O Avante! fez 70 anos


Membro do Comité Central do PCP e Chefe de Redacção do Avante!

Comemorar um aniversário não é apenas recordar o passado dos anos que fizeram uma história e só faz sentido quando lhe auguramos futuro. É esse o caso do nosso Avante!. Trata-se, porém, de um aniversário muito especial. Raro é o jornal que comemora 70 anos de vida. Mais raro - e neste caso único - é o exemplo de um jornal que comemora a passagem de sete décadas orgulhando-se de ter travado ao longo da sua vida uma verdadeira batalha. Batalha pela verdade, batalha em defesa dos trabalhadores contra a exploração, batalha por um projecto social de liberdade, de democracia, integrando-se, como o Partido a que dá voz, no rumo da luta que conduzirá ao socialismo. E que tem o comunismo como objectivo final da história.

Mais raro ainda é o exemplo deste jornal, fundado na clandestinidade em 15 de Fevereiro de 1931 e conseguindo atravessar 43 anos das mais duras provas, escrito, impresso e distribuído no interior do País - caso único na imprensa comunista em todo o mundo.

A partir da reorganização do Partido, nos anos 40/41, o Avante! não mais deixou de publicar-se regularmente. Foi assim até ao 25 de Abril e, nesses longos anos de clandestinidade, muitos sacrificaram a sua liberdade e alguns deram a vida para que o Avante! pudesse levar a notícia verdadeira, os exemplos das lutas operárias e camponesas, das lutas de todos os trabalhadores e também dos estudantes e de todos os democratas contra a opressão fascista e pela liberdade.

No passado ainda se inscreve o exemplo do nosso jornal durante e após a Revolução de Abril, apoiando as conquistas revolucionárias e a institucionalização da democracia, defendendo essas conquistas, dando novas de Portugal e do mundo, sempre com a preocupação do rigor e a exigência da verdade.

Hoje, o Avante! continua a ser único nessa postura e no partido que continua a tomar pela liberdade e contra a exploração, no rumo da sociedade socialista que aponta e que o inspira.

Um pouco de história

O Partido ia fazer dez anos de existência. A ditadura, instaurada pelo golpe militar de 28 de Maio de 1926, lançou a repressão sobre todos os que se opunham aos seus desígnios e principalmente sobre o movimento operário. O PCP, que se constituíra em 1921, interrompeu o seu 2.º Congresso e o trabalho político legal tornou-se difícil e depois impossível. Na sequência da reorganização de 1929, visando tomar medidas de organização face à repressão, surge a necessidade de um órgão central do PCP à altura das necessidades da luta. O Avante!, impresso e distribuído clandestinamente, surge pela primeira vez em 15 de Fevereiro de 1931, dirigindo-se em editorial «Ao Proletariado de Portugal». Nos dez anos seguintes, a sua publicação é irregular. Mas, no auge das lutas, chega a ser impresso e distribuído semanalmente e a atingir uma tiragem de dez mil exemplares. Difundindo os ideais comunistas e a orientação do Partido, divulgando as lutas abafadas pela censura, o jornal do PCP torna-se numa voz insubstituível, um jornal de concepção leninista, agitador, propagandista e organizador político.

Quarenta e três anos após o seu primeiro número, o Avante! publica o seu último número na clandestinidade. Abril já podia antever-se nos artigos do nosso jornal - «Não dar tréguas ao fascismo» era a palavra de ordem. E também: «Aliar à luta antifascista os patriotas das forças armadas». Para esse desfecho havia contribuído o trabalho e o sacrifício de muitos milhares de comunistas, na vanguarda da luta. Nos últimos estertores, o fascismo procedia a uma escalada da tortura, de que o Avante! dava conta. Muitos foram os militantes presos, torturados e mesmo assassinados durante quarenta e oito anos de ditadura. Muitos aqueles que deram a vida. Recordemos entre eles os camaradas Maria Machado e José Moreira, assassinados em defesa do Avante! A sua memória inspira o nosso trabalho presente.

No dia 17 de Maio de 1974, menos de um mês decorrido após o 25 de Abril, o primeiro Avante! legal está na rua. Foi disputado em todo o País e a tiragem deste número atingiu o meio milhão de exemplares. Anunciava a participação dos comunistas no Governo Provisório. O que garantia à partida o empenho e a influência do PCP na Revolução que nascia e tomava alento, com base na aliança que desde a primeira hora se formou entre o Povo e o MFA. Quem quiser saber o que foi Abril e as suas conquistas, a participação dos trabalhadores e das largas massas no aprofundamento da democracia, na sua institucionalização e consagração de direitos e liberdades, quem quiser saber o que foi a luta heróica travada pela Reforma Agrária, pelas Nacionalizações, pelo controlo operário, quem quiser saber da solidariedade internacionalista e da batalha pela consagração da independência dos países dominados pelo colonialismo português, quem quiser saber da Revolução, leia o Avante! desses tempos. Está lá o essencial.

Ler o jornal

Uma das preocupações principais de quem faz o Avante! - de quem o dirige, escreve, organiza graficamente - é conseguir apresentar aos leitores (sobretudo aos militantes mas também a todos, e são muitos os que se interessam pelos pontos de vistas dos comunistas), um jornal atraente, de fácil consulta, que cubra uma vasta gama de temas, que suscite interesse para além da vontade fundamental de obter informação e orientação política.

Novos tempos, necessidades novas, novas atenções e problemas, novos gostos apontam para a necessidade periódica de remodelações. Sempre foi assim também com o Avante!. Depois de ensaiar algumas remodelações - sendo de assinalar o êxito da criação de um suplemento que introduziu grandes reportagens sobre as mais variadas realidades e artigos sobre temas diversificados - surgiu a necessidade de modificar o formato do jornal, correspondendo à exigência de numerosos leitores. Assim se fez. Mas fez-se mais, não se ficou pelo formato «reduzido» a tablóide, abrindo-se as nossas páginas à colaboração de camaradas cuja actividade e conhecimento de áreas específicas contribuíram para um maior aprofundamento e tratamento de problemas de grande actualidade. As questões centrais, porém, continuaram a ocupar as nossas páginas, com atenção redobrada às lutas dos trabalhadores e à actividade do Partido.

E chegou a hora de mais uma remodelação importante na vida do nosso jornal. A par de novo grafismo que visa tornar mais atraente a leitura, do encurtamento e diversificação de textos que renovam o interesse dos leitores, o Avante!, há precisamente um ano, surgiu renovado nas bancas e nas organizações do Partido que o distribuem. Novas colaborações o vieram enriquecer, num âmbito alargado de interesses, novas secções o animam, como a que se dedica a noticiar e a tratar os problemas que afectam a juventude. Correspondentes escrevendo em outras partes do mundo dão-nos não só as notícias que a restante imprensa não veicula como comentam a realidade distante e as lutas anticapitalistas e anti-imperialistas que não deixam de eclodir. Um Avante! novo? Não. Apenas renovado e acompanhando o tempo. Porque o Avante! é sempre o mesmo. Órgão central do PCP. Com 70 anos. E muito futuro.

«O Militante» - N.º 251 - Março/Abril 2001