Notas e Comentários


Um "granda" comentador!

Marcelo Rebelo de Sousa tem um programa semanal na TVI e o Diário Económico publica numa secção - “Opinião” - aquilo que ele diz.
Falando sobre “o problema da renovação do PCP” diz ele (Diário Económico, 5.9.00): “Os debates sobre o materialismo foram feitos há 30 anos no partido comunista italiano. E a diferença é esta: os seus sucessores estão no Governo, depois de Máximo D’Alema, ter sido primeiro-ministro. E o Partido Comunista Português não está!”
A sensação que é natural sentir-se ao ler isto é que o comentador conhece muito pouco sobre aquilo de que fala, particularmente sobre o PCP. Mas ele tem o direito de ter a opinião que quiser. O pior é quando “informa” sobre questões concretas. É um verdadeiro desastre. E a questão que se coloca é como é possível um professor universitário que já foi dirigente de um partido avançar com dislates e mentiras como, por exemplo, mais adiante, quando diz que: “(...) Carlos Brito (...) era a figura mais importante do PC em território português no 25 de Abril. As pessoas esquecem-se disso! Os restantes estavam lá fora.”
São “elogios” desagradáveis por virem de quem vem e terem uma base que não corresponde à verdade. Como se contou em O Militante (n.º 240, de Maio-Junho de 99), quando do 25 de Abril, dirigia o trabalho do Partido em Portugal uma Comissão Executiva com quatro membros, de cuja composição fazia parte um membro do secretariado. Carlos Brito, que tinha uma importante responsabilidade em Lisboa, não fazia parte daquele núcleo É claro que havia também outros camaradas responsáveis por regiões e numerosos outros funcionários do Partido clandestinos, para além, claro, de muitos membros do Partido que tinham uma intensa actividade política nas terríveis condições impostas pelo fascismo.
“Lá fora”, ou melhor, “bem fora” do Portugal democrático a que aspirava o nosso povo, quem estava eram, em primeiro lugar, os que apoiavam e defendiam o regime.
Logo uma semana depois (Diário Económico, 12/9/00), volta o mesmo comentador a dizer, a propósito do candidato do PCP à Presidência da República, o que não deve: “(...) ou é para desistir - aliás curiosamente, na reunião do Comité Central isso não foi discutido, só se discutiu o nome - ou é para ir a eleições (...)”. Isto é mentira. No Comité Central foi discutido e assente que a candidatura é para ir a eleições. Aliás o mesmo jornal, no dia anterior, noticia que “Carlos Carvalhas disse que “no actual quadro político e panorama de candidaturas anunciadas, a candidatura do PCP assume claramente o objectivo de se sujeitar ao sufrágio popular”. Este comentador não tem emenda.


Os “tubarões do capitalismo”

O vigário-geral castrense, D. Januário Torgal, afirmou que “os tubarões do capitalismo ficam incomodados quando se debatem as causas da pobreza” (DN, 22.10.00). Aquele bispo declarou também ao DN o seguinte: “Tenho a impressão, sem querer mostrar qualquer má vontade relativamente aos responsáveis políticos portugueses, de que estes devem ter interesses reais para que não se mudem as lógicas do desenvolvimento e da ordem económica”. E disse ainda que “há hoje na sociedade um medo claro de que se continue a pôr em causa todo este império do capitalismo” e que “há gente na sociedade portuguesa que tem medo que a justiça social impere”.
Não admira que diga também que “as pessoas ajudam o pobrezinho mas não ajudam a encontrar as causas que geram esse pobrezinho”.


Dois ditadores conluiados com os EUA

Na Indonésia e no Chile, dois ditadores que têm a responsabilidade de imensos crimes vão possivelmente ser julgados. Suharto, através de um golpe militar, afastou Socarno, primeiro Presidente da Indonésia independente, levou por diante uma matança de meio milhão de comunistas (o Partido Comunista era um muito forte partido) e dirigiu os destinos da Indonésia até há pouco mais de um ano como um verdadeiro déspota. É também acusado de se ter apoderado de grande riqueza. Em 1975 decidiu a invasão de Timor Leste e mais de duas centenas de milhares de timorenses foram chacinados.
Em 1973, Pinochet encabeçou um golpe militar contra o Presidente da República do Chile, Allende, membro do Partido Socialista eleito democraticamente e, durante 17 anos foi um terrível ditador. Suharto e Pinochet são dois nomes que não podem ser esquecidos em virtude das barbaridades que cometeram e dos grandes males que impuseram aos habitantes dos seus países.
Mas é indispensável ter presente que, através do Embaixador dos EUA e da CIA, os dirigentes dos EUA foram os grandes impulsionadores do golpe de Pinochet. E os EUA também acompanharam e apoiaram sempre Suharto. Ele não fez nada que não tivesse o acordo dos EUA. A invasão de Timor teve a luz verde da parte do então Presidente dos EUA quando da sua visita a Jacarta (o então secretário de Estado, Kissinger, afirmou isso na sua entrevista a Mário Soares, difundida pela televisão em 1999).
As afirmações da secretária de Estado actual do EUA, a senhora Albraith, considerando positivo o julgamento de Pinochet é um exemplo extraordinário de cinismo.

«O Militante» - N.º 249 - Novembro/Dezembro 2000