Calcula-se
que ainda hoje permaneçam muito mais de 10 milhões de minas
activas no país. Além disso, a guerra fez deslocar para cima
de quatro milhões de pessoas, forçadas a emigrar para cidades,
já de si sobrecarregadas de população, o que as fez implodir,
forçando os habitantes a viver numa pobreza indescritível e
num ambiente de doença e crime. Os refugiados, procurando segurança
nos países vizinhos, ascendem a um milhão ou mais de pessoas.
A desestabilização causada pelos EUA-África do Sul-UNITA
destruiu igualmente as infra-estruturas angolanas, incluindo a maior parte
dos centros médicos, hospitais, escolas, pontes, caminhos de ferro,
telecomunicações e centrais eléctricas. Em 1990, o custo
estimado da destruição era de 30 biliões de dólares;
de 1990 até aos nossos dias, os custos devem ascender sensivelmente
a igual montante.
Penso que as principais diferenças entre este livro e outros relatos relacionados com Angola e os Estados Unidos, utilizados neste trabalho, serão as seguintes: em primeiro lugar, o livro está focalizado nas relações entre os Estados Unidos e Angola desde 1945. Em segundo lugar, encara a política americana em relação a Angola de um ponto de vista crítico e de classe baseado na teoria social marxista, que parte do princípio de que os Estados Unidos, desde 1945, funcionaram como um Estado imperialista sobre o sistema capitalista mundial e que a sua política externa é concebida de modo a manter essa hegemonia. Esta perspectiva assume o conceito que se destaca em todo este estudo: o Estado imperialista americano tem «uma relativa autonomia» em relação ao capital, na sua própria política externa. Este facto foi particularmente evidente quando a Administração Reagan apoiou a desestabilização em Angola ao mesmo tempo que a Gulf Oil, que fornecia ao governo angolano mais de 65% das suas exportações, pressionava a administração no sentido da normalização das suas relações com Angola. Em terceiro lugar, examina a política EUA-Angola dentro do contexto dos contornos da política externa americana desde 1945. Estes contornos foram delimitados tanto pelos desenvolvimentos geopolíticos externos como pelas condições económicas, debates e querelas internas dentro, e em torno, dos EUA sobre como levar a cabo a sua política externa. De facto, este estudo prova que os factores internos têm mais a ver com a forma como os EUA se regem em termos de política externa do que os factores ou as condições internacionais. O desenvolvimento da própria política interna esteve condicionado pelas relações específicas entre o governo dos EUA e o capital regional dominante do Leste e da Região Sul-SW (Sun Belt), pelas organizações de planeamento de políticas, tais como a Comissão Trilateral e o Comité para o Perigo Actual, financiados pelos referidos capitais regionais, pela oposição da esquerda liberal a uma intervenção militar, expressa pela síndrome do Vietname, por uma opinião pública muito crítica em relação à utilização de tropas americanas em intervenções no Terceiro Mundo e pelo activismo de congressistas liberais e de grupos de pressão da África do Sul e ainda pela Nova Direita. Em quarto lugar, esta história política fornece um bom exemplo de como os Estados Unidos usam as organizações multilaterais (especialmente as Nações Unidas) e instrumentos constitucionalmente ilegais (especificamente a rede privada de política externa paralela formada pela Administração Reagan) para levar a cabo a sua política externa. Finalmente, o livro representa um estudo de caso, passo a passo, para se examinar o papel dos Estados Unidos na tentativa de impedir o estabelecimento de um Estado marxista no Terceiro Mundo, e os esforços para formar um sistema político multipartidário, como meio de estabelecer regimes colaborantes.
Este livro começa tendo como pano de fundo a política colonial portuguesa para Angola até ao golpe de Estado de 1974, que abriu caminho à independência das colónias. O Capítulo 1 irá explicar por que é que Portugal recusou conceder a independência às colónias africanas, a história dos movimentos nacionalistas e a eficácia da estratégia de Portugal para manter o império africano. O Capítulo 2, o modo como as administrações, tanto de Truman como de Eisenhower, lidaram com o colonialismo português, ao mesmo tempo que criavam e davam forma a estruturas e políticas de guerra-fria de maneira a manter a hegemonia americana do pós-guerra. A resposta dos Estados Unidos à emergência do nacionalismo africano na segunda metade dos anos 50 é igualmente avaliada neste capítulo. O Capítulo 3 faz a crónica das respostas das administrações Kennedy, Johnson e Nixon à guerra anticolonial, começada em Angola em 1961 e que só viria a terminar com o golpe de Estado português. Estas políticas foram condicionadas pela guerra do Vietname, a oposição interna a essa mesma guerra, os efeitos da ofensiva vietnamita do Tet (Jan.-Fev. 1968), a emergência da Nova Direita e a expansão dos desafios nacionalistas do Terceiro Mundo à hegemonia americana no início da década de 70. O Capítulo 4 trata do modo como o secretário de Estado, Henry Kissinger, provocou a internacionalização da guerra em Angola, num claro desafio à União Soviética, para evitar que o MPLA viesse a ganhar influência num regime pós-colonial. Serão expostas as razões do fracasso dessa política. No Capítulo 5 examina o papel que Angola teve no insucesso de Jimmy Carter ao pretender uma reforma do militarismo da guerra-fria enquanto o seu governo, na realidade, o fazia reviver. Nos Capítulos 6 e 7, apresenta-se a política de Ronald Reagan no sentido de fazer cair o governo angolano e colocar em seu lugar a UNITA, dentro do contexto de um acelerado projecto militarista de guerra-fria. O capítulo 8 fala da posição de George Bush na gestão do processo de reconciliação nacional em Angola, enquanto o seu governo geria o fim da guerra-fria. O capítulo final debruça-se sobre a continuada ajuda da Administração Clinton em prol da reconciliação nacional em Angola como parte do esforço feito no sentido de cumprir o objectivo americano do pós-guerra, isto é, a hegemonia sobre um mundo unificado pelo sistema capitalista. (...)
(*) Do prefácio do livro A Destruição de Um País, editorial Caminho, Lisboa, 2001.
«O Militante» - N.º 251 - Março/Abril 2001